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terça-feira, 23 de junho de 2026

 

As querelas da crítica

 

                Existem postulados e paradigmas que não podem ser esquecidos por aqueles que lidam com o estudo e a análise de textos literários. Difícil isolar os temas principais, os motivos singulares que levam as pessoas à leitura. Em geral quem gosta de ler aprecia também dar uma olhada nos comentários críticos suscitados pelos livros que lê.  Nas décadas de 1960 e 1970 vigorou um encarniçado combate à crítica impressionista. Impressionismo, no caso, indiciava, de partida, comentário superficial, voo de pássaro, fôlego curto sobre o tema abordado, inconsistência conceitual, argumentação precária.  Entre a aura de ciência e a emoção subjetiva enfrentaram-se implacáveis defensores de uma tendência ou outra. Afrânio Coutinho portou-se na dianteira das críticas endereçadas à linha impressionista, defendendo com veemência a vertente norte-americana da nova crítica, no declarado esforço de atualizar os métodos de análise.

Havia os que se rotulavam historicistas, ou estruturalistas, semiólogos, humanistas, dentre outros. Os critérios e modos de crítica impressionista instalam-se na partida ou na chegada dos argumentos, tenha o enfoque o nome que tiver (historicista, formalista, nova crítica, hermenêutica, sociológica, estilística, psicanalítica). Wilson Martins elabora um vasto “Quadro cronológico da crítica”, agrupando os autores, de acordo com a datação histórica e a configuração metodológica adotada. Apresenta as seguintes linhas: gramatical, humanística, histórica, sociológica, impressionista, estética (formalista). Algumas controvérsias e polêmicas podem se arrolar, ou seja, por exemplo, incluir nas linhas historicistas e impressionistas os mais relevantes críticos literários, ou mesmo discordar de algumas afinidades (como alinhar José Guilherme Merquior, Fausto Cunha, Roberto Schwarz e Temístocles Linhares entre os críticos impressionistas).

Colocada no lado oposto da crítica acadêmica, ou do que a nomenclatura possa referir, a tendência impressionista alcançou no contexto brasileiro uma grande relevância. Álvaro Lins, militante na imprensa semanal, notabilizou-se na crítica de rodapé como o crítico por excelência, de acordo com Wilson Martins: “A posição de crítico representativo, nesse sentido, foi ocupada por Álvaro Lins, que, ao contrário de Romero e Antônio Cândido, resumiu nessa atividade a parte mais duradoura da sua carreira; fazendo e desfazendo reputações ao ritmo dos seus artigos semanais” (MARTINS, 1995, 143). O ofício exige que o crítico assuma o papel de um leitor erudito e que compartilhe suas experiências e impressões sobre a obra. Álvaro Lins exerceu a função de crítico entre 1941 e 1963, período em que assumiu a coluna de crítica literária no jornal Correio da manhã. A crítica universitária, caracterizada por acentuado rigor científico, instala-se como prática menos suscetível de equívocos e patrulha. À altura, destacou-se o esforço implacável de atualizar os métodos de análise, através da chamada nova crítica. Como ainda reconhece um especialista da envergadura de Wilson Martins, “ele (Afrânio Coutinho) concebeu A literatura no Brasil, que é a nossa melhor história literária, escrita por um contingente bastante razoável de ‘impressionistas’"(MARTINS, 1995, 184). Refere a presença inalienável em qualquer labor crítico de um fator singular, ou seja, ter em conta “nos julgamentos críticos a relatividade orgânica que os distingue” (MARTINS, 1995, 184).

No caso de se misturar a postura descritiva à pesquisa de feição semiológica, ou mesmo de perfil hermenêutico, voltado às sugestões da simbologia, ou ainda de flanco aberto à estética da recepção, teremos um discurso agregador apto a abrigar a postura interpretativa, embaralhando os jogos semânticos e os vetores de representação social, desvelando a luta de classes na crítica de orientação marxista, na linha sociológica. Por estranho que possa parecer, a diversidade de caminhos e tendências constitui índice de densidade e amplitude. Dito de forma mais cristalina, retomo outra referência do mestre paranaense citado: "A crítica vive, como o Cristianismo, em permanente agonia unamuniana, isto é, em estado de luta e contestação, nelas encontrando, por paradoxo, o seu instrumento privilegiado de progresso. No caso, as doutrinas e teorias, as metodologias e os conceitos prévios parecem opor-se e excluir-se uns aos outros, mas, na verdade, completam-se e complementam-se entre si: o único pecado mortal da crítica, conforme observei alhures, é o monismo metodológico, inevitavelmente reducionista e restritivo" (MARTINS,1995, 32).

 

MARTINS, Wilson. A crítica literária no Brasil, II. Rio de Janeiro: F. Alves, 1983.

MARTINS, Wilson. Pontos de vista (crítica literária), 10. São Paulo: T. A. Queirós, 1995.




sexta-feira, 22 de maio de 2026

Coelho Neto

 

        Passo os olhos num capítulo do romance A Capital Federal, de Coelho Neto (1864-1934). Surpreendo-me com a linguagem cuidada, ágil, vibrante. Nunca imaginei pudesse gostar de alguma coisa de Coelho Neto, autor sobre o qual foram desferidas críticas severas e cruéis, pelos modernistas. Combatido e atacado, foi alvo de uma campanha destrutiva, responsável pelo distanciamento de centenas de leitores. Reside neste processo um equívoco: afastar os leitores da produção passadista (entenda-se: de um passado que deveria ser esquecido, apagado). Além de Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, para ficar em alguns nomes, há muitos talentos, do início do século XIX à década de 1920. 

                Justiça seja feita, não é todo crítico que detesta Coelho Neto. Alfredo Bosi, em anos recentes, traça-lhe um retrato meticuloso e favorável. Nomeia-lhe os ornamentos de estilo e a amplitude de seu vocabulário, reconhecendo o esforço em expressar, numa espécie de crônica romanceada, eventos importantes da história do país. Assim, mergulha na tarefa de retratar o modo como a população do Rio de Janeiro recebeu momentos decisivos, diante da Abolição dos escravos (1888) e dos primeiros anos da República. “Toda a escala de valores do jovem Coelho Neto, as idiossincrasias do literato fin de siècle, as mazelas de uma boêmia de jornal e café, que vive entre veleidades políticas e literárias: eis o cenário e a substância de A Conquista, que irão avivar-se ainda mais em Fogo Fátuo, com aquelas mesmas figuras centrais” (BOSI, 1970, 226). Outras romances: Turbilhão, Miragem, Inverno em flor, Rei Negro, A Conquista.

              Denegrido e ridicularizado por haver produzido uma literatura opulenta, excessivamente adjetivada, carregada de alusões eruditas, Coelho Neto incorreu na sanha destemperada dos modernos. Quando, rompendo as normas, decido ler um capítulo do romance referido, dou-me conta de que caíra uma armadilha ardilosamente arquitetada por pretensos detentores do poder de criticar, arautos equivocados do bom gosto. Formados numa época de excessivos trabalhos e compromissos, ficamos seletivos na escolha de autores que merecem ser lidos. Acabamos assimilando preconceitos disseminados pelos ardorosos defensores das conquistas modernas. Coelho Neto publicou mais de cem livros, entre ficção, fábulas, crônicas e fantasias. Emprega termos eruditos, empolados, ao lado de outros exarados da linguagem popular. No frigir dos ovos, o apagamento de Coelho Neto não deixa de ser injusto. Wilson Martins propõe reconsiderar o excesso de ataques ao 'último dos helenos': 

    "Reintegremos, por consequência, Coelho Neto na história literária; para isso é preciso, antes de mais nada, que seja reintegrado na literatura, quero dizer, na corrente literária a que pertence, no momento criador em que viveu e produziu. a um leitor dos nossos dias, pelo menos a um leitor que esteja, apesar de tudo, mais próximo da literatura que da Academia, o escritor maranhense não pode deixar de parecer anacrônico e artificial. Contudo, ele não é anacrônico estilisticamente, situando-se na mesma geração e no mesmo capítulo em que se contam tantos outros escritores que admiramos: há todo o Regionalismo que vai de Afonso Arinos a Valdomiro Silveira, passando por Simões Lopes Neto e Monteiro Lobato, no qual Coelho Neto ocupa um lugar de particular significação; (...) há todo um grupo estilístico, representado por Euclides da Cunha, Rui Barbosa, Graça Aranha, e no qual Coelho Neto foi um dos expoentes inegáveis;" (MARTINS, 1991, 108). 

                “A vitória parou. Saltamos e eu, curioso de ver e de admirar maravilhas, olhei em volta. Era uma grande praça quadrada e clara, murada pelos edifícios que reverberavam à luz radiante do sol. Ao meio, sobre pedestal negro, a estátua tosca de um homem, em atitude cheia de solenidade, a mão estendida em gesto clássico de tribuna, como a alegoria icônica do meeting que é, em nossos dias, curtos e morigerados, o escoadouro da inofensiva indignação das massas. Meu tio, indicando-me a efígie escura, disse:

- José Bonifácio, o patriarca da nossa independência e da tribuna dos comícios.” (NETO, 1958, 17).

               

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970.

MARTINS,  Wilson. Pontos de vista  (crítica literária). São Paulo: T. A. Queiroz, 1991. VI.

NETO, Coelho. Romance. Rio de Janeiro: Agir, 1958. Introd. e comentários por Otávio de Faria. Col. Nossos Clássicos, v. 15. 

                                                                 Imagem: ABL.


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Mílton Campos

 

Mílton Campos, na antessala do terror

 

                O que se encontra estabelecido como fonte de pesquisa sobre Mílton Campos (1900–1972) é muito pouco, restringe-se a precárias notas. Com base nesse material, pode-se afirmar tratar-se de um admirável jurista e orador inflamado, que também foi político, tendo-se notabilizado como incentivador das letras e da democracia. Publicou dois livros: Compromisso democrático e Testemunhos e ensinamentos (1972). Entre os amigos de juventude, estavam Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Emílio Moura, Martins de Almeida, Gregoriano Canedo, Mário Casassanta, Abgar Renault e Rodrigo de Melo Franco, o grupo modernista de Belo Horizonte que, em 1925, fundou A Revista. Os companheiros que se reuniam, no Café Estrela, na Belo Horizonte pacata e progressista dos anos da década de 20 a 30.

                O que os militares batizam de Revolução ficou conhecido na História como golpe militar de 1964, que se estende até 1985. São atribuídos a Mílton Campos os traços de modéstia, timidez e acessibilidade, habilidade e honestidade no trato da gestão pública. O retrato apresentado por Nava é definitivo. “O que impressionava em Mílton Campos não era só a vastidão de sua inteligência; mas sua qualidade e mais o conjunto de predicados com que ela se apresentava.” (...) Era bom, sensível, compassivo, tolerante, indulgente, generoso, amadurecido, lúcido, virtuoso” (...) Esse cético era na verdade homem bom, mas forte; tolerante, mas enérgico. Era indobrável nas suas convicções democráticas, como veio a mostrar durante a vida política” [i]. Recusou-se a referendar o ato de cassação do mandato do senador Juscelino. Publicou no periódico o artigo “Fundo de gaveta”. 

                A publicação de A Revista teria sido decidida uma tarde no Café Estrela. “Discutia-se o título e entre vários sugeridos prevaleceu o dado pelo Carlos – assim o verdadeiro padrinho de batismo de publicação. Foi quando meti minha colher achando o nome muito seco. Vá por revista – dizia eu – mas acrescente-se alguma coisa. Exemplificava. Revista modernista, Revista de Arte Moderna, Revista disso, Revista daquilo. O Carlos foi inflexível. Tinha de ser Revista e só A Revista. E hoje vejo que ele tinha toda razão. Não havia motivos para dar um programa desde o título” [ii]. O ilustre mineiro de Ponte Nova é objeto de avaliação de Wilson Martins: "É uma grata surpresa encontrar em Mílton Campos um estilista de elegância clássica, numa arte toda de litotes (como diria Gide), talvez um pouco solene, compassado e frio, como os edifícios que respondem a essa denominação, mas, em todo caso, ostentando a beleza de uma idade e exalando o perfume de um outro mundo" (Pontos de vista 9, pp.257). 

                Outro aspecto em relação ao periódico foi tratado por Nava, no volume referido de suas memórias: “A Revista marcou adesões ao modernismo e fez questão de abrir suas colunas à colaboração conservadora de Magalhães Drummond, Alberto Deodato, Iago Pìmentel, Godofredo Rangel, Pereira da Silva, Wellington Brandão, Orozimbo Nonato, Carlos Góes. Seguíamos nisso nosso próprio espírito e o conselho dado por Mário de Andrade numa carta a Drummond escrita depois de ver o primeiro número: “Faça uma revista como A Revista, botem bem misturados o modernismo bonito de vocês com o passadismo dos outros. Misturem o mais possível” [iii] .   

                Personalidade contraditória, Mílton Campos foi governador de Minas Gerais (1947- 1951), senador da República e Ministro da Justiça do primeiro governo do período de exceção, do General Castelo Branco. Como é sabido, o regime referido, que se disse movido pelo “interesse da paz e da honra nacional”, atuou no sentido de “suspender os direitos políticos e cassar mandatos” de dezenas de professores, cientistas, jornalistas, intelectuais e homens públicos, além de perseguir inúmeros adversários políticos. Solicitou exoneração do cargo, assim que percebeu a tendência autoritária do governo. Convém assinalar o descalabro do governo de Jânio Quadros que o antecedeu e iniciou a perversa campanha de desmoralização de Juscelino Kubitschek.

 


[i]  Nava, 1985, 168-169

 

[ii]  Nava, 1985, 210. 

[iii]  Nava, 1985, 213. 

 

MARTINS, Wilson. Pontos de vista. 9, São Paulo: T. A. Queiroz, 1995.

MONTELLO, Josué. Diário da Tarde. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

NAVA, Pedro. Beira-Mar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


                                                     Imagem: jornal Parnaíba



sexta-feira, 10 de abril de 2026

Anelito Oliveira

 

       Anelito de Oliveira, em Os acampamentos insustentáveis (2019), em que os gêneros literários se mostram, estilhaçados, enumera registros de situações e experiências estigmatizadas pelo desejo de compreender; porém, derrapa numa superfície em que as coisas são e simultaneamente deixam de ser, ainda que não abdiquem da circunstância de serem nomeadas. A correspondência, a troca de comunicação, é uma delas: “devo parar de te escrever não porque você esteja suficientemente escrita, mas porque a vontade de escrever é só sua - e infinita; uma espécie de morte, a escrita, lançada daqui, não te alcançar. no fundo, te perde no desejo mesmo de te alcançar (você bosque demais, pede notícias, exterioridades, significados – sempre a ânsia deter o mudo mais perto). não há o que remeter para além deste – o remetente, a carta, é o que não chega a ser – e, na sua insuficiência, arfando como um urso na neve, é.” (OLIVEIRA, 2019, 149).

       Como quem não quer nada, ou como um aprendiz de rapsodo, tenta resignificar os objetos e os desejos. Diferente, estranho, pretensioso, o interesse revelado: afinal, pretender deve ser um projeto de qualquer sujeito pensante, pelo qual se justifique algum acontecimento, alguma vivência, niilista que seja: “Por aqui não acontece nada. E é por isso, por isso mesmo, está vendo? que insisto em escrever. Há muita gente interessada em nada. Que nada aconteça. Que ninguém diga nada. Que todos fiquem em silêncio. Ou que todos digam futilidades. Dá no mesmo” (OLIVEIRA, 2019, 107).

       As noções tendem à dimensão de totalidade. Numa realidade em que o artifício impera, nada mais abrangente que a casa, ou o que a casa significa: “E a casa, você sabe, é a vida de cada um. Destruir a casa é destruir a vida. A casa é a ética. Destruir a casa é destruir a ética de cada um. A casética, ou a éticasa, é um exterior no interior de cada um” (OLIVEIRA, 2019, 107).

       Noutra passagem, rememora uma frase de Deleuze: “nós perdemos definitivamente o mundo”. Tenta compreender o que seja perder, ou mesmo entender uma forma de pertencimento. “Podemos estar vivo sem ter posse do mundo, estar vivo e sem mundo. Mas houve um tempo em que se teve o mundo, em que o mundo era nosso. Depois chegou um outro tempo em que perdemos definitivamente o mundo. Mas – e isso é intrigante – é possível que muitos estejam no mundo com o sentimento de que perderam o mundo sem nunca terem tido realmente esse mundo, sem nunca terem chegado ao mundo. Quem são eles?” (OLIVEIRA, 2019, 94).


OLIVEIRA, Anelito. Os acampamentos insustentáveis. Curitiba: Kotter Ed., 2019.





quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Érico Veríssimo II

 

Érico Veríssimo II: alguma fortuna crítica

 

                Álvaro Lins, apesar de reconhecer o talento e o domínio da técnica romanesca de Érico Veríssimo, aponta certa concessão ao gosto do leitor. ”Pois qualquer crítica sobre este autor ilustre e consagrado deve começar necessariamente por reconhecer e dizer que ele possui um talento e um espírito de romancista. Não se trata de uma simples afirmativa, porém de uma conclusão que resulta evidente do seu romance Caminhos cruzados. (...) Sentia-se que ali estava um romance pensado, sentido, construído em bases muito formes e muito conscientes. E de tal modo que entre Caminhos Cruzados e Saga a distância se tornou realmente absurda. Parecem dois livros de dois autores diferentes. (...) Sendo certo, porém, que o Sr. Érico Veríssimo possui as qualidades do romancista, a consciência do seu ofício, o sendo da literatura – vale a pena acentuar que deve haver uma circunstância acidental perturbando a construção de sua obra. Esta circunstância estou certo que não errarei afirmando que é o sucesso público” (LINS, 1963, 221-222).

                Temístocles Linhares mantém reservas em relação ao romancista. “É um romancista razoável apenas. Meio superficial, sem problemas, empenhado ainda, nos velhos moldes, em fazer romance em torno de uma estória ou narrativa, de seu desenvolvimento, sem se transfigurar nunca em poeta, como acontece com os grandes romancistas. Não tem nada de complexo em sua personalidade de escritor. O seu livro não se funde em nenhum ato de fé importante, em seres intemporais, a exemplo do que acontece com Faulkner. O seu mundo é acanhado, despido de qualquer lampejo de gênio, que nos posso mostrar, por exemplo, quanto a vida é um incessante e perpétuo instante. O romancista não consegue jamais romper a trama dos fatos de que são prisioneiros os personagens. Neste livro Terra, nem sequer surge alguma figura feminina de interesse relativo que pudesse ser equiparada com Ana Terra, sem dúvida a maior criação do autor de O tempo e o vento. Não vejo portanto razão alguma para o barulho que se está fazendo com O Arquipélago. Efeitos da promoção comercial pura e simplesmente e não de alguma coisa de sólido e profundo destinado a marcar este pobre ano literário prestes a findar” (LINHARES, 2002, 265-266). Refere-se ao ano de 1961, por ocasião do lançamento de O arquipélago, terceira parte da saga.

Wilson Martins não hesita em elogiar a obra do autor de O tempo e o vento.  “Cedendo, por outro lado, ao esnobismo típico das vanguardas, os críticos brasileiros dos anos 30 decidiram tacitamente que o sucesso editorial do romancista era a prova de sua falta de qualidade, a história literária já teve tempo de demonstrar que o sucesso crítico de tantos outros não correspondia, em todos os casos, a uma prova da qualidade. A verdade é que, de todos os romancistas deste período, Érico Veríssimo foi, com certeza, o de maiores recursos técnicos, o de maior capacidade de renovação e aquele, afinal, a quem estava reservada a missão de revigorar o romance brasileiro, situando-o, num plano universal e literário incomparável” (MARTINS, 1973, 293).

Antonio Olinto reconhece, de imediato, a sólida performance do autor gaúcho: “Com mais de trinta anos de romancista profissional, tornou-se Érico Veríssimo conhecido na Europa, no continente africano, em toda a América Latina e, principalmente, no mundo de língua inglesa. Sua história mais popular, Olhai os lírios do campo, virou filme na Argentina.  Inquéritos feitos na Angola e em Moçambique demonstraram que Érico Veríssimo é o escritor mais lido naquelas partes da África. Para os inimigos da popularidade, isto é mau sinal. (...) E a verdade é, contudo, que não há critérios inalteráveis para o aferimento da obra de arte. Muito menos o da leitura: um livro muito lido tanto pode ser ótimo como péssimo” (OLINTO, 1966, 142). A seguir, detém-se no domínio de recurso técnico: “O principal traço da narrativa é o contraponto, um contraponto ondeante que assume ora a terceira pessoa, ora a primeira (nas páginas de Floriano e no diário de Sílvia), e pega quatro ou mais tempos de narrativa. O clima geral da história une tempo e espaço, num panorama que toca de vez em quando a fímbria do épico. O tempo romance é oscilante, batido pelo vento, numa técnica de extremas segurança e beleza, em que há ressonâncias de Virginia Woolf e Huxley (principalmente a Virginia de To the Lafhthouse). (OLINTO, 1966, 142).

Em Seara de romances, Oscar Mendes avalia quatro romances de Érico Veríssimo: Clarissa, Caminhos Cruzados, Um lugar ao sol, Olhai os lírios do campo. “Caminhos cruzados, seu segundo romance, aparece-nos como obra já bem complexa, visando retratar mais cruamente aspectos realísticos da vida, mostrando-nos tipos mais complicados, sujeitos a paixões menos inocentes, com hipocrisias sociais refinadas. (...) Acresce que o sr. Érico Veríssimo possui notável habilidade na pintura de seus tipos. Tira-os da realidade com o tato e delicadeza de um colecionador de borboletas, a fim de não prejudicar-lhes o brilho das cores e o contorno das asas. O próprio tom de ironia com que descreve alguns é como uma tinta sutil que serve para acentuar alguns traços desbotados. E deixa-os viver e agitar-se. Não se imiscui no cérebro de toda a sua gente para perscrutar os problemas de sua psicologia. Por meio de um processo de contrastes entre gestos e pensamentos esboçados, de recordações e de sonhos, consegue patentear-nos algo da vida interior de seus personagens.” (MENDES, Oscar. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982, 93-94).

 

 

 LINHARES, Temístocles. Diário de um crítico. 1957 a 1963. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2002.

LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963.

MARTINS, Wilson. O Modernismo. São Paulo: Cultrix, 1973.

MENDES, Oscar. Seara de romances. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982.

OLINTO, Antônio. Aa verdade da ficção. Rio de Janeiro: Cia. Brasileira de Artes Gráficas, 1966.