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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Revista literária

      Transcrevo breve referência de artigo publicado no Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, de 31 de out. 1973. Trata-se de um número especial, um caderno jornalístico, dedicado a Minas Gerais, com matérias sobre política, turismo, cultura, negócios, etc.



O autor é Plínio Carneiro, à época com 35 anos, jornalista desde 1961, poeta, contista, prof. da FAFICH UFMG, um dos fundadores do periódico Revista literária, mantido pela UFMG durante décadas. Afirma que o escritor mineiro forma-se no jornalismo e na universidade e tem que aliar a inspiração a um sólido lastro cultural. "Hoje não basta ao escritor ter inspiração e levar uma vida boêmia como autodidata. Os nossos escritores novos procuram escrever para todo o Brasil, em linguagem nacional, com fórmulas, conceitos e ideias abrangentes, sem bairrismos, sem muita cor local". Falando sobre a Revista literária, do corpo discente da UFMG, afirma:


“(...) Em suas páginas tem colaborado nomes expressivos da atual literatura mineira: Luís Gonzaga Vieira, Sérgio Sant’Ana, Duílio Gomes, Luís Vilela, Henry Correa de Araújo, Valden Camilo de Carvalho, Jaime do Prado Gouveia, Adão Ventura, Luís Márcio Viana, Sandra Lyon, Ronald Claver, Magda Frediani, Edgard Pereira dos Reis, Humberto Werneck e outros”.

         Dentre os "outros" não referidos por Plínio Carneiro, caberia citar os que publicaram entre o primeiro número (1966) e o número oito (1973): Odilon Machado Júnior, Danilo Gomes, Athos Batista Franco, Sérgio Tross, Luiz Antônio de Andrade Figueiredo, Eugênio Gomes, Regina Lúcia Ferreira Neves, Márcio José da Cunha Jardim, Mônica Catella Noronha, Luiz Fernando Emediato, Jackson Drummond Zuim (contistas); Régis Duarte Gonçalves, Cláudia Versiani, Aílton Santos, Valdimir Diniz, Marco Aurélio Duarte, Osvaldo Eustáquio de Melo, Léa Nilce Mesquita, Luiz Otávio Linhares Renault, Fernando Rubinger, Ana Cecilia Carvalho, Osias Ribeiro Neves, Regina Souza (poetas).

      Na Revista literária 1, Sérgio Sant'Anna assina o conto "Didática", sob o nome de Sérgio Andrade Sant'Anna e Silva; Adão Ventura era Adão Ventura Ferreira Reis.  Minha participação como autor na Revista literária restringe-se a dois números. Na quinta edição,  R L n.5, novembro de 1970, são publicados três fragmentos ficcionais, sob o título de "Três ódios iguais a ode". Na edição de 1971, RL n. 6, por ter conquistado o concurso de contos naquele ano, são publicados o conto vencedor, "Imenso, cego, brutal" e outro, sob a chancela de "trabalho selecionado", com o título de "Daqui a dez anos". Como me formei em Letras em 1971, não poderia mais participar de concursos da revista, como aluno de graduação, dali em diante.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Maria Lúcia Lepecki

Livro do mês:  

          Dentre as atividades que se tornam, por força de contingências variadas e complexas, rarefeitas, a leitura de ficção mantém-se, se não vigorosa, pelo menos altiva. Sempre haverá quem se interesse em ler um poema ou narrativa. Exercida em sua capacidade plena, compreende a leitura uma prática interativa, como uma espécie de via de mão dupla. A relação leitor/obra tem suscitado reflexões pertinentes, em todas as épocas, tributárias do legado cultural do contexto em que se desenvolveram.
            Não é apenas o texto que endereça perguntas, vivências, imagens, noções e impressões a quem lê. O leitor é também um espaço irradiador de reações, por ele transferidas ao texto. Nenhuma mente se apresenta diante de um texto completamente vazia, neutra, virgem. Uma bagagem de vivência e memória a acompanha. Quem lê também dialoga com o texto: faz-lhe perguntas, acrescenta-lhe dados.
            As reações suscitadas pelas palavras radicam em geral do contexto em que foram empregadas e do ofício laboral de quem as lê. A palavra tijolo por certo desencadeará reações distintas, se lida por um pedreiro ou um jornalista. Da mesma forma a palavra nuvem determina noções distintas, se lida por um metereologista ou um técnico em computação.  
            Distante de rasas assertivas de base sociológica, outras são as preocupações da teoria literária. Crítica literária brasileira, mineira de Araxá, professora de literatura portuguesa na UFMG, tendo influenciado uma geração, na qual me incluo, depois em Portugal, para onde se transferiu em definitivo em 1970, Maria Lúcia Lepecki (1940-2011) participou ativamente da vida cultural em Lisboa. Sua atuação acadêmica expandiu-se também em Cabo Verde. Autran dourado: uma leitura mítica, único título dedicado à literatura brasileira, ganhou o Prêmio Nacional de Crítica, no Brasil, em 1977. Em Portugal, foram publicados alguns títulos marcantes: Eça na ambiguidade (1974), Ideologia e imaginário: ensaio sobre José Cardoso Pires (1978), Meridianos do texto (1979), Romantismo e Realismo em Júlio Dinis (1980), Sobreimpressões, (1988), Ensaios de retórica e de interpretação (2004), a que a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o Grande Prêmio de Ensaio literário.


Na apresentação de Sobreimpressões, a autora empreende uma despretensiosa teoria da leitura: considera-a uma prática científica, mais do que um simples hábito ou costume. Como tal, a leitura apresenta-se como tentativa de investigar as coisas e o mundo, através de um método aparentemente simples, por ela denominado de processo de intertextualização, o diálogo mútuo entre leitor e texto. “A grande fonte de prazer de ler, e não menos das canseiras críticas, é o fato de nunca lermos fora da intertextualização. Vamos ouvindo o que o texto diz e simultaneamente o que nós mesmos dizemos, em correlações dificilmente controláveis” (p.14). Em busca de um método que “evocasse deslocações horizontais ou verticais”, amparada em conceitos da Biologia, como confessa, esboça um breve mas engenhoso discurso sobre a interpretação literária. O marco teórico assenta-se em Lewis Thomaz, de A medusa e o caracol. “Tentando fazer dos meus escritos uma proposta, expressão falível de pontos de vista eventualmente coxos, procuro inscrever neles um lugar para a contestação. Vou à cata de jeitos de relativizar, e um bom jeito que encontrei foi denunciar as intertextualizações” (p.15). E prossegue, na busca de elucidar o seu prazeroso corpo a corpo com os textos: “A denúncia das intertextualizações obedece também a outro desiderato. Quero apontar com ela o fato de a crítica ser, na sua mais íntima substância, um modo de imaginarmos sobre a imaginação alheia” (p.16). Ao comentar o desempenho de Miguel Torga como autor de diário, Lepecki comenta: “No discurso literário, toda ausência é recuperada positivamente. Os ‘espaços em branco’, onde o escritor criativo deixou de falar, são ‘reservados’ para a nossa fala: enriquecemos o texto com o que nele projetamos” (p.139). A crítica configura-se então como uma tentativa de compreensão partilhada com outrem, o resultado daquilo que teria origem no “compreender para si – gozar o texto entre a vigília e o devaneio” (p.20).
            O volume enfeixa ensaios e estudos que versam sobre um rol variado de autores de língua portuguesa. Além dos nomes de eleição, objeto de análises anteriores, como Camilo Castelo Branco, Augusto Abelaira, Virgílio Ferreira e Carlos de Oliveira, Maria Lúcia Lepecki esquadrinha também obras de Almeida Faria, José Gomes Ferreira, José Saramago, Lídia Jorge, Maria Gabriela Llansol, Mário Dionísio, Pedro Tamen, Luandino Vieira e Mia Couto.

LEPECKI, Maria Lúcia. Sobreimpressões – estudos de literatura portuguesa e africana. Lisboa: Caminho, 1988.

            

segunda-feira, 2 de março de 2015

Tânia Jamardo Faillace

Livro do mês

Mário/Vera Brasil, 1962/1964, romance de Tânia Jamardo Faillace (1939-), foi publicado em 1983, pela editora Marco Zero, do Rio de Janeiro. A autora é uma escritora gaúcha, estreou em 1964, com a novela Fuga (Porto Alegre, 1964), a que se seguiram a novela Adão e Eva (Porto Alegre, 1965), os contos de O 35º. ano de Inês (Porto Alegre, 1977), de Vinde a mim os pequeninos (1977) e de Tradição, família e outras estórias (Ática, São Paulo, 1978). A relação de títulos atesta um trabalho persistente e uma progressiva aceitação no mercado editorial brasileiro.

                                    (Imagem: mercadolivre.com.br)

Estava-se nos anos 70, quando se deu o boom editorial que lançou inúmeros escritores, em sua maioria contistas. De várias regiões brasileiras, em especial Minas, Rio Grande do Sul e São Paulo. Dentre outros, os mineiros Luis Vilela, surgido em fins dos anos 60, Ivan Ângelo, Roberto Drummond, Elias José, Duílio Gomes, Sérgio Santana, Jaime Prado Gouvêa, Luciene Samôr, Myriam Campello; os gaúchos Moacyr Scliar, Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll, Sérgio Faraco; o paulista Ignácio de Loyola Brandão. Na altura, surgiram também notáveis escritoras no Rio Grande do Sul, interessadas em discutir a condição feminina, com grande repercussão regional e nos meios literários: Tânia Faillace, Ieda Inda, autora de um refinado livro de contos (O arquiteto), Patrícia Bins e Lya Luft, que conseguiu manter-se em evidência por mais tempo. Os fatores determinantes na projeção de um nome ultrapassam a questão específica de mérito literário. Paulo Coelho é um bom argumento, para mais de um enfoque. A riqueza de uma literatura, porém, é bastante devedora de uma produção intensa e multifacetada. A efervescência da literatura feminina dos anos 70 esfumou-se duas décadas depois. Em 1994, Marilene Felinto, em artigo feroz na Folha de São Paulo, decreta a decadência da literatura feita então por mulheres no Brasil: “Como nós, mulheres, escrevemos mal! (...) Esgotou-se a espécie de fórmula da ‘literatura feminina’. Será que ninguém percebeu? O universo feminino é limitado, cheio de conflitos insignificantes, que nascem do umbigo das mulheres e se encerram neles mesmos. É uma literatura umbilical, centrada no corpo; quem aguenta mais descrições de orgasmos, menstruação e parto? Trata-se de uma literatura sem transcendência (...).” Nos dias que correm, observa-se uma revitalização na produção feminina, em várias frentes de atuação, como, por exemplo, a introspeção psicológica (Adriana Lisboa, Adriana Lunardi, Tatiana Salem Levy), a vertente política (Míriam Leitão), a denúncia social pelo viés alegórico (Ana Paula Maia), a inquietação experimental (Carola Saavedra, Maria Esther Maciel).
O extenso relato de Tânia Faillace, em torno de 500 páginas, reproduz em detalhes a experiência de mulheres solteiras que vivem caso amoroso com homens casados. Mulheres nem sempre indefesas, afinal buscam encontros clandestinos e se deixam envolver por promessas, entregam-se sexualmente, sofrem discriminação, preconceito, em troca de encontros fortuitos e espaçados. Na origem, quase sempre uma atração genérica ou um atributo irresistível, seja a beleza, virilidade, sedução, mistério. O que surge como namoro inconsequente acaba por se transformar em paixão avassaladora, com direito a gravidez e outros lances. Por força da convivência, ainda que esparsa, o desconhecido acaba por se tornar próximo e participante, quando não ocorre algum incidente trágico. Tais relatos são atraentes geralmente no início, uma vez que acabam enveredando por uma rotina de encontros e desencontros, aproximações eufóricas e separações turbulentas.
“Mário está vivo. Poderia ter escorregado sobre as telhas, ou desaparecido sob a lama dos morros, ou ido embora na enxurrada. Mas está ali. Vivo. Flancos mornos, úmidos, entre suas coxas. Sexo no seu. Boca na sua. Não basta. Vera quer romper-se para abrigar Mário dentro de si. Não ter nada fechado, guardado, secreto. Admiti-lo nela. Cada vez mais profundamente. Angústia. Desejo obscuro, inarticulado, de enxertar-se em Mário, tê-lo enxertado em si, uma mesma circulação, um mesmo pulmão” (p.290).
Por se tratar de um relato através da ótica feminina, incide quase sempre no estereótipo focado por Marilene Felinto, “a espécie de fórmula” da escrita desse gênero.  No caso da ficção de Tânia Faillace, com provável carga autobiográfica, cabe destacar o distanciamento de um registro excessivamente literário, sem lucubrações intelectuais, incursões eruditas ou filosóficas. Registra o fluir irrefreável e natural da realidade, de início com uma certa idealização do parceiro. Este aspecto é por sinal referido na orelha de Caio Fernando Abreu: “Este é um livro vivo. Não há, em nenhuma frase, nada de ‘literatura’, complexos efeitos estéticos, formas complicadas ou, enfim, acessórios dispensáveis”.
O corte temporal, inscrito no título (“Brasil, 1962/1964”), resulta em esboço ameno do período recortado. São feitas breves, neutras referências ao contexto político, anterior ao golpe militar, sem reflexos diretos nos conflitos narrados. Notas genéricas, fragmentadas, decisivas para moldar o contexto político e social como pano de fundo. Em obras de fôlego, se o risco da monotonia decorrente da reiteração de motivos e incidentes é uma possibilidade incontornável, a insistência em obsessões subjetivas e a fragilidade de recursos narrativos podem tornar a leitura enfadonha.

FAILLACE, Tânia Jamardo. Mário/Vera Brasil, 1962/1964. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.


domingo, 4 de janeiro de 2015

Eduardo Giannetti

          Livro do mês:

          A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa, lançamento de 2010, compõe a produção de Eduardo Giannetti, prestes a ultrapassar uma dezena de títulos, alguns tributários de uma formação na área da economia (Vícios privados, benefícios públicos; O marcado das crenças; O valor do amanhã). O que singulariza o título em tela é o rótulo, romance brasileiro, redondamente deslocado.
            Leitores de ficção procuram obras nessa área; leitores de livros de ensaios, idem, buscam nas estantes títulos afinados com seu interesse. Esta premissa nem sempre funciona, como se observa no caso deste livro de Giannetti. Se a proposta era produzir obra de ficção, falhou no conceito e na prática. Ultrapassadas as primeiras vinte páginas, reveladoras das tensões inerentes ao problema pessoal do autor, no que tange à cirurgia para extirpar um tumor no cérebro, o livro toma frontalmente outro rumo. Ao enveredar pela descrição fisiológica do funcionamento e das funções do cérebro, o narrador vê-se alijado do processo da linguagem e estraçalha o pacto ficcional. Reaparece, vigoroso, o ensaísta, desta vez empenhado numa pesquisa pelos quadrantes da neurociência, a relação entre o cérebro e a mente humana.  Após breve incursão no universo fictício, de franca moldura autobiográfica, o alcance e os fundamentos científicos ficam evidentes.


            Até certa altura, ainda que pulverizado, o pacto romanesco mantém-se, por conta de notas disseminadas aqui e ali: “Poupemo-nos reciprocamente de excesso de zelo no relato dos pormenores e circunstâncias do grande divisor de águas da minha vida adulta. Careço do tino e da pertinácia, daquele amor ao detalhe e à minúcia reveladora, que é o segredo do narrador de ficção. Não vim contar minha vida – a quem poderia interessar? Reconheço o estreito do meu engenho e o banal do meu cotidiano insípido e livresco. A hipertrofia do intelecto fez de mim um anoréxico dos afetos e das pulsões vitais. Penso mais do que existo. Atenho-me, portanto, ao essencial” (p. 14).
            Neste livro de Giannetti, somos duplamente posicionados diante dos desdobramentos da relação cérebro/mente: no plano empírico (as diligências relacionadas à cirurgia) e no plano teórico (a exposição a atentas pesquisas sobre o assunto). Iludido pelo rótulo, sem intenção de render trocadilho com o título – A ilusão da alma – o leitor de ficção vê-se logrado após as digressões preliminares. O duplo logro completa-se com a altivez científica de tentar explicar o funcionamento da mente humana – proporcionando uma repousante confiança na ciência. O risco da postura neopositivista, restauradora de certezas, não consegue livrar-se de um viés arrogante e autoritário. Os dilemas existenciais de Sócrates, Anaxágoras e Platão retornam, remexidos, com vívida pitada de neurociência, temperada de citações de Montaigne, Plutarco, Santo Agostinho, Darwin, Machado de Assis, entre muitos outros. Tudo perpassado por súmulas científicas sobre cortes em amígdalas a ratos de laboratório e sua extensão aos seres humanos. Alguns argumentos restam obscuros para os não iniciados: “No embate de forças subjacentes às nossas escolhas, o sistema límbico e o córtex frontal são os principais vetores: os impulsos e desejos oriundos do primeiro gozam da prerrogativa de iniciar os lances da peleja, mas têm de abrir caminho e negociar passagem pelo crivo modulador do segundo; só assim serão capazes de empolgar o sistema motor e acionar os músculos relevantes” (p. 138).
            A despeito da interrelação dos gêneros literários e da exacerbação da liberdade nos tempos que correm, o rótulo de romance não se sustenta, além do atalho inicial. Apesar dos revezes estruturais, contudo, o livro não se perde de todo, salvo pelo estilo elegante e lúcidas tiradas.


GIANNETTI, Eduardo. A ilusão da alma: biografia de uma ideia fixa. São Paulo: Companhia das letras, 2010.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Francisco Azevedo

Livro do mês:

       Francisco Azevedo, nascido em 1951, no Rio de Janeiro, traz em seu currículo atividades como diplomata, poeta, roteirista de filmes, produtor de textos dramáticos e narrativos. Publicou dois romances, O arroz de Palma (2008) e Doce Gabito (2012), lançados pela Record. A prática de textos publicitários e roteiros de cinema teria contribuído para consolidar a formação de um escritor consistente, que tem o que dizer e não se perde em experimentações vazias e inócuas, nem em tramas insossas, desprovidas de interesse, como ocorre com alguns novos ficcionistas brasileiros, tediosos e medíocres.
            Em O arroz de Palma, o narrador Antônio, um idoso de 88 anos, envolvido nos preparativos da comemoração do centenário do casamento dos pais, relata a história da família. Um grande almoço, ao qual os irmãos também octogenários comparecem, será o centro da homenagem. O enredo, apresentado em forma de recordações, tem como eixo um punhado de arroz, tratado numa dimensão simbólica. Há cem anos, quando se casaram os pais, como era usual na tradição portuguesa, foram saudados com uma chuva de arroz. A irmã do noivo, Palma, recolhe os grãos e faz deles seu presente de casamento. Ao longo de várias gerações, o arroz acompanha os conflitos e conquistas do casal que, embalado por sonhos, transfere-se para o Brasil, fixando-se numa fazenda do estado do Rio de Janeiro. Sempre com a presença de Palma, ali instalam-se, criando filhos que lhe darão netos.
            Ainda que sujeita a dificuldades e contratempos, a família revela-se como núcleo agregador, responsável não apenas pela preservação da cultura mas capaz de processar mudanças e alterar conceitos. Vazado em linguagem coloquial, próxima da oralidade, em períodos curtos, com a insistência em alguns dados, como sucede em relato de velhos, o romance aproxima-se do estatuto do teatro, pela incorporação de ingredientes da motivação cênica.



      “No universo, o belo e o feio, o alegre e o triste, o limpo e o sujo, o saudável e o doente e toda a lista de adjetivos que completam os times do Bem e do Mal, tudo faz parte de um grande espetáculo e das infinitas cenas que o compõem. As pessoas todas formando um só elenco desde que o mundo é mundo. Tem que ter mocinho, tem que ter vilão. Se não, qual a graça? Elenco somos todos. Por isso, este tamanho entra e sai, esta gente toda no palco, esta constante troca de atores, de figurinos, de cenários, séculos a fio” (p.312).

      A interpretação caprichosa dos fatos, um excesso de devaneios e certezas, a exatidão da lembrança descortinam uma certa idealização deturpadora da realidade, evidenciada em algumas frases de efeito e no registro voluntarioso de efemérides familiares. "Família é mesmo prato delicadíssimo, difícil de preparar" (p.252) A leveza de tom de que se reveste a voz do narrador, um incorrigível otimista, acaba por refletir uma visão superficial dos conflitos e uma rasa abordagem do contexto. A despeito da abertura à expansão afetiva e sexual calcada na diferença, o resultado geral evidencia mediana densidade estética como escrita romanesca. Dois ou três episódios, mais elaborados e sugestivos (ou cenas, para manter a convenção) conseguem libertar-se do discurso complacente, linear e homogêneo do narrador, uma mistura de contrarregra e chefe de cerimônia.

AZEVEDO, Francisco. O arroz de Palma. 9ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 1913.


segunda-feira, 3 de março de 2014

Mora Fuentes

Livro do mês: O cordeiro da casa


      O escritor e artista plástico José Luís Mora Fuentes  (1951-2009), nascido em Valência, Espanha, desde pequeno radicado em São Paulo, ganhou em 1972 o Prêmio Estímulo Governador do Estado, com três contos, depois incluídos no livro O cordeiro da casa (1975). Íntimo de Hilda Hilst e Caio Fernando Abreu, com os quais conviveu na Casa do Sol, sítio nos arredores Campinas, numa lendária comunidade de escritores e artistas, por volta dos anos de 1970 em diante. Após a morte de Hilst (2004), de quem ilustrou a capa de vários livros, numa convivência de mais de trinta anos, fundou e presidiu o Instituto Hilda Hilst, centro de referência em estudos sobre a enigmática e polêmica autora paulista. 


      O cordeiro da casa integrou a prestigiosa coleção Jogral, dirigida por Nelly Novaes Coelho, responsável pelo lançamento de obras de autores da envergadura de Rui Mourão, Stella Carr, Hermilo Borba Filho e Murilo Rubião. O livro reúne doze ficções, de formato intimista, aparentemente leves, tocadas por intensa vertigem poética, ampliada pela inquieta hesitação que as amarra, hesitantes entre o gosto de revelar e esconder descobertas, céticas em relação à ingênua postura encantada diante da existência. “Desde sempre eu soube, desde sempre tive medo da hora em que, trocando os ares inocentes e incorruptos da infância, eu adquiriria a minha verdadeira face de lobo” (p. 17). O autor consegue apreender as contradições e ambiguidades do contexto dos anos de 1970, flagrado como “minhas monocórdicas e insistentes ladainhas da memória” (p.131), ou reflexões decorrentes de uma concepção dinâmica e desencantada das coisas: “Eu descobri há tempo que tudo é assim, fazendo e se desfazendo. Me preparei para nunca mais ver a água no olho-luz, me preparei e tentei esquecer a música, o movimento, porque nossos encontros sempre tinham sido música e movimento. É incrível como a paixão pode ser luz e fogo. Não se sabe como, mas a magia se faz presente, rica, um universo inteiro que espera teu comando. Ou pensamos assim quando na realidade somos conduzidos. Não importa. Nada importa desde que tudo se faça, desde que encontres o escondido. A mulher. E pensar que um dia tudo isso se fez. E agora não importa mais.” (p.127-128)
      Personagens e situações interpenetram-se nos diversos relatos, centrados numa subjetividade dilacerada e perplexa diante do desaparecimento de valores espirituais, perversamente alijados do mundo contemporâneo. Contesta estruturas narrativas, rebela-se contra a estratificação de mentiras e enganos, sem a dureza de vetores realistas, configurando até certo ponto um libelo contra a tirania racionalista, pela sua incapacidade de lidar com os conflitos afetivos. “Nunca amei a mulher. Amei nós dois e o que estava em nós quando nos encontrávamos à noite. E a perfeição tinha que existir. Isto sim. Um movimento no lábio, uma luz no mais fundo da pupila, um uivo na hora do gozo” (p.37). Mora Fuentes constrói uma escrita densa, habitada por assombros e traumas, atravessada por inúmeras neuroses do nosso tempo (a solidão, o desencontro, a impossibilidade das relações, o vazio urbano). Sua incursão nos meandros da memória não se intimida diante da ambígua tarefa de se recompor através da paciente composição de objetos e incidentes insignificantes (a rotina das formigas, a coleção de ninharias, a obsessão do passado, a observação de insetos).
      Mais do que um mosaico de adereços e queixumes da memória, o arcabouço literário lança raízes numa tradição devotada a contribuir para a terrível ideia de que preparar-se para o fim constitui a mais saudável forma de reconciliar-se com a vida, bem maravilhoso em sua gratuita efemeridade. Nem que seja investindo um desmedido esforço em compreender (até onde é possível) o contorno exato do “quase nada” da existência de todos os dias.



FUENTES, Mora. O cordeiro da casa. São Paulo: Quíron, 1975.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Antenor Pimenta

Livro do mês: A estrada de Salamanca

      O autor de ficção depara-se com a tarefa complexa de solucionar inúmeras questões básicas, as convenções de estrutura, temáticas, técnicas, de enredo, criação de eventos e personagens, a incidência de tempo e espaço, o foco narrativo, as imagens do mundo, as conexões sociais, as colorações nacionalistas (se for o caso). Alguns permitem-se o requinte de elaborar concepções estéticas, digressões sobre múltiplos assuntos (filosóficos, políticos, metafísicos, etc. ou de metalinguagem),  inovações narrativas ou estruturais, em obras de maior densidade. Neste último perfil enquadra-se o romance A estrada de Salamanca, de Antenor Pimenta. Ao leitor cabe acolher o pacto romanesco, com a aceitação tácita do cabedal de escolhas realizadas pelo autor.
          O início da carreira de Antenor Pimenta radica nos prêmios recebidos na primeira metade dos anos 80, na Revista literária da UFMG e alcança dimensão nacional com a publicação deste romance, em 1995, ao qual seguiram-se mais dois títulos, O último Aurélio ou o discurso adiado (1998)  e Réquiem para Monalisa (2000), todos pela  editora Rocco.


      Os eixos em torno dos quais giram as histórias neste livro envolvem tesouros enterrados, envolvimentos amorosos de prelados hedonistas com mulheres fatais, cobranças decisivas de dívidas sob afiadas adagas, ermitões vivendo em grutas, muralhas fantásticas construídas pelo demônio, cursos de água que aparecem e desaparecem,o suspense bem trabalhado, o erotismo aflorado, promessas ajustadas sob juras e punhal, o exotismo dos costumes castelhanos.  Na base, a matéria original firma-se na amizade de dois jovens, Juan e Fernando, ambos apaixonados por Isabel, moça de extraordinária beleza. No desenrolar da trama, o autor revela-se mestre em costurar situações envolventes, emolduradas no cenário pitoresco das aldeias, rios, montanhas e cidades de Espanha. Os sentimentos universais de prazer, medo, ódio, amor, ciúme, perpassam, multifacetados, numa intriga de efeitos surpreendentes. O autor impõe-se literariamente pelo apuro de linguagem, a vigilância contra o lugar comum e o uso de um estilo refinado, colorido e sugestivo, com forte dimensão poética.

      "Dom Carlos sempre surpreendia a esposa, Dona Conchita, com seus doces saborosos, naquelas tardes em que o casal apaixonado dividia a sede inconclusa, a melancolia implícita e a saudade antecipada" (PIMENTA, 1995, 239).

      "Os fatos desta história, que se sucederam numa carreira enlouquecida, arrastaram-nos de roldão, como um crocodilo a rodopiar a cauda, como um polvo levantando espumas nas águas do mar.  A velocidade dos expressos quase, quase, nos traía. As palavras, de um momento para outro, começaram a se precipitar com a espetacular celeridade da carruagem desgovernada na planície às margens do abismo. Quando isso acontece, ao cocheiro-escritor sobrevém a necessidade e a responsabilidade de acionar o breque, de aquietar a pena no tinteiro", (PIMENTA, 1995, 287).


PIMENTA, Antenor. A estrada de Salamanca. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

   

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Benito Barreto

Livro do mês:  Despojos, a festa da morte na corte

Este livro arremata a grandiosa tetralogia Saga do caminho novo, de Benito Barreto, referida abaixo. A aproximação e solidariedade do Alferes com o seu carrasco, o guarda-mor Capitania, é algo inusitado, a amizade entre os dois é elaborada em forma de paródia refinada, a ponto de suscitar analogia com o tratamento dispensado por Saramago à amizade entre Jesus e Judas, no Evangelho segundo Jesus Cristo. Tiradentes, preocupado com o sofrimento de Capitania, o carrasco encarregado de enforcá-lo, no episódio da raiz de dente inflamada, cura-o, moldando uma peça, para que pudesse mastigar e sorrir.

Também à Ilha das Cobras, não lhe trouxe a primavera flores, as quais, de resto, soem mui raro brotar das pedras, mas o mameluco Capitania voltou a rir, o que é, talvez, mais raro e difícil que minar a água, a flor nascer ou o verde, dos rochedos.
- Deus pague a Vosmicê, galé. Deus dê a Vosmicê, em anos de vida, o que me vai dar em dentes! – exclamava, vendo Tiradentes ajustar e polir o molde de sua arcada, para a dentadura que está a lhe fazer (Barreto, 2012, p.470).

Horas antes do martírio, Tiradentes pensa no sonho de uma pátria livre, árdua construção coletiva, através do trabalho dos mazombos, da luta dos rebeldes e do patrimônio dos artistas (escultura, artes plásticas, música, poesia). Em seu delírio, revive a dor de conviver com a opressão, vendo as riquezas da terra serem assaltadas, carreadas às pressas para os navios europeus. Exprime sua interpretação a respeito da extraordinária arte popular: produto de revolta e sofrimento –“... o Athayde só faltou ele pintar de vermelho as lágrimas, acho até que algumas delas fez com sangue! e, assim, aqueles nossos grandes músicos mestiços e os negros, no que compunham e tocavam, mais gemiam que cantavam” (Barreto, 2012, p.533).
Libertas quae será tamen, o verso extraído por Alvarenga Peixoto da lírica de Virgílio, é muito mais que a máxima do movimento, mas um projeto natural e universal. O anseio de liberdade é visto como inerente aos fenômenos da natureza, à privação da liberdade seguirá a privação da vida, este é um motivo recorrente ao longo dos capítulos, com o alcance de um refrão obsessivo e obstinado: “mesmo as potencialidades naturais e entre essas, muito principalmente, a água e os ventos tendem para o movimento e a liberdade dos quais, de resto, uma e outro necessitam e dependem” (Barreto, 2009, p.36). Modulado com as notas da indignação e da perplexidade, o motivo retorna: “Mesmo os rios e ribeirões de Minas, que em desde que gente, inda menino, vira correr e atravessava a cavalo ou pelos quais andava de canoa e os vadeava, arregaçando as calças, nos vaus de passagem, ao pé dos bambuais... se ousassem os Céus detê-los, o que não fariam! Ah, nem quer pensar!” (Barreto, 2009, p.117).


Ao narrador resta captar as contradições internas da sociedade, as oscilações de ordens e comandos, as hesitações e o jogo variado de interesses, o registro de um contexto envolto em inequívoca teia de ambiguidade. Dentre os inconfidentes, seres feitos de barro e esperança, há os indecisos, os pusilânimes, os temerosos (Gonzaga, Cláudio Manoel), os que apoiam pela metade (o tenente coronel Paula Freire), os que aderem intelectualmente (Gonzaga, Cláudio, Alvarenga Peixoto, Ignácio Alvarenga), o que trai à causa para obter benefício (Silvério dos Reis), o insurgente destemido (o Alferes). À ganância, opressão e rigores da Corte, correspondem a rebeldia e conspiração dos mazombos. O doutor Cláudio, sexagenário de saúde frágil, jurista de renome e fazendeiro abastado, recebe, depois de Tiradentes, o olhar mais atento do narrador, que registra sua dupla e arbitrária condenação. A primeira ao ser assaltado em casa de madrugada, entre violência e brutalidade, ficando à mercê de um punhal, o pescoço sob as esporas de um militar, que lhe rouba as barras de ouro e lhe extermina a família, dias antes da prisão no vão de uma escada, até o fim trágico.  
Alguns incidentes são significativos no que diz respeito à ambiguidade e contradições sociais: lealdade inicial à coroa portuguesa, apoio à causa da Inconfidência (Irmão do Caraça, Gonzaga, Cláudio Manoel). A alternância entre o mito e a realidade aproxima alguns personagens (Gonzaga/Dirceu, amante de Marília, Gonzaga/Critilo, autor das Cartas Chilenas; Cláudio/ Doroteu, nas Cartas Chilenas; Maria Dorotéia de Seixas Brandão/ Marília, a amante fictícia de Dirceu, em Marília de Dirceu). Por circunstâncias profissionais, o jovem cientista Álvares Maciel torna-se hóspede e preceptor da esposa e dos filhos do Visconde de Barbacena, sem deixar de ser simpatizante da causa inconfidente. O conflito entre voto de castidade e sensualidade é um traço que identifica o Padre Rolim e o Padre Inácio. A personagem Perpétua, uma das amadas de Tiradentes, morre ao se lançar de um penhasco, em dupla fuga: à caçada do Vice-Rei, por ela seduzido;  ao Padre Inácio, que aumentava o cerco a seu redor. Esta relação de três ângulos, em que a mulher desempenha o papel de mediadora, admite o seguinte esquema:
                          
                           ---------     Vice-Rei (conquista, dominação)
Perpétua -------- Tiradentes (amor, companheirismo)
                           ---------      Padre Inácio (desejo, traição ao herói)

A ambiguidade de gênero envolve dois personagens: Izidora e João Costa. Izidora, a filha de Montanha, chefe de bando, é por ele dada de presente a Tiradentes como Isidro, um rapaz ajudante; em noite de lua, vendo-a dormir, Tiradentes descobre tratar-se de uma moça de belos seios. João Costa, chefe de tropeiros revoltados, em busca de informações sobre o Padre Rolim, traveste-se de mulher, para adentrar no convento feminino de Macaúbas, onde o religioso inconfidente, antes de fugir, internara sua companheira, Rita Quitéria, filha de sua irmã de criação, Chica da Silva. A sensualidade difusa de Bárbara Heliodora, bela e enigmática fazendeira que seduz a todos os homens da época, do Visconde de Barbacena ao esbirro sargento Parada, favorece o papel de mediação entre os dois modelos ideológicos.


Ao se aprofundar a descrever o sofrimento do Alferes na Ilha das Cobras, em prisão que mais se assemelha a uma cova, pelo ar rarefeito e mal cheiroso, o último volume, Despojos: a festa da morte na corte em vários passos compara Tiradentes a Cristo: “Uma sepultura singular, em que o condenado, conquanto já, de fato, enterrado, ainda se move e respira; ainda pode imaginar, lá fora, a vida e o mundo, mas já não participa daquela nem faz mais parte deste!” (Barreto, 2012, p.477). Identificado a elementos naturais, como o oceano, o preso exibe uma gargalheira no pescoço e grilhões nos pés: “Pesam e esfolam mais, a cada dia, os ferros da grilheta. As correntes doem sempre mais e a cada dia é mais difícil caminhar com elas, mesmo e apenas levantar-se e ficar de pé ou dar um passo” (Barreto, 2009, p.116). Esgotadas as possibilidades concretas de sucesso efetivo, a Conjuração perde sua força: os envolvidos são presos, o processo de condenação é instalado. Uma vez que Tiradentes advoga para si toda a culpa, os outros inconfidentes recebem pena menor – o degredo para a África. Tiradentes é o único condenado à morte. Paradoxalmente, ao proceder ao seu martírio, a Coroa portuguesa extermina um inimigo, mas cria um herói. Após sua morte, com a exposição das partes esquartejadas do seu corpo nos lugares onde em vida atuara contra a dominação lusa, fica estabelecido o seu retorno e permanência, doravante como despojo físico, material, que se desintegra e degrada naturalmente, semente de sua fixação perene, como palavra e exemplo. A história de um homem ali acabava. As raízes do mito estavam lançadas. Desta ambivalência entre realidade e mito nutre-se de forma inventiva a ficção de Benito Barreto.


Referências bibliográficas

BARRETO, Benito. Os idos de março. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2009.
           ______. Bardos e viúvas. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2010.
          ______. Toque de silêncio em Vila Rica. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2010.
            ______. Despojos: a festa da morte na corte. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2012.

      (Este texto, com pequenas alterações, é parte do ensaio "Ficção e retórica", publicado no livro de Rachel Barreto, Benito Barreto - 50 anos de literatura. A foto é alusiva ao lançamento recente deste livro).

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Benito Barreto: 50 anos de literatura

      Registro o evento que ocorrerá amanhã à noite, na sede da Academia Mineira de Letras, em homenagem ao autor da Saga do caminho novo. Nascido em 1929, em Guanhães, Minas Gerais, o escritor Benito Barreto, autor de uma dezena de livros, entre a ficção e a memória, comemora o jubileu de ouro de sua obra literária, com o lançamento de um livro de Rachel Barreto - Benito Barreto: 50 anos de literatura, e o relançamento de sua estreia na ficção, Plataforma vazia.




      Escritor inconformado com as mazelas sociais, seus romances refletem um constante esforço de apreensão crítica da realidade, com notável domínio dos recursos narrativos e arejado recorte da condição humana. Com um pé na tradição romântico-naturalista, sua estreia ficcional em 1962 revela-se como efetiva plataforma embrionária, de onde depois iam sair os homens e mulheres dos títulos subsequentes, Capela dos homens (1968), Mutirão para matar (1974) e Cafaia (1975). Conhecida como tetralogia dos Guaianãs, esses romances divulgaram o nome do autor para além das fronteiras mineiras e nacionais. A terceira edição, em dois volumes, saiu com o selo da editora Mercado Aberto, de Porto Alegre, em 1986; dois volumes foram publicados na União Soviética, em 1980, com tiragem de 100 mil exemplares. Vieram em seguida Vagagem (1978), apresentado como um livro de "viagens e memórias sem importância" e A última barricada (1993), uma ficção folhetinesca.

      Nos últimos anos, coroando uma obra consistente, dedicou-se Benito Barreto à produção de uma definitiva tetralogia, a monumental Saga do caminho novo, quatro romances sobre a Inconfidência Mineira, Os idos de maio (2009), Bardos & viúvas (2010), Toque de silêncio em Vila Rica (2011) e Despojos: a festa da morte na corte (2012). Recriação grandiosa dos fatos históricos ocorridos no final do século XVIII (1789) nos caminhos e trilhas da estrada real, à época do Brasil colônia, consegue retirar a poeira dos arquivos e dar vida a Tiradentes, Padre Rolim, Cláudio Manoel da Costa, Bárbara Heliodora, Alvarenga Peixoto, o Visconde de Barbacena, o Montanha, Álvares Maciel, o Irmão Lourenço, Thomaz  Gonzaga, Marília, Padre Inácio e tantas outras figuras inesquecíveis. Sobretudo, parodiando o que afirma o poeta Cláudio Manoel, no primeiro volume, o autor, nesses livros, logra "deixar Minas entrar e encher com o cheiro dos seus matos e suas terras, e salgar com o suor de sua gente, os espaços de sonho e vida".

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Mário Garcia de Paiva

Livro do mês:

      A literatura distingue-se de outras artes, por sua própria natureza; lida com palavras (patrimônio coletivo), mas lida também com a vivência humana: expressa emoção, descreve comportamentos e ações. Ao representar a condição humana, dilata sua importância excepcionalmente. O objetivo de registrar a aventura humana no planeta, em determinado contexto, bastaria para torná-la uma atividade de inestimável lastro histórico.
      Alguns escritores ultrapassam a média de seus pares, quando avaliados sob uma lupa distanciada. Mário Garcia de Paiva (1920) é um deles. Surgido na década de 60, despertou o interesse da crítica ao conquistar em 1970 o grande prêmio em concurso nacional de contos do Paraná. O conto "Parábola", um dos premiados, tornou-se cult, pela refinada elaboração de um evento tangido para se repetir indefinidamente . Antes disso, no entanto, já se revelara um ficcionista de sofisticados recursos, em romances de sondagem psicológica, como  Um minuto na adolescência (1947), Luana (1962) Ontem (1966), Esse menino, Francisco (publicado em 1971, apesar de pronto desde 1965); reeditado mais tarde duas vezes.  Publicou depois três livros de contos marcantes: Festa (1970), Dois cavalos num fuscazul  (1976), Os agricultores arrancam paralelepípedos; e um livro instigante, meio "science-fiction" e atmosfera gótica, Os planelúpedes (1975), com personagens híbridos, numa estranha dimensão, metade animais, metade seres humanos, exauridos e tensos em sua atribulada existência.


     Os últimos livros assinalam uma radical evolução, na obra de Garcia de Paiva, atravessada agora por uma concepção arejada e crítica de literatura. Destaco  em especial o título Dois cavalos num fuscazul. "Pantomima" recria um ambiente especular de violência, desta vez com participação do enunciador. O sentido social, para o qual se abre sua ficção, se não é novidade, alia-se a uma vigorosa pesquisa formal, expressiva de um rumo novo, um compromisso responsável que passa a incorporar a denúncia.  Reinventa a proposta, atribuía a Maiakóvski, de que só existe arte revolucionária quando a forma é revolucionária. A linguagem deixa de ser o veículo, o meio de fixar um quadro, para se tornar um suporte significante de ousado projeto ficcional, ajustado para captar a errância, a desumanização e o desmoronamento de valores universais. Através de inovações linguísticas que provocam estranhamento, pelo que representam de ruptura em relação ao código tradicional, as cenas descritas (ou expostas, se damos ênfase aos expedientes cinematográficos) denunciam a dolorosa condição em que os humanos se viram lançados. Algumas palavras mostram-se desvirtuadas em sua grafia, mutiladas e fragmentadas, carregadas de sentido:


"Iam caminhando e conversaram entre si no silêncio, de máscara a máscara. Tinham alguma coisa de cavalos-marinhos.
      (...)
      Passaram por um omem caído na calçada.
      "É o quinto em quinze minutos".
      "Falou alguma coisa, você ouviu ?"
      "Ouvi, lonje e muito débil. Ele pede também, como os outros. Vou socorrer este"
      Aproximou-se do omem caído e atarraxou na máscara dele um tubo do seu depósito de oxijênio: logo se reanimou, moendo os braços". ("Gaivotas")

 "Dois cavalos atravessaram a praça e entraram um fuscazul.
     (...)
      O cavalo magro bateu no casco um cigarro por acender,
      Não gosto de ver cadáver-
      Esta é a oitava que eu revelo e ainda não me acostumei. Será que chamam as crianças de fotos porque são fotografadas ? -"  ("Dois cavalos num fuscazul")

      As cenas realistas, contundentes, vazadas numa forma insólita, flagram situações violentas, desumanas, chocantes, para as quais a linguagem convencional mostra-se precária e impotente.

PAIVA, Garcia de. dois cavalos num fuscazul. Ilustrações e capa de Weis. Belo Horizonte: Comunicação, 1976.


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Myriam Campello

   
Livro do mês: Jogo de damas

      A autora não é desconhecida, surgiu na década de 1970, numa geração destemida e obstinada, venceu certames importantes, como o Prêmio Fernando Chináglia, atribuído ao romance de estreia, Cerimônia da noite (1972). Nascida no Rio de Janeiro em 1940, firmou-se como ficcionista de talento, tendo publicado outros romances - Sortilegiu (1981)  São Sebastião blues (1983), Como esquecer (2003), este transformado em filme, - e um livro de contos, Sons e outros frutos (1988).


      Jogo de damas é um romance policial de maturidade, de refinado acabamento, no qual inexistem experiências desordenadas ou caóticas. A passagem do tempo é marcada por meio de uma data, afixada no início dos capítulos. Três núcleos narrativos, correspondentes ao comportamento de três mulheres, interseccionam-se. Num ritmo nervoso, o suspense é trabalhado a cada página, através de imagens duras e impactantes, capazes de arrepiar, criando uma atmosfera de contínua expectativa e terror. Detalhes ameaçadores povoam os relatos, tais como: "...o frio desabando como um machado" (p.19); "uma saraivada de gritos de Mercedes sacudiu os alicerces da casa" (p.103); "...as marretadas do tempo" (p.87);  "uma aranha venenosa" (p.89); "dormia como um martelo" (143). Após a filha de quatro anos ser estraçalhada por um pit-bull, a protagonista norteia seus dias pelo compasso da vingança. As imagens reforçam e ampliam a exasperação, de mistura a um mórbido desfile de mau agouro e presságios. Transtornada pela revolta, uma personagem envereda por trilhas inesperadas e insidiosas, a ponto de amortecer a consciência crítica. Em consonância com as sugestões do título, sem que se perceba, os riscos vão se ajuntando à trama, numa sequência extenuante de fracassos e supostas conquistas. A ambiguidade das ações e o abismo da armadilha revelam-se ao final de forma brusca e trágica. Duca, um agente policial, ex-alcoólatra e viciado em castanha, retoma as rédeas da operação, quando tudo prevê o contrário. A construção do suspense, neste caso, não resulta de peripécias eletrizantes, mas de lances sóbrios e milimetricamente avaliados. 



      Os lances sucedem-se com tal intensidade no interior da protagonista que o leitor aposta em sua capacidade de, no momento certo, aplicar a jogada de mestre, o xeque-mate. Quem será ludibriado? De onde virá a tacada decisiva? Mais nada deve ser dito, sob pena de interferir no elemento surpresa. A autora inscreve-se, em grande estilo, na tradição do melhor romance policial brasileiro, que se enriquece com a sutileza de uma mirada feminina. Papel de qualidade, bem produzida e de bom gosto, a edição.

CAMPELLO, Myriam. O jogo de damas. Rio de Janeiro: Língua geral, 2010.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Ivana Arruda Leite

       Participei do Sempre um papo com a escritora paulista Ivana Arruda Leite, no último dia 30, no teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes, aqui em Belo Horizonte. Isso raramente acontece. Não o evento, agora no âmbito do projeto Nova literatura brasileira. Eu sair de casa. Bastante comunicativa e simpática, a autora explicou muitas situações ligadas à construção do romance Alameda Santos (Iluminuras, 2009). O local é acolhedor, com isolamento acústico, excelente iluminação, favorece o intimismo. Pequeno, mas atento, o público interagiu com a autora, que trouxe à tona experiências de seu trabalho literário e breves notícias da cena literária paulista. Nascida em 1951, revelada no bojo da geração noventa, publicou três livros de contos e dois romances; o outro é Hotel novo mundo. 




      Estou lendo Alameda Santos, livro composto a partir de fitas gravadas por uma mulher balzaqueana, após a separação do marido e se embebedar, entre o Natal e o ano Novo de 1984. O mesmo se repete ao fim de outros anos, até 1992. E tome falação feminina, no registro mais coloquial e fonético possível. Os anos loucos em São Paulo da década de 80 são retratados sem retoques sob a ótica de uma dublê de escritora liberal e dona de casa abandonada pelo marido. Confidências de alcova misturam-se a relatos de agitos, amizades gays, traições amorosas, pirações, bebedeiras, boemia, drogas, experiências esotéricas e o escambau. Duas amostras do estilo da narradora, a seguir.



         "Hoje é dia 28 de dezembro de 1986, domingo, 2 e meia da tarde. Eu tô tomando café no sofá da minha casa e gravando essa fita depois de comer uma deliciosa picanha com fritas no Bar das Putas. Finalmente eu tô numa casa só minha com plantas, panelas, frutas, verduras. Ambiente totalmente familiar. Eu e a Gabi voltamos a morar sozinhas". (p. 51)



      "Tinha noite que o Charles me enchia tanto o saco que eu pegava o carro e saía rodando pela cidade pra esfriar a cabeça. Uma vez eu parei no Largo do Arouche, entrei num bar, pedi uma cerveja e só então eu me dei conta de onde eu tava, às três da manhã: num lugar que só tinha puta e marginal. Eu comecei a rir. E o mais engraçado é que não senti um pingo de medo. Pelo contrário, me senti superbem e segura entre aquelas pessoas. Parecia que eu tinha vindo de um lugar muito pior do que aquele". (p.81)



      O livro é divertido, com relatos um tanto desbocados e malucos. A orelha adverte, certeira: "Suas mulheres são patéticas, ridículas, carentes, solitárias mas sem um pingo de autopiedade. Sabem rir de si próprias, perdoarem-se e seguir em frente". Por trás dos dramas individuais, descortina-se o mundo grande do país lutando para se livrar da ditadura, enterrar Tancredo e mergulhar de cabeça no período difícil da era Sarney.

LEITE, Ivana Arruda. Alameda Santos. São Paulo: Iluminuras, 2009.
(As fotos foram tiradas pelo amigo Júlio.)


sábado, 6 de abril de 2013

Maria Adelaide Amaral

Livro do mês: Aos meus amigos

       Nascida em Portugal em 1942,  Maria Adelaide Amaral veio para o Brasil com doze anos, afirmando-se como escritora versátil e talentosa. Tendo iniciado como dramaturga, em l976, com a peça Bodas de papel, conquista com o primeiro romance, Luísa,o prêmio Jabuti em l986. Ingressa na Globo na década de 90, onde trabalha com vários parceiros (Sílvio de Abreu, Lauro César Muniz, Alcides Nogueira, Geraldo Carneiro), na produção de novelas e minisséries. Autora teatral de prestígio, terá peças dirigidas por renomados diretores, como Cecil Thiré, José Wilker, Paulo César Saraceni, Aderbal Freire. O romance em foco, talvez o seu ponto alto no gênero, mereceu adaptação televisiva, na primeira década deste século, sob o título de Queridos amigos.

                                                     (Imagem  blog dolixoaoluxo)
      A história recria o encontro de doze amigos, separados temporariamente por circunstâncias variadas, após o suicídio de Leo, publicitário e escritor voluntarioso, fracassado no casamento e com dificuldade de se afirmar como literato. O recorte histórico abarca o fim dos anos 80, em São Paulo, no âmbito de agudas influências (queda do muro de Berlim, guerra fria, fim do socialismo, expansão da AIDS, fortalecimento dos EUA, eclosão de movimentos de minorias, recrudescimento de temas ecológicos e étnicos). A trama decorre dos diálogos do participantes do grupo, alguns oriundos de atuação política nos anos apertados da ditadura militar, outros sobreviventes do refluxo da onda de liberação dos costumes dos anos 70. Os sucessos, infortúnios e apreensões dessa geração refletem, de forma intensa e concentrada, um contexto de lutas, afirmação de diferenças sexuais e utopias. Vivendo as agruras de uma grande metrópole, num ambiente de fortes pressões conservadoras, em meio à tensa afirmação de opções minoritárias (gays, negros) e de ondas pacifistas, os personagens equilibram-se entre a vertigem das drogas e sexualidade dissoluta. Aos meus amigos elabora um retrato, nem sempre repousante e sereno, de um grupo de amigos, cujo percurso existencial, de contorno multifacetado, esbarra no contexto opressor da ditadura. Este o maior mérito da autora: compor um amplo, consistente e ousado mosaico em que muitos de nós, que fomos jovens naquele período, nos vemos impiedosamente projetados. Dentre os personagens, movem-se jornalistas, editores, médicos, publicitários, modelos, escritores, empresários, professores, donas de casa, artistas plásticos e homens comuns, expostos à turbulência de grandes transformações sociais.



      'Éramos um bando de pretensiosos, um bando de bostas que se imaginavam geniais, pensou Lena. 'E afinal, quem somos nós na grande ordem das coisas? Nada, nem esses que se projetaram mais que os outros', Lena considerou amargamente. Pela primeira vez naquela tarde teve vontade de chorar. 'Se ao menos a gente se divertisse, se ao menos a gente vivesse num país com menos sobressaltos'. (Amaral,2009, 95)

      A quebra de paradigmas, a passagem do tempo, as devastadas relações sociais, a exacerbação do modelo capitalista, os novos formatos de relacionamentos são discutidos de forma viva e concreta. Esta escuta atenta do cotidiano revela-se como positiva herança do labor teatral, na árdua e vertiginosa expressão de situações dramáticas, à beira do abismo. A autora não se preocupa em eliminar os liames com o mundo real, são citados eventos, nomes de rua, programas de televisão, artistas e canções da época, na busca de atenuar os limites do real e do fictício. O livro estrutura-se através da justaposição de fragmentos de diálogos, outra marca do universo do teatro: o enfrentamento contínuo dos personagens, quase sempre em experiências-limite: drogas, homossexualidade, desagregação familiar, participação política, frustrações individuais e coletivas. As fronteiras do trágico esfumam-se, desde o início quando o suicídio é comunicado e se anuncia o encontro da geração.

" (...) Professava as teses do Partido, embora não fosse filiado, e não compreendia como alguém como Leo podia continuar niilista em tempos tão exaltados. 'Eu não estou com vocês, nem com a uísquerda, nem com os novos propedeutas da direita nem com nenhuma facção farisaica. Eu quero ter o direito de me entregar a todos os delírios estéticos sem o risco de ouvir um discurso sobre os perigos da alienação'."  (Amaral, 2009, 206)

      O romance de Maria Adelaide Amaral desnorteia qualquer aprendiz de crítica. Em decorrência de uma perversa tradição, os críticos profissionais economizam palavras diante de bons livros. Acusados muitas vezes de arrogância e omissão, carregam ainda o fardo de serem taxados de escritores frustrados. Para certa crítica tradicional, o fato de um autor escrever para televisão era motivo suficiente para lhe torcer o nariz. Está na hora de ser sincero e honesto: este é um romance notável. A autora é um dos grandes nomes da literatura contemporânea, de qualquer país, sem dever nada a ninguém. Seu retrato da geração dos anos 70 e 80 é preciso, cruel, incontornável e impecável.

AMARAL, Maria Adelaide. Aos meus amigos. São Paulo: Globo, 2009.

      

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Wilson Bueno

      Livro do mês:

      Surgido na década de 80, o escritor paranaense Wilson Bueno (1949-2010) tornou-se conhecido como escritor inventivo, publicou uma dezena de livros, em especial três títulos, elaborados numa concepção aberta de gênero, no limite entre a ficção e o texto,  Bolero's bar (1986), Manual de zoofilia (1991) e o romance Mar paraguayo (1992), reconhecido por críticos exigentes como notável experimentação e metáfora de bisonhas ditaduras latinoamericanas. Editou em Curitiba nos anos 80 um caderno de cultura de prestígio, o Nicolau. No último livro, publicado após sua morte, envereda por uma narrativa de feição intimista e familiar, recriando o percurso pessoal e o de sua geração. Diálogo insistente e compulsivo com um irmão falecido, revive cenas luminosas e sombrias do passado em comum, repisando alegrias, traumas e dores familiares. "Mentindo a mim mesmo, alinhavo frases, longos períodos, parágrafos sujos ante o medo e a ignorância de que escrever é para os gênios e não para um poeta em tom menor feito este que lhe escreve, Mano, poeta de fim de semana, sonetista atabalhoado," (p.41). Ousado mergulho na memória, em linguagem  poética e refinada, o relato flagra um funcionário público aposentado, envolvido, com voracidade e impiedade, às reminiscências pessoais, revisando uma vida, ora considerada uma "bandalha ", ora "acabrunhado e inútil universo" (p.139). Acorrentado a lembranças pungentes, o narrador não esconde seu interesse em organizar como discurso os fragmentos de um passado que não se confunde apenas a uma crônica familiar, mas engloba também os anseios, utopias e perplexidades de toda uma geração. 
                                                  (Imagem joaquimdepaula.com.br)
      Numa escrita que busca seu foco nas potencialidades inovadoras da ficção, o relato resvala em alguns percursos paradigmáticos dos anos 70, o da eclosão do movimento gay, no âmbito da revolução sexual da época (os tumultos de Stonewall ocorrem em 1969, nos EUA). Mesmo sem o estatuto de figuração principal, a cena gay, no conjunto dos fragmentos, não perde a relevância, como representação do homossexualismo na literatura brasileira contemporânea. A dedicatória a Caio Fernando Abreu é sintomática. O registro subjetivo, em primeira pessoa, já de si complicado, ressente-se ainda mais de complexidade, por conta de tal atmosfera e perspectiva. No final da orelha, Ubiratan Brasil destaca: "Bueno colocou-se por inteiro em sua literatura e, com isso, obtinha o máximo a partir do mínimo".


      Um traço decadentista, acentuado pelas anotações sobre a velhice, a solidão, o medo e a morte, jamais se afasta do relato: "Curiosa, no entanto, é a Arte, Mano, sobretudo a literária. Ao contrário dos mortos que nos esforçamos para arrancar de uma anonimidade injusta, são eles, os poetas, os escritores, me parece, que palavra a palavra, frase a frase, nos precipitam às pequeninas mortes de um dia, duas, três horas, quinze minutos, em que nos abduzem, não importa quanto, essa suspensão de tudo em torno" (p.16). Da infância coalhada de pontos felizes e amargos, ao presente desolado de um sexagenário, o contexto abarca por alto em torno de uns cinquenta anos de uma família, à roda de suas miúdas circunstâncias, os animais domésticos, o pai bêbado,as tradições, os amigos espezinhados, a doença da mãe, registradas com igual intensidade ao registro dos grandes acontecimentos do mundo exterior. Obra madura, desencantada e maravilhosa, receberá, na dinâmica de um tempo que se deseja próximo, a merecida, plena e justa avaliação.

BUENO, Wilson. Mano, a noite está velha. São Paulo: Planeta, 2011.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Stella Maris Rezende

Livro do mês

      Os prêmios literários são manipulados e atendem a interesses pontuais, em especial os econômicos e políticos. Não é novidade para ninguém. O exemplo gritante dessas distorções tem sido o Jabuti dos últimos anos, à mercê de mudanças de regulamento, trapaças, polêmicas e atribuição disparatada de galardões. Na última edição, os quiprocós envolvendo o voto do jurado C com a consequente premiação de um estreante, o paranaense Oscar Nakasato, na categoria romance, respingaram na escolha do melhor livro de ficção do ano, uma novela juvenil, escrita por Stella Maris Rezende, A mocinha do mercado central. Parece ser uma retaliação ao que deveria ter sido o convencional resultado, não fora a estratégia do jurado, favorecendo sua preferência. A praxe tem sido o vencedor de melhor romance acumular o troféu de melhor livro de ficção. Os votantes da última hora, oriundos do comércio, não quiseram se submeter ao vencedor da categoria romance e optaram por um produto de área conexa. 



      Não é o caso de desmerecer o gênero juvenil. Simplesmente o livro escolhido como livro do ano de ficção é um produto de fatura estética mediana, atulhado de lugares comuns, desempenho linguístico raso, enredo desinteressante e insosso. A história acompanha as viagens e pretensas aventuras de uma garota pelo Brasil, do interior de Minas para Belo Horizonte, Brasília, São Paulo, São João del Rei e Rio de Janeiro. Herda de uma amiga o gosto pelo significado dos nomes próprios e sai pelo mundo mudando de nome, rotulando as pessoas com verbetes etimológicos, alguns bastante inusitados e de efeito hilário, quando deveria ser o contrário. Uma novela simples, despretensiosa, arrematada tolice ficcional, feita de  situações lacrimosas e descobertas edificantes e pitorescas. Munido de recursos peculiares dos relatos de formação e de uma ligeira reminiscência, o livro de Stella Maris explora um filão romanesco que teve no Brasil cultores ilustres e capacitados, como Érico Veríssimo (Clarissa), Garcia de Paiva (Esse menino Francisco), José Mauro de Vasconcelos (Meu pé de laranja lima) e o próprio Bartolomeu Campos Queirós. Alguns ingredientes característicos do folhetim (a busca da figura paterna, por exemplo) sustentam a trama, em meio a uma enfiada de atitudes politicamente corretas e de circunstâncias banais e afetadas. Os lugares visitados compõem um mosaico superficial do Brasil, descritos com uma empolgação de reportagem turística apressada, tudo selecionado pelo critério de se alcançar um resultado redondo, que inclui a modernidade de Brasília e o passado do Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro. A santa aparece, fala e se move num "modo comedido e elegante" (p.29). O ator Selton Melo é personagem, por quem a mocinha se apaixona, além de apresentar o livro com estampa e pequeno texto. O primado do lírico sobre o drama, o alvoroço de diminutivos, o registro coloquial enjoativo e o excesso de coisas delicadas geram monotonia e desandam o gosto do leitor. O projeto gráfico acolhe efeitos chamativos, como vinhetas de galhos floridos no canto das páginas, coloridas e ilustradas. As pérolas de linguagem apresentam frases desse naipe: 

      " Jairo, "aquele que foi iluminado", comentou" (p.109). 
      " Ajeitou o diadema no cabelo, mas não ajeitou o diadema no cabelo" (p.110).
      "...não rira nem caçoara da sua paixão docinha..." (p.87).
      " A franja espessa e lisa era jogada para trás, com agilidade e exibidência  (p.44)"
      " Diante de uma mesa lindinha". "- Vamos conversar um mucadinho? (p.85)" 
      " A confeitaria era mesmo um primor".
      "- Nasceu pra sonhar, mocinha? Eu prefiro a prática.
      - O sonho também é uma boa prática (p.25)". 

      Não se trata de um livro qualquer. Foi escolhido como o principal livro de ficção do ano. Livros excessivamente elogiados - e uma premiação tradicional é um somatório deles - devem desenvolver couraça para receber críticas. Após as luzes do anúncio do prêmio, vem a travessia para a recepção crítica e avaliações. Neste caso, fica difícil escamotear a decepção e a evidência amarga de que o Jabuti está decadente, não é mais aquele de décadas atrás.

REZENDE, Stella Maris. A mocinha do mercado central. ilustrações Laurent Cardon. São Paulo: Globo, 2012.


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Alcione Araújo (1945-2012)

      Morreu na madrugada da última quinta-feira, aos 67 anos, o dramaturgo, roteirista, diretor de teatro e romancista Alcione Araújo. Nascido em Januária, norte de Minas, desde 1978 residia no Rio de Janeiro, mas estava hospedado em hotel de Belo Horizonte com família quando sofreu um infarto.

                                                     (Foto de jornal, O Globo)
      O autor, um crítico e refinado intérprete dos costumes e situações humanas, além de peças de teatro, também escreveu crônicas e romances. Nos anos 70 surpreendeu os palcos do país com marcantes textos que foram encenados por importantes atores. Foi com a montagem inicial, em Belo Horizonte (1976), de Bentes altas, licença para dois, dirigida por Aderbal Freire e interpretada por José Meyer e Antônio Grassi que os dois atores, em início de carreira, partiram para o Rio de Janeiro.  Dirigida por Amir Haddad, Há vagas para moças de fino trato, foi interpretada por Glória Menezes, Yoná Magalhães e Renata Sorrah, em São Paulo. Sua peça de maior sucesso foi  Doce deleite, encenada por Marco Nanini e Marília Pêra, que esteve em cartaz durante dois anos (1981-1982), percorrendo diversas cidades brasileiras. A produção teatral completa do autor, em treze títulos, foi publicada em 1999, em 3 volumes, pela Civilização Brasileira. Na orelha do vol. 2, o diretor Aderbal Freire Filho define-o como um "artista brasileiro inspirado e profundo". Yan Michalski, em análise a Sob neblina use luz, destaca o seu engajamento político:

      "Os personagens de Alcione Araújo vivem afastados de qualquer tipo de questionamento acerca das estruturas sociais e políticas que condicionam suas pobres existências.Cada um deles funciona, um tanto lamurienta e covardemente, mas na verdade o melhor que pode, dentro da pequena perspectiva estanque delimitada pelas fronteiras do seu respectivo cotidiano. E, no entanto, as medíocres histórias que compõem esse cotidiano estão mergulhadas, como que sem querer, na História".

       Foi premiado no cinema com o roteiro de Nunca fomos tão felizes (1984), do diretor Murilo Salles  nos festivais de Gramado e Brasília. Assinou ainda os roteiros dos filmes Jorge, um brasileiro e Policarpo Quaresma, do diretor Paulo Thiago. O livro de crônicas Urgente é a vida (2004) foi agraciado com o prêmio Jabuti.  Publicou os romances Nem mesmo todo o oceano (1998), Pássaros de voo curto (2008) e Ventania (2012). Nos três observa-se o interesse por construções audaciosas, complexas e abrangentes, na tentativa de empreender um verdadeiro mergulho na história brasileira.  Em Pássaros de voo curto, os infortúnios e sonhos de Diva, uma cantora lírica que percorre o país, num veículo adaptado pelo motorista Zé Bolero, acompanhada pelo pianista americano Ralph Conway, para quem "a luz tropical fere como uma agulhada", são pano de fundo para o registro de inúmeras passagens da nossa história.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sérgio Mudado



Livro do mês:


Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta, terceiro romance de Sérgio Mudado, passou a despertar interesse ao ser listado como um dos dez finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2011. Trata-se de uma narrativa ligeira, movimentada, em parte aparelhada com os traços dos relatos picarescos, tendente ao anedótico e fabuloso, de mistura às ousadias do gênero, sem deixar de enveredar pelos caminhos do grotesco (como observa Benedito Nunes no prefácio).


Rompendo os padrões convencionais do narrador distanciado e onisciente, o estatuto do narrador aqui se mostra de forma compósita e multifacetada. Para comandar o fio narrativo, o autor delega essa tarefa a uma narradora, a qual dialoga naturalmente com uma leitora, que a acompanha montada num vagaroso pangaré. Os comentários de um e outro, ou de uma e outra, contaminam o fluxo narrativo, em ritmo de ziguezague. No intuito de criar cumplicidade entre as diversas instâncias do pacto romanesco, os juízos e comentários surgem marcados pela ambiguidade, uma vez que nem sempre esclarecem, colaborando para esconder ou tornar obscura alguma passagem. Por trás de uma estrutura narrativa grotesca (seguimos a lição de Benedito Nunes), de base ilusionista e dotada de artifícios inusitados, como a presença do médico e autor Sérgio Mudado em meio aos eventos ficcionais, a intriga toma um ritmo vertiginoso e quase sempre hilariante.

Por força da motivação ilusionista, o relato tenta captar a força torrencial do tempo, sendo simultaneamente envolvido pela energia desordenada do próprio tempo. O enredo, ainda que cercado de elementos mágicos e históricos, tem uma banal motivação: Juca Peralta é um caixeiro-viajante, funcionário da Philips, uma multinacional holandesa sediada em Belo Horizonte, encarregado de vender um rádio de três ondas, denominado o Matador, razão de suas andanças em trem de ferro, entre a capital de Minas e Montes Claros. Entre o nebuloso histórico e a magia, a intriga move-se em ritmo frenético, promovendo uma reviravolta na percepção da realidade, confrontando personagens históricas e fictícias, mito e realidade, tais como a feiticeira Cleópatra, o mago Noge, Ary Barroso, o governador Bento Antão, Juca Peralta, o jovem Fábio, Noel Rosa, Van Eik, Hitler, o delegado Luciano, Tiburtina e os dois maridos, as cortesãs do palácio de dona Olimpia, o historiador Licamar, o negociante Trajano Macedo e toda uma infinidade de figurações esdrúxulas e misteriosas. Dentre as múltiplas tarefas do Autor, convocado episodicamente à instância de personagem, além da construção de um relato aberto, fragmentado e receptivo às vozes de várias personagens, avulta o papel de editor de uma gama variada de discursos. Registre-se que a atuação do autor como personagem é uma presença rápida e de relativa autonomia. A duplicidade de papéis, no entanto, não é gratuita: duplicam-se os papeis e funções do Autor (da autoria) para assim se diluírem as perspectivas do autoritarismo? As notações de tempo, um tanto fluidas, são capazes de abarcar uma linha temporal dilatada: começam no ano fatídico de 1939, início da segunda grande guerra mundial. Não é ocioso lembrar, portanto, a impossibilidade histórica de Sérgio Mudado, nascido em 1948, ter comparecido naquele ano, para socorrer o empresário holandês, num caso de pneumotórax.


A alusão ao leitor que vai na garupa, em algum momento identificado como leitora, reforça a presença do interlocutor implícito e retoma a figura da “amável leitora” da narrativa ficcional do século XIX. “Em verdade, preciso, admito sem pudor, da tua ajuda. A mágica pode acontecer sem a presença do mago, que pode estar operando a uma distância formidável do seu objeto. Nenhuma forma de magia, no entanto, pode ocorrer sem testemunho. (...) Então, eis o dom que te é conferido: poderás sonhar-me nos idos de tua imaginação, saber-me nas linhas dos teus lábios, seguir-me nas estrelas do teu rumo. Sou, doravante, o teu espaço, semeei-te em mim e, portanto, estás agora plenamente preparado, pois te tornaste o mais hábil leitor - meu e de ti mesma, pois tu és, doravante, também quem eu sou” (p.15). Esse narrador, que insiste em sua natureza feminina, (pela possibilidade de procriar?), gera em si mesmo a instância do leitor - “o mais hábil leitor”, reduplicando o que já estava erigido em dupla função (de autor e personagem). O pacto romanesco (a contiguidade entre autor, narrador, leitor e personagem) ocupa um lugar explícito no relato. A ideia de excesso e desmedida, delineada no título (os negócios extraordinários), reveladora do intento de extravasar os limites, é sintomática de uma concepção diegética sem freios, transgressora de princípios estabilizados milenarmente. O processo narrativo incorpora uma diversidade de discursos, oriundos de fontes literárias, científicas, folclóricas e históricas, cujos fios costuram uma ampla e formidável tapeçaria do mundo. Os índices relacionados com a Minas colonial misturam-se aos pruridos de modernidade tecnológica, às incursões desaforadas na história política mineira, às ocorrências repressivas do Estado Novo e aos prenúncios dos horrores do nazismo em franca ascensão. Dessa forma a mais sonhada que elaborada “história subterrânea de Minas Gerais” constitui outro índice da inútil tentativa de recriar o incessante fluir do tempo. “...Minas é habitada por gente intratável e aqui no sertão os dias nunca amanhecem serenos. Esta terra parece desprender tumultos; a água exala motins e os campos destilam liberdade” (p.122).


Como água incontrolável de enchente, a narrativa vai assimilando resíduos de história e folclore, arroubos patrioteiros e peripécias sensuais, entulhos e tudo o mais que encontra no caminho. Da mesma forma que o submarino alemão, mergulhado nas ruas fétidas do Arrudas como espetáculo de magia, não esconde o interesse do Reich pelo ouro das Minas. Romance de imenso fôlego, tal como o do holandês tocador de trombone do início do relato, Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta revelam um autor maduro, inventivo, matizado, sugestivo e irônico, plenamente consciente das artimanhas ficcionais.



MUDADO, Sérgio. Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta. Belo Horizonte: 
Crisálida, 2010. 432 p.