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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

João Ubaldo Ribeiro

 

       Um dos últimos livros de João Ubaldo Ribeiro, O Albatroz Azul revela-se uma espécie de síntese refinada de uma obra que sempre zelou pela elegância de linguagem e pitoresco da fabulação. Juvenal, pai de Tertuliano, vive na casa da madrinha Iá Cencinha (mãe de Albina e Catarina). Um pouco mais novo que as filhas da madrinha, passa a ter relação sexual com as duas. O motivo de duas irmãs que transam com o mesmo homem, sem conflitos, não é original, - observa-se em Eva Luna, da chilena Isabel Allende. O romance de João Ubaldo reproduz os derradeiros dias do protagonista, após uma vida de sensualidade, atropelos familiares e sossegado convívio entre amigos. Tudo transcorrido em meio a silvas de aves assustadas, cheiros inusitados, filtrados pela maresia das praias baianas. Através da memória, atiçada pelos eventos recentes, o idoso vai se recordando de antigas vivências. O resto dos dias, Tertuliano passa-os em suave e reflexiva melancolia diante dos eventos, atropelados pelas crendices, pelo fatalismo e pelo nascimento abençoado de um neto que veio à luz da lua a barlavento, uma predestinação: “… Altina passou o menino ainda gosmento a seu avô, que o levantou com o traseirinho na direção da luz e assim o manteve enquanto rezava um padre-nosso e uma ave-maria, seu próprio rosto também voltado para o alto e muito sério, os olhos fechados e as mãos vibrando” (Ribeiro, 2009, 52). As diligências empreendidas diante do batizado, a escolha do padrinho e do nome tomam conta de inúmeras providências, a partir de então adotadas. Quando recorda o nascimento do neto, o narrador não consegue reprimir a emoção: “O nascituro viera à luz da vida com o uropígio voltado para Selene, satélite da esfera terráquea, que os vates tanto inspira (Ribeiro, 2009, 156)”, na linguagem empolada do barbeiro Nascimento, em atividade na Tricotomia Parnaso, onde são comuns as discussões metafísicas. Os ditados populares sucedem-se: “Conselho dado cedo é o que salva o vinhedo”, “Dito de criança e repente de mulher, aproveite quem quiser” (Ribeiro, 2009, 132); “Marido velho com mulher nova ou corno ou cova” (Ribeiro, 2009, 94); ”De casa de gato não sai farto o rato” (Ribeiro, 2009, 114)).

       Custódio Xaréu, Ostinho Peru Leso, Pomerânio, Everaldo da Bica, Saturnino Bororo, Nestor Gato Preto, Natálio Queresene compõem o divertido magote de personagens desta saga. A linguagem colorida, as crenças populares, o contexto histórico recheado de superstições e magia, o lento desenrolar das horas, os desdobramentos retóricos dos nomes próprios, os sonhos estapafúrdios constituem elementos habilmente trabalhados pelo narrador.

RIBEIRO, João Ubaldo. O Albatroz Azul. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.




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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Viva o povo brasileiro


Livro do mês

João Ubaldo procede, neste romance, a amplo recorte temporal, do século XVI ao século XX, num esforço de reconstruir a sociedade brasileira, resultado de mistura de raças e mestiçagem cultural. O narrador acompanha a evolução de grupos humanos que se fixaram no Recôncavo baiano no século dezesseis, o embate de culturas e a formação do que se poderia chamar de sentimento identitário brasileiro, em sua dinâmica e conflitos, em seu hibridismo cultural jamais finalizado. Só desta forma se concebe um projeto étnico, enquanto processo em contínuo enriquecimento, jamais se dando por acabado e pronto. Ao sentimento nacionalista de pertença a uma cultura subjaz quase sempre a inveja ao sistema cultural oposto. Esta já era a crença de um intelectual do século dezenove, representado no romance:

Na verdade, sustento que a mestiçagem é uma real alavanca do progresso desta terra, pois que o espírito do europeu dificilmente suporta as contorções necessárias para o entendimento de circunstâncias tão fora da experiência e vocação humanas. Eis que o Brasil não pode ser um povo em si mesmo, de maneira que as forças civilizadoras hão de exercer-se através de uma classe, no caso os mestiços, que combine a rudeza dos negros com algo da inteligência do branco (Ribeiro, 1984, p.119).

Em grandiosa empreitada, realizada em linguagem polifônica, apta a recuperar os inumeráveis usos da língua portuguesa em território americano, o narrador projeta-se numa dilatada linha do tempo, ao focalizar a evolução de um grupo étnico em sua fixação à terra, seus costumes e ações durante quatro séculos. As descrições da paisagem tropical alternam-se ao panorama de crendices, exotismos, batalhas e luta pela sobrevivência. Assim, o clã de Perilo Ambrósio reveste-se de traços comportamentais específicos, delineadores de representação racial. As peripécias são contadas de forma linear, uma linearidade irregular, contaminada por avanços e ziguezagues, em células dinâmicas, expressas em blocos narrativos, numa progressão cronológica que tangencia alguns fatos da história oficial. Ao narrar os primeiros lances do que teriam sido os primórdios da colonização, indígenas aterrorizavam os europeus, aqui chegados numa aventura exploratória marcada pela violência e cobiça desenfreada. Os atos de antropofagia então cometidos surpreendem pela naturalidade e ironia com que são narrados, mesclando os dados culturais da culinária portuguesa à visão animalesca, primitiva dos selvagens:

O caboco Capiroba então pegou um porrete que vinha alisando desde que sumira, arrodeou por trás e achatou a cabeça do padre com precisão, logo cortando um pouco da carne de primeira para churrasquear na brasa. O resto ele charqueou bem charqueado em belas mantas rosadas, que estendeu num varal para pegar sol. Dos miúdos prepararam ensopado, moqueca de miolo bem temperada na pimenta, buchada com abóbora, espetinho de coração com aipim, farofinha de tutano, passarinha no dendê, mocotó rico com todas as partes fortes do peritônio e sanguinho talhado, costela assada, culhõezinhos na brasa, rinzinho amolecido no leite de coco mais mamão, iscas de fígado no toucinho do lombo, faceira e orelhas bem salgadinhas, meninico bem dormidinho para pegar sabor, e um pouco de lingüiça, aproveitando as tripas lavadas no limão, de acordo com as receitas que aquele mesmo padre havia ensinado às mulheres da Redução, a fim de que preparassem algumas para ele (Ribeiro, 1984, p.42-43).

Amleto Henrique Nobre Ferreira-Dutton, antigo mulato de confiança do barão Perilo Ambrósio, através de expedientes ilícitos e manobras corruptas, consegue enriquecer-se, apoderando-se do patrimônio do antigo protetor. Seu nome,“resultado da união anglo-portuguesa”(Ribeiro,1986,p.234), união orgulhosamente por ele atestada mais de uma vez, denota a mestiçagem cultural. Numa das recepções promovidas em sua residência, diante de altas instâncias da religião e do exército, Amleto expõe uma concepção elitista de cultura, ao excluir os pobres (negros e mulatos):

Mesmo depuradas, como prevejo, as classes trabalhadoras não serão jamais o povo brasileiro, eis que esse povo será representado pela classe dirigente, única que verdadeiramente faz juz a foros de civilização nos moldes superiores europeus – pois quem somos nós senão europeus transplantados? (...) Que somos hoje? Alguns poucos civilizados, uma horda medonha de negros, pardos e bugres (Ribeiro, 1986, p.245).

Um dos recursos convocados constitui a suposta equivalência dos contrários, seja para aproximar homens de animais, seja para opor a língua dos brancos à dos negros, ou confrontar a cultura européia à dos trópicos. A caracterização primitiva das personagens atinge o ponto extremo ao equiparar os homens a animais: o Barão, em sua agonia, teria sido acometido pela raiva canina. Quando tudo parecia anunciar o fim, o moribundo vocifera um palavrão, chamando para perto de si um negro, o qual atende por emblemático nome de anjo. Com a promessa de que lhe faria uma “importante comunicação”, o Barão morde-lhe a orelha: “...havendo os dois sido encontrados ainda nesse enlaçamento conturbado, o barão respondendo apenas com rosnidos ao que lhe falavam e Rafael Arcanjo berrando como um porco esfaqueado” (Ribeiro, 1984, p.201). Não é ingênua a presença do negro de nome angélico ao lado do senhor rural. Nada é anunciado, a ironia ocorre por conta de promessa não cumprida e do nome do negro. Tudo ocorre dentro de um sistema de trocas e assimilações, recusas e transformações. Algumas vezes o vazio é solenemente preenchido de maneira falsa e hipócrita:

Infelizmente, ninguém ficou certo quanto a suas últimas palavras, mas Frei Hilário, que esteve junto a ele até o desenlace, anotou as que – claro milagre, para quem já não falava ou sequer via – ele murmurou na escuridão do quarto, a poucos minutos do final: “Pátria, honradez, luta, abnegação. Haverei servido bem a Deus e ao Brasil?" (Ribeiro, 1984, p.203).

A construção de traços identitários comporta desvios e confrontos diante da ideologia hegemônica. Por seu turno, os embates gerados no interior das relações de trocas, à medida que se afastam das idéias de centralidade, não objetivam apagar de todo os resíduos da cultura transplantada, mas operam numa dinâmica produtiva de aproximação/afastamento. A transformação de Dafé em bandoleira, uma guerreira sem vínculos com o aparelho estatal de segurança, ilustra a hipótese. Chefe de bando opositor, o lugar de Dafé no universo narrado é um lugar ambíguo. Ali estão definidos e estabilizados os lugares do dominante e do subalterno, o negro. A recusa em inscrever-se como objeto de prazer dos senhores marginaliza-a socialmente. Sua transformação em guerreira destemida marginaliza-a institucionalmente, perante o Estado. Mas não deixa de ser curioso: mesmo procurada pelo Estado, ela mantém relações clandestinas com o aparato militar. No velório de Leléu, ela e seu bando comparecem disfarçados de militares. À época da guerra do Paraguai, ela instrui um elemento do bando para se alistar no exército do Imperador, porque ali teria muito que “ver e aprender”. Não deixa de ser igualmente relevante o sentimento nacionalista por ela proclamado: “Eu também sinto um arrepio quando se fala no Brasil, quando ouço os hinos e vejo o povo levantar os olhos para a bandeira. Pois não é a nossa bandeira e é nossa bandeira” (Ribeiro, 1984, p.431).

Cabe falar em painel social? Sem dúvida e de forma superlativa: um grande painel social, em tempos de ficção encolhida e mirrada. João Ubaldo atinge mais uma vez um patamar de admirável domínio criativo. Incomparavelmente belo, o romance efetua a conjunção de uma pluralidade de vozes e discursos (o folclórico, o literário, o mítico, o histórico), numa grandiosa alegoria da formação étnica brasileira. Ainda que aberta à circulação de idéias polêmicas, a ficção brasileira mais uma vez mostra-se inscrita num projeto nacionalista, no qual muitas vezes busca sua legitimidade, na linha do pensamento de uma crítica de tendência histórico-social:

Quem escreve, contribui e se inscreve num processo histórico de elaboração nacional. (...) A literatura no Brasil, como a dos outros países latino-americanos, é marcada por este compromisso com a vida nacional no seu conjunto, circunstância que inexiste nas literaturas dos países de velha cultura (Candido, 1981, p.18).

Engajado, sem incorrer no tom panfletário, divertidíssimo, sem apelar à banalidade, o romance dialoga com a grande epopéia, recuperando o vigor e a densa espessura dos relatos de fundação, sem excluir as idéias humanistas e as notas de puro encantamento.

Referências bibliográficas:


CANDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira. 9. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000.
RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. Rio de Janeiro: Record/Altaya, 1984.