Otávio Mello Alvarenga (1926 – 2010)
iniciou na literatura poeta como muitos estreiam. Publicou três livros de
poesia: Gesto e palavra (1946), Antemanhã (1950), Fábula do
encontro (1954). Depois, revelou-se ficcionista, com o romance Doralinda
(1963), de considerável recepção crítica, ao qual sucederam Judeu Nuquim (1967) e Sexta-feira, dezesseis (1971), agraciados com o Prêmio
Walmap. Após publicar obras de Direito
Agrário, como Política e Direito Agroambiental (1997), deu a lume os
ensaios de Mitos e valores (1956) e as memórias de Rosário de Minas (2003).
Casado quatro vezes, viúvo duas, uma das quais ao perder a mulher Maria Julieta,
filha do poeta Carlos Drummond de Andrade.
Rosário de Minas, estruturado como contas de três terços, segundo a liturgia católica, reúne eventos autobiográficos do autor, misturados a situações e fatos importantes do país, desde a década de vinte, quando o autor nasce em São João del Rei, até os idos de 2001. Mistura por vezes fatos reais a outros, fantasiados. Em 1954, a bordo do “avião da Panair do Brasil que levava duas horas para vir de Belo Horizonte ao Rio”, transfere-se para o Rio de Janeiro, como integrante da campanha presidencial de Juscelino. “Meu encanto por JK vem desde muito tempo. Eu me lembro dele – uma vaga e agradável lembrança – sentado na mesa da sala de jantar de meu avô, na rua dos Goitacazes, e todos de repente estavam cantando. Passavam os braços nos ombros uns dos outros e cantavam. Lembro-me de Juscelino, trepado numa cadeira, ajeitando um lustre de cristal, em sua casa, creio que no bairro de Lourdes. Do homem solitário, que acompanhou Júlio Soares à casa do colega Alvarenga, quando nossa empregada desarvorada com o desmaio de meu irmão Afonso, saiu pela Rua do Chumbo abaixo, procurando a casa do doutro Júlio e o destino conduziu-a ao carro dirigido pelo doutor Alkimin – e daí a pouco, chegavam à presença de dona Chloris, como três mosqueteiros vindos do Abrigo Ceará, Júlio Soares, Alkimin e Juscelino. E J. K tinha vindo de pijama como estava ao saber do assunto, sequer trocou de roupa. // Isto então não é prova de generosidade, humanidade e solidariedade, pressa em valer a quem precisava?” (p.217).
De forte
interesse revestem-se as circunstâncias relacionadas à aproximação e visitas à
família de Carlos Drummond de Andrade, decorrentes da relação amorosa com a
filha do poeta. “Foi então que a menina do bonde Santa Teresa, depois de
cumprir no estrangeiro grande parte de sua vida, salta para dentro de meu
destino. Ela se chamava Maria Julieta, algumas amigas apelidaram-na de Juju.
Raramente foi Julietinha. Para mim foi Flaminha, pela flama que teve.
Reencontrei minha colega de Jardim da Infância, vivida e divorciada. Tínhamos
lembranças idênticas, perseguíamos fantasmas parecidos, acertávamos as contas
de jeito semelhante” (p. 63). A imagem excessiva do poeta maior passa a
atormentar a vida do narrador: “Aqui entra em cena a figura do pai de Maria
Julieta, poeta e cronista, cujo valor literário não pretendo discutir. // Neste
rosário só serão puxadas as contas relacionadas com seu ciúme pela filha. Houve
um tempo em que Carlos Drummond foi o melhor amigo que poderia almejar em minha
adaptação ao Rio de Janeiro- se é que me adaptei a esta cidade. // Sua amizade
transformou-se em ódio e incompreensão, a partir do momento em que as mãos de
Maria Julieta voltaram a apertar (e afagar e acarinhar agora com ternura
febril) as mãos do colega de jardim da infância” (p.64). Outro núcleo interessante: os comentário sobre a obra literária do autor, agregando a repercussão crítica.
ALVARENGA, Octavio Mello. Rosário de Minas. Rio de
Janeiro: Lidador, 2003.




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