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domingo, 28 de abril de 2019

Menos investimento na área de Humanas

      Muitos eleitores votaram em Bolsonaro para impedir a vitória e continuidade dos governos corruptos do Partido dos Trabalhadores. Isto não significa que sejam cidadãos desprovidos de senso crítico, ética e de solidariedade, ou que tenham que concordar com todos os disparates em curso no atual governo. O mais recente, na complexa área da Educação, sugere que o governo pretende investir menos na área das Ciências Humanas. A postura reflete uma tendência tecnocrata que tem raízes no mais rasteiro e anacrônico Positivismo, filosofia muito cara aos militares, desde os primórdios de nossa República. Investir menos na área de Humanas, infelizmente, já tem sido feito no Brasil, nos últimos anos. 
      Dados de 2018, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a agência nacional de investimento em investigação científica, referem que as áreas de Exatas, que agregam Engenharias e Tecnologia, tiveram R$ 437 milhões de recursos. As Ciências Biológicas, Agrárias e de Saúde receberam R$ 440 milhões. As Ciências Humanas, Linguística, Letras e Artes receberam R$ 162 milhões, em torno de um terço do benefício às demais áreas.
      Se o governo pretende, de fato, asfixiar mais as áreas de Humanas, então, será o caos. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) afirmou seu desacordo com as declarações do Presidente, argumentando que "muitas carreiras e desenvolvimentos bem-sucedidos nas áreas tecnológicas não resultam simplesmente de conhecimento técnico. Elas requerem habilidades de liderança, inteligência emocional, compreensão da cultura, um entendimento do contexto econômico e social que as Ciências Humanas e Sociais podem prever". As pesquisas feitas na área de Humanas fornecem subsídios para as políticas sociais e as práticas implementadas por agentes das áreas de Exatas e Biológicas. Por outro lado, ignorar sua especificidade revela um pragmatismo estéril e redutor. Num país de extrema complexidade étnica e cultural, como o Brasil, desdenhar a importância das Ciências Humanas é um atestado de completo despreparo, ainda mais em se tratando de assertiva emanada do Ministério de Educação. Ao instaurar o primado da tecnologia, tenta-se priorizar o aparelhamento de controle e, na sequência, a política da mordaça. Cada vez mais se desenvolvem os espaços multiculturais, em face de movimentos migratórios e fluxos de refugiados, gerando a necessidade de compreensão de seu estatuto e insurgência. De onde virão as formas de conhecimento, compreensão e convivência? As Ciências Humanas são o laboratório conceitual e de práticas de civilização, num contexto de diversidade cultural e pluralidade de fluxos populacionais. A sociedade necessita atualizar suas formas de conhecimento de si, do outro e do mundo. Como se fosse possível silenciar o pensamento, sufocar as reivindicações de grupos culturalmente marginalizados. O Fascismo procurou fazê-lo. Conhecemos um pouco dessa história. 

                                                  (Imagem: blog.aegro.com.br)
    

Estado de São Paulo. São Paulo, A 16, 27 de abril de 2019,

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Brasil elege novo presidente, Jair Bolsonaro

      Após uma campanha eleitoral marcada por extremismos, o resultado das urnas favoreceu o deputado federal Jair Bolsonaro, eleito, ontem, em segundo turno, presidente do Brasil. O vencedor obteve 57, 7 milhões de votos, contra 47 milhões do adversário, o petista Fernando Haddad. Dentre os fatores decisivos para a esmagadora vitória, apesar de declarações pouco democráticas do finalmente eleito, destacam-se os compromissos assumidos em favor da segurança pública, as promessas desenvolvimentistas sem viés ideológico e o fervor antipetista da população. Vigora no país forte repulsa às propostas oriundas do Partido dos Trabalhadores, representadas pelos últimos governos (Lula e Dilma), marcados por altíssimos índices de corrupção e mau uso do dinheiro público. Tal percepção só a possui o povo brasileiro, em sua maioria decepcionado com resultados negativos no comando da economia e com o excessivo aparelhamento das estatais, usadas como fonte de abastecimento do partido dos Trabalhadores e enriquecimento ilícito de políticos, com a cúpula praticamente presa por corrupção (Lula, Palocci, José Dirceu, o secretário Vaccari Neto). O candidato eleito foi ferido durante a campanha com brutal facada no dia 6 de setembro, em ato público no interior do estado de Minas Gerais (Juiz de Fora), tendo sofrido hemorragia interna e se submetido a duas cirurgias do intestino. Em seu discurso oficial, ontem, após o encerramento da contagem dos votos, Bolsonaro afirmou: "Liberdade é um princípio fundamental. Liberdade de ir e vir, de andar nas ruas, liberdade de empreender, liberdades política e religiosa, de fazer escolhas e ser respeitados por elas".  O seu esforço deverá agora concentrar-se em pacificar o país e governar sob a égide dos princípios democráticos, expandindo para todos as oportunidades de prosperidade e trabalho. Não será fácil a tarefa, mas na certa contará com o apoio dos brasileiros honestos e bem intencionados.

                                              
                                                  (Foto: Marcos Arcoverde, Estadão)

domingo, 16 de abril de 2017

Ministro do Supremo autoriza investigar mais políticos

      Na última semana, um terremoto abalou a elite política brasileira. O Ministro do Supremo, Edson Fachin, autorizou a Justiça a investigar 76 políticos envolvidos em corrupção. Para corroborar o processo, um dos maiores empresários do país, Emílio Odebrecht veio a público confirmar a parceria estreita com o ex-presidente Lula, rendosa para os dois lados. O país tomou conhecimento de que a República estava nas mãos de uma empreiteira. A Odebrecht comprou o presidente petista em várias frentes (prestando suporte ao filho do presidente, reformando o sítio de Atibaia, depositando dinheiro para parentes, construindo estádio, além de depósitos mensais para quitar supostas palestras). Assim, a Odebrecht ampliou sua atuação no mercado, expandindo-se internacionalmente, tendo o governo petista financiado obras em Cuba e em Angola. Ficamos sabendo que a "Carta aos brasileiros" foi escrita pelo quadro jurídico da Odebrecht, em troca de favores e regalias. Na sequência, para facilitar aprovação de leis que lhe eram vantajosas, a empreiteira favoreceu quase uma centena de políticos sem escrúpulos, que receberam propinas através de um departamento criado para equacionar todo o esquema. 

                                                           (Imagem: mundoedu.com.br)

      Muitos desses políticos eram já conhecidos pela desfaçatez com que sempre trataram o ofício. Outros viram a máscara de honestidade se desfazer em pó, até pouco tempo atrás se arvoravam como reservas de moralidade - a lista abrange quase todos os partidos,  mas o PT e o PMBB estão na dianteira, com o maior número de citados. Além dos contumazes frequentadores de listas do naipe, como o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT)e o senador Romero Jucá (PMDB), a nova listagem contempla oito ministros do governo Temer, três governadores, e uma enfiada de políticos, tais como os deputados Maria do Rosário, Humberto Costa, Lindbergh Farias, Paulo Rocha, Arlindo Chinaglia, Vicentinho, Zeca do PT, Zeca Dirceu, Marco Maia e outros do PT, mais de uma dezena do PP, do PMDB, do PSDB (incluindo o senador Antônio Anastasia de Minas), do PC do B (Vanessa Graciotin, senadora por Amazonas), do DEM (o deputado Ônix Lorenzoni). O que antes se dizia como interpretação dos fatos pelos cientistas políticos, agora se pode dizer que fazia parte de um projeto de perpetuação no poder por parte do PT, arquitetado por aquele que se apresenta como o mais honesto de todos os políticos desse país. Todos devem ser investigados e aqueles que a Justiça provar que cometeram atos ilícitos devem ser exemplarmente punidos.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Hélio Fraga

      Hélio Fraga, conceituado jornalista e escritor, atuou durante anos no Estado de Minas, com matérias de teor político, esportivas e crônicas de mérito considerável. Sob o título de "Prejudicando o Brasil", publicou ontem no jornal O tempo um artigo em que faz comentários pertinentes sobre os dias que correm, em especial sobre o comportamento da presidente afastada. Transcrevo, por considerá-lo oportuno, algumas passagens do artigo.

      "O direito à liberdade de expressão é sagrado em cada ser humano, mas pede-se e espera-se que a verdade dos fatos seja respeitada. Muitos brasileiros se sentiram constrangidos quando, no festival de Cannes, artistas do filme Aquarius exibiram cartazes afirmando que "un coup d'etat a eu lieu au Brèsil" e "a coup took place in Brazil".  Pode ser a opinião pessoal desses artistas e do diretor - eles, sorridentes, e ele, de óculos escuros. Mas estavam divulgando uma mentira e sujando a imagem de nosso país.
      A classe artística depende de verbas e isenções oficiais, e suas manifestações têm forte conteúdo corporativo. Os cofres federais sempre estiveram abertos para esses ativistas culturais produzirem filmes e shows para os quais o cidadão paga ingresso - portanto, nada têm de filantropia. Mamam nas tetas do governo e defendem suas boquinhas.
      Agora que o Brasil passa a ter, pala primeira vez nos últimos 13 anos, um Ministério das Relações Exteriores disposto a rechaçar o desrespeito aos direitos humanos e os ataques à democracia, não se submetendo mais aos governos populistas e autoritários de Bolívia, Venezuela e Equador, é importante que nossas embaixadas não deixem sem resposta nenhum ataque desse tipo, porque estão distorcendo a verdade dos fatos.
      Admitir que houve golpe, que uma presidente da República foi afastada do poder de forma arbitrária e inconstitucional, é aceitar que estejam sendo traídas e renegadas a Constituição, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria Geral da República (PGR). Tudo foi feito dentro da lei. E a PGR ainda tem muito mais a mostrar - esperem.
      Após exaustivos debates, com amplo direito de defesa, a presidente perdeu em todas as votações: de 367 a 137 na Câmara Federal; de 15 a 5 na Comissão de Investigação do Senado; e de 55 a 22 no plenário do Senado Federal - daí seu afastamento provisório por 180 dias. Durante todo o processo, desde o início do ano, em todos os momentos, a presidente denunciou um golpe. Foi a primeira a manchar publicamente a imagem institucional do país ao reunir correspondentes estrangeiros no Planalto para insistir em sua tese, e eles transmitiram essa mentira aos mais poderosos meios de comunicação de todos os continentes."
      (...)

FRAGA, Hélio. Prejudicando o Brasil. O tempo. Belo Horizonte, p. 19, 31 maio de 2016.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Brasil: resumo super resumido

      As recentes e gigantescas manifestações populares que tomaram as ruas do Brasil têm um objetivo claro: protestar contra o governo do PT, há treze anos administrando o país. Um verdadeiro mar de gente ocupou as praças e avenidas das principais capitais no último dia 13, com faixas de protestos contra a presidente Dilma, Lula e o PT. Mais precisamente 3 milhões e trezentas mil pessoas, segundo a PM. Pelo cálculo dos organizadores, seriam mais de seis milhões de manifestantes. Sob qualquer ótica, sem dúvida, a maior manifestação popular realizada no país. Tudo em perfeita ordem, dentro das normas democráticas. No dia 18, os defensores do governo federal tomaram as ruas. Segundo a PM, em torno de 300 mil militantes, capitaneados pelos sindicatos, sob suspeita de apoio financeiro de R30,00 por cabeça, além do sanduíche de mortadela.
                                                (Imagem:notícias.portalvox.com)

      A temperatura política subiu no último dia 16, quando a presidente anunciou a nomeação de seu antecessor, Luís Inácio Lula da Silva, investigado pela Justiça do Paraná, como ministro da Casa Civil. A nomeação atende a um objetivo claro: proteger o ex-presidente da investigação em primeira instância, colocando-o em foro privilegiado, sob a tutela do STF. O Juiz Sérgio Moro, que dirige a Operação Lava Jato, de combate à corrupção, já conseguiu prender mais de 50 pessoas, entre empresários, executivos doleiros e políticos. A popularidade da titular do governo, que já era péssima, despencou.  O entorno do Palácio do Planalto é tomado por cidadãos que pedem a renúncia de Dilma. A presidente passa a se envolver com a corrupção, ao tentar proteger o aliado. A contrapartida do Juiz Moro foi liberar centenas de documentos envolvendo as investigações mais recentes, entre eles, o conteúdo de conversas de Lula, algumas bastante comprometedoras. Numa delas, Dilma avisa que está enviando a minuta do termo de posse, para ser usado "se necessário". A temperatura atingiu graus de temperatura elevadíssima. O governo continua tentando obstruir as investigações, trocando ministros, acusando a oposição de promover golpe, nomeando cargos do primeiro escalão para garantir apoio no processo de impeachment que já tramita no Congresso. A oposição revida afirmando que não se trata de golpe, mas de recurso previsto na Constituição, em caso de crime em gestão pública, comprovando com o caso das pedaladas fiscais. A sociedade acompanha com interesse renovado, diante da possibilidade de amenizar o colapso da economia e o sofrimento causado pela escalada do desemprego. Semanas decisivas à frente.
      Parabéns à imprensa, pelo registro e análise dos eventos. 

sábado, 10 de outubro de 2015

Será o Bené?

 Nos últimos meses, as notícias negativas envolvendo Fernando Pimentel (PT), governador de Minas Gerais, sucedem-se, insistentes e desabonadoras, na imprensa. Além das contas de campanha em processo de investigação, com suspeita de manipulação de dados e irregularidades, pesam sobre ele fortes indícios de tráfico de influência, em favor do empresário, misto de lobista e padrinho de casamento, Benedito Rodrigues de Oliveira, conhecido como Bené.

À época da campanha, fins de 2014, foi flagrado em Brasília um avião em que viajavam executivos, identificados como agentes da campanha de Pimentel, entre os quais o empresário Benedito R. O., portando R$ 113.000,00 em espécie. Segundo os jornais, Bené teria sido o coordenador da campanha de Fernando Pimentel para governador. A proximidade entre políticos e empresários de conduta ilícita tem se prestado a compor cenários propícios à contaminação viciosa da administração e ao assalto dos cofres públicos. O antigo ditado “diga-me com quem andas e te direi quem és” mantém-se ainda convincente.


      (Imagem: Palácio da Liberdade, sede do governo de Minas Gerais www.guiabh.com.br)

            As suspeitas vêm lá de trás, antes da campanha eleitoral, do período em que Fernando Pimentel foi Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. De acordo com a revista Época, a Polícia Federal comprovou que portarias então exaradas pelo MDIC teriam favorecido com vantagens fiscais a montadora de veículos Caoa. De janeiro de 2011 a fevereiro de 2014, período em que Pimentel esteve no posto de Ministro, e na gestão de seu substituto na Pasta, Mauro Borges, no âmbito do Programa Inovar-Auto, criado pelos dois ministros, a Caoa foi favorecida com benefícios fiscais. A ponte entre a montadora e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, seria o empresário Benedito Rodrigues de Oliveira. Como pagamento pela ingerência nos meandros da administração federal, o empresário amigo de Pimentel recebeu R$2, 1 milhões da referida montadora, segundo documentos apreendidos pela Polícia Federal. Com a eleição de Pimentel para governador de Minas, Mauro Borges foi nomeado Presidente da poderosa Cemig, empresa de energia, controlada pelo governo do Estado.
            Mas a atuação do empresário nas diligências em favor de determinadas empresas não se limitou ao Ministério do Comércio, Indústria e Comércio, alastrou-se para outras áreas, como O Ministério da Cultura e o Ministério da Saúde, nos quais conseguiu emplacar diversos contratos para a Gráfica e Editora Brasil, propriedade de seus familiares. O jornal O Estado de S. Paulo, de acordo com O Tempo, teve acesso a Relatório da Operação Acrônimo, no qual se confirma que o empresário amigo de Fernando Pimentel teria, através de fraudes em licitações, obtido contratos superfaturados no governo federal, estimados em 200 milhões.
            Diante de claros indícios de tráfico de influência, causa, no mínimo, indignação o modo arrogante como os advogados do governador mineiro assobiam para o lado, como se os fatos se dessem nas ilhas Maldivas. Não se sabe até quando.


            Pimentel ajudou Bené, diz PF. O tempo. Belo Horizonte, p. 6, 10 out. 2015.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Livros didáticos caríssimos

      O governo brasileiro reduziu por decreto o valor do pagamento de pensões pela metade, além de outras restrições escalonadas; em alguns casos, as pensões praticamente desaparecem. As reclamações pipocaram, no mercado não está consignado o pagamento de meio aluguel, meia água ou luz. O argumento usado para justificar a usurpação de direitos sociais adquiridos é "corrigir distorções".  Deveria ser usado o mesmo argumento para  corrigir outros abusos, notadamente no caso dos livros didáticos.


      Como se não bastassem os gastos elevados no início do ano, em que o cidadão precisa saldar taxas variadas, como IPTU e IPVA, a compra de material escolar para os filhos acaba por estraçalhar o minguado orçamento da classe média. A classe carente é beneficiária de ajuda, uma vez recebe na escola pública o material de graça. Sobra, como sempre, para a classe média. Tenho dois filhos, um cursando Faculdade, outro no ensino médio. A despesa relativa ao material escolar do ensino médio, que inclui os livros didáticos e o material propriamente dito (lápis, caderno, borracha, apontador,etc) atingiu a quantia de R$ 1.649,00. Para um consumidor de livros literários, o meu caso, pagar R$195,00 por um livro didático, como é o de História, ultrapassa o limite do aceitável. E trata-se, como é sabido, de versão comprometida com o que se costuma chamar de "nova história", com visão de mundo supostamente engajada na luta de injustiçados e oprimidos. Dá para perceber o cúmulo de idiotice compilada em manual escolar que deveria primar pela objetividade e imparcialidade na análise dos fatos. O livro de Matemática custou R$ 162,00; o de Química, R$ 171,00. E por aí vai. O livreiro afirmou que fatura apenas dez por cento. Em  países civilizados, ou melhor, desenvolvidos, os preços de livros didáticos não ultrapassam um limite, dentro da razoabilidade. Aqui nada se faz.

domingo, 12 de outubro de 2014

Correção em dados é o mínimo que se espera

      Além de pactuarem com a corrupção, muitos políticos apresentam estatísticas incorretas, o que corrobora para que a população os veja com incredulidade. Miriam Leitão (na imagem), jornalista especializada na área econômica, várias vezes premiada, comenta, na coluna de hoje, a postura diante da economia dos maiores partidos nas últimas décadas. E contribui para desfazer alguns equívocos, que a campanha petista insiste em divulgar. Pinço fragmentos de seu artigo.
      "Não haveria política social que funcionasse sem a vitória sobre a hiperinflação, e ela foi derrotada pelos economistas que são do PSDB ou se identificam com ele. O salário mínimo começou a se recuperar a partir da estabilização; os programas de transferência de renda foram possíveis por causa do real. As políticas sociais do PT têm méritos, mas o debate eleitoral criou uma dicotomia inexistente."


      Afirmar que o governo de Fernando Henrique Cardoso se submeteu ao FMI é uma das ideias distorcidas que a campanha petista insiste em divulgar. Volto ao artigo de Míriam Leitão:
      "O dólar disparou, o juro subiu, a inflação se elevou e o governo FHC tomou junto ao FMI um empréstimo que teve 80% de seu valor sacado no mandato de Lula, criando um colchão de reservas sem o qual teria sido muito difícil o início do novo governo.
      Esta foi a história que eu vi se desenrolar no dia a dia da cobertura da economia. Sei que foi assim não por ouvir dizer, mas por ter acompanhado."
      Na sequência, Míriam Leitão se detém na estatística a respeito da redução de pobres no país. Antes, porém, refere a prática nociva de maquilar os dados.
      "A irracionalidade do debate, e as manipulações dos números e fatos, exasperam quem acompanha a economia brasileira há tantos anos e sabe o contexto de cada dado e momento." E, após referir que, se de um lado, o desemprego baixo é "uma excelente notícia", alerta que as bases do desemprego "vêm sendo corroídas pelos desajustes fiscais e monetários que este governo permitiu. O emprego na indústria já está em queda há cinco meses, mostrou o IBGE na sexta-feira."
       O Plano real, com a estabilização econômica, produziu, segundo Míriam Leitão, a primeira forte queda do percentual de pobreza no país, de 45% para 34%. Se as políticas do PT foram positivas, produziram outra queda do percentual de pobreza, de 34% para 15,09%. Portanto, não condiz com a verdade afirmar que o governo do PSDB deixou um percentual em torno de 54% de pobres. Com a palavra mais uma vez Míriam Leitão:
      "O recuo do percentual de pobres e miseráveis é outra excelente notícia. Mas de que maneira a queda poderia ter sido construída num país com a hiperinflação que o PSDB domou? A propósito, o ministro Aloízio Mercadante mostrou os bons números da redução da pobreza em entrevista ao jornal Valor Econômico de sexta-feira. Disse que o percentual de pobres caiu de 34% para 15,09%. Maravilhoso. Mas cabem dois adendos. No resuminho de programa que a presidente Dilma divulgou, por determinação do TSE, está dito - e a candidata repetiu em entrevistas - que ao fim do governo FHC eram 54% os pobres. O dado certo é o de Mercadante. o mesmo do IPEAdata. O segundo detalhe ocultado é que a estabilização, em 1994, produziu a primeira forte queda, de 45% para 34%."

      O povo não gosta de ser enganado.

LEITÃO, Míriam. "Ofensa sem sentido". O tempo. Belo Horizonte, 12 out. 2014, p. 13.

sábado, 20 de setembro de 2014

Cooptação, parceria ou...

      Corre nas redes sociais um depoimento da presidente Dilma Rousseff no mínimo preocupante. Mais uma vez, teria se atrapalhado na comunicação, caso não seja pior. Na imprensa a presidente é conhecida pela primária capacidade argumentativa e desastrado poder de comunicação. Em pronunciamento recente teria dito que é preciso reforçar "o compromisso com os que desviam verbas públicas."
                                         (Imagem: amigosdepelotos.com)  
  Está em causa uma confissão de que apoia atos ilícitos, de corrupção, o que motiva investigação urgente. Não estamos diante das costumeiras desastradas opiniões, nem dos disparatados e esquartejados anacolutos incompreensíveis, mas de uma provável ratificação de que a chefe suprema participa de ilícitos. Mas seria isso mesmo, ou a presidente atrapalhou-se mais uma vez no português, desta vez no despreparo no uso de meras preposições? Fragoroso despreparo, sintoma de outras incompetências na condução da economia, da política externa, no combate à corrupção na Petrobrás e no controle da estabilidade financeira.O discutido programa de isenção fiscal às grandes empresas, as campeãs, tem se mostrado contraproducente, travando a economia e a empregabilidade. Caso a sua excelência queira ter dito que é necessário reforçar o combate aos que desviam verbas públicas, devia ter usado a preposição contra, deveria ter dito :..."reforçar o compromisso contra os que desviam verbas públicas". As preposições  com e contra modificam radicalmente o enunciado. Reforçar o compromisso com os que desviam dinheiro público indicia parceria, participação, apoio, o que não se espera de um ou uma presidente da república. Qualquer estudante do ensino fundamental sabe disso.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Tsunâmi de corrupção (outro) e sombras conservadoras

       Os rumos e tendências revelados nas últimas pesquisas eleitorais são capazes de deixar perplexo qualquer cidadão acima de 45 anos. Após a tragédia que matou o presidenciável Eduardo Campos, do PSB, Marina Silva que o substituiu tem conquistado um grande número de eleitores. Pesquisas recentes creditam a onda pró-Marina a duas vertentes: os evangélicos e os jovens de metrópoles.


      Seria aconselhável que os educadores - logo eles, tão mal remunerados - esclarecessem os jovens sobre os perigos do retorno da inflação, que já assusta as famílias e, como barriga de mulher grávida, não para de crescer. Amor à Bíblia e interesse ecológico não capacitam ninguém para o exercício da presidência da república. Só atraem ingênuos e conservadores empedernidos.
      O único plano econômico - dos muitos lançados nas décadas de 70 e 80 - que deu certo e trouxe estabilidade financeira foi o Plano Real, implantado por Fernando Henrique Cardoso, a quem o país também deve a lei da Responsabilidade fiscal. Os jovens, na sua maioria, continuam reféns de boquirrotos corruptos e moralistas. É hora de ouvir os notáveis, como Roberto Damata, de quem reproduzo um parágrafo de sua coluna no Estadão, publicada na semana passada:

      "Marina Silva representa a proposta de juntar carisma com ideologia na base de acertos pessoais afiançados por uma tragédia ao lado de uma biografia impecável. Seu programa financeiro é muito próximo ao de Aécio Neves. A diferença é que Aécio não tem a aura de santidade e carrega os compromissos do PSDB: a obrigação de governar administrando. Não se pode esquecer que foi essa atitude que deu ao Brasil o respeito e a estabilidade monetária."

      Quanto à outra candidata, com altíssimo índice de rejeição, nem merecia ocupar a cadeira que ocupa. O seu governo foi o mais corrupto, incompetente e temeroso de toda a história, agora manchado de novo pelo segundo mensalão, como atestam as negociatas e desvios de muita grana na Petrobrás.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Eduardo Campos (1965-2014)

      Morreu ontem em acidente aéreo em Santos, SP, o jovem e dinâmico politico Eduardo Campos, candidato pelo PSB à presidência da república. Neto de Miguel Arraes, referência histórica na luta pela democracia e contra a ditadura, Eduardo Campos era ex-governador de Pernambuco, estado onde contava grande aprovação. Num país carente de boas lideranças políticas, como o Brasil, o seu idealismo contagiante fará falta.

(Foto: renatojogoabertoblogspot.com.br)

Além do presidenciável, morreram outras seis pessoas, dois pilotos e quatro assessores da campanha. O país, em estado de choque, lamenta e tenta entender a fatalidade.

sábado, 9 de agosto de 2014

Miriam Leitão

      Como outros profissionais dissidentes que têm vivenciado e relatam perseguições e boicotes, os jornalistas Miriam Leitão e Carlos Alberto Sandenberg foram alvos da fúria do aparelhamento estatal promovido pelo petismo. Os dois jornalistas tiveram os perfis no Wikipedia, enciclopédia colaborativa da internet, alterados com informações negativas, falsas, que, agora, se descobriu terem sido postadas de computadores do Palácio do Planalto. Em linguagem direta: de máquinas instaladas no endereço da Presidência da República. O fato reveste-se de gravidade por configurar uso do aparelho estatal contra cidadãos, por suposto delito de opinião. O nome disso é autoritarismo político, ingerência espúria contra a liberdade.

(Foto: evento "Sempre um papo", lançamento do romance Tempos extremos, em Belo Horizonte, 5 ago.)

      Miriam Leitão é uma brilhante jornalista da área de economia, cuja história de vida é um exemplo de luta pela democracia e direito de se expressar. Presa à época da ditadura, "grávida de quatro meses" do primeiro filho, nos piores três meses vividos, por não poder ler, como afirmou em lançamento recente, conseguiu afirmar-se como profissional independente, reconhecida pela isenção, competência e seriedade. Em 2012, seu livro Saga brasileira foi agraciado com o Prêmio Jabuti, de jornalismo. A partir de livros ditos infantis e do romance Tempos extremos, saído do prelo, a partir de agora, é uma escritora consumada, sem nenhum favor. Vale a pena ler a sua coluna publicada hoje, em alguns jornais do país, sob o título de "À margem da lei". Recentemente, o Banco Santander, sob pressão, demitiu funcionários que publicaram nota alertando a respeito dos riscos para a economia, caso o atual governo se reeleja. Só mesmo os ingênuos não percebem os riscos para a democracia.

      A seguir, fragmentos do artigo de Miriam Leitão.

      "Há, em qualquer democracia, um debate público, e eu gosto de de estar nele. Mas postaram mentiras, e isso pertence ao capítulo da calúnia e difamação.
      Tenho 40 anos de vida profissional e um currículo do qual me orgulho por ter lutado por ele, minuto a minuto. (...)
      O Planalto afirma que não tem como saber quem foi. É ingenuidade acreditar que uma pessoa isolada, enlouquecida, resolveu, do IP da sede do governo, achincalhar jornalistas. (...) Este governo desde o princípio não soube lidar com as críticas, não entende e não gosta da imprensa independente."

LEITÃO, Miriam. "À  margem da lei". O tempo, Belo Horizonte, Economia, 9 ago. 2014, p. 12.
   

domingo, 30 de março de 2014

Os prejuízos da Petrobrás


      Mais uma vez, deve-se à imprensa, neste caso ao jornal O Estado de São Paulo, a divulgação de péssimas noticias para a economia do país. Em 2012, o Estadão apresentou  detalhes sobre a compra pela Petrobrás de uma malfadada refinaria em Pasadena (EUA). Anteriormente comprada por uma empresa belga por pouco mais de 42 milhões de dólares, a refinaria custou, ao fim e ao cabo, mais de 1 bilhão e 200 milhões de dólares para a estatal brasileira. Esta quantia pode ainda aumentar, tendo em vista impostos não pagos em anos anteriores à transação. Autoridade máxima do Conselho Administrativo da Petrobrás na época, mantida com salário de marajá, Dilma Rousseff autorizou a transação, que reverteu em vultosos prejuízos aos cofres da Cia. Cresce a indignação popular diante de mais esse escândalo. Outros protagonistas do caso foram demitidos ou presos e a explicação da Presidente do Conselho de que teria sido enganada por relatório incompleto não colou.
      Enquanto a sociedade aguarda a apuração dos fatos, novos detalhes vão surgindo. Dentre algumas matérias sobre o caso, agradou-me artigo de autoria de Heron Guimarães, cheio de ironia, publicado no jornal O tempo. Seguem alguns tópicos.


"Há pouco mais de quatro anos, uma gente paga pelo governo escorou-se na Petrobrás para a criação de um conceito de sucesso, uma campanha com planejamento e feeling de dar inveja ao "Yes, we can", de Obama, de forma que se alastrasse para todos os setores da sociedade.  Essa gente seguiu em frente, transformando ilusões em oportunidades de votos. A terra, o mar, tudo foi usado para essa gente ir cada vez mais longe, cada vez mais fundo nos cofres públicos. E essa gente foi capaz de desenvolver uma técnica de persuasão de grandes massas de indubitável eficiência.

Essa gente anunciou quebra de recordes e a maior descoberta de petróleo de todos os tempos em águas profundas, com a proeza de, quatro anos depois, não conseguir aumentar a produção de barris e ter que aumentar a importação.
(...)
Os fertilizantes, nesse caso, serviram muito bem para fazer crescer a popularidade da presidente do conselho que, apoiada por essa gente, viu-se presidente da República, sucedendo o grande líder que essa gente escolhera para o país, ludibriando, com sedução incomum, o restante de toda a gente.

Hoje o mundo inteiro olha para a gente desse país que tem um pesadelo diferente por dia.
O mundo inteiro olha para o caos no transporte dessa gente, para a violência que essa gente sofre todos os dias, para os aeroportos sem estrutura, para o potencial mortal das precárias estradas pelas quais essa gente transita, para a falta de saúde e pelo analfabetismo sistêmico de uma imensidão de gente.

Quem está de fora vê essa gente preparar uma Copa do Mundo para outra “gente” vir e faturar, enquanto os agentes da Fifa, apesar de tudo quererem e quase tudo receberem dessa pobre gente, dizem, sob holofotes, que, nos próximos anos, escolherão nações menos problemáticas do que a construída por essa gente.

É essa gente quem inspira o que a gente faz. O que a gente é. E o que a gente é? Uma gente que é roubada em mais de R$ 1 bilhão de dólares e ainda acha que essa gente merece continuar fazendo de nossa companhia de petróleo um vexame que pouca gente acreditou que seria um dia."
GUIMARÃES, Heron. US$ I bilhão que inspiram gente. O tempo, Belo Horizonte,  29/03/14.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Sob um céu estrelado

      Este espaço, voltado às questões literárias, não abdica por vezes do comentário sobre o cotidiano, em que todos tomamos pé, e seus desdobramentos políticos. Ainda mais quando nuvens de chumbo e escuras nos ameaçam, e nem se tratam de iminentes aguaceiros.
      Em ano de eleição presidencial, os votos são caçados de forma implacável. Ações impensáveis noutra época, algumas beirando o patético, tornam-se rotineiras, no intuito de espalhar uma fumaça enganosa e conquistar a simpatia do eleitorado. O governo e seus tentáculos tentam a todo custo emplacar a reeleição da atual presidente, num cenário árido de realizações efetivas. Como se não bastasse a política assistencialista do Bolsa Família, que em outro ciclo pelo menos manteve uma contrapartida educacional (o Bolsa Escola), multiplicam-se as diligências publicitárias com o fito de uma elite envolvida com a corrupção e incompetência se perpetuar no poder.
      O estado de Minas Gerais, merecedor de um abandono arrogante do atual governo, com prejuízos incalculáveis em infraestrutura, mobilidade social e educação, transforma-se em palco de pirotecnias políticas e fanfarras. Caravanas e comitivas estreladas, portando consabidas caras de bonecos sanguessugas do dinheiro público engravatados, correm o estado de norte a sul. À falta de obras de impacto para inaugurar, como o seriam a reduplicação da 381 (na direção B.Horizonte- Vitória) ou o prometido metrô da capital, assistimos a uma exposição inócua e interesseira de última hora de uma presidente que (segundo consta) teria nascido nestas paragens. Presidente da República participando de formatura de Escola Técnica, sem respaldo de um projeto educacional consistente, e doando retroescavadeira para prefeituras carentes é um espetáculo no mínimo popularesco e risível. 

                                            Imagem drd.com.br

      Como profissional da área da educação e para recompor proventos, durante oito anos fui usuário da Rodovia da Morte, onde pude testemunhar, com dor, o resultado de incúria e descaso dos órgãos federais. Presenciei acidentes e mortes de colegas e alunos, numa estrada perigosa, cheia de curvas em região de grande riqueza mineral, monumentos e significado histórico, além de reservas ecológicas deslumbrantes. Sem referir o peso estratégico e a força da atividade mineradora. Consideram-nos um gado alienado e desprovido de senso crítico. Em melancólico fim de ciclo, sem obras importantes realizadas, a não ser em Cuba e algumas tiranias africanas, com a inflação retornando para assombrar a classe média, na sequência de erros sucessivos na economia, está na hora dessa gente retornar aos sindicatos, de onde nem deveria ter saído.


Escrito em 11/03/2021:

     
O caso Dilma Rousseff. Causa indignação e asco que ainda existam brasileiros que defendem a imagem de determinados políticos. O impedimento, no caso desta presidenta, ficou barato. Ainda não prestou contas dos imensos prejuízos causados ao país por seu governo e atuação na Petrobrás. Tudo em que pôs a mão degringolou. Os Correios, tradicional empresa séria, confiável, usada como suporte financeiro de sua reeleição, perdeu a credibilidade de décadas. A compra da refinaria americana sucateada a peso de ouro está por ser explicada. Os escandalosos subsídios distribuídos pelo Ministério da Cultura a artistas coligados nunca foram sequer justificados. Sem falar na doação de milhões de dólares a republiquetas comandadas por ditadores pseudo-socialistas, como Cuba, Angola, Venezuela, Bolívia. Ela e o parceiro, o demiurgo de Guaranhuns, jamais deveriam ter saído da gruta de Ali Babá.

sábado, 16 de novembro de 2013

Mensalão: o começo do fim

      Ontem, 12 dos 25 réus do Mensalão tiveram a prisão imediata decretada pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e relator do processo, Joaquim Barbosa. Movimento inusitado na Polícia Federal de Belo Horizonte. Maior escândalo de corrupção na história do país nos dias que correm, o caso envolve operações e desvios de dinheiro público para a compra de apoio parlamentar ao primeiro Governo Lula. As penas começam a ser cumpridas.


      Em abril de 2006, o procurador geral da República, Antônio Fernando de Souza, apresentou denúncia ao STF contra 40 acusados, envolvidos no esquema, que já circulava em notícias da imprensa. O procurador referia-se claramente a uma quadrilha que dilapidava os cofres públicos. Ontem, sete anos após a denúncia, os principais condenados foram presos. Graças à imprensa e ao redobrado esforço do relator, o processo encaminha-se para seu desfecho, não sem antes enfrentar tentativas de postergação dentro e fora do STF. Em Belo Horizonte, onde se concentram os condenados ligados ao empresário Marcos Valério, conhecido como operador do esquema, e ao grupo financeiro que deu suporte às transações, a movimentação na sede da Polícia Federal foi grande: sete sentenciados se entregaram. Hoje à tarde um jato da Polícia Federal, trazendo de São Paulo dois condenados (José Dirceu, ex-Chefe da Casa Civil do governo Lula, e José Genoino, ex-presidente do PT) aterrou no aeroporto da Pampulha, recolheu os sete de Minas e rumou para Brasília.  Na capital, passarão pelo Instituto Médico Legal, antes de serem conduzidos para a Penitenciária da Papuda (regime fechado) ou o Presídio Feminino. O julgamento continua no próximo ano, discutindo o crime de quadrilha e outros embargos. Dos 12 condenados com mandados de prisão imediata, um deles, Henrique Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, apenado em regime fechado, fugiu para a Itália: possui dupla cidadania.
      A prisão dos condenados no dia da República é emblemática. A sociedade reconhece o empenho do presidente do STF e espera que as penas sejam cumpridas com rigor. Os jornais mineiros registram a reação do professor Valerí Dornas, que, de moto, em frente à sede da PF, parabenizou a Justiça e a polícia, num megafone: "Eu achava que ia morrer sem ver político indo para a cadeia". Mas precisa ficar claro: são políticos presos, não presos políticos. Aproveitaram-se do poder para roubar dinheiro público, são bandidos, corruptos de  colarinho branco.  Outros, igualmente envolvidos, precisam  ser presos.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Cadê o metrô de Belo Horizonte?

      Há dezesseis anos, publiquei uma crônica com o título "Para amar e trabalhar", em que falava da necessidade de Belo Horizonte ter um metrô condizente com sua posição de metrópole "de melhor qualidade de vida na América do Sul", segundo avaliação da imprensa internacional da época, 1997.  Qualquer hora, divulgo de novo a crônica. Entrou governo, saiu governo e a situação continua quase do mesmo tamanho. Como o primeiro de maio é dia de reivindicar, pergunto: cadê o metrô de Belo Horizonte?
                                               (Imagem www.copa2014.gov.br)
      Sem partidarismo, que os ladinos e corruptos vicejam em todas as legendas. O jogo recente entre a seleção brasileira e a chilena no novo Mineirão escancarou o gargalo no trânsito da capital mineira. Estratégias alternativas, como o BRT, podem amenizar o problema, sem resolvê-lo definitivamente. 
      O que foi feito nos últimos quinze anos?  Um arremedo esdrúxulo de trem urbano, de superfície, que não cobre nem 10% da região metropolitana. O pouco existente foi feito no governo Fernando Henrique, que também duplicou a Fernão Dias, a rodovia que liga Belo Horizonte a São Paulo.
(Imagem da lagoa da Pampulha, com Mineirão  no centro: freneticidade.blogspot.com)

      O que o PT fez por Minas, além de moradias populares? Promessas. Quem viaja pelo país percebe melhorias em algumas regiões, as capitais nordestinas avançaram em alguns aspectos. Ótimo, que deem sequência, o setor de turismo tem ali um imenso potencial. O estado de Minas foi reduzido a produtor de minério de ferro, que gera algum retorno à população local; em algumas cidades mineradoras, a compensação veio em forma de praças de esporte... Quem acompanha a movimentação política sabe que não faltou dinheiro. Sem falar em construção e reformas de estádios, o dinheiro correu solto nos investimentos milionários e doações a países latinos (Cuba, Bolívia, Venezuela), a países africanos (Angola, Moçambique),  nesses casos, através de documentação secreta, por determinação do atual ministro de Desenvolvimento, Ind. e Comércio Exterior, por sinal um mineiro há tempos envolvido em misteriosas palestras que nunca foram feitas.  O dinheiro correu solto no mensalão, em malas e boletos para pagamento de tv a cabo, em cuecas de políticos aloprados, nas comitivas gigantescas em viagens internacionais, com Rosemeires, seguranças e assessores de araque. 
      Eles voltaram a fazer promessas. Quem acredita? 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A lista de escritores que vão a Frankfurt

      Nos meios literários, corre um frisson extemporâneo. Engana-se quem pensa tratar-se de febre coletiva de criação, produtiva véspera de grandes obras. Nada disso. A grande comoção deve-se ao próximo anúncio de uma dilatada lista de autores brasileiros que vão representar o país na Feira Internacional do Livro de Frankfurt, na Alemanha, em outubro.

      A expectativa natural, no entanto, vem embrulhada, salvo raras exceções, em explícitos apoios políticos ao governo petista, há dez longos anos mandando e desmandando no Planalto.Nada é perfeito. Colaborei para isso, pelo menos nos quatro primeiros anos, votando em 2002 nos companheiros. Várias caravanas de escritores visitarão algumas cidades da Alemanha, custeados pelo governo, divulgando a nossa literatura. Até aí, tudo bem, desde que os critérios fossem iguais para todos, observados os méritos, esses inquestionáveis.
      Como se não bastasse o aparelhamento político nas empresas estatais, a política instalou-se, há muito e com forte colorido rubro, nas agências culturais: os últimos editais foram direcionados para os afro descendentes, os favorecidos em geral são nomes comprometidos com os interesses dos poderosos de plantão. Há muito não se observa o princípio da meritocraria ou a noção republicana de igualdade de condições. Nas redes sociais, nunca se viu tanto tititi sobre a tal lista, todos torcendo pelos amigos e aplaudindo as bravatas e maracutaias de Brasília. Chega a ser nauseante ouvir na TV autores de obras frágeis, especializados em croniquetas escritas em estilo descolado frívolo shopping center, se posicionarem ideologicamente. Engajamento ultrapassado, anos 60, argghhhh... Na semana passada, a blogueira cubana foi alvo de intoleráveis atos de fanatismo. Sem comentário, tentaram silenciá-la, aos gritos! O nome disso é fascismo. 
      A se observar o andar da carruagem, as questões do último ENEM, as pressões veladas nas últimas premiações, o legado dos quadros envolvidos na elaboração da lista, é de se esperar tudo. Quando os critérios deixam de levar em conta o trabalho de qualidade produzido, outros passam a prevalecer, tais como: exposição na mídia, contrapartida política, engajamento social tendente ao panfleto, e por aí vai.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Contabilidade enganosa

      Não deixa de surpreender o editorial de hoje da Folha de São Paulo, um dos jornais com maior número de jornalistas simpatizantes do PT por metro quadrado. A cobertura do mensalão está aí para provar: apesar de se pretender abrangente e neutra, abriu espaço excessivo para críticas ao processo.  Enquanto o material jornalístico tendia para a isenção, os analistas políticos (Jânio de Freitas, Marcelo Coelho, os dois Singer, Safatle, entre outros) não perdoavam o que eles consideravam um azedume do STF contra as impávidas figuras do partido envolvidas no desvio de verbas públicas. Enquanto era quase uníssona a indignação da sociedade diante dos crimes praticados contra a democracia, os analistas políticos da FSP tinham a desfaçatez de falar em dignidade dos réus. Foi quando o Ministro Luiz Fux referiu a necessidade de se atentar para a dignidade da vítima, em última instância, toda a sociedade brasileira. Desse Ministro, aliás, ficou famosa a passagem em que trouxe à reflexão a possibilidade de um filho suspeito dirigir-se ao pai. Duas seriam as possíveis reações: 1. Pai, eu não fiz esse malfeito; 2. Pai, não há provas contra mim. O debate sobre a existência de uma sofisticada quadrilha a dilapidar o patrimônio público norteou várias sessões do STF.
      Com este julgamento, apesar dos percalços e tentativas de desacreditá-lo, a Justiça voltou a merecer crédito das pessoas honestas. Os simpatizantes da absolvição dos envolvidos (isso na imprensa era visível) não adotavam ideias claras, mas uma argumentação dúbia, ambígua, criticando um aparte aqui, outro destempero ali.

                                               ( Imagem, quemevivo.blogspot.com.)
     
       Mas voltemos ao editorial de hoje da FSP. Atualiza o adágio segundo o qual é preciso dar uma batida no cravo e outra na ferradura. O ano começa com a notícia de que o governo Dilma fez manobras para amenizar o impacto negativo das contas. Isto está em todos os jornais. Ontem, o caderno "Mercado" do periódico trazia matéria de página inteira, sob o título: "Governo usa o fundo soberano para engordar superavit de 2012". O mesmo caderno hoje circula com artigo "Manobras fiscais aumentam aposta de inflação elevada". Para o cidadão comum, a coisa é vista como maquiagem. Empresas do governo (BNDES, Petrobrás, CEF) amortizam entre si os prejuízos e simultaneamente absorvem o excesso do fiasco econômico. E ainda se tem o desplante de chamar a isso de contabilidade criativa. Nenhum outro artigo tem a luminosa e mediterrânea clareza do editorial de hoje. O título é "Descrédito". A seguir, o início e o final. O acompanhamento dos números (19 bilhões a menos no  final vexatório), só com leitura integral.


      "O governo Dilma Rousseff coloca em risco um patrimônio da política econômica brasileira conquistado a duras penas ao longo de quase duas décadas. Trata-se da confiança dos agentes privados nas ações e nos compromissos assumidos pelas autoridades.
      A manobra contábil, nos últimos dias de 2012, para maquiar o fiasco na meta de poupança pública - o chamado superavit primário - é decerto o golpe mais ostensivo na credibilidade do governo. Coroa uma série de atitudes voluntariosas que puseram em segundo plano a perseguição de objetivos centrais da política econômica.
      (...)
      Tanta criatividade contábil, embutida numa teia de decretos feitos para não criar alarde, foi inútil para o objetivo original do superavit primário - economizar despesas do governo. O setor público não poupou um tostão com isso.
      A incapacidade de controlar os gastos de acordo com o pactuado na lei orçamentária já seria um fator de desgaste para a confiança no governo. Mas a tentativa de enganar o público com toscos malabarismos fiscais vai cobrar um preço ainda mais elevado."

      Editorial. Descrédito. Folha de São Paulo. São Paulo, p.A2, 05 jan.2013.   
   

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Minas, Cuba e corrupção

     
       A foto de Havana é de Pedro Serra.
     O noticiário político não é prioridade nossa. Intromete-se às vezes, por contingência do cotidiano, em forma de comentário. A recente viagem da presidente Dilma a Cuba, com o aporte de mais de 600 milhões para as obras do porto de Mariel, gerou opiniões abonadoras e contrárias. Todas devem circular, por conta da democracia. Não é pequena a indignação de parte dos brasileiros, acrescida quando ficam evidentes os sinais de carência e penúria dos serviços de saúde e segurança oferecidos no solo da pátria "mãe gentil". (O risco de usar esta expressão é a rima, interposta, que a acompanha, a tiracolo). Na última semana, morreu um recém-nascido em Itabirito, cidade próxima à capital mineira, por falta de leitos em UTI. Seria ocioso enumerar outros casos.
      Mais uma vez vigorou o interesse ideológico em ajudar um regime totalitário que se arrasta por 53 anos, no caso uma ditadura que substituiu outra através de uma revolução sanguinária, divulgada à época por um viés charmoso e romântico, mas que não resistiu ao imobilismo e incompetência. Naufragou à deriva, após o colapso da Rússia, perdeu o rumo da História. O mundo não esquece os milhares de perseguidos e mortos, em especial os intelectuais e gays cubanos, entre 1959 e 1970. O Itamarati, de notável atuação no passado e respeitado por posicionamentos calcados em autonomia e solidariedade, mostra-se combalido, ao se prestar ao intento de cimentar mais uma liderança de alcance internacional. Faltam aqui hospitais decentes, a segurança pública é uma fraude, os ministérios são inócuas organizações de apoio fisiológico ao governo, a despeito de generalizada corrupção e o sentido de federação ter sido extirpado por interesses escusos. Na última semana caiu o sétimo ministro por denúncia de atos ilícitos, ainda há casos a serem apurados. Mais uma vez o imposto pago pelo brasileiro tem uma destinação política, para embrulhar uma patuscada ridícula de firulas diplomáticas. Seria o modelo Tiririca se alastrando?  Já vimos à saturação esse filme.
     E Minas, o que tem a ver com isso? A discriminação a projetos de desenvolvimento e proteção contra enchentes em Minas é a contrapartida do governo aos milhões de votos que decidiram a eleição da presidente que afirma ter nascido em solo mineiro... As verbas para estradas em Alagoas ultrapassam em muito as destinadas a Minas, território mais extenso e habitado. Tudo isso acontece à luz do dia, às barbas de uma oposição desfibrada, quase complacente. Não se ignoram as conquistas no plano social e econômico, elas devem prosseguir. Que muitos perderam o sentido da probidade com a coisa pública, não há dúvida e haja verniz para lustrar a carraspana.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Se gritar pega ladrão


Todos conhecem a sequência da marchinha: não fica um, meu irmão. A desmoralização da classe política parece não ter fim. Poucos se salvam. A imprensa mais uma vez tem cumprido o seu papel de investigar e divulgar a farra da corrupção e do descaso com o dinheiro público. Só no Ministério dos Transportes já são vinte os demitidos, por envolvimento com esquemas de desvio de verbas e cobrança de propinas. Dos mais graúdos para baixo, em escala decrescente. Como se não bastassem as denúncias em torno de outros ministros, como Aluísio Mercadante, Orlando Silva, Ana de Holanda e Fernando Hadad. Demorou a queda de Palocci, agora cai Alfredo Nascimento. Algum resíduo de ética parece ter vindo à tona. A malta estava montada em pontos estratégicos, no comando da indústria de aditivos e favorecimento entre amigos e partidários há pelo menos oito anos, ou seja, desde o famigerado governo Lula, que não sabia de nada. Quando me exponho em assuntos políticos, fica parecendo que tenho ligações partidárias. Talvez fosse razoável dizer que, há oito anos, votei no PT. Afastei-me indignado à época do escândalo do mensalão, lá por volta de 2006. Todos esses vinte nomes e sobrenomes sonantes foram ratificados pelo atual governo, fazem parte dos apoios e alianças torpes que o sustentam. Esses políticos recebem uma fortuna em salários e mordomia e não se contentam, envolvem-se até o pescoço em negociatas e maracutaias, jamais estão satisfeitos. Mais lama está por vir.

O país se vê atingido covardemente por aqueles que deveriam zelar pela lisura e honestidade no trato com o dinheiro dos impostos. Não sobra verba para escolas, segurança, estradas, hospitais, creches, combate às drogas. A cultura da corrupção deita garras afiadas por todos os lados. E ainda querem tocar as obras da Copa debaixo do pano... Os estudantes estão apáticos, a UNE e os sindicatos foram silenciados com benesses. Se gritar pega ladrão...