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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Márcio Almeida

      Livro do mês:

      Na trajetória literária de Márcio Almeida, o último livro, Vesânia (2019), ocupa um lugar de expressiva relevância e áspera resistência. Lançado recentemente, traz capa de William Júnio, conetada aos impulsos e parâmetros da linguagem eletrônica de bites e megabites. Já no título, fica implícita a fusão entre a realidade virtual e a vertigem, entre o real e a supra-realidade, entre a lucidez e a loucura. O verbete do Aurélio sobre o título (“denominação comum às várias espécies de alienação mental”) adiciona um breve relato do poeta luso José Gomes Ferreira, envolvendo uma reação vesânica (desesperada, demente) de Nietzsche a um cocheiro que agredia um cavalo – o filósofo, “em plena vesânia, se agarrou a chorar ao pescoço do animal, num protesto convulso”. Melhor companhia para um poeta que se nomeia visionário e neo-realista, impossível.

      No limiar de tudo, algo prenuncia um toque de radicalidade e delírio, de irreverência e contestação. Estamos diante de uma produção poética multifacetada, condizente com a experiência existencial crítica dos sobreviventes dos anos 70-80. Viver e escrever, desde então, consistem numa atitude, que se projeta como um compromisso histórico. A vertente inquieta da poética de Márcio Almeida, ancorada numa rica tradição, apresenta-se desprovida de certezas, mas interessada em propor questões, fazer perguntas sobre o espaço e a função da poesia na sociedade contemporânea, instaurar o desejo, dentre outros, de que a poesia se torne a expressão de um tempo forte, social e individual: “Como recuperar seu efeito mágico num tempo em que sobejam efeitos especiais? Resta à poesia tão somente ser a ‘humilhante impotência da subjetividade’ aludida por Georg Lukács? (…) O poeta envergonhou-se de ser simples, de ser inteligível, de promover recepção? (“Posfácio”).
      Nesta rota de incertezas e fugidias paragens, - engodo de luz no horizonte sempre seguinte - o primeiro bloco, o mais extenso por sinal, intitula-se precisamente “Ars poetica”, do qual extraímos as quadras seguintes do poema “Deserdados poéticos”:

E foi assim, então, que morreu a poesia:
mataram-na os ismos da evolução.
Quando o conteúdo virou só teoria
e o poeta ‘trágica resignação’.

Morreu de nada – por não fazer falta
ao consumo kitsch capitalista;
porque o poema não mata nem assalta,
não tem lugar na tela, jornal, revista.

Morreu sozinha, quando o sublime
tornou-se esgar, ruína, mercadoria;
ser poeta, função inútil, quase crime
por sobreviver do nada na aporia.

      Os destinatários a que se dirige, e entre os quais o poeta se inscreve, os deserdados poéticos, desconfiados, perdidos, num contexto de calaus, calabarbalhos e da camarilha de plantão no planalto, encontram-se hesitantes em cooptar com as instâncias dos entrelugares, do entre sem saber, dos entreolhares, fraturados. Tentam heroicamente reconquistar a nossa leveza e espontânea gaiatice, ou seja, nossa ciência com humor. Utópicos irrecuperáveis, convictos da disseminação dos bens da cultura, em plena vigência dos direitos igualitários, questionam “a produção cultural a partir da perspectiva de minorias destituídas, porque são elas que autenticam a exploração do controle, neutralizam as estratégias de resistência marginalizadas, impõem a autoridade autocrática” (“Carta aos scholars”). 
      O universo da rede de informações e contatos – a NET, com os desdobramentos de semicondutores de ligas de arseneto de gálio e alumínio,/ sodeto de chumbo e derivados de silício, – tem seu lugar ao longo dos enunciados discursivos, chegando a confundir-se com o universo linguístico crispado de conceitos, devaneios e protesto. A lamentar, o excesso desordenado de citações metalinguísticas, pretensamente eruditas.


ALMEIDA, Márcio. Vesânia. Oliveira (MG): Edição do autor, 2019.


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