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domingo, 15 de junho de 2025

MATINÊ DE SÁBADO - LANÇAMENTO

Lançamento dia 16 de junho de 2025 a partir das 19h.

Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais
Praça da Liberdade, 21 - Belo Horizonte - MG, 30140-010


 

MATUTANDO SOBRE MATINÊ DE SÁBADO - Resenha de Caio Junqueira Maciel

 

MATUTANDO SOBRE MATINÊ DE SÁBADO


Caio Junqueira Maciel



       Há uns tempos li textos críticos de Silviano Santiago em obra denominada Aos sábados, pela manhã. Agora recebo de Edgard Pereira Matinê de sábado, contendo artigos e ensaios de Literatura. O título vem explicado na epígrafe: “Quando leio alguns livros, um filme passa-me pela cabeça.” E, se compararmos livros a filmes, cumpre destacar que o autor não segue apenas os Fellinis, Pasolinis, John Fords, pois não se prende apenas ao cânone: “Produzir crítica literária corresponde a optar por uma escrita de segunda grau, acerca de um texto, seja de um autor canônico, ou de alguém que merece ser reconhecido” (p.11). O saudoso professor Antônio Sérgio Bueno me disse certa vez que livro de ensaios não se lê de um só fôlego: ele deve descansar na estante e ser beliscado aos poucos. Com todo respeito à memória desse grande estudioso da Literatura, mas não acatei seu conselho: li as mais de 200 páginas da obra em poucos dias, e buscarei ser breve para abordar os filmes que também vi passar. Edgard Pereira foi professor de Literatura Portuguesa na UFMG, possui livros de ensaios, de contos e romances. Não é apenas um teórico: sabe das filigranas da ficção e, como crítico, sua intenção é a de “fugir de piruetas conceituais, descrever o material consultado, enquadrando-o no gênero a que pertence, desvendando-lhe as estratégias e interesses estéticos. [...] A intencional mistura de autores canônicos e estreantes atende a uma ideia de partilha do patrimônio literário” (p.16). E obtém com maestria tal intenção, sem enfadar o leitor, pois não se vale de um vocabulário demasiado técnico, exclusivo dos experts. Seu livro pode ser acolhido tanto por professores, estudantes e apreciadores da boa Literatura.

       Na introdução, atravessada por vozes de vários críticos, debate-se a ideia de nacionalidade, que não deve ser tratada “como fato exclusivo, mas como ingrediente no conjunto dos elementos para a compreensão da obra literária” (p.12). Há referência a um artigo de Adonias Filho, ironizando o então jovem crítico Antonio Candido, já preocupado com aspectos sociais em detrimento do intimismo (p.13). Edgard faz sua profissão de fé: “Considero a crítica como uma atividade propulsora de cultura, ao despertar o interesse pela produção literária em dado contexto. [...] O ato de ler compreende um diálogo a várias vozes” (p.14). O livro é constituído por 32 artigos e ensaios, uns curtos, outros mais longos, nos quais o autor dá beliscadas, beliscões e algumas carícias. A primeira parte, “No jardim das musas”, contempla poesia, dando relevo à presença de Minas e diálogo com a cultura portuguesa. Mas o primeiro texto, sobre Bruno Tolentino, foge desses vetores. Esse polêmico poeta é responsável pelo beliscão que dá em Paulo Leminski, cuja poesia não passa de ““versalhada instantânea e rimas de muleta” (p.19). Edgard aborda A invenção do amanhecer, que considera, “dentre os livros de amor escritos no Brasil, o mais elaborado, ousado, complexo e vigoroso” (p.21). Outros poetas contemplados na primeira seção: Márcio Almeida, com o livro Vesânia, interessado em “entender a sobrevivência do indivíduo orgânico, histórico” (p.25); Geraldo Reis com o livro Pastoral de Minas, que possui “estrutura orgânica e significativa [...] “não se afasta da consciência da História” (p.29); Oswaldo André de Mello, com Imagens imorredouras, poesia de “tonalidades neossimbolistas”, com versos discursivos, vertente erótica, apelo místico e metapoesia (p.31); Anelito de Oliveira, com Desforra, em que “o poeta de múltiplas facetas revela-se um arauto de sujeitos maltrapilhos” e faz “denúncia da degradante condição humana” (p.33). Edgard, afeito à cultura portuguesa, também faz rápida abordagem de uma antologia de poetas brasileiros publicada em Portugal, Oiro de Minas, organizada por Prisca Agustoni, integrando autores como Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Júlio Polidoro, Edimilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson Freitas, Wilmar Silva, Fabrício Marques. Alguns nexos são esboçados na análise de expressivas poéticas contemporâneas, como a procura do cotidiano, a vertente erótica e o risco de a adesão ao social se impregnar de tons panfletários. O ensaio mais longo é dedicado a poetas crepusculares, como Fernando Pessoa e os brasileiros Ernâni Rosas e Cruz e Souza. A vertente lusa aparece ainda no poemeto épico de Olavo Bilac intitulado “Sagres”, sobre o isolamento reflexivo do Infante d. Henrique (1394-1460). Há o elogio ao paradigma da castidade feito por poeta marcado por ardente sensualismo. Edgard destaca “a força transfiguradora do sonho como instância das grandes realizações coletivas” (p.67) e o elo com Mensagem, de Fernando Pessoa.

       A segunda seção da sessão dessa Matinê de sábado intitula-se “Entre o passeio público e o sertão”, com 23 textos abordando romances e contos. Há autores de linha intimista e psicológica como José Geraldo Vieira, Marques Rebelo, Lúcio Cardoso, Cornélio Penna, Octávio de Faria. Adonias Filho. Saliento o ensaio sobre “Guimarães Rosa: sertão e narrativas transgressores”: a “ambiguidade erótica” da narrativa, “os polos antitéticos da atração e da repulsa”, “a duplicidade entre o jagunço e a donzela, o demoníaco e o divino” chamam atenção para a rasura da crítica frente ao componente homoerótico, que reflete repressão imposta aos estudos sobre sexualidade; exemplificando com o episódio do morto esquecido dentro da igreja, esboço fantasmático da união entre os protagonistas Riobaldo e Diadorim. Merecem acurada atenção romances como Os servos da morte, de Adonias Filho e Os tambores de São Luís, de Josué Montello, onde há “descrições poéticas sugestivas” e “o sofrido processo da assimilação racial”. Há estudos sobre João Ubaldo Ribeiro de Viva o povo brasileiro, com ênfase à linguagem polifônica, num romance que dialoga com a epopeia. Edney Silvestre em Se eu fechar os olhos agora; Wilson Bueno, em A noite está velha. Além de Guimarães Rosa, outros prosadores mineiros estão na tela da matinê de Edgard: Rui Mourão, com Mergulho na região do espanto, Benito Barreto com sua tetralogia Saga do caminho novo, coincidentemente estou a ler o primeiro volume, Os idos de maio (e não de março, como se vê no cesariano equívoco na nota bibliográfica). Adélia Prado é estudada em Os componentes da banda. Maria José de Queiroz com Homem de sete partidas. Jéter Neves em Fratura externa. E até um certo Caio Junqueira Maciel, em Um estranho no Minho, abordado como exemplo de prosa picaresca, como também Sérgio Mudado e Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta. Luiz Fernando Emediato, com o conjunto de contos reunidos em Trevas do paraíso, “escritos no calor da repressão política, os contos não perderam o frescor e a rebeldia juvenil, nota inconfundível nessa ficção” (p.187).

       Além de Adélia Prado, outras escritoras são estrelas dessa matinê: Nélida Piñon e A república dos sonhos; Maria Adelaide Amaral e Aos meus amigos, que me despertou a vontade de conhecer este “amplo, consistente e ousado mosaico no contexto opressor da ditadura” (p.153); Adriana Lisboa de Azul-corvo. Constam, também, análises de ficções pós-modernas como Fios de Ícaro, de Evaldo Balbino, e Paradoxias, de Luiz Eustáquio Soares. Conclui a sessão e a seção um voo panorâmico sobre o moderno romance brasileiro. Destaque para as obras de Érico Veríssimo, Autran Dourado e Clarice Lispector. Edgard Pereira compartilha sua leitura com seus leitores, provoca nosso desejo de conhecer ainda mais os nossos autores. E, se tal volume de textos abordados chega a dar a impressões de pontos ou manchas isolados, lembremos do que disse Marques Rebelo, em A guerra está em nós, citado por na p. 82, “[...] verão que os interstícios são ilusórios, pura habilidade do artista familiarizado com o pincel do pontilhismo, que as manchas, longe de se repelirem, se fundem coerentemente num quadro só – o quadro que eu desejo.” O certo é que essa matinê, provocando nossos desejos, nos leva a muito matutar sobre as letras que cobrem nossas fatigadas retinas de domingo e sábado.



PEREIRA, Edgard. Matinê de sábado: artigos e ensaios de Literatura. Curitiba: Appris Editora, 2025.

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Novo título na praça

        Avaliação isenta e análise criteriosa do legado de mais de três dezenas de autores modernos e contemporâneos, Matinê de sábado foge a piruetas conceituais, busca descrever o material consultado, enquadrando-o no gênero a que pertence, desvendando-lhe as estratégias e interesses. Sem negligenciar as contingências biográficas marcantes, as estratégias associadas ao contexto e os mais relevantes efeitos estéticos.

       A intencional mistura de autores canônicos e estreantes atende a uma ideia de partilha do patrimônio literário. Atuando na contramão dos dispositivos que contribuem para minar cada vez mais o campo devastado da literatura, o autor desconstrói dogmas consolidados e lança um olhar desarmado, mas lúcido, em obras representativas do acervo produzido nas últimas décadas, como trabalho de resistência num contexto por vezes atribulado, turbulento e multifacetado. Quando necessário, a busca de sentidos submersos, inscritos no tecido verbal, decorre do mergulho em camadas subterrâneas, fragmentárias e dispersas.

              Saindo do forno. Mais de 30 autores têm sua obra analisada. Lançamento em breve.

    No âmbito do lançamento de Matinê de sábado, livro de ensaios e resenhas de literatura brasileira, pede-me o editor subsídios para compor o material de divulgação. Envio os dois parágrafos que se seguem.


    Nos anos 70, incentivado pelos concursos de contos, que pagavam grandes prêmios financeiros, ocorreu no Brasil um expressivo surgimento de contistas. Foi o boom dos contistas, notadamente em Minas. Um jornalista paulista demarcou o cenário, afirmando que havia em Belo Horizonte um contista em cada esquina. Surgiram em torno de uns vinte contistas, na época. Foram publicadas muitas antologias de histórias curtas. O concurso mais importante era o do Paraná. A revista Status publicou antologia de contos mineiros e contos eróticos. No concurso de contos do Paraná, de 1971, fiquei em terceiro lugar na categoria estudante, confiro o troféu. No mesmo ano, fiquei em primeiro lugar em Concurso de contos da Revista Literária da UFMG. Em Minas, Libério Neves editou uma coleção de novos contistas, pela editora Interlivros, na qual figuro, ao lado de outros estreantes, como Luiz Gonzaga Vieira, Jaime Prado Gouvêa, Duílio Gomes, Lucienne Samôr, Ana Cecília de Carvalho, e de veteranos, como o próprio Libério Neves e Manoel Lobato.


    Maria Lúcia Lepecki, professora na Faculdade de Letras da UFMG, no início da década de 70, enviou duas resenhas de minha autoria para Boris Schnaiderman que as encaminhou para o Suplemento Literário do Estadão: foram publicadas. O editor era Nilo Scalzo. Outras colaborações sucederam, o trabalho era remunerado, com pagamento de pro labore. No âmbito das publicações, eventos foram ocorrendo, como a carta de Clarice Lispector e o prêmio atribuído (IV Festival Universitário de Literatura Xerox, Livro aberto) ao romance Outono atordoado, em 2001.  



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Ebooks Kindle

      Informo o lançamento recente, em plataforma de ebooks Kindle, de Suspiro seco, o mais novo romance de minha autoria. Disponível aqui.







quarta-feira, 23 de abril de 2014

Lançamento em clima festivo

      Com a presença de Fernando Pinto do Amaral, coordenador do Plano Nacional de Leitura, no âmbito do Ministério da Educação, amigos e vários intelectuais, lancei ontem na Casa da América Latina, em Lisboa, o livro Arquivo e rota das sombras. Bastante descontraído e bem humorado, o escritor e crítico Fernando Pinto do Amaral recordou os encontros, há quase vinte anos, à altura de minha investigação de doutorado realizada sob sua orientação em Portugal. Revelando leitura atenta do livro, o escritor destacou a noção de ensaio como demanda e procura, aliada à capacidade de buscar uma interpretação, sem perder de vista o contexto cultural, numa postura aisance, de intimidade com a literatura portuguesa e a coragem para abordar alguns tópicos. Salientou, ainda, a capacidade, sensível aos deslocamentos e oscilações, de efetuar nexo entre gerações, na órbita dos temas fundamentais tratados, em especial, a questão da identidade, o duplo e as máscaras, as pulsões da sexualidade, os fluxos verbais ligados à subjetividade e os temas multiculturais. Nas fotos, Hélder Moura Pereira, eu, Fernando Pinto do Amaral e Ozias L. Filho.





sexta-feira, 4 de abril de 2014

Arquivo literário


Livro do mês: Arquivo e rota das sombras

      A poesia de Fernando Pessoa é generosa no uso do motivo da sombra, como se percebe nesta sumária citação: “Neste mundo em que esquecemos/ somos sombras de quem somos”; “O corpo é a sombra das vestes/ que encobrem teu ser profundo”. A fortuna da sombra em títulos de livros portugueses é considerável e surpreende.  Reiterado em inúmeras obras recentes, equipara-se, em volume, àqueles que tratam do sonho e da noite, todos repassados de uma aura esotérica: Rápida, a sombra (1974), de Vergílio Ferreira; Sombras e transparências da Literatura (1983), de Manuel Frias Martins; Enumeração de sombras (1989), de Nuno Júdice; De novo as sombras e as calmas (1990), de Hélder Moura Pereira; Sombras e lugares (1993), de Serafim Ferreira; A sombra do Rei-Lua (1990), de José Jorge Letria; O cálculo das sombras (1997), de Eduardo Prado Coelho; Caminharei pelo vale da sombra (2011), de José Agostinho Baptista. No plano opositivo à sombra, os títulos que exploram a luminosidade traem igualmente um significado esotérico ou revelam herança do Realismo, configurando ressonâncias positivas, como o impulso para o conhecimento e as notas eufóricas de celebração da vida, traços mais ou menos visíveis, a propósito, em Claridades do sul, de Gomes Leal, Nos braços da exígua luz e Fórmulas de uma luz inexplicável, de Nuno Júdice ou Os oficiantes de luz, de José Jorge Letria.
      A literatura sempre é convocada para preencher as sombras, as vicissitudes e os vazios do cotidiano. A feição ensaística dos trabalhos enfeixados em Arquivo e rota das sombras radica no gosto de enveredar no universo da hermenêutica, intuída como confluência de análise e invenção. Por força da tendência transversal em que se movimentam as assertivas e os comentários críticos, o nexo que os sedimenta provém de um equilíbrio de enfoque que ora se move para o terreno das ideias, ora para o campo específico da literatura. Sobretudo, cabe reconhecer o pensamento aplicado em dupla direção: o intento de se confrontar com temas e questões da cultura contemporânea (alguns oriundos de época remota) e o esforço de ler valorativamente um rol de autores. São debatidos os pontos de contato entre a lírica de Camões e a de Pessoa, as coordenadas narrativas de Eça de Queirós, Garrett, Sá-Carneiro, Saramago e mais de uma dezena de ficcionistas contemporâneos, as dicções e usos verbais da produção poética desde os anos de 1970 aos dias de hoje (de António Franco Alexandre a Fernando Luís).



       Dito desse modo pode parecer tratar-se de um uso tempestivo da argumentação e da retórica, o que não seria de todo incorreto, se é levada em conta, no âmbito das recensões, a gama intensa de entusiasmo, inquietação e arrebatamento de que por vezes se revestem as considerações. Convergência de variados enfoques, em decorrência da aproximação do texto à teoria, o discurso crítico demanda cada vez mais uma arejada constelação de interesses, motivos e perspectivas. Da linguística à antropologia, da semiótica aos estudos culturais, da filosofia à história e à teoria literária, são extraídos ilações e conceitos, como suporte teórico e elemento de apoio. Nesse entendimento de crítica literária como lugar de uma atividade plural, entrecruzamento de saberes e tensões, impõe-se a atenção ao pensamento de Eduardo Prado Coelho, tendo em vista o vigor e a lucidez com que aproxima o texto literário a diversas conexões teóricas e ideológicas. Sobretudo no esforço em disseminar a ideia de crítica como instância agregadora de outros discursos, circulação de linguagens, “prática produtiva e transformadora”. Em suas palavras: o encontro de “uma linguagem suficientemente autônoma para que dela possa emergir uma escrita, isto é, um percurso teórico-prático razoavelmente estabilizado e coerente para que nele se dê conta de que há um corpo de linguagem que vai ao encontro da linguagem de outros corpos – num movimento de aplicação que nos implica até ao mais profundo do nosso ser e a razão das coisas” (COELHO, 1979, 15). 
      Releve-se ainda o trabalho paciente de leitura e divulgação efetuado por Gastão Cruz, António Ramos Rosa, João Barrento, Joaquim M. Magalhães, Fernando Guimarães, Arnaldo Saraiva, Manuel Frias Martins, Paula Mourão, Fernando J. B. Martinho, Eduardo Pitta, António Guerreiro e Fernando Pinto do Amaral, dentre outros, quase todos também capacitados cultores do verso, numa demonstração de que o fim de milênio em Portugal foi pródigo não apenas numa sofisticada produção poética, mas também no desenvolvimento de um agudo discurso crítico. Não seria ocioso constatar que a renascença da produção poética observada no período teria sido simultânea à expansão da atividade crítica, minas de água que se encontram e fortalecem, como fenômenos complementares e vitais, num século considerado de ouro para a poesia, iniciado sob a chancela auspiciosa de Fernando Pessoa.
      Jorge Fernandes da Silveira, Maria Lúcia Dal Farra, Gilda Santos, Ida Ferreira Alves, José Carlos Barcellos, Gustavo Cerqueira Guimarães, Tatiana Pequeno, Luís Maffei e outros pesquisadores brasileiros inscrevem seus nomes nesse arquivo flutuante e inconcluso, como agentes de práticas discursivas sobre a poesia portuguesa contemporânea, em franca expansão do lado de cá do Atlântico.
      O conceito de arquivo, caro para o pensamento de Foucault, possibilita abarcar não tanto a ideia de continuidade e preservação, mas o risco de descortinar o transbordamento dos múltiplos horizontes, a hesitação diante do limite e do recorte, a surpresa da descontinuidade, na dinâmica da taxonomia. Não a soma dos conhecimentos de uma época, a rigidez de convicções definitivas, e sim a dispersa possibilidade de leituras e interpretações, numa panóplia múltipla e constelada em que as diferenças se configuram. Espécie de trincheira dos recursos do dizer, nem sempre sob o signo da linearidade, o arquivo equipara-se também a um espaço onde as práticas discursivas suportam os processos de reciclagem e transformação, onde os traços expressivos são depurados para representar os reflexos da história, os voos da transcendência, os disfarces da subjetividade e os apelos de participação social.

COELHO, Eduardo Prado. A letra litoral. Lisboa: Moraes, 1979.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro : Forense Universitária,1986.

Livro do mês: PEREIRA, Edgard. Arquivo e rota das sombras. Lisboa: Aldeiabook, 2014.

      Raras vezes o livro do mês referido neste espaço corresponde a um livro lançado efetivamente no período. Mais uma circunstância digna de protocolo neste arquivo. Com capa de Ozias Lopes Filho, o livro será lançado no próximo dia 22 de abril, às 18:30 hs, na Casa da América Latina, em Lisboa, com a presença do escritor Fernando Pinto do Amaral.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Em causa própria

Mexendo em velhos papéis, numa triagem para descartar coisas inúteis no lixo, o que sempre faço em final do ano, encontrei dois trabalhos de mestrado sobre um conto de minha autoria, “Setor de montagem”, inicialmente publicado no Suplemento literário de Minas Gerais (Belo Horizonte: nº 842, 20 de nov. 1982), com outro título, "Setor de perfilação". A imagem reproduz esta publicação, ilustrada por Eimir; para ampliar, basta um click. Com algumas alterações, integra o livro O lobo do cerrado (Rio de Janeiro: Imago, 1999), versão que serviu de fonte aos trabalhos referidos, produzidos no âmbito de um Curso de mestrado ministrado na UFMG, na área de Linguística. Recorto, na sequência, um trecho de cada um.



1. O leitor instituído e o discurso contraditório

      “Examinando o plano do intradiscurso, em “Setor de montagem”, no campo discursivo político, sob a ótica do enunciatário instituído (o leitor), destacam-se os percursos figurativos do trabalho e da luta operária. O tratamento dado a esses dois percursos é desigual: o trabalho é detalhadamente explicitado, enquanto a luta operária é apenas sugerida, camuflada em passagens quase que inexpressivas da narrativa. A bem da verdade, a luta operária é somente inferida através dos conselhos dados pelo operário veterano ao novato: “Cuidado com os agitadores, afaste-se deles”, “Mais uma vez: não se misture com os agitadores. Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo”. Já o trabalho, conforme se analisará nas páginas seguintes, é minuciosamente descrito sob diversos ângulos: a rotina do operário (ida à fábrica, atividades desenvolvidas, incidente ocorrido, comentários sobre as condições de segurança, volta para casa), informes sobre experiências profissionais, evolução histórica das condições de trabalho.
      O enunciatário instituído depreende, numa segunda instância de leitura, o interdiscurso, que na narrativa em estudo, envolve o campo político, no espaço discursivo em que se opõem o discurso burguês e o proletário. O discurso do operário veterano mantém relação de adesão ao discurso burguês e (supõe-se, infere-se) contrapõe-se ao de operários críticos. O discurso burguês e o discurso proletário revelam-se, no texto em análise, interdiscursivamente como vozes polifônicas, na concepção bakhtiniana de “discurso de outrem na linguagem de outrem” (BAKHTIN: 1988,127). Dessa forma, os dois discursos apresentam-se em plano de leitura simultaneamente intra e interdiscursivo. (...)
      Uma gama de inferências pode ser levantada a partir das relações sintático-semânticas estabelecidas, entre elas, a contradição existente entre pares. De um lado, os operários comuns e tudo aquilo que a eles se associa: fila de ônibus, empurrões, desaforos, cubículo, azulejo sujo de óleo, graxa, restos de sabão e fios de cabelo e outras titicas não identificáveis, não tinha onde colocar o sabonete, nem estrado, a água fria e pouca. De outro lado, o operário graduado: jeito bonachão, parece ser antigo de firma, limpeza do uniforme, chuveiro com água quente, “entrou num especial quase vazio que arrancou logo, parece que só aguardava a sua chegada”. De um lado, o operário atual, que se prepara tecnicamente (em virtude da concorrência de mercado): “Na escola técnica, só que era mais tranquilo”. Do lado oposto, o operário que se graduou e profissionalizou na própria empresa, por meio do trabalho: “Naquele tempo, não havia curso técnico. A gente se destacava pela competência, aprendia tudo na fábrica mesmo”.
      O interesse do veterano pela causa da demissão do novato no último emprego subentende uma dúvida: teria sido por agitação? Nas entrelinhas, várias sugestões. Seriam os agitadores os que se incorporam aos movimentos sindicalistas? Constituem eles o grupo dos que protestam, os reformistas? Não pertencendo a esse grupo, o operário veterano teria se destacado exatamente por esse motivo?”
(...)

(LIMA, Rosângela Borges. Faculdade de Letras da UFMG, Pós-Graduação em Estudos Linguísticos. Seminário de Tópico variável em Análise do discurso: discurso, ideologia e leitura. Prof. Dr. Antônio Augusto Moreira de Faria, s.d.)

  1. “Setor de montagem”: os discursos em contradição

      Em “O setor de montagem”, de Edgard Pereira, a história desenvolve-se em torno de dois personagens, Pedro e Chico, ambos operários. A partir da fala desses personagens, é possível perseguir dois espaços discursivos, reveladores da experiência proletária, o discurso crítico e o alienado. (...)
      Embora não seja inexperiente, o novato Pedro será visto pelo operário veterano (Chico) como ingênuo, influenciável, sem os mesmos direitos de um trabalhador mais velho e confiável para os padrões capitalistas. O interesse revelado pelo funcionamento das máquinas e a constatação de que não há fábricas empenhadas na diminuição do barulho formulam, da parte do veterano, um percurso figurativo que revelará a visão cristalizada de um operário completamente reduzido a “peça de engrenagem" em relação àquele que chega e ainda não se transformou. É “o seu outro” ele mesmo antes de se submeter às regras do capital.
      Nas fala de Chico, percebe-se a oficialização do discurso do operário que empresta a sua voz para o discurso capitalista: “Vai dizer que as outras firmas se interessam em diminuir o barulho, melhorar o ambiente de trabalho, essas coisas?” Palavras implícitas: todas as empresas são iguais, não adianta buscar alternativas, o objetivo é sempre o lucro, as grandes empresas são generosas, pois acolhem empregados. Nada a fazer, a não ser aceitar e resignar-se.
      Chico faz que não ouve o comentário de Pedro sobre o acidente acontecido naquele dia e desconversa. Estratégia de proteção? Sim, porém mais do que isso. As vidas humanas não interessam ou não podem interessar nesse universo. Interessam as máquinas, esse é o objeto do seu discurso, ao lembrar a Pedro, o novato, que é da máquina, do seu bom funcionamento, que eles dependem: “Já trabalhou com as máquinas que temos aqui?”
(...)

(COSTA, Léa Dutra. Pós-Graduação em Estudos Linguísticos, FALE/UFMG, s.d.. Tópico variável em análise do discurso: discurso, ideologia e leitura. Prof. Dr. Antônio Augusto Moreira de Faria)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Entrevista para a Rede Minas



            A entrevista à Rede Minas de televisão não me agradou em cheio. Sei lá, fiquei nervoso, não respondi com coerência e objetividade a todas as perguntas, saí pela tangente umas duas vezes, o aparato tecnológico na sala de casa me deixou tenso. A culpa é minha. Falta de hábito, receio de dizer bobagem. Guga Barros, a entrevistadora, é muito simpática, as perguntas eram interessantes e pertinentes, de quem realmente leu o livro. O Marcelo Miyagi tem excelente astral. Gravada sem interrupção, durou uns quarenta minutos. Para mim, uma eternidade.

      O foco era Outono atordoado, o romance premiado do final do milênio (Cone Sul, 2001), esgotadíssimo. Só se encontra em sebos. Escrito como uma forma de ajuste de conta com a cultura européia e a tradicional família mineira. Só que na hora não falei o que deveria ser dito. Guga fez umas perguntas-pegadinha. É isso mesmo. Aí entra em cena o jogo de despiste, você tenta amparo na teoria, mas acaba acaba tropeçando, a insistência em negar alguma coisa se volta contra nós mesmos. Somos humanos, erramos. Somos humanos, nos perdemos em algumas situações. Regina ouviu da escada no andar de cima. Comentou depois, no começo eu parecia estar numa sala de aula. Que fazer? O uso do cachimbo deixa a boca torta. O tom professoral às vezes vem como atitude de defesa. Alguma coisa valeu a pena. Vamos esperar pra ver, editada.


      O programa Imagem da palavra com minha participação vai ao ar dia 4 de outubro, domingo, às 17:30. Reprisado quinta-feira às 22:30 e sábado às 21:30.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Carta de Clarice Lispector




      Atendendo a solicitações, divulgo a carta de Clarice Lispector a mim endereçada. O motivo da correspondência, como relatado em Mosaico insólito, teria sido uma resenha sobre Visão do Esplendor, na qual, traído por uma matéria sobre a autora, publicada em revista de grande circulação, se afirmara que ela escrevia "em transe". Trata-se de documento único de Clarice, rebatendo a concepção de que sua escrita pudesse ter qualquer afinidade com a escrita psicografada, a escrita automática ou a inspiração visionária. A autora de A hora da estrela discute seu processo criador, privilegiando o interesse atento à dinâmica e gestos do cotidiano, do qual absorvia a inesgotável teia de sentidos.
      Se há irritação em Clarice, e tudo indica haver, teria como ponto de partida o título do despretensioso artigo: "Wander & Clarice". Não deve ter gostado. Ser referida em segundo lugar, após um banal conetivo?


Publicada no Suplemento literário do Minas Gerais (11 out. 1975), em Mosaico insólito (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006), referida em diversos trabalhos acadêmicos, é a primeira vez que é disponibilizada em fac-símile.