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terça-feira, 1 de julho de 2025

Afonso Arinos de Melo Franco

 

       O livro de Afonso Arinos M. Franco, Amor à Roma, um tijolão de 520 páginas, atrai o leitor por diversas razões, a relevância histórica, o pendor da erudição, a paixão pela cidade eterna, a curiosidade sobre o reinado dos papas, o entrecruzamento de focos e perspectivas. O autor refere as origens históricas da cidade, no século quinto, as invasões de bárbaros de múltiplas colorações, atraídos pela riqueza e importância da urbe. Cita os fatores favoráveis à descoberta e ao fascínio pelo tema: a viagem, quando era moço, a Roma, no ano de 1925. O interesse pela história de Roma se entrecruza com o conhecimento de alguns diplomatas e intelectuais, como o autor de Procelárias, 1898, livro de versos de Magalhães Azeredo, que viria a ser o primeiro embaixador do Brasil na Santa Sé. Nas primeiras páginas, dedica-se a explicitar a natureza do amor a Roma. “O traço comum, que permite a variedade, consiste em que o amoroso de Roma não se transfere para dentro da Cidade, antes transfere a Cidade para dentro de si. De resto, como transportar-se para ambiente tão vário no tempo, tão variado nas formas? Em que Roma se integrar, em qual delas identificar a representação global de todas, válida para um determinado gosto ou temperamento?” (p.25). Seu fascínio pela cidade dialoga com o de outros intelectuais que também sucumbiram à sedução pela cidade, tendo escrito sobre ela, Montaigne, Taine, Des Brosses, Chateaubriand, Stendhal, Goethe, Byron.

       O autor, à medida que expõe os motivos pelos quais se encanta pela cidade, mergulha em sua história e na história dos cardeais e dos papas, sobre os quais se esmera em tecer a cronologia, os principais eventos e juízos. A matéria pesquisada revela-se pródiga em curiosidades, referência às grandes obras executadas, o interesse de marcar cada reinado com construções magníficas e marcantes. Não ficam de fora os escândalos famosos, a evolução de grandes artistas que contribuíram para a grandeza arquitetônica do Vaticano, ao longo dos tempos. Mais do que fria descrição dos monumentos romanos, o livro constitui um esforço em captar o espírito de Roma, a “complexa e indefinível primazia de Roma em muitos setores da História” (p. 488). Paralela à corte papal, florescia outra, a corte frívola das famílias da nobreza italiana ou europeia, com seus casos de ascensão e decadência, as rivalidades entre poderosos e nobres, a competição entre protegidos e fidalgotes. Enumera os grandes beneméritos de Roma: Júlio II, Leão X, Paulo III Farnese, Paulo V Borghese. Dentre as passagens mais expressivas, citem-se as páginas sobre a presença do Padre Antônio Vieira em Roma, à altura dos anos de 1671 a 1675, comentários sobre alguns sermões e cartas, sua aproximação à Rainha Cristina da Rússia, as evocações literárias envolvendo Stendhal, os capítulos dedicados à atuação de Napoleão Bonaparte, os eventos relacionados à família Borghese, as referências às obras de Bernini, as digressões gerais em torno da efervescência artística no âmbito do Renascimento.



FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Amor a Roma. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

sábado, 22 de junho de 2019

Afonso Arinos de Melo Franco



Livro do mês

       Para Afonso Arinos de Melo Franco, de acordo com o raciocínio desenvolvido em Planalto (1968), um dos fatores responsáveis pelo colapso do governo Jânio Quadros está ligado estreitamente à questão cubana. A opinião pública teve do caso uma visão superficial. Era a primeira vez que um movimento revolucionário latinoamericano se deixava “orientar conscientemente pelas doutrinas esquerdistas. (…) O México, que poderia ser citado como exemplo em contrário, de fato não o é. Na verdade, a revolução mexicana, iniciada no começo do século e, hoje, solidamente instalada no poder, pode ter o seu caráter discutido, mas uma coisa é certa: não, ou, pelo menos, não se tornou uma revolução socialista. Antes se reveste de aspectos conservadores, dentro de um quadro reformista e, principalmente, nacionalista” (MELO FRANCO, 1968,76). O diplomata mineiro refere-se desta forma à participação norteamericana: “A questão cubana, desastradamente abordada pelo inexperiente governo de Kennedy, nos Estados Unidos, dominou o panorama nacional, provocando uma cadeia de reações que ia do sectário e do medroso de boa fé, ao interesseiro sem ela (interesseiro, por motivos econômicos ou políticos), unindo-se tudo numa espécie de torrente de pânico que, em breve, colocou o novo governo sob as maiores e mais infundadas suspeitas” 
(MELO FRANCO, 1968,76). Nesta página, descreve ainda a ‘inépcia do governo Eisenhover’. A questão prestou-se à evolução de uma campanha direitista contra a politica externa levada a cabo pelo Ministro das Relações Exteriores de Jânio. No caso, o próprio Afonso Arinos M. Franco.
       Vai-se cristalizando a impressão de que setores da esquerda brasileira tentaram direcionar o governo Jânio Quadros para o lado soviético, com um presidente simpatizante de um viés ideológico socialista. Os traços pitorescos do presidente – a vassoura, o jeito estabanado de agir, as medidas adotadas (proibição de brigas de galo e de biquínis), longamente divulgadas e discutidas, seriam elementos adequados para a consolidação de um líder socialista grotesco, investido de fortes poderes. No comando da política externa, Afonso Arinos M. Franco postava-se como alvo de veementes ataques de setores da direita e do empresariado. Esta atuação, diametralmente contrária à tradicional concepção epicurista de diplomacia externa, calcada em festas de salão e viagens, deixou o ministro exposto às pedradas da imprensa e dos setores conservadores. Ao longo do volume, somos confrontados com a bagagem cultural, a lucidez, o rigor das argumentações e o acúmulo de índices lógicos na postura do Ministro das Relações Exteriores. Além de situações políticas, como o justo resgate do presidente Quadros, o autor se detém em episódios da vida cultural do país, como a amizade com Guimarães Rosa, no período em que o autor de Grande sertão: veredas prepara-se para tomar posse na Academia, vindo a falecer na sequência.





MELO FRANCO, Afonso Arinos de. Planalto. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1968.