Livro do mês:
A
poesia de Evaldo Balbino, estampada no livro Moinho, transita,
hábil, por sólidos e tradicionais veios, como as
trilhas aladas de Cecília Meireles: “Escrevo porque o tempo
insiste / e a minha vida está incompleta”. O
próprio título acolhe
uma dimensão circular, de uma operação que se repete no tempo,
afeita a triturar grãos. O forte simbolismo da preparação do
alimento enriquece o ofício, concebido
como aprendizagem e partilha de conhecimento.
Recupera por vezes o estatuto primitivo do vate, de procedência
ancestral, o bardo arrebatado, posto em delírio: “Minha
alma é secular / como o meu corpo. / Quer copular antes da morte /
que os come” (“Um modo”).
Pulsando
em rotas contraditórias, inerentes à contingência existencial, o
poeta faz emergir, simultânea
à aferição da implacável condição humana fadada ao sofrimento,
o reiterado apelo à fruição - “Vivamos,
/ mesmo que os moinhos estejam mortos / e o que se trituram/ são
apenas sonhos” (“Clareira”). O
sujeito poético, impulsionado pelo labor de escolher e misturar
palavras, equilibra-se, exposto
às intempéries, entre o rigor e a impassibilidade da pedra e a
leveza do ar: “Escrevamos
/ um moinho de pedra / incorruptível”. Escrever
impõe-se como atividade fundamental, exercida sob “o nervoso
atrito de meus dedos”, incapaz
de eliminar o sentido da urgência: “dia após dia eu não tenho /
nada mais que palavras se ofertando / ao sustento infindável dos
meus sonhos” (“Entre duas margens”).
BALBINO,
Evaldo. Moinho.
Belo
Horizonte: Scriptum livros, 2006.
