As querelas da crítica
Existem
postulados e paradigmas que não podem ser esquecidos por aqueles que lidam com
o estudo e a análise de textos literários. Difícil isolar os temas principais, os
motivos singulares que levam as pessoas à leitura. Em geral quem gosta de ler
aprecia também dar uma olhada nos comentários críticos suscitados pelos livros
que lê. Nas décadas de 1960 e 1970
vigorou um encarniçado combate à crítica impressionista. Impressionismo, no
caso, indiciava, de partida, comentário superficial, voo de pássaro, fôlego
curto sobre o tema abordado, inconsistência conceitual, argumentação precária. Entre a aura de ciência e a emoção subjetiva
enfrentaram-se implacáveis defensores de uma tendência ou outra. Afrânio
Coutinho portou-se na dianteira das críticas endereçadas à linha impressionista,
defendendo com veemência a vertente norte-americana da nova crítica, no declarado esforço de
atualizar os métodos de análise.
Havia os que se
rotulavam historicistas, ou estruturalistas, semiólogos, humanistas, dentre
outros. Os critérios e modos de crítica impressionista instalam-se na partida
ou na chegada dos argumentos, tenha o enfoque o nome que tiver (historicista,
formalista, nova crítica, hermenêutica, sociológica, estilística, psicanalítica).
Wilson Martins elabora um vasto “Quadro cronológico da crítica”, agrupando os
autores, de acordo com a datação histórica e a configuração metodológica
adotada. Apresenta as seguintes linhas: gramatical, humanística, histórica,
sociológica, impressionista, estética (formalista). Algumas controvérsias e
polêmicas podem se arrolar, ou seja, por exemplo, incluir nas linhas
historicistas e impressionistas os mais relevantes críticos literários, ou
mesmo discordar de algumas afinidades (como alinhar José Guilherme Merquior, Fausto
Cunha, Roberto Schwarz e Temístocles Linhares entre os críticos impressionistas).
Colocada no lado oposto da crítica acadêmica, ou do que a nomenclatura possa referir, a tendência impressionista
alcançou no contexto brasileiro uma grande relevância. Álvaro Lins, militante na imprensa semanal,
notabilizou-se na crítica de rodapé como o crítico por excelência, de
acordo com Wilson Martins: “A posição de crítico representativo, nesse sentido,
foi ocupada por Álvaro Lins, que, ao contrário de Romero e Antônio Cândido,
resumiu nessa atividade a parte mais duradoura da sua carreira; fazendo e
desfazendo reputações ao ritmo dos seus artigos semanais” (MARTINS, 1995, 143). O ofício exige que o crítico assuma o papel de um leitor erudito e que compartilhe suas experiências e impressões sobre a obra. Álvaro Lins exerceu a função de crítico entre 1941 e 1963, período em que assumiu a coluna de crítica literária no jornal Correio da manhã. A crítica universitária, caracterizada por acentuado rigor científico,
instala-se como prática menos suscetível de equívocos e patrulha. À altura,
destacou-se o esforço implacável de atualizar os métodos de análise, através da
chamada nova crítica. Como ainda reconhece um especialista da envergadura de
Wilson Martins, “ele (Afrânio Coutinho) concebeu A literatura no Brasil,
que é a nossa melhor história literária, escrita por um contingente bastante
razoável de ‘impressionistas’"(MARTINS, 1995, 184). Refere a presença inalienável em qualquer labor crítico de um fator singular,
ou seja, ter em conta “nos julgamentos críticos a relatividade orgânica que os
distingue” (MARTINS, 1995, 184).
No caso de se
misturar a postura descritiva à pesquisa de feição semiológica, ou mesmo de
perfil hermenêutico, voltado às sugestões da simbologia, ou ainda de flanco aberto à estética da recepção, teremos um discurso agregador apto a abrigar a
postura interpretativa, embaralhando os jogos semânticos e os vetores de
representação social, desvelando a luta de classes na crítica de
orientação marxista, na linha sociológica. Por estranho que possa parecer, a diversidade de caminhos
e tendências constitui índice de densidade e amplitude. Dito de forma mais cristalina, retomo outra referência do mestre paranaense citado: "A crítica vive, como o Cristianismo, em permanente agonia unamuniana, isto é, em estado de luta e contestação, nelas encontrando, por paradoxo, o seu instrumento privilegiado de progresso. No caso, as doutrinas e teorias, as metodologias e os conceitos prévios parecem opor-se e excluir-se uns aos outros, mas, na verdade, completam-se e complementam-se entre si: o único pecado mortal da crítica, conforme observei alhures, é o monismo metodológico, inevitavelmente reducionista e restritivo" (MARTINS,1995, 32).
MARTINS, Wilson.
A crítica literária no Brasil, II. Rio de Janeiro: F. Alves, 1983.
MARTINS, Wilson.
Pontos de vista (crítica literária), 10. São Paulo: T. A. Queirós, 1995.


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