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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Sérgio Milliett

Livro do mês:

Diário crítico II de Sérgio Milliet: o remate mineiro



As sete páginas finais do Diário crítico de Sérgio Milliet, v.II, assinalam a importância de Minas Gerais no quadro geral da nossa cultura. A obra completa estende-se por dez volumes, em coedição com a USP, mantém fielmente a grafia do autor; critério este discutível, por dar margem a certo desleixo, no que tange à ortografia e acentuação. Dizer que se mantém fiel ao original transfere a responsabilidade a terceiros: no caso, o original já se mostra manipulado, sujeito à mediação jornalística. O contexto histórico registra os anos devastadores e sangrentos da Segunda Grande Guerra. O mundo não está para docilidades e delicadezas. O material recolhido neste exemplar, alusivo a expoentes da moderna literatura brasileira (apreciação de livros surgidos à altura, no calor dos lançamentos), e a consagrados intelectuais europeus, pauta-se por notória desenvoltura conceitual, larga erudição e produtivas sugestões de análise. Em notas breves, corridas, mas consistentes, sucedem-se comentários sobre Mário de Andrade, Clarice Lispector, Ledo Ivo, Jorge Amado, Augusto Frederico Schmidt, João Cabral Melo Neto, Bueno de Rivera, Mário de Andrade, José Geraldo Vieira, Henriqueta Lisboa, Fernando Sabino, dentre muitos outros, ao lado dos desconhecidos Ivan Pedro de Monteiro, Darcy Azambuja, do repertório nacional. Georges Bernanos, Thomas Mann, Roger Bastide, Charles Baudelaire, Charles Péguy, André Gide e Anatole France predominam dentre os estrangeiros. Do gosto pelas artes plásticas, segunda paixão do autor, dão conta matérias sobre Lasar Segall, Pedro Américo, Tarsila do Amaral, Portinari, Goya, Alfredo Volpi, Almeida Júnior, entre outros. O interesse do labor intelectual dessa natureza engloba conhecimento literário profundo, receptividade ao novo, abertura à inquietação e capacidade de conexões, não tanto exaurir os contornos de uma suposta verdade, mas apontar sua provável silhueta. Em avaliação sobre a produção de Euclides da Cunha, o autor assevera: “uma obra de ciência se mede mais pela fecundidade de suas sugestões que pelo dogmatismo de suas certezas” (MILLIET, 1981, p.82).


                                                     (Imagem: abca.art.br)

O registro impresso sob a data de 19 de dezembro de 1944 inicia-se com uma nota apressada e aparentemente depreciativa sobre o conto, ao aludir à possibilidade de ser o conto um gênero menor. “Entretanto, Maupassant...” (MILLIET, 1981, P. 117). Nesse “entretanto”, seguido de uma referência ao mestre francês, acrescido de reticências, instala-se a autocrítica do autor que, de pronto, apressa-se a reconsiderar o lugar elevado atingido por determinados autores no gênero. “Pois se Maupassant se caracteriza pela objetividade e a precisão equilibradíssima do estilo, se Machado de Assis nos seduz especialmente pela penetração psicológica e a ironia, se Monteiro Lobato alcança um clímax graças à caricatura sarcástica das gentes e das coisas, Aníbal Machado comove pela expressão poética” (MILLIET, 1981, p.317).

                                                          (Imagem: estante virtual)
            Na sequência, Milliet, após citar João Alphonsus e Carlos Drummond de Andrade, envereda por uma análise da produção ficcional de Aníbal Machado, detendo-se em algumas novelas do escritor (“Vila Feliz”, “A morte da porta-estandarte”, “O telegrama de Ataxerxes”), como suporte ao argumento que se esforça por desenvolver, ou seja, a primazia de Minas na elaboração da grande ficção nacional: “Se o nordeste nos deu a consciência da terra e da tragédia do homem dentro do meio hostil, se Rio e São Paulo nos deram o humor, e o sul o pitoresco sadio, Minas trouxe a introspeção, a análise melancólica, de pouco brilho, mas de vigorosa intensidade. Por isso, creio eu, de Minas virá o grande romance brasileiro da maturidade nacional” (MILLIET, 1981, p.318). Sérgio Milliet erra apenas o alvo imediato, ao apostar que Aníbal Machado estaria capacitado para empreender a construção do grande romance nacional, ao salientar no autor mineiro alguns traços que para tal o teriam gabaritado: “complexidade, a análise cuidadosa, a multiplicidade de ações” (MILLIET, 1981, p.319). Doze anos mais tarde, com a publicação de Grande sertão: veredas e Corpo de baile, em 1956, pelo mineiro Guimarães Rosa, estaria consolidado o prognóstico de Sérgio Milliet.
            A seguir, o crítico paulista dedica comentários ao poeta Murilo Mendes (23 dezembro), direcionados ao livro recém-publicado, O discípulo de Emaús. Discute algumas máximas do poeta mineiro, empenhado em confrontar o poeta ao acadêmico e ao filósofo, dentre outras oposições de estatuto. “E assim se o acadêmico é homem que procura a poesia e a cerca por todos os modos, com pés e rimas, o poeta é o homem que a encontra sem procurá-la e quando a percebe deixa-a livre. Idêntico é o paralelo possível do poeta com o filósofo: este anda à cata da verdade mas quem a vislumbra é aquele. E também quem a exprime melhor” (MILLIET, 1981, p. 322).
            Quem deseja debruçar-se sobre o discurso crítico produzido no país não pode passar ao largo do escritor paulista. O volume encerra-se com um verdadeiro fecho de ouro, ao se voltar para a compreensão (é sabido o interesse básico de seu método, mais focado em compreender do que julgar as obras) do livro Voz de Minas, de Alceu Amoroso Lima. Expert em detectar tiradas impressionistas de Alceu Amoroso Lima, o crítico, contudo, não lhe poupa crédito de aprovação, referindo a elegância do estilo e a sutileza de algum raciocínio. Alerta para os traços afetivos que o brasileiro divide com Minas, pioneira na luta pela liberdade nacional: “O mistério de Minas, o humor mineiro, a sua densidade específica, o seu tradicionalismo, tudo isso forma um complexo exigente de contínuas interpretações” (MILLIET, 1981, p. 325).




MILLIET, Sérgio. Diário crítico de Sérgio Milliet. II (1944). 2ª. ed. São Paulo: Martins-EDUSP, 1981.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Sérgio Milliet: 50 anos de morte

      Sérgio Milliet, (SP, 1898-1966), poeta, crítico, pintor, ensaísta, conhecedor de artes plásticas, retorna a este sumário por conta dos cinquenta anos de sua morte. Nome fundamental da consolidação do Modernismo no país, participou ativamente da Semana de 1922, publicou livros de poesia, alguns na França, escritos em francês, no âmbito de extensas temporadas europeias, a primeira de nove anos, tendo depois se notabilizado como um dos nossos principais críticos literários, com a série intitulada Diário crítico. Em dez volumes, a produção de crítica militante foi publicada em coedição da editora Martins com a USP. Sua poesia mereceu análise de Antônio Jesus da Silva, em 1972, quando havia no país um eficiente Instituto Nacional do Livro, sob a chefia de Maria Alice Barroso, a despeito do governo militar por aqui instalado.

                    (Imagem:  Óleo sobre tela de Sérgio Milliet  - www.catalogodasartes.com.br)

      Transcrevo excerto do "Poema do trigésimo dia", escrito após perder seu único filho, em passagem que replica o adjetivo que nomeia este espaço. 

      "Jamais aceitaremos essa lei terrível
      essa lei inumana,
      e que só justifica a metafísica.
      Jamais a aceitaremos
      nós que somos de carne, ossos, sangue e vísceras,
      nós que somos fraquezas e imperfeições,
      solidão, angústia, esperanças malogradas.
      Jamais aceitaremos o destino subalterno
      de instrumentos de Sua vontade.

      Mas que somos nós!
      Mas que somos nós!"

      AZEVEDO FILHO, Leodegário Amarante de (Org.). Poetas do Modernismo. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1972. V.II.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Time reserva

     

A recente sucessão de mortes no arraial das letras e artes (os ficcionistas Günter Grass e Eduardo Galeano, o crítico literário Hélio Pólvora, a crítica teatral Bárbara Heliodora, o cineasta Manoel de Oliveira) produz uma inflexão sombria em muitos de nós, principalmente os que ultrapassaram o cabo das tormentas, os detentores de mais de cinquenta anos. Cabe sempre ter em conta que nenhum ofício, dentre os que se arrolam fora das raias do esporte, deve ser exercido de forma competitiva. Derrota e vitória são expressões imprecisas para configurar tentativas de mergulho transversal na realidade. Diante da natureza fugaz e cambiante das coisas do mundo, porém, é difícil simplesmente ignorar que o tempo passa e nós com ele. Somos afetados, queiramos ou não, pelo consenso de clássica ascendência, referido em conhecido verso de Tomás Antônio Gonzaga - “as glórias que vêm tarde, já vêm frias”. Seria conveniente observar que o poeta árcade refere-se, em primeira instância, à experiência amorosa, como tentativa de desbloquear o meio de campo nas investidas diante de Marília, a donzela esquiva de Ouro Preto. As glosas em geral mutilam o original, que diz: “As glórias que vêm tarde, já vêm frias, e pode enfim, mudar-se a nossa estrela”. No recesso de nossa autocrítica, padecemos calados: produzimos isto e aquilo, poucos perceberam. E nos vemos estirados na senda de um currículo por vezes salpicado de miudezas ou mediocridade. Vamos por partes.
            Oswald de Andrade, após produzir obras importantíssimas, teria experimentado esse vazio de reconhecimento, nos últimos anos de vida. A justa avaliação veio depois de sua morte, como homenagem póstuma. A primeira constatação saudável consiste em recolher as evidências com ânimo sereno. Muito reconhecimento, seja em forma de prêmio ou condecoração, ocorre como coroamento de décadas de trabalho. Nem sempre o reconhecimento se faz por merecimento efetivo, esta a segunda assertiva a ser observada. O terceiro estágio seria buscar alento entre os grandes, aqueles dignos de admiração e seguimento.


Sérgio Milliet (1898-1966) foi pintor, intelectual cosmopolita, produziu obra notável no terreno da poesia, ficção e crítica. Mais prestigiado como crítico, deixou um valioso legado nos dez volumes do seu Diário crítico. Na abertura do volume II, em “A título de prefácio”, afirma: “Estudei em colégio de padre e fui jogado aos 14 anos na liberdade excessiva da Suíça dos lagos transparentes e das montanhas azuis. Abusei convenientemente dessa liberdade, estudei pouco e escrevi versos para arranjar pequenas. (...) Escrevi poemas que ficaram sem eco e que eram bons”. Mais adiante, na sequência, após um rol de realizações, um tanto ressentido, diz: “Literariamente aspiro apenas a um posto de reserva de primeiro time. Não por modéstia mas porque os azes são demais”. Isto foi escrito em 1944, quando a literatura brasileira vivia um contexto ímpar de prestígio social.

Não sou diferente de ninguém. Gosto de acompanhar a repercussão de meu trabalho. Comentários e juízos me envolvem, não possuo couraça impermeável, de ferro. Gratifica-me uma referência a meu trabalho, feita por Carlos Herculano Lopes, o romancista premiado de Sombras de julho, O último conhaque e O vestido. Quando publiquei Outono atordoado, o romancista mineiro, em matéria alusiva ao lançamento, escreveu em jornal: “Pelos idos dos anos 70, quando o conto mineiro, através de escritores como Murilo Rubião, Sérgio Sant’Anna, Jaime Prado Gouvêa, Roberto Drumond e Júlio Borges Gomide, só para ficar nesses, fez fama em todo o Brasil, um outro nome, o de Edgard Pereira, também fazia eco”. E prossegue, mencionando prêmios nacionais da época. O labor intelectual, seja em qualquer área – pesquisa, docência ou criação – só faz sentido quando exercido como atividade produtiva, fonte de prazer e capaz de acrescentar novos caminhos para os outros. Uma cultura (e a literatura está inserida)  não se faz apenas com grandes obras, cada tijolo tem seu papel no conjunto. Jogar no time reserva da seleção principal ou fazer eco ao trabalho dos maiores está de bom tamanho porque os ases são, continuam demais. 

LOPES, Carlos Herculano. Estreia madura no romance. Estado de Minas. Belo Horizonte, 01/09/2001.
MILLIET, Sérgio. A título de prefácio. Diário crítico II. São Paulo: Martins, 1981.