Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador Ricardo Piglia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ricardo Piglia. Mostrar todas as postagens

sábado, 15 de novembro de 2014

Ricardo Piglia

Livro do mês: 

      O romance Respiração artificial, do argentino Ricardo Piglia, empreende um mergulho no substrato cultural do Ocidente, numa escala de tempo que abrange o final do século XIX e o século XX. Tendo como base um incidente familiar – a aproximação de um sobrinho em relação a um tio – desenrola-se a trama, impulsionada por um rol de informações sobre um clã e um acervo de cartas. O gênero epistolar mostra-se mais uma vez produtivo no sentido de possibilitar a montagem de um grande painel, representativo de aspirações, tradições, acervos, legados ideológicos e confrontos de ideias. “... Gênero perverso: tem necessidade de distância e de ausência para prosperar” (p.29). 

                                          (Foto: cosasquehemosvisto.wordpress.com)

       A literatura evolui de tio para sobrinho, este mote esclarece uma parte das ideias desenvolvidas pelo autor, na medida em que o sobrinho torna-se detentor de farto material histórico acumulado pelo parente, por sinal, um professor de história isolado na província. Não é demais ter em conta que a máxima é apropriada também à produção literária em outra parte do continente americano, com a notável contribuição do chileno Jorge Edwards, em especial no livro O inútil da família. Ao acervo familiar acresce o legado de imigrantes fugidos da Europa para a Argentina desde o final do século dezenove a meados do séc. XX, a maioria da última leva de forma clandestina, em disparada fuga da perseguição étnica levado a cabo pelo nazismo, enriquecendo bastante o contexto cultural latinoamericano. Inclui-se, nesse núcleo, a personagens Tardewski, um filósofo polonês, ex-aluno de Wittgenstein em Cambridge, antes de se exilar na Argentina, secundado por outros expatriados, como Groussac, no fim do século dezenove, e posteriormente por Maier e o conde Tokray. Groussac “pudera desempenhar aquele papel de árbitro, juiz e verdadeiro ditador cultural. Aquele crítico implacável, a cuja autoridade todos se submetiam, era irrefutável porque era europeu” (p.114).

      De um lado, o narrador produz extensa digressão sobre o perfil da literatura argentina contemporânea, evidenciando sobretudo os trabalhos de Roberto Arlt e Jorge Luís Borges, nas suas contradições e diferenças. Destaca-se o debate em torno da ideia de nacionalismo na arte, no sentido de a literatura assumir e depurar traços da linguagem gauchesca, como forma de “preservar e defender a pureza da língua nacional diante da mistura, da confusão, da desagregação produzida pelos imigrantes” (p.123). No outro lado da balança, flagra-se a especificidade da literatura argentina, ainda que permeável à influência europeia. O pano de fundo do enredo tem por moldura a formação literária do narrador, Emílio Renzi, e sua relação com o tio, o historiador Marcelo Maggi. Os saraus tornam-se lugares de trocas de informações na dinâmica da cultura, nos quais as notas culturais e as idiossincrasias dos grandes autores são debatidas. Algumas hesitações e tropeços estruturais pulverizam-se, mercê da habilidade narrativa. O jogo de influência entre contemporâneos e autores do passado fermenta densamente tais encontros entre escritores e intelectuais. O confronto básico instaura-se entre a literatura (concebida como espaço livre de representação interpretada da realidade) e a política (vista como espaço de manipulação de ideias e intolerância).




PIGLIA, Ricardo. Respiração artificial. São Paulo: MEDIAfashion, 2012. (Coleção Folha. Literatura ibero-americana)