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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Lúcio Cardoso

Livro do mês:

       Acabo de ler a novela O enfeitiçado, de Lúcio Cardoso. Mais um mergulho no exercício da ficção de tendência psicológica, experimentada em várias trilhas e matizes, através de exuberante fluxo verbal, dividido entre a reconstituição cuidadosa do cenário e a captação do universo interior das personagens, marca inconfundível do autor mineiro.


      Surpreende-me o final niilista, absolutamente desesperado, desesperançado. Após um longo percurso em busca do filho, o enigmático Rogério Palma, com o qual desfruta apenas breves momentos de abandono e fuga, em cenários decadentes, Inácio Palma confessa sua desistência, esquadrinhado num beco sem saída. Vê-se desprezado, relegado à sarjeta, pressionado a dar cabo da própria vida, sob a pérfida e implacável vigilância de um bandido, pago para exterminá-lo. “Mas isto era eu, unicamente eu, minha pobre matéria enganada e triste” (p.276). Em sua tumultuada demanda pelo reencontro com o filho, o protagonista não se constrange em pactuar com a mais descarada sordidez, nos arredores periféricos do submundo da prostituição. 
      Alguns críticos que se debruçaram sobre a obra polêmica do Autor usam a imagem do “poço sem fundo” para expressar o pessimismo nela presente e, sobretudo, a ousadia como desvenda as forças obscuras que dominam as personagens, atormentadas, incapazes de fugir de uma destinação trágica. Lúcio Cardoso denominou de “o mundo sem Deus” à trilogia formada por três novelas – Inácio, de 1944, O enfeitiçado, publicada em 1954 e Baltazar, que ficou inacabada. As páginas derradeiras exalam o gosto depressivo da degradação e da morte. 

CARDOSO, Lúcio. Inácio, O enfeitiçado e Baltazar. Rio de Janeiro: Record, 2002.




quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Lúcio Cardoso

Livro do mês:   O desconhecido 


      Incluo-me, com honra, no seleto e ilustre clube dos admiradores de Lúcio Cardoso, autor mineiro, introdutor do romance psicológico na moderna ficção brasileira, cultuado por Clarice Lispector, Walmir Ayala, Octavio de Faria, autores com os quais conviveu na cidade do Rio de Janeiro dos anos quarenta a sessenta. Nos dias que correm, sua obra tornou-se objeto de estudo por parte de Valéria Lamego, Ésio Macedo Ribeiro, André Seffrin, Mario Carelli, Andréa Vilela, José Américo Miranda, Marília Rothier, Antonio Arnoni Prado e Ruth Silviano Brandão, dentre outros.
Algumas avaliações críticas, produzidas ao longo dos anos, passaram a cristalizar-se com estatuto canônico. O esforço de análise das modulações interiores das personagens, a sondagem subjetiva, constituem traço inarredável e intenso de sua ficção. Não há como negar seu pioneirismo, em nossas letras, na tentativa envolvente de perscrutar o curso do pensamento e das emoções das personagens, enredadas em circunstâncias fortemente carregadas de reações e devaneios. O que nem sempre se releva resulta na sofisticada dimensão estética, a intricada contaminação poética de que se reveste a ficção do criador de A luz no subsolo (1936), Mãos vazias (1938), O desconhecido (1940), Dias perdidos (1943), Inácio (1944), O enfeitiçado (1954), Crônica da casa assassinada (1959). O escopo narrativo, longe de se erigir em objetivo primeiro, apresenta-se em geral associado a amplo e arejado mergulho na atmosfera subjetiva.  Tal processo denomina-se percepção poética do universo interior das personagens.


Dentre os críticos da primeira hora, Álvaro Lins foi certeiro ao perceber nele “um romancista de análise e de introspecção”, “um escritor que nenhum preconceito e nenhum escrúpulo perturbam no seu propósito de revelar, em profundidade, as forças íntimas e mais desconhecidas que movimentam os homens, os seus sentimentos, os seus atos” (LINS, 1963, p. 109). Prossegue, à frente: “Os recursos do Sr. Lúcio Cardoso voltam-se todos para as lutas de sentimentos, para as paixões que destroem e aniquilam, para as revoltas que sufocam e transbordam, para os amores, os ódios, as invejas, os ciúmes que parecem captar e contêm a essência mesma da vida” (LINS, 1963, p.113).
O desconhecido ratifica a importância do legado ficcional do autor. Por vezes altivamente preterido, por críticos de renome, o legado ficcional de Lúcio Cardoso permanece como um dos pontos elevados da nossa literatura. Logo no início do romance destaca-se o motivo do pai ausente, exaustivamente explorado. O protagonista, imerso em recordações do passado, detém-se na imagem do pai indiferente às lidas domésticas, aquele que “partia como uma sombra, como o tardio fantasma que sempre fora” (CARDOSO, 2000, p.33). A ausência do pai atormenta o protagonista: “Quantas vezes o fitava com olhos úmidos, ansioso para que uma palavra mais carinhosa levantasse a porta do véu misterioso” (CARDOSO, 2000, p. 32-33).

                                                     
                                                     (Imagem: geneall.net.)

         Novela centrada numa única personagem, O desconhecido estrutura-se em torno do esboço de seus sentimentos, caráter e paixões. Um peão, cujo passado permanece incógnito, decide estabelecer-se numa fazenda interiorana, em que se movimentam pessoas estranhas. Nada de especial ocorre, aparentemente, a não ser o interesse da proprietária da fazenda pelo novo empregado. Dominada pela obsessão da posse, Aurélia tenta transformá-lo em amante. José Roberto torna-se amigo de Elisa, uma criada, e de Paulo, outro empregado humilde que almeja uma vida melhor, longe dali. Numa precipitação descontrolada, o protagonista mata Paulo, refugiando-se em seguida numa pensão, onde é flagrado no primeiro e último capítulo. A cena do crime, praticado em vertigem descontrolada, tem sido reiteradamente elogiada.
“Lúcio Cardoso evidencia notavelmente até onde pode chegar a densidade dramática das paixões incontroladas, mostrando a miserável realidade de certos sentimentos fundamentais no coração humano. E o que faz aumentar a dramaticidade da novela é o princípio de indeterminação, que a atravessa como uma onda. A surpresa parece ser o único instrumento com que conta o romancista para levantar e desdobrar as situações. Os próprios personagens nada sabem a respeito do seu destino e o que lhes acontece torna-se para eles uma surpresa como fora para os leitores. E nenhum personagem consegue fugir ou evadir-se do destino sempre trágico que o espera” (MAIA, 1970, p.130-131).
O ritmo dos acontecimentos, delineados sob a chancela de rigorosa análise, revela que o autor não tem pressa em relação ao andamento da intriga. Em narrativa lenta, os episódios que envolvem a temporada de José Roberto na fazenda dos Cata-Ventos evoluem de forma indecisa, vagarosa. Qualquer detalhe, ruído, mudança de clima ou de comportamento motiva um comentário ou reflexão do narrador, sempre vigilante e atento.

CARDOSO, Lúcio. O desconhecido. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2000.
LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.
MAIA, Pedro Américo (Org.). Dicionário crítico do moderno romance brasileiro. Belo Horizonte: São Vicente, 1970. Grupo Gente Nova.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um poema de Lúcio Cardoso


      Receita de homem
Lúcio Cardoso





Depois deve ser alto,
sem lembrar o frio estilo da palmeira.
Moreno sem excesso para que se encontre
tons de sol de agosto em seus cabelos.
E nem louro demais para que, de repente
no olhar cintile algo da cigana pátria adormecida.
E que tenha mãos grandes, para demorados carinhos
e adeuses que se retardem ao peso do próprio gesto.
Pés grandes, também, porque não,
para que os regressos sejam breves
e haja resistência para as conjuntas caminhadas.
Os olhos falem, falem sempre, falem
de amor, de ciúme, de morte ou traição.
Mas que falem. Porque o homem sem a música dos olhos
é como sepultura exposta ao sol do meio-dia.
E que o riso relembre um pouco da infância,
para que se tenha, no fervor do beijo,
uma memória de pitanga e amora esmagadas
Ah, o corpo! Sucedam alvoradas ao longo do tórax gentil,
e escureça a penugem até o sexo velado.
(Mas não definitivamente.)
E o seu passo lembre a dança, mas com firmeza,
e o seu rastro fale de perfume, sem perfume
e escorram pausados rios em seus flancos hieráticos.
E que ele cante, sem cantar
por toda a sua humana contextura,
para que também em torno dele as coisas cantem,
quando, como o primeiro homem,
nu ele se erguer defronte ao mar.

Canto do Rio, 3/XII/55

CARDOSO, Lúcio. Poesia completa. Ed. crítica de Ésio Macedo Ribeiro. São Paulo: Edusp, 2011.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Centenário de Lúcio Cardoso

      2012 no fim, mas antes que termine, cabe lembrar o centenário de nascimento de Lúcio Cardoso - em Curvelo, MG, em 14 de agosto de 1912, falecido no Rio de Janeiro, a 24 de set. de 1968. Surgiu como escritor com Maleita, novela de traços regionalistas, em 1934, influenciado pelo neorrealismo, reconhecido por críticos e autores numa época em que a ficção de cunho social estava na moda. Em 1935 publica Salgueiro, novela sobre o morro homônimo do Rio, na mesma tendência. Com A luz do subsolo, romance de 1936, o autor adere à ficção intimista, de análise psicológica, na qual viria a se notabilizar, como o principal representante no Brasil. Nessa vertente, seu trabalho encontra parceiros em Octávio de Faria, Cornélio Pena, Josué Montello, Erico Verissimo, José Geraldo Vieira e Clarice Lispector. Com os dois primeiros passa a ser conhecido como o grupo de ficcionistas católicos, atormentados pela questões ligadas à dúvida religiosa, ao sentimento de culpa e à decadência. Em 1938, aparece Mãos vazias, novela impregnada de inquietação, angústia e sentimento de impotência. Em 1941, com a novela O desconhecido, Lúcio Cardoso retorna ao ambiente de Minas Gerais, ao empreender a análise de um indivíduo, cujo passado permanece ignorado, que se estabelece como trabalhador numa fazenda. As relações de José Roberto, o protagonista, com a velha proprietária, que tenta enredá-lo em sua teia dominadora, e com outros funcionários subalternos delineiam o pano de fundo da trama, cheia de peripécias, assassinato e fuga espetacular. Dias perdidos, o romance dado a lume em 1943, assinala em definitivo a consolidação do autor como romancista, desta vez operando com elementos autobiográficos. Em 1944, publica a novela Inácio, que prossegue em O enfeitiçado (escrito em 1947, lançado em 1954) e Baltazar, só publicada em 2000, formando a trilogia por ele denominada "Mundo sem Deus". O sentimento do ódio torna-se a temática básica de duas novelas, A profesora Hilda e O anfiteatro (1945). A consagração como romancista ocorre com Crônica da casa assassinada, de 1959, ponto alto em arquitetura narrativa, densidade dramática, escavação psicológica e espessura trágica, ao sugerir o debate em torno de paixões incontroláveis e do incesto. Como atividade paralela, simultânea à escrita dos romances, o autor dedicava-se à poesia, ao registro de um caudaloso diário, a roteiros cinematográficos e peças de teatro. Atingido em 1962 por um AVC, que lhe paralisou metade do corpo, encontrou nos últimos anos na pintura sua forma de expressão. 
      Extremamento habilidoso em descrever conflitos extremos, ocorridos em cenários toldados de fumaça e sombras, quartos de pensão ordinária, mesas de bar sórdidas, apartamentos sufocantes, bordéis do centro do Rio antigo, interiores de fazendas mineiras, Lúcio Cardoso construiu um universo ficcional único, habitado por personagens insatisfeitos, perversos, alucinados. 

      A extensa fortuna crítica sobre sua obra tem início na década de 30 do século passado (Agripino Grieco, Manuel Bandeira, Carlos Drummond) e acompanha o aparecimento de seus livros. À medida que os anos correm, denota maior concentração e verticalidade. Ao lado de elogios, há também apreciações comedidas, como a de Mário de Andrade. Na década de 40, Sérgio Milliet aborda alguns romances de Lúcio Cardoso, salientando o sopro de novidade que eles trazem. Nas décadas de 50 e 60, Álvaro Lins analisa os romances A luz do subsolo e O desconhecido, sem esconder interesse e admiração, chamando a atenção para o seu relevante trabalho ficcional. "Exatamente esse clima de pesadelo é que constitui toda a atmosfera dos romances de Lúcio Cardoso, em que figuras, acontecimentos, paixões transcendem desde o início para um plano de intensa dramaticidade. Já se disse, por isso, que eram falsos, irreais, mistificados. Por mim, acho-os verdadeiros, reais, sinceros" (LINS, l963, p.113). O mesmo Álvaro Lins, na sequência, lamenta o rebaixamento estético de duas novelas, A professora Hilda e O anfiteatro: "representam ideias que não se concretizam devidamente em matéria de ficção, paixões humanas que não se revelaram em episódios, nem se exprimiram em caracteres de personagens, de acordo com a técnica e a forma da novela" (LINS, 1963, p.116).

      Em 1972, é defendida uma dissertação de mestrado sobre o autor: Formas de evasão em LC, trabalho elaborado no curso de sociologia da USP, por Guilherme Ferreira Silva. É a primeira pesquisa de um total de 82 trabalhos acadêmicos existentes até hoje, entre monografias, dissertações e teses de doutorado.  Na década de 80, seduz grande número de pesquisadores: Mario Carelli publica a biografia, Corcel de fogo: vida e obra de Lúcio Cardoso (1988). Dez anos mais tarde, Ruth Silviano Brandão, na UFMG, ministra um curso de Pós-Graduação baseado em sua obra, comemorando os trinta anos de sua morte; daí, resulta a publicação de Lúcio Cardoso, a travessia da escrita (1998). Em 2006, Ésio Macedo Ribeiro publica O riso escuro ou o pavão de luto: um percurso pela poesia de Lúcio Cardoso. Em 2008, o Centro de Estudos Portugueses da UFMG dedica-lhe o número 39 de sua revista.  O ano de 2011 assinala a publicação da obra poética, organizada por Ésio Macedo Ribeiro, a monumental Poesia completa (Edusp). Deve-se ainda a este pesquisador a publicação do conjunto dos diários, lançado em 2012 (Diários- Lúcio Cardoso). Contos da ilha e do continente, coletânea de narrativas curtas publicadas na década de 40 e de 50, selecionadas e apresentadas por Valéria Lamego (Civilização brasileira), constitui outro marco importante, neste ano do centenário do escritor. 


LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.
CARDOSO, Lúcio. Diários. Organização, apresentação e notas por Ésio Macedo Ribeiro. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Lúcio Cardoso

    Livro do mês: Dias perdidos

      Grandes obras, aquelas que ficam ressoando para sempre em nós, assustam-nos, quando decidimos dizer alguma coisa sobre elas. Julgamo-nos pequenos para a empresa, procuramos uma rota de fuga qualquer. Mas os desafios nos atraem, vamos lá. Antes de prosseguir, lanço mão de referências e citações fundamentais. Retomo comentários de Sérgio Milliet, dos anos 40, quando o romance foi publicado. Num deles, reconhece ter sido 1943 um ano de grandes lançamentos ficcionais: "l943 deu-nos uma farta colheita de boa ficção. Terras do sem fim, Fogo morto, Dias perdidos, O agressor, (...) Quadragéssima porta (...). Rompemos o nosso isolacionismo e entramos na agitação do mundo. Saímos da aldeia para a metrópole" (Milliet, II, 1981,17). O volume II acompanha o ano de 1944. Noutro registro, após se confessar "habituado demais à sabedoria dos romancistas europeus que se valeram dos ensinamentos da psicanálise e o fizeram com grande perícia e excepcional cuidado da verdade científica",  o referido crítico expressa-se decepcionado com o último romance de José Lins do Rego (Eurídice) e prossegue: "Não há negar que desde algum tempo se vem observando, principalmente entre os mais jovens (estou pensando em Clarice Lispector, Lúcio Cardoso, Fernando Sabino, Adonias Filho, Julieta Drummond de Andrade) uma reação interessante contra o realismo, ou o pseudo-realismo do romance dos homens da geração de 30" (Milliet, V, 1981, 199). O volume V refere-se ao ano de 1947, no Diário crítico.


     Teria Lúcio Cardoso (1912-1968), com 31 anos na altura, atentado para um possível confronto com o tempo perdido de Proust, se nos fixamos no título: Dias perdidos? Embora pareça bizantina, a comparação faz sentido. Se levarmos em conta as convenções do romance psicológico, tudo procede e em grande estilo. O narrador mostra-se com pleno domínio dos recursos narrativos, acrescido de algo mais, os ornatos do virtuosismo e de certos requintes de sutileza e análise de comportamento. De imediato, alguns estereótipos precisam ser eliminados. Ha uma tendência equivocado de se relacionar o romance psicológico à presença de elementos ligados à delicadeza, à suavidade, ao devaneio. Fica-se tentado a juntar tudo sob a chancela do feminino. Nada mais falso. Confunde-se técnica narrativa, centrada na fixação de memória como feixe de intersecção entre o passado e o presente, a ênfase no primado da reflexão com visão de mundo sob o prisma da fantasia e da psicologia, no pior sentido que tal assertiva possa significar. O romance psicológico não prescinde de uma vigorosa elaboração, receptividade à dimensão metafísica, aos temas da consciência, do comportamento, do destino, abordados à luz da análise introspectiva. Não raro impõem-se digressões tangidas pela leveza e suavidade de tons, tudo aliado à lentidão narrativa, à densidade dramática, à riqueza de detalhes.


     Pode-se afirmar que, em Dias perdidos, Lúcio Cardoso alcança um estágio de depuração e esgotamento de processos e técnicas do romance psicológico. É precisamente a análise do comportamento, quase sempre flagrado sob o impacto de desdobramentos morais, o forte do narrador. E nesse aspecto Lúcio Cardoso é insuperável e desconcertante. A variedade de sugestões provocadas por uma situação ou um gesto, as nuances interpretativas, o efeito dramático de um detalhe da roupa ou de um móvel, tudo é repassado de forte intensidade. Os mínimos sobressaltos, as mais sutis sensações são delineados de forma expressiva e rigorosa, com o crescente interesse em expressar a totalidade de reação e condicionamentos externos, com seus reflexos internos, sua correspondência sob a forma de cadeia reflexiva. Se comparado com o romance atual, pode parecer um tanto arrastado e solene, em especial na progressiva passagem de um plano espacial para outro, (dos lugares abertos para o interior de casas), sem que se perceba mudança abrupta de tom. O autor manipula como ninguém os efeitos de mediação espacial.

      O romance é estruturado em três partes, todas com dezessete dilatados capítulos. O núcleo humano retratado abarca não mais que meia dúzia de personagens, alguns de complexo perfil, tais como Clara, Sílvio e Diana, outros lineares, como Chico, Áurea e Jacques. Tudo em compactadas 404 páginas, da mais sofisticada literatura brasileira de todos os tempos. O romance tem sido analisado como obra autobiográfica, tentativa de evocar a vida do pai do escritor Lúcio Cardoso, na figura esbatida do pai errante e nômade, sempre ausente de casa, à qual volta para morrer. Nesse sentido, são feitas ilações intertextuais com o livro de memórias da irmã do autor, Maria Helena Cardoso, Por onde andou meu coração. No final da 2ª parte, avulta a ruína física de Jacques, a luta contra a morte. Em especial, o sufocante final do cap.14 vai crescendo, com a mórbida sugestão de que a morte se aproxima, até que o vento da tempestade instala-se e apavora, fazendo sacudir a porta com "monstruosa mão". O motivo da porta, revelador das sensações de medo, agonia, insegurança, opressão e sufocamento, é explorado com mãos de mestre.

      Entre muitos, um dos interesses do livro é acompanhar, tendo em vista o intento autobiográfico, o perfil de Sílvio, porta-voz do autor Lúcio Cardoso. "Diana se afastou, erguendo os ombros. Sílvio permaneceu sozinho, olhando os grupos que riam e conversavam em torno da mesa, devorando sanduíches, doces e refrescos. O sol filtrava-se através das ramas do limoeiro e arrancava cintilações dos talheres espalhados sobre a toalha branca. Abelhas voavam sobre restos de bolos. Sílvio sentiu-se desamparado como se estivesse numa ilha deserta. É que ainda não tinha compreendido de que espécie de solidão era feita sua natureza, e naquele momento ainda lutava, bem longe ainda dessas tréguas que afinal se concederia um dia, quando em torno dele tudo estivesse realmente morto - não pela inexistência, como sua fugaz impressão de minutos antes, mas pela carência de importância, por tédio, pela compreensão de que tudo isto pertence a um domínio a que não é mais possível voltar quando se saiu um dia, ou melhor, quando Deus nos escolheu para caminhar do lado de fora" (Cardoso, 2006, p.284-285).

     Em raríssimos momentos, o narrador se intromete, através do uso do pronome possessivo de primeira pessoa do plural. Envoltas em análises sobre a evolução dos fatos e a ressonância sutil de um evento sobre outro, as descrições evoluem lentas, repassadas de digressões formatadas em registro apurado, em tom arrebatado e eloquente. Assim, como se o narrador não lograsse manter-se distante dos fatos narrados, alguns sinais ou dêiticos configuram processos de autobiografia: "Como tudo passava depressa, como os minutos se perdiam, sem que soubéssemos o seu valor" (Cardoso, 2006, p.159); "...o modo pelo qual perdemos os seres a quem mais amamos" (Cardoso, 2006, p.185). A tendência ao arrebatamento reflexivo, à eloquência e exaltação dramática, deve ser creditada ao gosto da época, a literatura dos anos quarenta. Nem assim o romance perde sua atualidade, a estrutura narrativa sofisticada e sua arrebatadora beleza.

CARDOSO, Lúcio. Dias perdidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
MILLIET, Sérgio. Diário crítico. 2ª ed. São Paulo: Martins, 1981. Vol. II. (1944)
MILLIET, Sérgio. Diário crítico. 2ª ed. São Paulo: Martins, 1981. Vol. V. (1947)

domingo, 31 de julho de 2011

Crônica da casa assassinada



                                                (Foto de divulgação, de João Caldas.)

Com casa lotada, no Teatro Alterosa, assisti ontem à peça Crônica da casa assassinada, baseada em romance homônimo de Lúcio Cardoso, com grupo carioca, adaptação de Dib Carneiro e direção de Gabriel Vilela. Hoje é a última apresentação em Belo Horizonte, às 19 horas.


O romancista mineiro Lúcio Cardoso tem sido enquadrado na linhagem dos grandes moralistas do Ocidente, voltados aos problemas da consciência; notadamente no seu caso interessado em mostrar como os aspectos sombrios da sexualidade atormentam os indivíduos. De imediato, deve ser reconhecido o esforço positivo em adaptar aos palcos um dos textos maiores da literatura brasileira, não apenas em extensão, mas em densidade e exuberância técnica e estética. A primeira cena convoca a nota impactante e nervosa que acompanha todo o espetáculo: a cena de sexo incestuosa entre mãe e filho, mais claramente, entre o jovem André e sua mãe, em agonia no leito de morte. Ainda que mais tarde, de forma nebulosa, seja aventada a hipótese de o jovem ser filho de Ana e não de Nina, o incesto está irremediavelmente inscrito e vivido como desejo mórbido que passa a contaminar as outras personagens. E a brutal oscilação entre vida e morte, entre corpo desejante e corpo em decomposição, em suas variadas conotações de ruína física e moral, parece atar o destino da família. Concentrada no casarão de tradicional fazendeiros das Gerais, a trama transcorre em meio a paixões extremas e desintegradoras. O ambiente fechado, pouco arejado e opressivo, abriga a progressiva desintegração financeira e moral dos Menezes.


A adaptação teatral consegue captar os momentos decisivos da tragédia que, se no romance recebe uma complexa e arrastada arquitetura discursiva, formada pelo entrelaçamento de vários discursos, no palco se vê desenvolvida em fragmentos vertiginosos, carregados de denso e patético simbolismo. Nina, a bela carioca liberada, tal como no romance, concentra em si a semente da degradação. Ela carrega uma beleza única, “mórbida e em declínio, como se vibrasse em uníssono com o espírito que presidia a casa toda”, depõe o farmacêutico. A montagem de Gabriel Vilela explora de forma criativa, com efeitos visuais e sonoros apropriados, a atmosfera sufocada e tensa em que as personagens são domadas por instintos e atormentadas pela repressão e sentimento de culpa. Os traços mineiros presentes na montagem centram-se sobretudo na arquitetura barroca (a réplica da fachada da igreja de São Francisco de Assis, no fundo da cena), e na obstinada submissão à religiosidade, às convenções sociais e aos indecifráveis desígnios da fatalidade. Somados aos motivos ibéricos (as canções românticas), tais motivos ampliam-se, tornando-se elementos míticos e universais.