Estive recentemente em Campinas, por dois dias, em companhia a familiar, submetido a exaustivos
exames clínicos para a ANAC. Acirradas disputas políticas impediam a instalação
de clínicas similares em solo mineiro, com prejuízos na ponta da corda ao cidadão,
como sempre acontece. Mais uma vez muitas pessoas eram vítimas de política mal
direcionada, encarada não como prática de promoção de autonomia do cidadão, mas
como forma de manutenção de poder a qualquer custo. Enfim, deixa pra lá.
Uma hora de
vôo Belo Horizonte/Campinas. A cidade estende-se aparentemente plana e surpreende
pelo tamanho, metrópole que ultrapassa a escala de um milhão e duzentos mil
habitantes, com os ingredientes da categoria – trânsito intenso, prédios arrojados,
centro histórico deteriorado. As buzinas e urros de motores dos carros sufocam
o ruflar das andorinhas que não existem mais. Um prêmio para quem se lembra do
autor de texto antológico sobre as andorinhas de Campinas. Espremidas, deslocadas
a meio de desenfreada selva de pedra, muitas construções antigas resistem
imponentes.
A estação ferroviária, que avisto em frente ao hotel em que me
hospedo, é uma delas que, com sua arquitetura vitoriana, nos transporta para a
desdenhosa Inglaterra do século dezenove. À altura dos anos 60, infelizmente, o
nosso país desativou de forma irresponsável o transporte ferroviário. Com
estilosa torre pontiaguda e extensa gare abandonada, a antiga estação
ferroviária de Campinas é um cartão postal, fartamente iluminado à noite.
Na
breve incursão ao núcleo do centro, no encalço de lanchonete confiável, cruzo
com uma escultura em granito picotado numa esquina de amplas conexões, bares e
comércio variado. Ao pesquisar, descobri que a estátua, construída pelo escultor
Yolando Malozzi, representa o político Campos Salles (1841-1913), rodeado de
imagens e alegorias da República. Quarto presidente do país, no período entre 1898 a 1902, o seu nome
batiza a avenida, projetada numa descida disfarçada, de que só nos damos conta
na volta, quando sentimos o peso de uma subida.
O Largo do Rosário, em reforma,
pouco tem a mostrar, a não ser moradores de rua e canteiros de obra. A caminho
da UNICAMP, em ônibus urbano, atravesso rápido o que uma placa diz ser a Praça
Carlos Gomes, em homenagem ao grande músico: merecia uma visita mais detalhada,
ficou para outra oportunidade. Enquanto esta não chega, uma boa pedida é ler o
romance O selvagem da ópera, de Rubem
Fonseca. A cidade universitária, apesar de planejada, condiz com o nome,
enorme, um labirinto a ser explorado com paciência de um lado, boa vontade do outro
(lavador de carros, funcionários subalternos). Quanto mais humildes, mais
prestativas e solidárias são as pessoas nesse país. Não conheci quase nada da
cidade, mas o suficiente para perceber sua vitalidade, dinamismo, importância
cultural e enigmática densidade humana.



