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segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Nélida Piñon (1937-2022)

 

       Morreu em Lisboa, no último dia 17, a escritora Nélida Piñon. Conheci-a no Suplemento Literário MG, na década de 80. A imagem que, desde então, guardo revela uma mulher forte, bem disposta, atenta aos menores movimentos ao redor, integrada de forma positiva na engrenagem da existência. Essa boa disposição na época associei ao trabalho literário. O que deve ser a mente de um romancista, arcabouço em que se entrelaçam, vívidos, os fios que, em códigos de letras e alfabeto, adormecem, como se refazendo de esplêndidas jornadas. Profissional emblemática da intricada arte de narrar, exercida em alta dimensão com engenho e arte, Nélida Piñon enriquece a cultura brasileira com seus romances impregnados de aventuras e reações humanas, suor e lágrimas vertidos à deriva de contextos diversos. A vivacidade, o hausto vivificante, a pletora de emoções, a irredutível aragem de vida decorrem do contato diuturno com as palavras e de uma imaginação poderosa e privilegiada.

       Deixa uma obra importantíssima, iniciada com o romance Guia mapa de Gabriel Arcanjo (1961), a que se seguiram diversos títulos de contos: Tempo das frutas (1966), Sala de armas (1973), O calor das coisas (1980), A camisa do marido (2014); de romances: Madeira feita cruz (1962), Fundador (1969, prêmio Walmap 1970), A casa da paixão (1972, troféu APCA), Tebas do meu coração (1974), A força do destino (1977), A república dos sonhos (1984, APCA, Pen Clube do Brasil), A doce canção de Caetana (1987, prêmio José Geraldo Vieira, Brasil), Vozes do deserto (2004, Jabuti 2005), Um dia chegarei a Sagres (2020): de memórias: Coração andarilho (2009, prêmio espanhol Terenci Moix), Uma furtiva lágrima (2010); e de ensaio: Aprendiz de Homero (2008, prêmio Casa de las Américas, Cuba, 2010), Filhos da América (2016). Pelo conjunto da obra, foi distinguida ainda por outros prêmios, dentre os quais: Literatura Latinoamericana y del Caribe (1995, México), Rotary Clube do Rio de Janeiro (1997), Iberoamericano de Narrativa Jorge Isaacs (2001, Colômbia), Rosalía de Castro, Pen Club Galiza (2002), Menéndez Pelayo (2003, Espanha), Príncipe das Astúrias (2005), Vergílio Ferreira (2018, Portugal).



                                              (Foto: Correio da Manhã)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Nélida Piñon

      Livro do mês




      Compete às sagas serem portadoras dos valores e apreensões do contexto em que foram escritas. No caso de A república dos sonhos, depara-se o leitor com uma visão de mundo esfacelada pelo arbítrio de uma ditadura, a um tempo impiedosa diante da corrupção e dos movimentos libertários. O Brasil, como república de sonhos, expõe-se como território recetivo aos imigrantes, ao mesmo tempo em que se busca reescrever seu fantasioso passado de impunidade, de prodigalidade inquieta, fonte de oportunidades e expectativa de desenvolvimento. O mito da terra provedora, de riquezas inesgotáveis, perpassa ao longo dos capítulos da trama: “Era hora de voltar a escavar as terras brasileiras, em busca de tesouros. Sempre teve certeza de encontrá-los” (PIÑON, 2015,126).



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      A paisagem ensolarada de Galícia paira sobre as personagens que de lá saíram, na ilusão de se enriquecerem numa América coroada de fartura e extravagância. Em polos opostos, movimentam-se os protagonistas Madruga e Venâncio. Em Madruga presenciamos a sedução pela aventura numa América construída em sonhos, cultivados por uma desenfreada ambição: “De resto, sou ainda um estrangeiro nesta terra, sob permanente suspeita. Meu único sonho é conquistar o Brasil” (PIÑON, 2015,168). O apelo da aventura, envolta nas asas da cobiça, norteia os seus movimentos, ao se deparar com as oportunidades de trabalho e riqueza.
      Viver no Brasil para Venâncio só se justifica se puder projetar nos elementos naturais a lembrança comovida de sua terra distante: “Quantas vezes, desta varanda do Leblon, poderiam eles, em seguidos exercícios de imaginação, alcançar a Galícia em rápidas braçadas, levados apenas pelos alísios, favoráveis à navegação” (PIÑON, 2015,301). Galego aqui exilado, europeu que se deixa aos poucos e com dificuldade contaminar pela cultura tropical, compõe um diário, importante documento de interpretação de hábitos e costumes brasileiros: “Ninguém aqui se isenta facilmente dos apelos sexuais. Eles ganham forma pela manhã, sem hora de se esgotar” (PIÑON, 2015,390). O lento e gradativo processo que encaminha Venâncio à loucura produz devastadora destruição no ânimo de Madruga, o antigo amigo de todos os dias. “Os motivos que atraíram Venâncio à América divergiam frontalmente dos seus. Ele não viera de tão longe para esburacar a terra pelas manhãs, criando bolhas e feridas pelo corpo, em busca de um tesouro. O único tesouro de Venâncio consistia em preservar o direito ao sonho” (PIÑON, 2015,252).
      A produção de um romance vigilante em relação ao tempo de sua escrita – e numa dimensão grandiosa – acarreta alguns ajustes de contas ao autor. Um deles, inarredável, diz respeito à aceitação resignada da impotência de sua geração diante da avassaladora opressão instalada pelo estado autoritário. Vários blocos narrativos alternam-se, sem que a linguagem tendente ao poético e às digressões reflexivas se modifique. Projeto arrojado, complexo, realizado numa extraordinária combinação de sabedoria e excepcional domínio de recursos.
      A lenta e extenuante agonia de Eulália atravessa todo o relato que se alastra esmiuçando as escaramuças familiares, a agrura de viver num espaço a princípio inóspito e os expedientes adotados pelos imigrantes no esforço de adaptação à nova terra. Personagens reais misturam-se aos fictícios, com os quais se moldam harmoniosamente, como os botões novos ocupam o lugar antes ocupado por outros que se perderam. Santiago Dantas, Manuel Bandeira, Getúlio Vargas ocupam algumas páginas com sua aura histórica polida, sem influenciar a sequência da trama, convocados a compor um canto da moldura de um quadro previamente esboçado. Ao narrador multifacetado não escapam as sutilezas dos pequenos gestos, nem a desmedida das grandes empreitadas.







PIÑON, Nélida. A república dos sonhos. Rio de Janeiro: Record, 2015. (Edição comemorativa dos 30 anos)