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quinta-feira, 14 de maio de 2015

José Saramago

Livro do mês:

            Dentre as qualidades de narrador, dadas à mostra de sobra por Saramago, avulta, além do consumado domínio das peculiaridades da língua, um adequado ajuste à configuração fantasiosa da trama. De tal maneira encontra-se o malfadado revisor ocupado em compreender as razões de seu erro que, de certa forma, vê-se projetado pela máquina do tempo, confrontando-se com a suposta realidade de fatos históricos bem diante dos olhos. Vê-se num campo de batalha, em plena Idade Média, entre soldados leais a Afonso Henriques de um lado e do outro, empedernidos combatentes mouros, duplamente adversários, no terreno político e no religioso. Como tempero às passagens do enredo, contaminadas de fantasia e detalhadas notas de cor local, o narrador apela a variados recursos, um deles a referência ao bagaço, consumido pelos soldados e pelo revisor. Daí decorrem as hesitações, algum delírio e mudanças de comportamento de personagens.
            O romance  História do cerco de Lisboa é a um só tempo objeto de trabalho de revisão e exercício de releitura de fatos históricos. A inserção de um clandestino e rebelde não ao texto histórico tem a força de questionar o aspecto imutável, quase sagrado da História como ciência. O cruzamento de fatos dela extraídos aos da monótona rotina da vida de revisor medíocre, além de enriquecer a trama de peripécias e vocábulos pouco usuais, cumpre a finalidade de emaranhar o fio narrativo, propiciando a observação da ficção dentro da ficção. Instigado pela autoridade a que se submete enquanto revisor (e futura parceira amorosa), Raimundo da Silva empenha-se, ele próprio, a escrever uma outra narrativa histórica, paralela àquela a que se dedicara como parte de seu ofício. De revisor de textos alheios transforma-se o protagonista em produtor de texto original, após fortuita sugestão de Maria Sara. “... e está claro que Raimundo da Silva, que de escritor nada tem, nem os vícios nem as virtudes, não poderia, em um dia e meio, ter escrito tão e tão variado, que sobre os méritos literários do que fez não há que falar, por ser isto história, logo ciência, e por carência de autoridade propriamente dita” (Saramago, 2003, p.141). O romance passa a trilhar dois atalhos, um relacionado à rotina do revisor, outro conectado ao embate histórico entre lusos e mouros, às portas da cidade de Lisboa, cerca de mil anos atrás.

   (Imagem: www.arqnet.pt)
           
            A cidade de Lisboa, até então referida pelo revisor, como paisagem vista de sua varanda, no alto da Rua do Milagre de Santo Antônio, admite outra incursão, desta vez uma cidade medieval. Da cidade do presente, seu olhar meticuloso focaliza a Igreja da Sé, os telhados das casas em linha descendente até aproximar-se do leito do rio Tejo, fotografando a dinâmica dos turistas nas ruas da Baixa. Permite-se a liberdade de referir o ruidoso bonde na curva da Madalena e o vago perfil de um cineasta em atividade.  Sobrepõe-se a esta cidade contemporânea, outra, resgatada em pleno século XII, época do confronto entre mouros e lusos. Uma torre moura, encaixada numa das portas da cidade, faz contraponto no presente à casa do revisor. A ficção de Saramago acolhe o diálogo entre o ficcionista e o historiador, cujo esboço engloba impressões sobre a criação, o tempo e a escrita. As sutis relações entre história e a vida, o fingimento e a astúcia literária, os desdobramentos reflexivos sobre a precariedade da verdade, o ato de corrigir e emendar passam a ocupar a atenção do narrador.  Ao revisar um livro que narra o episódio do cerco e tomada de Lisboa aos mouros por tropas cristãs no ano de l l47, Raimundo da Silva adultera-lhe uma passagem. Os cruzados europeus, em trânsito pela cidade a caminho da Terra Santa, por conta e risco da emenda do revisor, dizem não, em lugar de sim, à convocação feita por D. Afonso Henriques, rei de Portugal, em busca de auxílio na batalha contra os mouros. Jamais um NÃO rendeu tamanha fortuna crítica e retórica.  Esse equívoco motiva uma tomada de consciência do revisor, conduzindo-o a enveredar por uma empreitada nova e inusitada. Diante da tarefa de escrever seu relato, jogado de súbito na “noite dos tempos”, reporta algumas reflexões sobre a ficção, espaço “... onde nem as felicidades narrativas faltam, a alternância do breve e do longo, o corte súbito, a mudança de plano, a suspensão, até a ironia levemente desrespeitosa” (Saramago, 2003, p.169). O fragmentado perfil do improvisado escritor vai sendo elaborado aos poucos, merecendo vez por outra alguma nota complementar: “além da mais que uma vez confessada falta de preparo para tudo quanto não seja a miúda tarefa de rever, é homem de escrita lenta, sempre cuidando das concordâncias, avaro na adjectivação, molesto na etimologia, pontual no ponto e outros sinais,” (Saramago, 2003, p.140).
Quinto romance de uma obra diversificada, História do cerco de Lisboa é de l989, elaborado quando o autor encontra-se sobejamente aparelhado para o ofício, em pleno domínio dos expedientes ficcionais, após publicar títulos expressivos, como Levantado do chão (1980), Memorial do convento (1982), O ano da morte de Ricardo Reis (1984), A jangada de pedra (1986).

SARAMAGO, José. História do cerco de Lisboa. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.

      

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

José Agostinho Baptista

     Livro do mês
       Nascido em Funchal, Madeira, em 1948, José Agostinho Baptista vai ainda jovem para Lisboa, estreia como poeta no final dos anos 70, mas só alcança visibilidade efetiva no princípio dos anos 80, com a coletânea O último romântico (1981). Publicou duas dezenas de livros de poesia, dentre os quais: Morrer no sul (1983), O centro do universo (1989), Canções da terra distante (1994), Agora e na hora da nossa morte (1998), Biografia (2000), Anjos Caídos (2003, Prêmio PEN de Poesia), Esta voz é quase o vento (2004, Grande Prêmio APE/CTT de Poesia), Quatro luas (2006), Filho pródigo (2008) e Caminharei pelo vale da sombra (2011), sobre o qual me detenho, na tentativa de um esboço. Tem desenvolvido em todos esses anos uma obra consistente e de reconhecida unidade, em sua quase totalidade caudatária de vertentes e expedientes próprios do Romantismo, com especial relevo ao estatuto da canção. O motivo da viagem, a projeção narcísica, a exaltação do feminino, o senso do mistério, a cisão interior/exterior, o retorno ao passado, a noturnidade, o apelo à natureza, um ou outro sinal esotérico, a melancolia finissecular formam uma constelação de recorrências e tópicos de extração neorromântica, presentes em estilos posteriores (Simbolismo e o Surrealismo) que se mostram bastante produtivos em sua poética.

Como em outros momentos, também neste Caminharei pelo vale das sombras, extenso e laborioso poema com mais de duzentas páginas, um sujeito mergulha por inteiro no passado, em versos longos, espraiados e emotivos, de ritmo intenso e vertiginoso:
Como procurar-te agora, na eternidade das cinzas,
entre as raízes que ainda sangram.
Como ver-te,
como ver-te, uma vez mais,
reencarnada em jovem noiva traída pelo mar, junto
às mulheres de luto  (p. 9).

O título, num livro em que a memória desempenha um papel importante, enuncia não uma atividade mental, contemplativa, mas um investimento numa instância deambulatória, nômade e dinâmica (caminharei), a ser cumprida num espaço obscuro, de esgarçada nitidez (vale da sombra). O suposto futuro revela-se uma fraude, visto que o objeto do investimento, a busca das origens, da dimensão futura apenas resguarda o tom de profecia, de que se reveste a amarga e desiludida voz poética: “Para quê forçar o cadeado,/ se os portões não se abrem?,/ se há um mistério sem fim em toda a matéria opaca./ E se encontrar a chave não encontrarei a verdade,/ pois esse é o destino que me aguarda:/ anotações,/ epitáfios, bolor, utensílios mortais,/ sobre um sarcófago” (p. 80). Sentindo-se dividido num tempo presente inóspito, pelo que representa de ruptura com uma experiência anterior, num plano temporal distante, o sujeito recolhe vestígios, resíduos de uma época idealizada, a que não são estranhas as ressonâncias bíblicas: “Contorces-te, quando me aproximo,/ e benditos sãos os frutos do teu ventre, no oásis onde/ amadurecem” (p.134).  Processo universal de recuperação do vivido, a memória presta-se, no caso, à partilha desesperada de um universo subjetivo, em que a figura materna, confluência do rol interminável de evocações, síntese maior de todas as perdas, delineia-se como eixo do conhecimento primordial do mundo:
 Minha mãe,
é contigo que falo,
depois de ponderadas as distâncias que vão de um
berço a uma lápide,
depois de ouvir os pássaros,
chamando por mim,
                                             (p. 10).


BAPTISTA, José Agostinho. Caminharei pelo vale das sombras. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011.
          

domingo, 13 de abril de 2014

Páscoa e temporada portuguesas

      Dezoito anos após a primeira viagem a Portugal, na época com bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian para ultimar pesquisas sobre poesia portuguesa contemporânea, procedo aos preparativos para retornar a Lisboa. A tempo: o livro Portugal, poetas do fim do milênio é uma adaptação da tese defendida em 1997, na UFRJ. Desta vez, além de reviver lugares e amigos (e quem sabe, fazer novas amizades), estão agendados o lançamento de um livro de crítica literária e debate sobre literatura. Lá atrás, em 1996, a viagem ainda forneceu matéria e cenário para um romance, o Outono atordoado. Parece mesmo que as coisas acontecem à volta de livros, como afirmou Mallarmé, e não serei eu quem irá questioná-lo.

                                 
                                (Imagem de Lisboa: bohovillage. blogspot.com)

                                     
                                (Imagem da cidade do Porto: hdwallpappers.com)
 
        Bye bye, Brasil.
        Até breve.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Arquivo literário


Livro do mês: Arquivo e rota das sombras

      A poesia de Fernando Pessoa é generosa no uso do motivo da sombra, como se percebe nesta sumária citação: “Neste mundo em que esquecemos/ somos sombras de quem somos”; “O corpo é a sombra das vestes/ que encobrem teu ser profundo”. A fortuna da sombra em títulos de livros portugueses é considerável e surpreende.  Reiterado em inúmeras obras recentes, equipara-se, em volume, àqueles que tratam do sonho e da noite, todos repassados de uma aura esotérica: Rápida, a sombra (1974), de Vergílio Ferreira; Sombras e transparências da Literatura (1983), de Manuel Frias Martins; Enumeração de sombras (1989), de Nuno Júdice; De novo as sombras e as calmas (1990), de Hélder Moura Pereira; Sombras e lugares (1993), de Serafim Ferreira; A sombra do Rei-Lua (1990), de José Jorge Letria; O cálculo das sombras (1997), de Eduardo Prado Coelho; Caminharei pelo vale da sombra (2011), de José Agostinho Baptista. No plano opositivo à sombra, os títulos que exploram a luminosidade traem igualmente um significado esotérico ou revelam herança do Realismo, configurando ressonâncias positivas, como o impulso para o conhecimento e as notas eufóricas de celebração da vida, traços mais ou menos visíveis, a propósito, em Claridades do sul, de Gomes Leal, Nos braços da exígua luz e Fórmulas de uma luz inexplicável, de Nuno Júdice ou Os oficiantes de luz, de José Jorge Letria.
      A literatura sempre é convocada para preencher as sombras, as vicissitudes e os vazios do cotidiano. A feição ensaística dos trabalhos enfeixados em Arquivo e rota das sombras radica no gosto de enveredar no universo da hermenêutica, intuída como confluência de análise e invenção. Por força da tendência transversal em que se movimentam as assertivas e os comentários críticos, o nexo que os sedimenta provém de um equilíbrio de enfoque que ora se move para o terreno das ideias, ora para o campo específico da literatura. Sobretudo, cabe reconhecer o pensamento aplicado em dupla direção: o intento de se confrontar com temas e questões da cultura contemporânea (alguns oriundos de época remota) e o esforço de ler valorativamente um rol de autores. São debatidos os pontos de contato entre a lírica de Camões e a de Pessoa, as coordenadas narrativas de Eça de Queirós, Garrett, Sá-Carneiro, Saramago e mais de uma dezena de ficcionistas contemporâneos, as dicções e usos verbais da produção poética desde os anos de 1970 aos dias de hoje (de António Franco Alexandre a Fernando Luís).



       Dito desse modo pode parecer tratar-se de um uso tempestivo da argumentação e da retórica, o que não seria de todo incorreto, se é levada em conta, no âmbito das recensões, a gama intensa de entusiasmo, inquietação e arrebatamento de que por vezes se revestem as considerações. Convergência de variados enfoques, em decorrência da aproximação do texto à teoria, o discurso crítico demanda cada vez mais uma arejada constelação de interesses, motivos e perspectivas. Da linguística à antropologia, da semiótica aos estudos culturais, da filosofia à história e à teoria literária, são extraídos ilações e conceitos, como suporte teórico e elemento de apoio. Nesse entendimento de crítica literária como lugar de uma atividade plural, entrecruzamento de saberes e tensões, impõe-se a atenção ao pensamento de Eduardo Prado Coelho, tendo em vista o vigor e a lucidez com que aproxima o texto literário a diversas conexões teóricas e ideológicas. Sobretudo no esforço em disseminar a ideia de crítica como instância agregadora de outros discursos, circulação de linguagens, “prática produtiva e transformadora”. Em suas palavras: o encontro de “uma linguagem suficientemente autônoma para que dela possa emergir uma escrita, isto é, um percurso teórico-prático razoavelmente estabilizado e coerente para que nele se dê conta de que há um corpo de linguagem que vai ao encontro da linguagem de outros corpos – num movimento de aplicação que nos implica até ao mais profundo do nosso ser e a razão das coisas” (COELHO, 1979, 15). 
      Releve-se ainda o trabalho paciente de leitura e divulgação efetuado por Gastão Cruz, António Ramos Rosa, João Barrento, Joaquim M. Magalhães, Fernando Guimarães, Arnaldo Saraiva, Manuel Frias Martins, Paula Mourão, Fernando J. B. Martinho, Eduardo Pitta, António Guerreiro e Fernando Pinto do Amaral, dentre outros, quase todos também capacitados cultores do verso, numa demonstração de que o fim de milênio em Portugal foi pródigo não apenas numa sofisticada produção poética, mas também no desenvolvimento de um agudo discurso crítico. Não seria ocioso constatar que a renascença da produção poética observada no período teria sido simultânea à expansão da atividade crítica, minas de água que se encontram e fortalecem, como fenômenos complementares e vitais, num século considerado de ouro para a poesia, iniciado sob a chancela auspiciosa de Fernando Pessoa.
      Jorge Fernandes da Silveira, Maria Lúcia Dal Farra, Gilda Santos, Ida Ferreira Alves, José Carlos Barcellos, Gustavo Cerqueira Guimarães, Tatiana Pequeno, Luís Maffei e outros pesquisadores brasileiros inscrevem seus nomes nesse arquivo flutuante e inconcluso, como agentes de práticas discursivas sobre a poesia portuguesa contemporânea, em franca expansão do lado de cá do Atlântico.
      O conceito de arquivo, caro para o pensamento de Foucault, possibilita abarcar não tanto a ideia de continuidade e preservação, mas o risco de descortinar o transbordamento dos múltiplos horizontes, a hesitação diante do limite e do recorte, a surpresa da descontinuidade, na dinâmica da taxonomia. Não a soma dos conhecimentos de uma época, a rigidez de convicções definitivas, e sim a dispersa possibilidade de leituras e interpretações, numa panóplia múltipla e constelada em que as diferenças se configuram. Espécie de trincheira dos recursos do dizer, nem sempre sob o signo da linearidade, o arquivo equipara-se também a um espaço onde as práticas discursivas suportam os processos de reciclagem e transformação, onde os traços expressivos são depurados para representar os reflexos da história, os voos da transcendência, os disfarces da subjetividade e os apelos de participação social.

COELHO, Eduardo Prado. A letra litoral. Lisboa: Moraes, 1979.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro : Forense Universitária,1986.

Livro do mês: PEREIRA, Edgard. Arquivo e rota das sombras. Lisboa: Aldeiabook, 2014.

      Raras vezes o livro do mês referido neste espaço corresponde a um livro lançado efetivamente no período. Mais uma circunstância digna de protocolo neste arquivo. Com capa de Ozias Lopes Filho, o livro será lançado no próximo dia 22 de abril, às 18:30 hs, na Casa da América Latina, em Lisboa, com a presença do escritor Fernando Pinto do Amaral.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Eduardo Pitta

      Livro do mês: Persona

      A primeira edição é de 2000; nela inexiste a epígrafe de George Steiner,  que exalta os criadores "excêntricos, arredios, nostálgicos, deliberadamente inoportunos...", nem o sofisticado acabamento gráfico da última edição. O volume engloba três relatos - "Marilyn", "Kalahari" e "Pesadelo", este mais desenvolvido e espesso. Apesar da autonomia, podem ser lidos como movimentos decisivos no processo de formação da mesma personagem, atuando em circunstâncias distintas. Chama-se Afonso, um nome emblemático para a cultura portuguesa. Alguma insistência na moralidade das ações, para além de possíveis efeitos cênicos, é sintomática do contrapeso repressor de que se revestem os aparelhos institucionais, na iminência da ruína e do esfacelamento.  Quando o império português começa a declinar em África, solapado por séculos de arbitrariedade, exclusão e rapina de toda sorte, o que se tenta ocultar é muito menos o colapso do poder que a sexualidade desviante e exacerbada exercitada na colônia. Híbrido, múltiplo, sensual, o espaço africano, em que pese a influência anglo-saxônica na elite moçambicana, surge como campo de forças onde reverberam os experimentos pseudo-científicos, os ícones da cultura pop, as referências à cultura gay e a pulsão erótica. O mais paradoxal, no entanto, é que os atores mais eficientes na prática da violência e repressão (a disciplinarização dos corpos e seus efeitos) pertencem à etnia branca, postos na mais alta hierarquia.

      A trilogia dos contos de Eduardo Pitta mistura a evocação da guerra colonial, distanciada do natural enquadramento político, à liberação do corpo e da sexualidade, num contexto-limite de trocas culturais e reciprocidade. A mãe do protagonista, hesitante entre a perplexidade e o zelo burguês, diante da arbitrária prisão do filho que se prolonga além do previsto, desaba: "O que é que ele tinha a ver com questões de vulnerabilidade e segurança de Estado?" A contiguidade da libertação política e da concepção libertária da sexualidade é percebida pelos aparelhos estatais (entenda-se imperiais) como o desmoronar de um domínio que se imaginava consistente e eterno. Disso terá certeza o narrador onisciente, ao encerrar o livro: "Decididamente o mundo começava a ruir". O último conto atinge em cheio as estruturas supostamente sólidas do império luso, ao revelar criticamente o lado pouco convencional de um quartel, desvelando a sexualidade nada exemplar de diversos e notáveis atores sociais. Os outros lugares focados na trilogia - a escola e o deserto - não se mostram menos significativos no diagnóstico de uma literatura caudatária das preocupações (a)moralizantes da escrita libertina do século XVIII.

      Nascido em Moçambique (Lourenço Marques, 1949), mas radicalizado em Lisboa desde fins de 1974, Eduardo Pitta vem construindo uma obra em três vertentes: na poesia, no ensaio e, mais tardiamente, na ficção. Forjada na contenção e na síntese, a poesia dada a lume em África (Sílaba a sílaba, 1974) contém as inquietações preliminares em torno da questão colonial, ainda presentes na coletânea seguinte (Um cão de angústia progride, 1979). A seguir, sua poesia centrou-se na busca de compreender o sujeito nas malhas da sexualidade (Olhos calcinados e Archote glaciar). Colabora em vários periódicos, interessado na produção literária contemporânea. Assinalável o seu trabalho pioneiro no âmbito dos gays studies em Portugal, com a publicação de Fractura (2003).
      Surpreende esta sua estreia, pela desenvoltura como constrói, em linguagem ágil, dinâmica, em português globalizado, receptivo a expressões inglesas, francesas e crioulas, uma ficção alegre e ousada, refinada e demolidora, irônica e encharcada de ceticismo. 

PITTA, Eduardo. Persona. Braga, Portugal: Ângelus novos, 2000.
PITTA, Eduardo. Persona. 2a. ed. Lisboa: Quidnovi, 2007.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Jorge de Sena

         O escritor português Jorge de Sena nasceu em Lisboa, em 1919; morreu em Santa Bárbara, Califórnia, a 4 de junho de 1978. Produziu poesia, ficção, teatro, ensaio, crítica (de cinema e literária), tradução. A importância como poeta e ficcionista é indiscutível, seu romance  Sinais de fogo é um dos pontos altos da novelística em língua portuguesa, no âmbito do século XX. Como pesquisador, renovou os estudos sobre Camões e Fernando Pessoa. Como professor de Teoria da Literatura, Literatura Portuguesa e Inglesa, conviveu entre nós, no Brasil, de 1959 a 1965, primeiramente (1959 a 1961)  na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, depois em Araraquara (de agosto de 1961 a outubro de 1965). Viajou para os Estados Unidos a 6 de outtubro de 1965, dando sequência ao exílio, para lecionar Literatura Portuguesa e Brasileira em Madison, na Universidade de Wisconsin, depois em Santa Bárbara, Califórnia, até falecer. Era formado em engenharia civil, mas dedicou toda a sua vida às letras.



      O motivo da vinda de Jorge de Sena para o Brasil, em 1959, está ligado à sua posição política e a seu envolvimento em falhado golpe de Estado, contra a ditadura de Salazar. Obrigado a sair de Portugal, aproveitou o convite para o IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado pela Universidade da Bahia, para se exilar voluntariamente no Brasil. A família, de oito filhos, viria depois. Toda a movimentação teria se dado, graças à atuação de amigos influentes. Paralelo ao magistério, desenvolveu longa colaboração no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo, fez grandes amizades no meio intelectual e deu continuidade à produção de sua obra. Após desvencilhar-se de inúmeras dificuldades burocráticas, conseguiu defender tese de livre-docência, versando sobre os sonetos de Camões, na Faculdade de Araraquara, em 1964. Seus principais livros: Perseguição, Coroa da terra, As evidências, Post-scriptum, Fiudelidade, Metamorfoses, Arte da música, Peregrinatio ad loca infecta, Conheço o sal (poesia);   O fisico prodigioso, Os grão-capitães, Sinais de fogo  (ficção); A estrutura de Os Lusíadas e outros estudos camonianos, Dialécticas da Literatura, Os sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular (ensaio), correspondência com autores (Eduardo Lourenço, Virgílio Ferreira, Dante Moreira Leite).         

      Entre os lugares que Jorge de Sena teria escolhido, para trabalhar no Brasil, antes de ser acolhido pela Faculdade de Assis, estava Belo Horizonte. O que se sabe, como motivo do impedimento para que tal se concretizasse, teriam sido entraves burocráticos, questões de documentos. Pergunta-se: como exigir documentação impecável, completa, a quem era considerado persona non grata em seu país, de onde saiu fugido? Esse assunto por vezes me inquieta. Tenciono descobrir alguma coisa, consultando registros institucionais, para descobrir quem teria sido a pedra no meio do caminho de Sena para Belo Horizonte. Sem querer patrulhar quem quer que seja, nem dar azo às conjeturas sobre o que poderia ter sido a presença de  Jorge de Sena na Universidade Federal de Minas Gerais, uma certeza existe: foram questões menores, burocráticas. Para dizer o mínimo, sabe-se que a máquina burocrática pode ser usada, quando de interesse, pelas eminências pardas, como recurso para o expurgo ideológico. E são acionadas picuinhas, como faltam um carimbo aqui, uma assinatura acolá, um brasão e uma rubrica ali. Formalidades estéreis e inócuas. Sua obra teria sido outra?  Melhor, impossível.
      Desde que a revista portuguesa O tempo e o modo, em 1968, dedicou um número exclusivo a Jorge de Sena, o culto ao poeta não mais parou. Na década de 80, surgiram as primeiras dissertações e teses; os estudos foram se multiplicando. Vários nomes se destacam, entre os pioneiros na divulgação de sua obra: João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Eduardo Lourenço, Eugênio Lisboa, Luciana Stegagno Picchio, Eduardo Prado Coelho, Joaquim Manuel Magalhães, Luís Adriano Carlos, Fernando Guimarães, George Monteiro, Carlo Vitorio Cattaneo, Ángel Crespo, Frederick Williams, Fernando J. B. Martinho, Jorge Fazenda Lourenço, Ana Maria Gottardi Leal, Gilda da Conceição Santos, Márcia Valéria Z. Gobbi, Márcia Vieira Maia (as quatro últimas brasileiras). A seguir, fragmentos do conhecido poema "Em Creta, com o Minotauro".


Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Colecionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.

Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço parte e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria
que este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de
tudo, espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.

É aí que quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.

Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria.

Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não seja o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

SENA, Jorge de. Poesia III. 3ª ed. Lisboa: Ed. 70, 1989. (PLI)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Maria Lúcia Lepecki (1940- 2011)



A escritora e ensaísta brasileira Maria Lúcia Lepecki morreu no último dia 24 de julho aos 71 anos em Lisboa, vítima de câncer. Maria Lúcia Lepecki nasceu em Axará, no estado de Minas Gerais, no Brasil, mas estava radicada há várias décadas em Portugal, sendo uma profunda conhecedora da literatura portuguesa. Brasileira de nascimento e portuguesa por casamento, Maria Lúcia Lepecki estudou em Paris, foi bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian e professora catedrática na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Fui aluno de Maria Lúcia Lepecki, na Faculdade de Letras da UFMG, em 1970, antes de se transferir para a Universidade de Lisboa. Apresentou-me, então, a Boris Shnaiderman, através do qual publiquei minha primeira resenha, no extinto Suplemento literário do Estadão, em 1971. Deixa muitas saudades.

Os seus principais livros: Eça na ambiguidade. Lisboa: Jornal do Fundão, 1974; Autran Dourado: uma leitura mítica. São Paulo: Quíron, 1976 (Prêmio Nacional da Crítica, Brasília, 1977); Ideologia e imaginário, ensaio sobre José Cardoso Pires. Lisboa: Moraes, 1978; Romantismo e realismo em Júlio Dinis. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1980; Meridianos do texto. Lisboa: Assírio e Alvim, 1979; Sobreimpressões. Ensaios de literatura portuguesa e africana. Lisboa: Caminho, 1988.

Francisco José Viegas, romancista e Secretário de Estado de Cultura de Portugal, lamentou sua morte, referindo que "foi uma grande professora, capaz de motivar várias gerações para a leitura de literatura de língua portuguesa, além de ter escrito alguns ensaios marcantes sobre o romance contemporâneo e sobre literatura comparada".

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A correspondência de Fradique Mendes



A correspondência de Fradique Mendes


Na multifacetada obra de Eça de Queirós, o título acima ocupa um lugar de destaque, apesar de ser um dos menos favorecidos pela fortuna crítica. Composto em forma de uma longa narrativa, a que se adicionam inúmeras cartas atribuídas a Fradique Mendes, o romance constitui um produto interessante, em termos de estrutura e construção, além de questionar aspectos fundamentais ligados à questão autoral. Entre a biografia e a ficção, sua estrutura acentua o entrelugar do narrador, indeciso entre a irrealidade dos fatos inventados e a possibilidade de comprovação histórica de muitos outros, alusivos à biografia do próprio Eça de Queirós ou à de Antero de Quental.
A personagem Fradique tem sua primeira aparição numa divertida invenção dos intelectuais integrantes das reuniões do Cenáculo, entre 1865/1880, num horizonte estético posterior à moldura naturalista, com um perfil tendente à modernidade, descrito de forma extremamente hábil, numa narrativa dialógica, que coloca sob suspeição a postura dogmática e autoritária do Realismo.
A correspondência de Fradique Mendes, mais do que constatar o abismo entre enunciado e enunciação, discute a questão da autoria literária. Carlos Reis aventa a hipótese da possibilidade de ser um heterônimo de Eça de Queirós. (A esse respeito, externei minha opinião em ensaio publicado no volume Romance histórico: recorrências e transformações, organizado por BOECHAT et alii. Belo Horizonte, FALE/UFMG, 2000.) Em mais de um momento, afirma o narrador que Fradique não tinha pretensões literárias e não tencionava ser um autor.

“Eu por mim, dum melhor e mais contínuo conhecimento de Fradique, concluo que ele não deixou um livro de Psicologia, nem uma Epopéia arqueológica (que certamente pareceria a Fradique uma culpada e vã ostentação de sabor pitoresco e fácil), nem Memórias – inexplicáveis num homem todo de ideia e de abstração, que escondia a sua vida com tão altivo recato. E afirmo afoitamente que nesse cofre de ferro, perdido num velho solar russo, não existe uma obra – porque Fradique nunca foi verdadeiramente um autor”. (QUEIRÓS, s/d, p. 102-103)

A citação é assaz esclarecedora do perfil cético e do caráter vago do protagonista. Apresentado como amigo e admirador de Theophile Gautier, Fradique, através do narrador, surge fascinado pela possibilidade de se deixar envolver pela “ação inefável do absolutamente belo”, adepto da crença num esteticismo radical.
A narrativa, até certo ponto fluida, no que diz respeito ao contexto histórico, não frustra a intenção de configurar uma determinada época. O tempo é uma categoria rígida no romance. Embora as cartas não sejam datadas com exatidão, o narrador separa com ênfase o ano de 1867, quando teria conhecido Fradique, bem como o ano de 1880, quando teria ocorrido sua intimidade com o protagonista. Apesar de reiterar, em várias passagens, que a amizade dos dois não ultrapassou “as funções da inteligência”, o narrador não consegue camuflar a forte atração que sente pelo amigo, entre pitadas de ironia e sutilezas (homo)eróticas. Embora seja um arremedo de heterônimo, uma vez que seu estilo não se afasta do estilo de Eça de Queirós, Fradique cumpre à perfeição seu papel na cena literária, ao possibilitar a escrita de um grande romance, que de certa forma inaugura alguns recursos (a mescla de realidade e ficção, entre outros) caros nos dias que correm, assinalando de forma soberba o providencial encontro de seu autor com a Modernidade.
QUEIRÓS, Eça de. A correspondência de Fradique Mendes. Porto: Lello & Irmão, s/d.

sábado, 15 de agosto de 2009

Divulgando sites de consulta





      No primeiro site, a conhecida revista de literatura portuguesa Colóquio-letras, que na janela Actualidade, apresenta dois textos críticos que escrevi no ano passado: um sobre o romance Cidade proibida, de Eduardo Pitta; outro sobre o romance A máquina do arcanjo, de Frederico Lourenço.


O segundo é um site amplo de literatura brasileira.