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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Rodrigo Lacerda


Livro do mês:

      A república das abelhas


      Carlos Lacerda (1914-1977) ocupa, na história do Brasil dos anos 1930 a 1960, um papel importante, um lugar incontornável no complexo xadrez político. Sua atuação como tribuno corajoso e destemido, capaz de aglutinar forças contrárias a Getúlio Vargas, já seria um feito grandioso. Para muitos, sua luta por transparência e democracia, em tempos de presidencialismo exacerbado, com sinais de corrupção, estaria na origem do desfecho trágico assumido por Getúlio, ao se matar em 24 de outubro de 1956. A capacidade de enfrentar a corrente, correndo riscos extremos, sem desistir ou abandonar os princípios nos quais acreditava, transparece no perfil acalorado, esboçado por Rodrigo Lacerda, neste admirável romance histórico, A república das abelhas. A carreira do controvertido homem público, presença marcante do debate político da época, está na base do perfil densamente abordado pelo narrador  póstumo, em primeira pessoa, o próprio Carlos Lacerda. O título refere o frenesi em torno da colmeia, metáfora sobre os vários grupos lutando pelo poder na primeira metade do século. 


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      Um dos pontos altos - infelizmente, reduzido, num tijolo de 515 páginas - constitui o capítulo "Bananas e matemáticas". O tema aí restringe-se à sumária aproximação entre o jovem Carlos Lacerda e o poeta paulista Mário de Andrade. O tom adotado, irônico, sutil e metafórico, perpassa todo o episódio; reporta-se aos anos 1938-1941, que correspondem ao exílio carioca de Mário de Andrade, após ser demitido, em 1937, do Departamento de Cultura da prefeitura de São Paulo. Muitos historiadores assinalam o efeito destruidor, pessimista, deste período na atuação do autor de Pauliceia desvairada. Afirma o narrador: "Durante esses poucos anos, o tom descontraído da sociabilidade lhe fez bem. Apesar de ser vinte anos mais velho que nós, o Mário gostava de conviver com os mais jovens, então eu e meus colegas de certa forma o adotamos, ou fomos adotados por ele" (LACERDA, 2013, 355-256). Nas conversas, o assunto delineia-se em torno da função social da arte, o compromisso social do escritor. Mário lhe confessa a turbulência que envolveu a escrita do poema "O carro da miséria", reformulado em três momentos posteriores. Lacerda registra as contradições em que se movimentava: apesar de comunista, colaborava em revistas financiadas pelo capitalismo (Diretrizes, bancada pela Light): justifica-se afirmando que precisava sobreviver, com filhos para criar -"bananas" denota alimento; "matemáticas" corrobora finanças. Quando associa o conceito de felicidade ao de justiça, Mário de Andrade retruca de forma irônica: "Mas onde está a justiça? A Justiça é uma velha ceguinha, que inscreve na sua militaríssima ordem do dia: 'Hoje todos terão de gostar de matemáticas com bananas'. A arbitrariedade de qualquer noção de justiça humana é fatal, estou convencido de que é fatal" (LACERDA, 2013, 357). O narrador transcreve um diálogo com Mário de Andrade. O político defende que a a arte deve ter uma função social.  Para Mário, a função social deveria decorrer do fato de a arte ("manifestação extrema da inteligência")  proceder de um ser humano: 
      "O que eu quero, o que eu amo, o que eu não renego, é a sublime safadeza da inteligência humana. O despudor, a mentira, o pragmatismo da arte. Ao supremo blefe, a justiça, não será apenas melhor o jardinzinho de cada um, aquilo em que somos um: o indivíduo?"
      "Isso iria acaber com o papel social da arte. Ela teria tanta importância quanto uma laranja podre na feira". 
      "Não me interessa o laranjismo da arte, mas a humanidade da arte. Aquilo em que ela não é nem Rilke nem matemáticas, não é champanhe nem bananas, mas simplesmente tudo isso. Um direito, um exercício de todos nós". 
      "Claro que a arte é um direito!"
      "Sim, mas não no sentido político. A arte é simplesmente humana. Respirar é uma necessidade, como o exercício cotidiano da arte. É uma harmonia do ser. Não importa que os outros fiquem sendo os Camões e os Shakespeares. Ninguém deixa de respirar só porque não tem tromba de elegante" (LACERDA, 2013, 357-358).
      A ficcionalização da vida inflamada do político termina antes de 1954, antes que a luta contra Juscelino Kubitschek e Goulart viesse à tona com veemência. Ficam fora duas passagens da vida de Carlos Lacerda: a atuação como governador da Guanabara (1960-1965) e sua ligação com o golpe militar de 1964.  

                                                    (Rodrigo Lacerda: oglobo.globo.com)


LACERDA, Rodrigo. A república das abelhas. São Paulo: Companhia das letras, 2013.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Lino de Albergaria

Livro do mês:

            Lino de Albergaria tornou-se conhecido na década de 80 como autor de livros infanto-juvenis, com mais de meia centena de títulos publicados na área. Mais recentemente tem-se dedicado à ficção para adultos, tendo relançado, pela Scriptum, novas edições de Em nome do filho e A estação das chuvas, além de novos títulos, Os 31 dias e Um bailarino holandês. Deste último me ocupo por ora.


            Trata-se de um romance urbano, direcionado de forma emblemática a aspectos inerentes às artes. Literatura, dança, teatro, fotografia, pintura, música, cinema e arquitetura fornecem elementos condicionantes que se misturam com harmonia na narrativa. Concentração de foco. Cenário minimalista, reduzido ao essencial. Um vendedor de livros aproxima-se de um cliente, um fotógrafo em passagem acidental pela livraria, interessado em comprar ingresso para um espetáculo de dança. Antes, revela-se um ávido e atento leitor. O resultado é um confronto sutil, na esteira de um jogo de sedução, em que olhares, gestos vão se adensando e intensificando. As referências aventadas privilegiam um refinado universo artístico, povoado de conotações que recobrem um multifacetado mosaico de citações e contextos culturais. À medida que os jogos de aproximação se sucedem, alargam-se os reflexos de um instigante caleidoscópio de ressonâncias afetivas e eróticas. Os lances da mútua descoberta justapõem-se como etapas constitutivas e especulares do processo da escrita e da leitura. O cenário exterior – espaços situados no prédio do Palácio das Artes, em Belo Horizonte – oferece substrato ao desafiante processo de conhecimento e aproximação de dois homens. No anonimato do caminho de cada um não há lugar para assomos de posse e usurpação.
A estrutura narrativa opera em blocos pendulares, em que dois narradores vão construindo um arcabouço em ziguezague, cujas sendas terminam por se entrelaçar.  Límpida e despojada, a linguagem sabe tirar proveito de imagens e tomadas sugestivas.  



ABERGARIA, Lino de. Um bailarino holandês. Belo Horizonte: Scriptum, 2015.


           

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Adriana Lisboa

Livro do mês:  Azul-corvo 


      Adriana Lisboa, carioca nascida em 1970, pertence à nova geração de ficcionistas brasileiros; detém, entre outros, os prêmios José Saramago e Moinho Santista. Doutora em literatura comparada pela UERJ, tradutora, publicou os romances Os fios da memória (1999), Sinfonia em branco (2001), considerado sua revelação, pelo qual ganhou o Prêmio Saramago, Um beijo de colombina (2003) e Rakushisha (2007). Tem livros editados em Portugal, França, Estados Unidos, Itália, México, Argentina e Suécia.
      Azul-corvo dá continuidade ao exercício de desconstrução dos modelos do romance naturalista, com ênfase na temática da violência, prática usual na ficção brasileira do século XX. A trama é construída  de forma multifacetada, numa mescla de discursos, em torno de Evangelina, a garota Vanja de treze anos, que resolve, após a morte da mãe, voltar para os EUA, onde nasceu, movida pelo interesse de conhecer o pai. Acolhida por Fernando, ex-marido de sua mãe, aproxima-se de um garoto salvadorenho, Carlos. De posse de informações colhidas na internet, empreendem os três uma viagem pela América, pretexto para novos contato e descobertas insólitas. Enquanto as pessoas resgatam lembranças, que envolvem lugares e relacionamentos, Fernando, o ex-guerrilheiro Chico, traz à tona o passado recente do Brasil, ao resgatar sua participação na guerrilha do Araguaia. Entrecruzam-se, no tecido ficcional, as memórias de sujeitos em busca da própria identidade e as memórias de lutas políticas, entremeadas de nomes trocados e violência, ainda que um tanto requentadas.
                                                     (Foto do blog Dedo de moça)

      "Quando penso em Fernando hoje, nove anos passados desde aquelas minhas primeiras semanas em Lakewood, me lembro dos braços dele. Era ali que devia morar o Fernando de fato, sua alma, sua personalidade. Os braços que eram somente uma força hipotética durante as horas diárias como segurança na biblioteca pública de Denver, unhas do gato dentro das patas do gato. Os braços que eu tantas vezes vi tirando as marcas dos vidros e o pó das superfícies e o lixo do chão alheio. Os braços que um dia se crisparam com o peso de uma arma - não sei qual o peso de uma arma, não sei qual o peso que se acrescenta a uma arma ou se subtrai dela dependendo do propósito com que ela se empunha. Os braços que eu sabia terem dado a volta no corpo da minha mãe, 360 graus (o amor, arma branca, arma que desarma) e, no corpo daquela outra mulher anterior à minha mãe e a Londres e ao Novo México e ao Colorado". (LISBOA, 2010, 98)


      Em termos ficcionais, são reelaborados ingredientes típicos do discurso da imigração, questões ligadas às trocas culturais, aos signos linguísticos, costumes e miscigenação. Ao decidir levar como acompanhante no périplo em busca de suas raízes o amigo Carlos, numa viagem que representa um mergulho na cultura hispânica no território americano, Vanja lhe possibilita repensar a construção da identidade, até certo ponto desprezada pelos pais do garoto, que viviam se babando pelos costumes ianques. O relato-valise, ao qual se agregam elementos díspares, como bagatelas relacionais e lutas políticas, revela-se um elástico mosaico pós-moderno, ao qual vão se colando, como fita adesiva, variados fragmentos. Procede daí, por vezes, um andamento de contínuas voltas ao passado e uma narrativa arrastada, incorporadora, desfibrada, multinacional, turística, cultural, sem deixar de ser orgânica, detalhista, engajada, que avança sem dificuldade, segundo a metáfora do "smooth sailing, e se revela melancólica, instrutiva, elegante. A linguagem refinada, artificial, beirando a certo preciosismo estilístico, como forma de sustentar um ritmo frouxo, é um traço reconhecido pela crítica. 

      "Não se coloca em questão a competência artesanal e a densidade descritiva do trabalho de Lisboa, até de sofisticação no domínio da linguagem, mas falta espontaneidade e algum fulgor do imediato e de algo que surpreenda e possa desarmar a mão segura da estilista. Neste sentido, aquilo que aparenta sensibilidade e simplicidade feminina muitas vezes chega ao leitor como um bordado domesticado, no limite da saturação e do exagero," (SCHOLLHAMMER, 2009, 136).

      Pelo recorte peculiar, qual seja o de delegar a uma adolescente o foco narrativo, resulta um olhar menos contaminado por juízos racionais, mais livre e ingênuo para apreender o outro e a diferença. Num relato em que a temática da imigração ocorre não por motivos econômicos, que impele a saída do solo pátrio em busca de oportunidades, mas por razões afetivas. Um subsídio produtivo, para operacionalizar os conceitos de identidade, tradução cultural e entre-lugar.

LISBOA, Adriana. Azul-corvo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.
SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Ficção brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2009.
   

domingo, 30 de setembro de 2012

Autran Dourado (1926-2012)

      A bruxa anda mesmo à solta. A Indesejada das gentes fugiu do poema de Bandeira e vai ceifando vítimas. Morreu hoje no Rio de Janeiro, onde morava desde o ano de 1954, o romancista mineiro Autran Dourado. Autor de meia dúzia de romances fundamentais para a literatura brasileira, traduzido para o inglês, alemão, francês, espanhol, norueguês, integra, com o romance Ópera dos mortos, a Coleção de obras representativas, da UNESCO. Nascido em Patos (MG), passou a residir desde o primeiro mês de vida no sul de Minas, nas cidades de Monte Santo e São Sebastião do Paraíso, por conta da transferência do pai, juiz de direito. Publicou, dentre outros, os romances Sombra e exílio (1950), A barca dos homens (1961), Uma vida em segredo (1964), Ópera dos mortos (1967), O risco do bordado (1970), Os sinos da agonia (1974), Novelário de Donga Novais (1978), Lucas Procópio (1984) e Ópera dos fantoches (1994). Revela-se notável contista em Nove histórias em grupos de três (1957) e discute a teoria ficcional em Uma poética do romance: matéria de carpintaria (1976).  Os maiores prêmios: Machado de Assis (2008, ABL) e o Luís de Camões (2000, governos do Brasil e Portugal). 

                                              (Foto de Ana Carolina Fernandes/Folhapress)
      A obra de Autran Dourado, intrigante e elaborada com sofisticados recursos técnicos, tem gerado diversos estudos, no país e no exterior. Até 1996, quando Eneida Maria de Souza organizou o volume Autran Dourado, para a Coleção "Encontro com Escritores Mineiros", havia, no âmbito acadêmico, 28 dissertações e teses de doutorado nela centradas, sendo duas na França e uma na Alemanha. Em depoimento transcrito no livro referido, o autor manifesta preferência pelo breve e delicado relato da vida de Biela:
      "Um livro que me toca particularmente em toda a minha obra é quase que uma elegia. Se eu fosse poeta teria feito do tema e da história desse livro uma elegia. É o filho de quem mais gosto - Uma vida em segredo. Tenho por ele muita ternura, pois escrito em tom menor, num tom mais intimista. Eu não posso comparar Uma vida em segredo com Os sinos da agonia, que é um romance polifônico, para usar a terminologia de Bakhtin". (SOUZA, 1996, p.42-43)

      Seus romances podem ser analisados sob a perspectiva do conhecimento da história de Minas Gerais e da sábia fusão de traços populares e eruditos. A decadência da sociedade mineira é descrita através de uma memória prodigiosa, incapaz de se desvencilhar de um passado que insiste em se insinuar no presente através de detalhes desbotados e indícios de ruína. Nas palavras de Eduardo Portela: "Autran Dourado é um cronista requintado da decadência rural. De um Brasil que será cada vez mais 'um retrato na parede'. Mas um cronista que perdurará, porque redimido pela dimensão estética". (SOUZA, 1996, p. 105-106)  Um narrador astuto, o disfarce autoral, personagens atormentadas, reflexões sobre os bastidores da escrita e os recuos no tempo são elementos em geral presentes em seus relatos.

SOUZA, Eneida Maria de. Autran Dourado. Belo Horizonte: Centro de Estudos literários da UFMG; Curso de Pós-Graduação em Letras-Estudos Literários, 1996. 114 p.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

João Baptista Santiago Sobrinho

Livro do mês:

      Alguns livros instalam-se como artefatos estranhos ou herméticos, não alinhando-se às convenções do gênero. É o caso de Nimuendaju, pesado volume de 365 páginas, de autoria de João Baptista S. Sobrinho, sobre o qual nada se escreveu, relegado ao olvido imerecido. De forte impregnação regional, elaborado em linguagem retorcida e marcada por um epigonismo em relação ao legado de Guimarães Rosa, o romance beira as dimensões do realismo mágico, de mistura a ingredientes grotescos e burlescos. A influência linguística de Rosa, excessiva e um tanto despropositada, parece decorrer de admiração exacerbada pelo mestre de Cordisburgo: o acadêmico João Baptista assina diversos ensaios sobre temas rosianos. Assume, no livro enfocado, um estatuto de narrador ungido para criar uma nova linguagem, secundado por processos arcaicos ou de aglutinação, no encalço de corruptelas facilmente assimiláveis por conta do dialeto regional. Assim, o leitor depara-se a cada parágrafo com expressões saborosas, algumas obscuras, procedentes dos veios arcaizantes ou de neologismos, tais como: desgrenho, laravinto, polvorinho, fumaça de bironhas, amento, carirrostras caretas, escarabéus, gurugunha, esbodega, engriguilho, poça sanguina, coisa cavernuda, caruara. Não obstante a roupagem exuberante, não se pode negar a força de um escritor nato, consciente de sua prosódia, mas que acredita no seu ofício. A crença no poder transfigurador da linguagem, a urgência de uma palavra nova, a reprodução fonética do falar caipira e de fórmulas mágicas de cura constituem uma contribuição positiva. 


      "Não deve o leitor ser delicado à maneira dos tintins. Dois dedos não são boas pinças. Antes ver curto, em cutiladas. Danificando. Pra esfúrdia fazer sentido, dê o tapa. Escrever é um crime de amor, combina-se pelas costas, com aquilo que vem munho de redemunhos. Os mundos, quaisquer, se inventam, malgrado os quereres das pessoas, revezes doidos, assim, por sugestões, sei lá onde. Existirão forças que agulham tricotando tricas? (p.44)"
      Os casos narrados envolvem uma multifacetada galeria de tipos e seres exóticos, virgens desvairadas, trancadas em quartos escuros, padres que divulgam os pecados dos fiéis, curandeiros alucinados, poetas delirantes, iluminados dervixes, frades obstinados, pseudo cientistas aloprados, filólogos provincianos, lazarentos abandonados, coronéis abastados e violentos, prostitutas arrependidas, toda uma curiosa comunidade desvalida e possessa, a escória sebenta do sertão primitivo. No limite destrambelhado entre a loucura e a normalidade. 
      Se a unidade no plano linguístico é alcançada, o mesmo não se pode afirmar do arcabouço diegético. Codificado em registro indígena, o título Nimuendaju, cuja tradução seria aquele que faz o próprio caminho, apesar da amplitude sugestiva, revela-se insuficiente para outorgar uma unidade temática às várias histórias. Seria interessante rever o autor, criador de expressivas descrições, em outro momento, livre das peias e empréstimos rosianos.

SANTIAGO SOBRINHO, João Baptista. Nimuendaju. Belo Horizonte: O lutador, 2004.

domingo, 6 de maio de 2012

Julián Fuks

Livro do mês

      
      Em Histórias de literatura e cegueira, Julián Fuks dispõe-se a contar cegueiras, a impossibilidade de ver folhas caindo ao chão. Não a cegueira em geral, os cegos anônimos. Mas, sim, as histórias relacionadas a três escritores que ficaram cegos: o argentino Jorge Luís Borges, o brasileiro João Cabral de Melo Neto, o irlandês James Joyce. No "Prólogo necessário", peça de inegável feição borgeana, adverte que não se intimida diante de recursos típicos de pirataria literária: "convém que prescindamos um pouco do caráter absoluto das autorias, e que possamos dar algum valor, por menor que seja, ao autor-plagiador". E ainda complementa: "falo daquele que - nos entremeios das histórias que reconstitui, adapta ou inventa - adota as soluções daqueles que admira, pois sabe que sua narrativa imprecisa e cambaleante jamais as encontraria".
      Exercício de biografia fragmentada, o trabalho resulta em densa reflexão sobre os mistérios da arte, as fronteiras da duplicidade, as margens invisíveis dos domínios do eu e do outro, os planos de intersecção entre realidade e ficção. Ainda que inteiriços e autônomos, os relatos comportam a possibilidade de duas leituras entrelaçadas: a do leitor comum e a do leitor crítico. A este último, não ficam despercebidos os diálogos e envios intertextuais, subjacentes na elaboração das narrativas. Nos dois casos, leituras proveitosas e agradáveis, como se o livro se assemelhasse às bonecas russas, aquelas que trazem  uma réplica no seu interior. Além do conhecimento da obra do autores, acrescido da fidelidade ao estilo e motivos abordados, o resultado final denota leitura e análise de seus biógrafos e glosadores, atenta e detalhadamente referidos, em postura ética nem sempre observada. Ainda que sensível à diversidade e liberdade do enfoque ensaístico, a opção pelo enquadramento ficcional se faz com expressiva desenvoltura, nos três recortes.
       Alguns detalhes do cotidiano têm o condão de iluminar aspectos da obra, como pode ocorrer também o inverso. A dimensão fantástica, a ideia de circularidade, a criação de um universo alternativo que aposta na duplicidade ressurgem na recriação dos últimos dias de Borges, num hotel de Genebra. O diálogo de João Cabral com a cultura espanhola será decisivo para a compreensão do impacto pungente da cegueira vivenciada nos últimos sete anos do poeta, atento ao elemento concreto e visual e que desdenhava o excesso de abstração da cultura nacional. Para o poeta que afirma que "poema é coisa de ver", a cegueira é uma devastação definitiva - "não ver mais o "verde ácido das plantas de cana". O que poderia ser metáfora da falta de conexão plena com a realidade, a redução da visão, decorrente de cirurgias de olho a que Joyce se submete, acaba por desenvolver um efeito inesperado, num discurso erudito, caprichoso e delirante, capaz de captar "as mil complexidades da mente" e o sentido dos gestos triviais.

FUKS, Julián. Histórias de literatura e cegueira. Rio de Janeiro: Record, 2007.
   

segunda-feira, 5 de março de 2012

Antonio Olinto

Livro do mês: Sangue na floresta

       Poeta, crítico literário e romancista, Antônio Olinto nasceu em Ubá, Minas Gerais, em 1919 e morreu no Rio de Janeiro em 2009.  Manteve durante vinte e cinco anos a coluna "Porta de livraria", de crítica literária, no jornal O Globo. Ocupou a cadeira 8 na Academia Brasileira de Letras. Criou na década de 60 do século passado o Prêmio Nacional Walmap, que revelou talentos como Oswaldo França Júnior, Assis Brasil, Alina Paim, Benito Barreto, Garcia de Paiva, Aguinaldo Silva, Gerardo Melo Mourão, Myrtes Campelo. Conforme revelou, deve aos estudos em seminário católico (Campos, Belo Horizonte), quando pretendia ser padre, o amor pelas palavras e a "sensação de nunca mais poder desejar algo maior". Em seu currículo consta ainda a diversificada carreira como conferencista internacional (Estados Unidos, França, Suécia, Portugal e vários países de África), tendo proferido em torno de 150 conferências e a atuação como adido cultural em embaixadas brasileiras (na Nigéria e na Inglaterra).  O conhecimento da terra e dos costumes do povo africano foi a base para a elaboração de seu primeiro e mais importante romance, A casa da água, lançado em 1969, acolhido com boa fortuna crítica, traduzido para o francês, inglês, italiano, búlgaro, sueco e polonês, que o projetou como um dos grandes ficcionistas brasileiros. Movimentando mais de cem personagens, a intriga estende-se por dois continentes, focada na saga de uma família de negros nascidos em Minas que vai em busca de suas origens africanas. Sua produção ficcional engloba em torno de dez títulos, entre os quais O rei de Keto, O trono de vidro,  Copacabana, Os móveis da bailarina, Tempo de palhaço. De sua atividade como crítico literário ficaram dois livros marcantes, Cadernos de crítica (1959) e A verdade da ficção (1966). Foi um dos derradeiros críticos de rodapé, acompanhando no calor dos lançamentos a efervescência cultural de quase três décadas, em comentários obstinados, veementes, às vezes corrosivos, mas densos em informação literária e fundamentação filosófica. Egresso de severa formação tomista, não se intimidava diante de nomes consagrados, dando corda a um ou outro argumento afoito: lamenta, ao apreciar a liderança católica de Alceu Amoroso Lima, a "maneira encastelada" do autor de Idade, sexo e tempo, pouco envolvido com o cotidiano dos homens.  



      Sangue na floresta, lançado em 1992, reflete o ambiente favorável à reflexão sobre os temas ligados à ecologia e a notoriedade da exploração do ouro em Serra Pelada. O pequeno leque de ações e o incontornável primarismo das relações humanas, aliados à natureza selvagem do norte do Brasil, assumem proporções míticas, recriando um cenário de dimensões bíblicas. A intenção alegórica voltada ao interior subdesenvolvido do país com sua miséria e problemas estruturais sobejamente conhecidos impõe-se de forma impactante. Em torno de padre Antônio, forma-se na floresta amazônica uma comunidade de pessoas simples, a Clareira, desprovida de ambição financeira, mas onde vigora forte sentimento de liberdade. A princípio formada por índios, garimpeiros, ex-prostitutas, estrangeiros e ex-guerrilheiros, a aldeia cresce, com a chegada de pessoas que desequilibram os princípios de solidariedade e harmonia. Antes pacífica, a aldeia passa a viver com homicídios e conflitos que atingem dimensão internacional. O desenlace da trama é previsível: do nada surge alguém que se proclama proprietário da terra (um grileiro), exigindo a desocupação da área. Os problemas acirram-se na medida em que os aparelhos repressivos do Estado se instalam na região. Esta a denúncia da obra: a devastação da natureza e dos direitos fundamentais ao ser humano, promovida pelo terror do Estado. O reduto mantém-se livre e à margem da corrupção até que um juiz distante e sem rosto determina a instalação em seu núcleo de uma delegacia policial, com aparato militar e repressivo.
      O reduto do padre Antônio passa a ser encarado como réplica da aldeia de outro fanático religioso, o Conselheiro, também Antônio, que chefiou a resistência de Canudos. As semelhanças são evidentes: o fanatismo religioso, a ideia e vivência de liberdade, o isolamento, a ausência do Estado. O padre muda o tom de sua fala: "Meus queridos irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo. Nossa comunidade passou a ter uma subdelegacia. E uma cadeia. Se isto nos transforma em povoado oficial, reconhecido pelas autoridades do país, o que em princípio seria bom, por outro lado perdemos nossa liberdade, que era total, de agir, de trabalhar, de pensar, de rezar. Somos agora uma população vigiada" (OLINTO, 1992, p.118).
       No caso, os aparelhos estatais carregam consigo o paradoxo do extermínio, vinculado à pretensão de organização totalitária. A ficção mais uma vez reinventa direitos e experiências perdidos pela instalação da opressão institucionalizada. Seu alcance ético não abandona sua autonomia temática, mesmo quando subentende analogias estruturantes. "A cor da terra mudava, as árvores diminuíam de tamanho, o sol enchia o mundo, de repente o grupo se deteve para ver um aglomerado colorido e irregualar de casas, letreiros, fachadas verdes, janelas amarelas, pneus velhos jogados no chão, crianças correndo, poças dágua no meio da rua, gritos, mulheres com latas na cabeça, uma jovem índia, calça mínima e um pano amarrado sobre os seios, berrava com três meninos, um homem de chapéu de couro tentava puxar um burro que parecia empacado, de um bar cheio de gente um rádio posto no tom mais alto dava notícias" (OLINTO, 1992, p.73). Em relato linear, ritmo rápido, linguagem simples e rasa, cresce a habilidade técnica em agrupar blocos narrativos que engendram o avanço determinado pelas circunstâncias e eventos. O presente mistura-se, na mente de Antônio, a imagens obsessivas do passado em que frequentava o Seminário de Campos, no estado do Rio de Janeiro. Além do contraponto com a tragédia de Canudos, alguns elementos autobiográficos insinuam-se, se convocamos a informação da "nota da Editora", José Olympio, ao livro Cadernos de crítica: Antônio Olinto escreveu, no decurso de 1933, um Diário do seminário, relato da vida da comunidade, feito cada ano por um aluno. O padre Antônio não foi ordenado segundo as normas da Igreja, mas consegue convencer os moradores da Clareira: numa celebração da Paixão de Cristo, deixa-se pregar nas mãos com pregos reais. Mais uma grande realização ficcional de Antônio Olinto. Se algum senão existe, corre por conta da persistência de um discurso excessivamente homogêneo na condução da trama, repetem-se ocorrências e lances que são retomados na igrejinha, através do posicionamento e reza do religioso.

OLINTO, Antonio. Cadernos de crítica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.
______. Sangue na floresta. Rio de Janeiro: Nórdica, 1992.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Lúcio Cardoso

    Livro do mês: Dias perdidos

      Grandes obras, aquelas que ficam ressoando para sempre em nós, assustam-nos, quando decidimos dizer alguma coisa sobre elas. Julgamo-nos pequenos para a empresa, procuramos uma rota de fuga qualquer. Mas os desafios nos atraem, vamos lá. Antes de prosseguir, lanço mão de referências e citações fundamentais. Retomo comentários de Sérgio Milliet, dos anos 40, quando o romance foi publicado. Num deles, reconhece ter sido 1943 um ano de grandes lançamentos ficcionais: "l943 deu-nos uma farta colheita de boa ficção. Terras do sem fim, Fogo morto, Dias perdidos, O agressor, (...) Quadragéssima porta (...). Rompemos o nosso isolacionismo e entramos na agitação do mundo. Saímos da aldeia para a metrópole" (Milliet, II, 1981,17). O volume II acompanha o ano de 1944. Noutro registro, após se confessar "habituado demais à sabedoria dos romancistas europeus que se valeram dos ensinamentos da psicanálise e o fizeram com grande perícia e excepcional cuidado da verdade científica",  o referido crítico expressa-se decepcionado com o último romance de José Lins do Rego (Eurídice) e prossegue: "Não há negar que desde algum tempo se vem observando, principalmente entre os mais jovens (estou pensando em Clarice Lispector, Lúcio Cardoso, Fernando Sabino, Adonias Filho, Julieta Drummond de Andrade) uma reação interessante contra o realismo, ou o pseudo-realismo do romance dos homens da geração de 30" (Milliet, V, 1981, 199). O volume V refere-se ao ano de 1947, no Diário crítico.


     Teria Lúcio Cardoso (1912-1968), com 31 anos na altura, atentado para um possível confronto com o tempo perdido de Proust, se nos fixamos no título: Dias perdidos? Embora pareça bizantina, a comparação faz sentido. Se levarmos em conta as convenções do romance psicológico, tudo procede e em grande estilo. O narrador mostra-se com pleno domínio dos recursos narrativos, acrescido de algo mais, os ornatos do virtuosismo e de certos requintes de sutileza e análise de comportamento. De imediato, alguns estereótipos precisam ser eliminados. Ha uma tendência equivocado de se relacionar o romance psicológico à presença de elementos ligados à delicadeza, à suavidade, ao devaneio. Fica-se tentado a juntar tudo sob a chancela do feminino. Nada mais falso. Confunde-se técnica narrativa, centrada na fixação de memória como feixe de intersecção entre o passado e o presente, a ênfase no primado da reflexão com visão de mundo sob o prisma da fantasia e da psicologia, no pior sentido que tal assertiva possa significar. O romance psicológico não prescinde de uma vigorosa elaboração, receptividade à dimensão metafísica, aos temas da consciência, do comportamento, do destino, abordados à luz da análise introspectiva. Não raro impõem-se digressões tangidas pela leveza e suavidade de tons, tudo aliado à lentidão narrativa, à densidade dramática, à riqueza de detalhes.


     Pode-se afirmar que, em Dias perdidos, Lúcio Cardoso alcança um estágio de depuração e esgotamento de processos e técnicas do romance psicológico. É precisamente a análise do comportamento, quase sempre flagrado sob o impacto de desdobramentos morais, o forte do narrador. E nesse aspecto Lúcio Cardoso é insuperável e desconcertante. A variedade de sugestões provocadas por uma situação ou um gesto, as nuances interpretativas, o efeito dramático de um detalhe da roupa ou de um móvel, tudo é repassado de forte intensidade. Os mínimos sobressaltos, as mais sutis sensações são delineados de forma expressiva e rigorosa, com o crescente interesse em expressar a totalidade de reação e condicionamentos externos, com seus reflexos internos, sua correspondência sob a forma de cadeia reflexiva. Se comparado com o romance atual, pode parecer um tanto arrastado e solene, em especial na progressiva passagem de um plano espacial para outro, (dos lugares abertos para o interior de casas), sem que se perceba mudança abrupta de tom. O autor manipula como ninguém os efeitos de mediação espacial.

      O romance é estruturado em três partes, todas com dezessete dilatados capítulos. O núcleo humano retratado abarca não mais que meia dúzia de personagens, alguns de complexo perfil, tais como Clara, Sílvio e Diana, outros lineares, como Chico, Áurea e Jacques. Tudo em compactadas 404 páginas, da mais sofisticada literatura brasileira de todos os tempos. O romance tem sido analisado como obra autobiográfica, tentativa de evocar a vida do pai do escritor Lúcio Cardoso, na figura esbatida do pai errante e nômade, sempre ausente de casa, à qual volta para morrer. Nesse sentido, são feitas ilações intertextuais com o livro de memórias da irmã do autor, Maria Helena Cardoso, Por onde andou meu coração. No final da 2ª parte, avulta a ruína física de Jacques, a luta contra a morte. Em especial, o sufocante final do cap.14 vai crescendo, com a mórbida sugestão de que a morte se aproxima, até que o vento da tempestade instala-se e apavora, fazendo sacudir a porta com "monstruosa mão". O motivo da porta, revelador das sensações de medo, agonia, insegurança, opressão e sufocamento, é explorado com mãos de mestre.

      Entre muitos, um dos interesses do livro é acompanhar, tendo em vista o intento autobiográfico, o perfil de Sílvio, porta-voz do autor Lúcio Cardoso. "Diana se afastou, erguendo os ombros. Sílvio permaneceu sozinho, olhando os grupos que riam e conversavam em torno da mesa, devorando sanduíches, doces e refrescos. O sol filtrava-se através das ramas do limoeiro e arrancava cintilações dos talheres espalhados sobre a toalha branca. Abelhas voavam sobre restos de bolos. Sílvio sentiu-se desamparado como se estivesse numa ilha deserta. É que ainda não tinha compreendido de que espécie de solidão era feita sua natureza, e naquele momento ainda lutava, bem longe ainda dessas tréguas que afinal se concederia um dia, quando em torno dele tudo estivesse realmente morto - não pela inexistência, como sua fugaz impressão de minutos antes, mas pela carência de importância, por tédio, pela compreensão de que tudo isto pertence a um domínio a que não é mais possível voltar quando se saiu um dia, ou melhor, quando Deus nos escolheu para caminhar do lado de fora" (Cardoso, 2006, p.284-285).

     Em raríssimos momentos, o narrador se intromete, através do uso do pronome possessivo de primeira pessoa do plural. Envoltas em análises sobre a evolução dos fatos e a ressonância sutil de um evento sobre outro, as descrições evoluem lentas, repassadas de digressões formatadas em registro apurado, em tom arrebatado e eloquente. Assim, como se o narrador não lograsse manter-se distante dos fatos narrados, alguns sinais ou dêiticos configuram processos de autobiografia: "Como tudo passava depressa, como os minutos se perdiam, sem que soubéssemos o seu valor" (Cardoso, 2006, p.159); "...o modo pelo qual perdemos os seres a quem mais amamos" (Cardoso, 2006, p.185). A tendência ao arrebatamento reflexivo, à eloquência e exaltação dramática, deve ser creditada ao gosto da época, a literatura dos anos quarenta. Nem assim o romance perde sua atualidade, a estrutura narrativa sofisticada e sua arrebatadora beleza.

CARDOSO, Lúcio. Dias perdidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
MILLIET, Sérgio. Diário crítico. 2ª ed. São Paulo: Martins, 1981. Vol. II. (1944)
MILLIET, Sérgio. Diário crítico. 2ª ed. São Paulo: Martins, 1981. Vol. V. (1947)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Prêmio para Benito Barreto



     Perdoem a autorreferência. Após relatar a dificuldade em me contatar, o escritor Benito Barreto agradece o meu artigo sobre seu romance Toque de silêncio em Vila Rica. Sob o título de "História e fantasia", o artigo foi publicado no caderno Pensar do jornal Estado de Minas (B.H., 28 mai.2011) e neste espaço também em maio. O romance acaba de ser premiado pela UBE, seção Rio de Janeiro, na categoria romance histórico. Merecidíssimo por sinal. O final do artigo dizia: "Toque de silêncio em Vila Rica é um forte candidato ao melhor livro de ficção do ano, sem concessões e tom menor, colorido e diversificado mergulho nos sangrentos idos do final do século dezoito das Gerais". O ano nem acabou e as previsões vão se concretizando. Parabéns, Benito Barreto. Aguardamos com interesse o último volume da tetralogia sobre a Inconfidência, prometido para abril do próximo ano.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ana Paula Maia

Livro do mês:

     Ana Paula Maia, escritora prestigiada da nova geração, em seu livro Carvão animal, elabora um ambiente hiperrealista, tendo como pano de fundo a associação laboral do homem com o fogo. Os protagonistas são funcionários do corpo de bombeiros, de uma mina de carvão e de um crematório. A opção por trabalhos grosseiros, em que a noção de limite assume proporções impactantes, acrescenta aos eventos relatados forte contorno grotesco, para não dizer, na fronteira da barbárie, ainda que consentida pelo tecido social. Asfixiantes, sufocantes e pesados, os três ambientes são descritos separadamente e nada os integra, a não ser o trabalho degradante e a progressiva desumanização, de que se mostram investidos. A autora carioca, explorando a questão da identidade em situações extremas, antes publicou O habitante das falhas subterrâneas (7 letras, 2003) e Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (Record, 2009).



     Assim, Ernesto Wilson é um bombeiro que detesta motosserra e "a única coisa que gosta de enfrentar é o fogo". Os que trabalham nas minas acabam vitimados por doença de pulmão, óbvio. Os mineiros, como Edgar Wilson, têm um "tom amarelado, com fuligem na saliva e cinza nos olhos". Os que enfrentam profissionalmente os fornos de crematório convivem com corpos incinerados e com a banalidade excessiva da morte. Daí que os grandes acidentes são festejados na implacável ótica do mercado capitalista: quanto mais mortos, mais lucro. Noções elevadas de dignidade, compaixão, mágoa, são luxo de uma geração ultrapassada. Paradoxalmente, em meio à massiva degradação, emergem gestos imprevistos de solidariedade e respeito, como prova de que a condição humana não se perdeu de todo. Os personagens são peças de uma engrenagem impassível, cruel e opressora.  Esse, o universo ficcional de Ana Paula Maia, que vez por outra resulta artificial, pelo acúmulo de grotesco e elementos góticos, aqui no sentido de macabros e exóticos. A arte não deixa de ser produto de uma certa artificialidade, enfim. Após uma existência sem perspectiva, desprovida de conforto, numa sucessão de filas de ônibus, SUS, médico, banco, o sujeito é jogado numa câmara gélida, na fila do crematório. Quando os fornos atingem a exaustão, o recurso é apelar a uma carvoaria existente "a uns vinte quilômetros", lá, onde "as nuvens pesam mais, como imensos blocos de concreto".
     O vertiginoso encadeamento de violência e tragédia do final não mais surpreende o leitor. Isto é, aquele que ali conseguiu chegar. O interesse repousa no foco ousado nesses lugares irrespiráveis e inóspitos  de sobrevivência e na capacidade de extrair, das figuras simples que os humanizam, ainda que expostas a situações aparentemente constrangedoras (como moer ossos de cadáveres) arroubos de fraternidade. Convenhamos, alcançar tal objetivo não é pouca tarefa para a escrita.

MAIA, Ana Paula. Carvão animal. Rio de Janeiro: Record, 2011.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Edney Silvestre



Livro do mês:

O livro de Edney Silvestre impressiona pelo acabamento literário, intriga envolvente, mistura de gêneros e dimensão alegórica. Para um estreante no gênero, trata-se de um grande romance, elaborado com sofisticada estrutura narrativa e engenhosa reconstituição histórica. Não surpreende ter arrebatado dois grandes prêmios em 2010: o Jabuti de melhor romance, o prêmio São Paulo de Literatura (categoria estreante). Um ano em que o Jabuti derrapou, com a polêmica premiação do romance de Chico Buarque, Leite derramado, (segundo colocado na categoria romance) alçado a o livro do ano. Se eu fechar os olhos agora revela um narrativa ágil, os fatos sucedem-se num ritmo acelerado, desde a primeira cena: dois garotos fogem da escola, vão nadar no lago e lá dão de cara com uma mulher morta, jogada no mato, o corpo mutilado. Começa então uma longa batalha para desvendar o crime. Paralelo à busca do verdadeiro assassino, transcorre o amadurecimento forçado dos dois garotos, que se vêem atirados numa realidade cruel. Recursos típicos do folhetim, associados ao ritmo investigativo do romance policial, criam uma atmosfera de suspense em torno da história da vítima, que se mistura promiscuamente com a história de uma cidade do interior fluminense. Violência, opressão, preconceito racial, taras sexuais, escândalos em suas mais torpes ramificações, diretamente relacionados à alta sociedade, vêm à tona e são esmiuçados. A verdade também vem à tona no desenlace, entre lances decisivos e trágicos, envolvendo a classe dominante da região, sustentada e validada pelos estratos judiciários, religiosos e financeiros.


Acabada a leitura, alguns pilares da arquitetura ficcional me inquietam. Como dois garotos, aparentemente ingênuos, acabam envolvidos numa trama policial? Recebem ajuda de um idoso ex-comunista, é verdade, um militante decadente, que no passado fora torturado pela polícia de Vargas. Até onde o estofo neorrealista, com sua moldura engessada, o gosto pelos detalhes, o enfoque maniqueísta, é um suporte produtivo na elaboração de uma obra que se pretende engajada na realidade brasileira das últimas seis décadas? A evocação do filme A doce vida, de Fellini, em que as imagens um tanto delirantes reverberam a hipocrisia das relações entre Estado e Igreja, não é apenas um aspecto circunstancial, ligado ao contexto dos anos 60: funciona como espécie de contraponto temático e estilístico, a um dos momentos de mais alta densidade crítica do romance. A meta proposta – delinear o seu alcance político – requer um breve percurso teórico.


Acreditam os adeptos da análise política da literatura que o desempenho deliberadamente engajado de uma obra pode produzir um efeito contrário, quando alguns elementos excedem em sua dosagem. Não se cogita no aspecto do engajamento como objetivo final, da intenção trotskista de defender uma determinada ideologia, com o natural desdobramento de se produzir arte como espaço de propaganda, resultando quase sempre numa arte de encomenda, panfletária, de precário valor estético. Edney Silvestre não faz arte desse tipo. Mas o excesso de situações politicamente corretas, envolvendo o estatuto do narrador, e o ímpeto de, através da escrita, atuar no sentido de fazer justiça, no sentido absoluto, são armadilhas escorregadias, propensas a escamotear o inconsciente político. Uma obra comprometida aparentemente com a dialogia pode colaborar para disseminar um conteúdo monológico. Dito de outro modo: um artefato estético construído com as torpezas da lama social e empenho idealista, ainda que recheado de boas intenções e voluntarismo positivo, pode ter um efeito reacionário. Um projeto literário aparentemente revolucionário, comprometido com os oprimidos, muitas vezes acaba se revelando reacionário. Aquela coisa de o leitor receber tudo pronto, mastigado e digerido. Falta o contraditório, sobra pouco para pensar e participar. Flávio Kothe afirma, de forma direta: “uma obra pode estar recheada de ideologemas de esquerda e acabar funcionando a favor da direita, assim como uma obra pode armar-se de ideologema de direita e adotar um ponto de vista narrativo contrário do autor para conseguir funcionar com maior contundência (Sâo Bernardo)” (KOTHE, 1981, 188). Em crônica publicada na Folha de São Paulo, há um ano, Luiz Felipe Pondé, peremptório e debochado, dizia não gostar de arte como “ferramenta de cidadania”, atributo que, a seu ver, faz da arte “coisa de retardado”.

De um lado, evidencia-se a recorrência a pressupostos idealistas na elaboração do enredo ao restaurar, de certa forma, a convicção de que a infância é um paraíso de inocência, justiça e solidariedade. Os heróis são dois garotos de classe média, empenhados em descobrir a verdade dos fatos relacionados ao assassinato, à revelia do interesse da própria polícia em fazê-lo. Para tanto, sacrificam a natural fruição dos folguedos. Plenamente convictos de sua verdade, opõem-se à grande maioria dos atores sociais. Por sua vez, a postura combativa de Ubiratan e sua militância no sentido de conscientizá-los tem paradoxalmente o condão de tornar caricata sua eficácia: “Os meganhas de Getúlio Vargas arrancaram todas as minhas unhas. Uma a uma. A sangue frio. Me torturaram. Mataram amigos meus” (SILVESTRE, 2010, 84). Alçado à instância interpretativa de sua própria fabulação, o teor crítico da personagem se vê esgarçado, diante de uma estrutura social sôfrega por divulgar os indícios de sua ruína. “- Em 1937 fui torturado pela primeira vez. A polícia de Vargas arrancou todas as minhas unhas. Uma por uma” (SILVESTRE, 2010, 196). A autovitimização, as referências à repressão da era Vargas, aliadas à instância idealista na feitura do relato (adolescentes no papel de bem sucedidos investigadores) funcionam como dados circunstanciais tendentes à inscrição num difuso projeto de engajamento.


SILVESTRE, Edney. Se eu fechar os olhos agora. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

Suporte teórico:

JAMESON, Fredric. O inconsciente político. Trad. Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Ática, 1992.
KOTHE, Flávio. Literatura e sistemas intersemióticos. São Paulo: Cortez, 1981.tura e sistemas intersemióticos. São Paulo: Cortez, 1981.

quarta-feira, 2 de março de 2011

LUIZ FERNANDO EMEDIATO

Livro do mês:
Trevas no paraíso

      No início das atividades deste blogue (26 agosto de 2009), em artigo sobre a ficção brasileira dos anos 70, enumerei vinte contistas surgidos à época. Entre eles, citava (e havia carradas razões para fazê-lo) Luiz Fernando Emediato. Aquela foi uma década extremamente produtiva para a ficção curta no Brasil, marcada pela proliferação do conto na literatura brasileira. Wilson Martins, na revista Veja, em artigo intitulado “O país dos contistas”, ironicamente estimava que haveria “1000 contistas redigindo febrilmente pelo país”. Minas Gerais viu surgir em torno de quinze excelentes autores de histórias curtas, imediatamente reconhecidos em todo o país. De forma que estar entre os vinte mais significativos contistas então revelados é um dado nada desprezível para a trajetória de um autor. Textualmente, dizia então no blogue: “Luiz Fernando Emediato, em Não passarás o Jordão (1977) e Os lábios úmidos de Marilyn Monroe (1978), aborda questões relacionadas à repressão política, a tortura, a violência e o preconceito, numa perspectiva irônica e cética, incapaz de sufocar os arroubos juvenis”. Nada a acrescentar, para quem conhecia apenas aqueles dois livros. Recentemente tive acesso a Trevas no paraíso, espécie de obra completa do autor: com impecável acabamento gráfico e editorial, organizado por Luiz Ruffato, documenta toda a produção ficcional de Emediato, representada por quatro títulos, publicados entre 1977 e 1984. Escritos entre 1970 e 1979. O repertório textual vê-se ampliado com mais dois títulos, A rebelião dos mortos (1978) e Verdes anos (1984).
      Os contos de Luiz Fernando Emediato são representativos de um espírito de rebeldia, irreverência e protesto, típicos dos anos 70 no país. O autor surgiu em 1971, ao faturar o primeiro lugar, categoria estreante, no prestigiado Concurso Nacional de Contos do Paraná, com 19 anos, espécie de enfant terrible da literatura, pela atuação abusada, polêmica e nervosa que imprimia nos projetos de que participava. (Também fui premiado, em posição mais modesta, no Paraná nesse ano, 3º lugar, categoria estudante). Fundou, ou esteve na linha de frente como parceiro, revistas literárias, algumas censuradas (como Silêncio, Circus, Inéditos), abocanhou outras premiações (Cidade de Belo Horizonte, revista Status), publicou em grandes editoras (Codecri, ligada ao jornal Pasquim, Ática), foi saudado por Drummond, Rubem Fonseca e Antônio Calado, até se tornar também editor.



      Um traços característico de seus relatos é o engajamento político, a nota de denúncia, a revolta e o desespero juvenil contra os rumos tomados pelos país nos anos da ditadura. O excesso de rebeldia política, vazada em linguagem neorrealista, esgarçada ambiguidade e ênfase no vetor referencial, tem um preço estético: presença destacada de lugares comuns, elaboração mediana da linguagem. Não passarás o Jordão recria, através de alusões, montagem de artigos jornalísticos e alegorias, o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, durante o governo Geisel. A literatura produzida naquela época, tendo como pano de fundo o quadro político, tem suscitado avaliações críticas nas duas últimas décadas. Para Silviano Santiago, a literatura elaborada com base na denúncia explícita manteria talvez “um laço mais estreito com a censura e menos afetivo com a literatura, visto que sua razão de ser está no nomear o assunto proibido e despojar-se dos recursos propriamente ficcionais da ficção” (SANTIAGO, 1982, p. 53). Mais próxima da crônica jornalística, para Flora Sussekind, tal produção “cujo eixo é a referência e não o trabalho com a linguagem, é o recalque da ficcionalidade em prol de um texto predominantemente documental” (SUSSEKIND, 1985, p. 61). A mesma autora refere-se à literatura de resistência à ditadura, salientando que “os recursos literários, bastante precários, resumem-se, em geral, a um estilo direto, objetivo, e a uma supervalorização da alegoria” (SUSSEKIND, 1985, p. 59). Flora Sussekind considera ainda nas narrativas de fundo político, produzidas nas décadas de 1970 e 1980: “Em comum, também, a rejeição da dubiedade, o privilégio do significado único e da referencialidade a um real pouco problematizado” (SUSSEKIND, 1985, p. 62). E pergunta-se: até quando os defensores da tese da rasa dimensão estética da literatura de fundo político produzida nas décadas de 70 e 80 não reproduzem o jogo da ditadura? Ignorar para não fortalecer. A eterna patrulha socialista, por vezes tendenciosa, a exigir que a radicalidade política deve estar enraizada na radicalidade estética.

“Até que o general, de repente, grita bem alto uma frase – não permitiremos que os comunistas, estes assassinos, se apossem do poder que pertence ao povo – e o presidente acorda: o general gritou, mas o povo, calado, não o ouve, porque na verdade o general não fala para o povo, o general fala para si mesmo, bem para si mesmo, porque no fundo o general tem medo” (p.149).

      Lida em conjunto, a ficção de Emediato possibilita perceber uma certa homogeneização de recursos e temas, estes em geral com a marca indelével de se apresentarem muito datados. Como exigir maturidade a um jovem de vinte e poucos anos? O organizador, o escritor Luiz Ruffato, deu-se ao trabalho de apresentar os textos fora da disposição em que foram editados, reunindo-os em torno de três motivos - “O vago brilho das estrelas”, “Breve discurso sobre o significado do tomate” e “Anatomia do pesadelo”. Se os dois últimos configuram o eixo da rebeldia política, são os contos do primeiro motivo, em que a motivação existencial predomina (o que não significa ausência de conflitos sociopolíticos) aqueles que menos envelheceram. “Verdes anos”, “Os lábios úmidos de Marilyn Monroe”, “Also Sprach Zarathustra” e “Naquele tempo” não perderam o viço, são verdadeiros poemas, apesar da espessura dramática. Do repertório engajado, “A data magna do nosso calendário cívico”, “Breve discurso sobre o significado do tomate”, “A testemunha”, uma página incontornável sobre a prática da tortura, (publicado inicialmente na revista Inéditos 1 (Belo Horizonte, 1976), mantêm, impiedosos, o alto teor de insurreição e indignação. Em meio a alegorias previsíveis e o pálido desfile de desfiguradas alucinações (O investigador, o investigado, O Grandalhão, O General, o Grande Herói). Escritos no calor da repressão política da época, os contos não perderam o frescor e a rebeldia juvenil, esta uma nota inconfundível na ficção de Emediato.


EMEDIATO, Luiz Fernando. Trevas no paraíso: histórias de amor e guerra nos anos de chumbo. Org. e apresentação Luiz Ruffato. São Paulo: Geração Editorial, 2004.

SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

SUSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Maria José de Queiroz

 Livro do mês:  Homem de sete partidas


Nascida em 1936, em Belo Horizonte, a autora é Catedrática de Literatura Hispanoamericana (UFMG), ensaísta notável e ficcionista de grandes recursos. Maria José de Queiroz conquistou vários prêmios, entre eles, o Sílvio Romero da Academia Brasileira de Letras (1963), o Pen Clube do Brasil (1978), o Othon Bezerra de Mello da Academia Mineira de Letras, instituição à qual pertence. A metade do ano costuma passar na Europa, onde leciona e faz pesquisas, a outra metade divide entre o Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Além de ficção, publicou poesia e uma dezena de ensaios, com destaque para César Valejo: ser e existência (1971), A literatura encarcerada (1981), A América sem nome (1997) e A literatura e o gozo impuro da comida (1994). Seus principais livros de ficção compreendem títulos publicados desde o final dos anos de 1970, como Ano novo, vida nova e Invenção a duas vozes (os dois de 1978), a que se seguiram o Homem de sete partidas (1980), o clássico no gênero romance histórico Joaquina, filha de Tiradentes (1987), Amor cruel, amor vingador (1996) e Vladslav Ostrov, príncipe do Juruena (1999). Em 1996, Lisley Nascimento investigou, em dissertação de mestrado na Faculdade de Letras da UFMG, seu contributo à ficção de perfil histórico, na polêmica vertente de complementar com dados da imaginação o fluxo incompleto dos documentos.

O enredo de Homem de sete partida envolve o alvoroço que toma conta de uma tradicional família mineira diante da herança deixada por um rico parente aventureiro. Em vida, o desaparecido cruzou selvas e mares numa trajetória errante e turbulenta; após sua morte, seu espólio é objeto de diligências jurídicas que afetam dois países vizinhos, o Brasil e a Colômbia. Os lances decisivos dizem respeito à sua atribulada atividade como bem sucedido empresário, suas relações sociais e políticas, o engajamento em atuações anarquistas e sua morte misteriosa. “Cavaleiro de belo porte, testa alta, queixo dominador, pulso forte, eu o confundi primeiro com os cowboys do Velho Oeste. Amante, sensual, olhar sedutor, nele descobri, mais tarde, na adolescência, modelo a imitar: era D. Juan, Casanova aventureiro, Valentino irresistível. (...) Corajoso até a temeridade, vencia batalhas, triunfava das traições e das ciladas. Tio Euclides, posso dizê-lo, foi meu passaporte para o sonho. Sonho épico, quando, a cavalo, investia contra panteras, onças, serpentes e tamanduás, lutava contra índios e bandoleiros; lírico, quando, violão ao peito, enamorado, evocava saudades da pátria ou cantava o amor impossível, a amada jamais encontrada” (p.9-10).

Para além da matéria ficcional, o mergulho no percurso do lendário parente e nas vísceras da política autoritária de repúblicas latinoamericanas, pulsa a construção de uma experiência humana cosmopolita, rica em sutilezas de linguagem (com seguras incursões no castelhano) e saber antropológico. Na contracapa, Flanklin de Oliveira diz o essencial, de forma clara: “Essa mineira (...), sendo ensaísta de fina inteligência, sabe também que o romance é uma arte submetida às iluminações do intelecto – uma arte que se constrói, e não uma simples história que se narra”. Em ritmo paralelo ao multifacetado narrador principal, o narrador em terceira pessoa sob a ótica e voz do sobrinho Bernardo, outras narrativas se sucedem, dando voz a outras personagens, tais como a mãe e o pai de Bernardo. O testemunho da mãe, de idade mais próxima à do cunhado, este frustrado ao descobrir que se casara com mulher estéril, reforça o caráter sedutor de Euclides: “Porque eu lhe lembrava a esterilidade da mulher e nele despertava o despeito de machão ferido. Que Deus me perdoe se peco contra a humildade! E que me perdoe também por ter pecado tantas vezes contra a castidade! Quando eu menos dava por mim, me vinha o desejo de dormir com ele e dar-lhe o filho com que sonhava. Como se fosse Lia, me metia na cama com ele e concebíamos o varão que Raquel, a bela, não concebera” (p.55).




Pelo fato de o suposto protagonista inexistir no presente do relato, por tratar-se de alguém sobre o qual são feitas revelações, o espaço narrativo surge ampliado. Ao assumir o comando das diligências para solucionar o caso, tarefa simultânea à função de narrador privilegiado, Bernardo passa a dividir com o tio o lugar do protagonista. “Euclides Gomes Bastos passara, da noite para o dia, de cavaleiro invencível, amigo certo, conselheiro e tio querido, à condição de fantasma. Rosto sem traços, personagem de morte obscura, titio tomara caminho ignorado, fundindo-se às sombras da noite amazônica. Traição grande, enorme, a que sofri. Por que não deixou para desaparecer depois da nossa viagem?” (p.24). Bernardo não procura apenas resolver a pendência da herança, não é o interesse financeiro a grande motivação de sua busca; interessa-lhe reconstituir o percurso e a espessura humana do homem que rompera com a rotina e a pacata vida mineira. Ao viajar para a Colômbia, Bernardo de certa forma refaz o roteiro espetacular de tio Euclides e expande o conhecimento dele e de si mesmo. Os informes são desencontrados. Os indícios do provável assassinato de Euclides Gomes Bastos por motivos políticos, ele os narra entre os contratempos enfrentados quando decide conhecer, apesar de inúmeras tentativas, da parte de autoridades, no sentido de dissuadí-lo, as três pessoas que haviam privado da sua amizade ou intimidade, citadas no testamento. “Euclides, rebelde, anarquista confesso, tinha esse grande, enorme defeito: era estrangeiro” (p.237). E somos levados a repetir a pergunta feita por Pedro Nava, na apresentação: “Tio? Só tio? Ou as veredas de suspeita abertas pela autora permitem que se deem à figura bonachona e faladeira de D. Luzia os delineamentos trágicos de uma Francesca de Rimini incubada?” Uma das amantes colombianas de Euclides guarda uma foto da mãe de Bernardo, motivo de ciúmes: “Onde já se viu isso? Guardar retrato da cunhada como se se tratasse de noiva, ou namorada!” (p.233). O resultado final ultrapassa o estrato puramente romanesco, a autora revela-se plenamente aparelhada para arquitetar um relato envolvente e denso, envolto pelo mistério, suspense, senso de polifonia e vantajosa aliança entre conhecimento cultural e linguístico.

Queiroz, Maria José de. Homem de sete partidas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1999.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Em causa própria

Mexendo em velhos papéis, numa triagem para descartar coisas inúteis no lixo, o que sempre faço em final do ano, encontrei dois trabalhos de mestrado sobre um conto de minha autoria, “Setor de montagem”, inicialmente publicado no Suplemento literário de Minas Gerais (Belo Horizonte: nº 842, 20 de nov. 1982), com outro título, "Setor de perfilação". A imagem reproduz esta publicação, ilustrada por Eimir; para ampliar, basta um click. Com algumas alterações, integra o livro O lobo do cerrado (Rio de Janeiro: Imago, 1999), versão que serviu de fonte aos trabalhos referidos, produzidos no âmbito de um Curso de mestrado ministrado na UFMG, na área de Linguística. Recorto, na sequência, um trecho de cada um.



1. O leitor instituído e o discurso contraditório

      “Examinando o plano do intradiscurso, em “Setor de montagem”, no campo discursivo político, sob a ótica do enunciatário instituído (o leitor), destacam-se os percursos figurativos do trabalho e da luta operária. O tratamento dado a esses dois percursos é desigual: o trabalho é detalhadamente explicitado, enquanto a luta operária é apenas sugerida, camuflada em passagens quase que inexpressivas da narrativa. A bem da verdade, a luta operária é somente inferida através dos conselhos dados pelo operário veterano ao novato: “Cuidado com os agitadores, afaste-se deles”, “Mais uma vez: não se misture com os agitadores. Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo”. Já o trabalho, conforme se analisará nas páginas seguintes, é minuciosamente descrito sob diversos ângulos: a rotina do operário (ida à fábrica, atividades desenvolvidas, incidente ocorrido, comentários sobre as condições de segurança, volta para casa), informes sobre experiências profissionais, evolução histórica das condições de trabalho.
      O enunciatário instituído depreende, numa segunda instância de leitura, o interdiscurso, que na narrativa em estudo, envolve o campo político, no espaço discursivo em que se opõem o discurso burguês e o proletário. O discurso do operário veterano mantém relação de adesão ao discurso burguês e (supõe-se, infere-se) contrapõe-se ao de operários críticos. O discurso burguês e o discurso proletário revelam-se, no texto em análise, interdiscursivamente como vozes polifônicas, na concepção bakhtiniana de “discurso de outrem na linguagem de outrem” (BAKHTIN: 1988,127). Dessa forma, os dois discursos apresentam-se em plano de leitura simultaneamente intra e interdiscursivo. (...)
      Uma gama de inferências pode ser levantada a partir das relações sintático-semânticas estabelecidas, entre elas, a contradição existente entre pares. De um lado, os operários comuns e tudo aquilo que a eles se associa: fila de ônibus, empurrões, desaforos, cubículo, azulejo sujo de óleo, graxa, restos de sabão e fios de cabelo e outras titicas não identificáveis, não tinha onde colocar o sabonete, nem estrado, a água fria e pouca. De outro lado, o operário graduado: jeito bonachão, parece ser antigo de firma, limpeza do uniforme, chuveiro com água quente, “entrou num especial quase vazio que arrancou logo, parece que só aguardava a sua chegada”. De um lado, o operário atual, que se prepara tecnicamente (em virtude da concorrência de mercado): “Na escola técnica, só que era mais tranquilo”. Do lado oposto, o operário que se graduou e profissionalizou na própria empresa, por meio do trabalho: “Naquele tempo, não havia curso técnico. A gente se destacava pela competência, aprendia tudo na fábrica mesmo”.
      O interesse do veterano pela causa da demissão do novato no último emprego subentende uma dúvida: teria sido por agitação? Nas entrelinhas, várias sugestões. Seriam os agitadores os que se incorporam aos movimentos sindicalistas? Constituem eles o grupo dos que protestam, os reformistas? Não pertencendo a esse grupo, o operário veterano teria se destacado exatamente por esse motivo?”
(...)

(LIMA, Rosângela Borges. Faculdade de Letras da UFMG, Pós-Graduação em Estudos Linguísticos. Seminário de Tópico variável em Análise do discurso: discurso, ideologia e leitura. Prof. Dr. Antônio Augusto Moreira de Faria, s.d.)

  1. “Setor de montagem”: os discursos em contradição

      Em “O setor de montagem”, de Edgard Pereira, a história desenvolve-se em torno de dois personagens, Pedro e Chico, ambos operários. A partir da fala desses personagens, é possível perseguir dois espaços discursivos, reveladores da experiência proletária, o discurso crítico e o alienado. (...)
      Embora não seja inexperiente, o novato Pedro será visto pelo operário veterano (Chico) como ingênuo, influenciável, sem os mesmos direitos de um trabalhador mais velho e confiável para os padrões capitalistas. O interesse revelado pelo funcionamento das máquinas e a constatação de que não há fábricas empenhadas na diminuição do barulho formulam, da parte do veterano, um percurso figurativo que revelará a visão cristalizada de um operário completamente reduzido a “peça de engrenagem" em relação àquele que chega e ainda não se transformou. É “o seu outro” ele mesmo antes de se submeter às regras do capital.
      Nas fala de Chico, percebe-se a oficialização do discurso do operário que empresta a sua voz para o discurso capitalista: “Vai dizer que as outras firmas se interessam em diminuir o barulho, melhorar o ambiente de trabalho, essas coisas?” Palavras implícitas: todas as empresas são iguais, não adianta buscar alternativas, o objetivo é sempre o lucro, as grandes empresas são generosas, pois acolhem empregados. Nada a fazer, a não ser aceitar e resignar-se.
      Chico faz que não ouve o comentário de Pedro sobre o acidente acontecido naquele dia e desconversa. Estratégia de proteção? Sim, porém mais do que isso. As vidas humanas não interessam ou não podem interessar nesse universo. Interessam as máquinas, esse é o objeto do seu discurso, ao lembrar a Pedro, o novato, que é da máquina, do seu bom funcionamento, que eles dependem: “Já trabalhou com as máquinas que temos aqui?”
(...)

(COSTA, Léa Dutra. Pós-Graduação em Estudos Linguísticos, FALE/UFMG, s.d.. Tópico variável em análise do discurso: discurso, ideologia e leitura. Prof. Dr. Antônio Augusto Moreira de Faria)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fratura exposta

Livro do mês:

O livro deste mês não é um lançamento recente, mas é um produto cultural admirável sob vários aspectos; inteiramente injustiçado, não recebeu ainda o merecido reconhecimento. Três fatores no mínimo determinam o silêncio em torno de um livro: a má distribuição, a indiferença da crítica, o despreparo da mesma. Em relação a alguns lançamentos, pode ocorrer a convergência dos três fatores simultaneamente. Esse parece ter sido lamentavelmente o caso do espantoso ostracismo imposto a Fratura exposta, Prêmio Cidade de Belo Horizonte no ano de 1983, estreia literária de Jeter Neves. Creditar apenas ao mau gosto da capa ou à acanhada concepção gráfica o confinamento negativo imposto ao livro seria ingenuidade. Mesmo no restrito contexto mineiro a repercussão foi tímida. O mais grave é que esse quadro geral de displicência e desinteresse dos cadernos ditos culturais em relação à literatura tem-se tornado padrão nos últimos vinte anos. Com o desaparecimento da crítica militante na imprensa, a cobertura dos produtos culturais recai sobre um profissional de perfil polivalente, encarregado de opinar sobre grandes shows de rock, pagode e MPB, Djs, teatro, espetáculos de ópera, dança, eventos ligados às artes plásticas e livros. Nesta ordem, é bom atentar. Nem sempre bem informado, o responsável pela seção acaba transcrevendo a nota da orelha do livro, quando calha.

Jeter Neves, nascido em Miradouro (MG, 1946), surge após o decantado boom dos contistas mineiros, ocorrido nos anos 70 do século passado, mas nem por isso é um talento menor. Premiado no Concurso nacional de contos do Paraná, em 1978, na categoria estreante, o primeiro livro apresenta-se como refinada elaboração ficcional, algo raro em escritas visceralmente engajadas. A nota dominante de Fratura exposta é o o contato direto com a realidade, abordada em duas águas, tanto na vertente rural (embora em dimensão mais rarefeita) como no caos urbano. O tom experimental, a inquietação inovadora, apta a mesclar discursos diversos (o literário, o jornalístico, o histórico, o dramático, o diarístico, o cinematográfico) não hesita em investir em técnicas menos tradicionais de narrar. Num conjunto de oito contos, dois seguem a vertente regional, em que o legado se mostra através de ruínas de uma memória destroçada e de breves traços do linguajar caipira (“Memória desfigurada” e “Arame farpado”). As duas realidades, os dois brasis, são referidos, em “Pequenos assassinatos”: “O mundo era dois: o primeiro aquele ali, simples familiar: horta, partos, segredos, chiado de cigarra contrapondo-se àquele tempo, lesma em muro de lodo, fluindo, fluindo sua lentidão; o outro, longe, muito longe, o de atrás de atrás de atrás dos morros, dos rios, das nuvens, o que chegava nas caras de dentes brancos, sorriso alô alô Brasil e coxas e peitos ardentes da namoradinha do Brasil, rainha dos músicos, miss universe, revista do rádio, aviso aos navegantes, bóia de luz apagada, Luz del Fuego acesa, cobras, sexo, na Capital Federal são precisamente sete horas, parampampam-pampam/param-pampam-pampam o seu reporteresso em edição extraordinária!”.


A desenfreada violência urbana que perpassa o restante, cuidadosamente reconstituída em suas formas deterioradas de repressão política e miséria social, é delineada de forma contundente. O ritmo vertiginoso e impactante da ação, os cortes cinematográficos, a brutalidade de algumas intervenções sociais reverberam a crueza narrativa de Sam Peckinpah ou de Rubem Fonseca. O relato “A cidade como um verme” é um retrato fiel e sem retoques da rotina urbana, em que as luzes feéricas do néon se misturam ao cheiro fétido do lixo e de situações desumanas. No afã de desconstruir as ilusões criadas em torno da ideia de cidade grande como solução de todas as mazelas sociais, um dos contos, “O cachorro e seu menino: a travessia”, convoca inúmeros disfarces de linguagem e recursos circenses, para descrever cruamente a caminhada de um cão e um menino famintos, sob o ponto de vista do animal, nas vias urbanas mais sórdidas e deterioradas. A acoplagem do narrador ao foco narrativo, sob a perspectiva canina, em que pese certa afetação, possibilita um viés crítico inusitado: “Ele me passou a nota e ficou de olho ni mim pra sacar minha leitura. Aí minha cara, que, modéstia à parte, costuma ser castanha e fogo, foi ficando amarela e depois verde; quer dizer, desandou, mano velho. E o meninim, que não é bobo nem nada, foi chegando junto: dá pra comprar uma casa? Eu disse: não dá. Ele: comida, sapato, revistinha? E eu: não, não dá. Chi!, ele falou, com uma carinha tão sem graça! Aí eu abri o jogo: dá pra comprar um pedaço de chiclete, um palito de fósforo, 13 caroços de feijão. Ah, um cheirinho de sanduíche também dá”. A consciência amarga de que a solidariedade entre as pessoas é um projeto fracassado irremediavelmente e de que a convivência pacífica na diversidade é uma utopia serve de moldura aos contos, especialmente “Bar e restaurante Suez”. Uma pequena amostra:

“Um sentimento de que éramos estranhos ali a me acossar. Quem bebia, quem comia naquele lugar? Os que não tinham assento à mesa, os bebuns, os puteiros, os boêmios, os chapas, os feirantes, os tropeiros e todos os desordeiros. E nós o quê?, uns caras fascinados pelo próprio rabo feito filhotes de cachorro, uns bobalegres. Porém, mais do que estranhos, compreendi com mal-estar que ali éramos intrusos. Nossa presença era uma blasfêmia danada. Invadindo o reduto deles a gente acreditava estar perto de seus destinos e a salvo de nossos remorsos. Nossos próprios atavismos nos eram intoleráveis”.

Mosaico lúcido de um tempo dividido e torpe, de uma cidade desumana e cega que perdeu o rumo, postado sempre à distância do enquadramento subjetivo, o livro de Jeter Neves não tem medo de ousar nas trilhas vigorosas de um realismo denso e povoado de inquietas sugestões. Com sua metralhadora giratória, denuncia os abusos, a intolerância, os desmandos e manipulações de toda a espécie, sem esquecer aqueles cometidos em nome do saber e da suposta dignidade de que supostamente nos julgamos revestidos.

NEVES, Jeter. Fratura exposta. Belo Horizonte: Comunicação, 1984.