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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Notas de viagem: Campinas

      Estive recentemente em Campinas, por dois dias, em companhia a familiar, submetido a exaustivos exames clínicos para a ANAC. Acirradas disputas políticas impediam a instalação de clínicas similares em solo mineiro, com prejuízos na ponta da corda ao cidadão, como sempre acontece. Mais uma vez muitas pessoas eram vítimas de política mal direcionada, encarada não como prática de promoção de autonomia do cidadão, mas como forma de manutenção de poder a qualquer custo. Enfim, deixa pra lá.


Uma hora de vôo Belo Horizonte/Campinas. A cidade estende-se aparentemente plana e surpreende pelo tamanho, metrópole que ultrapassa a escala de um milhão e duzentos mil habitantes, com os ingredientes da categoria – trânsito intenso, prédios arrojados, centro histórico deteriorado. As buzinas e urros de motores dos carros sufocam o ruflar das andorinhas que não existem mais. Um prêmio para quem se lembra do autor de texto antológico sobre as andorinhas de Campinas. Espremidas, deslocadas a meio de desenfreada selva de pedra, muitas construções antigas resistem imponentes. 



A estação ferroviária, que avisto em frente ao hotel em que me hospedo, é uma delas que, com sua arquitetura vitoriana, nos transporta para a desdenhosa Inglaterra do século dezenove. À altura dos anos 60, infelizmente, o nosso país desativou de forma irresponsável o transporte ferroviário. Com estilosa torre pontiaguda e extensa gare abandonada, a antiga estação ferroviária de Campinas é um cartão postal, fartamente iluminado à noite.



            Na breve incursão ao núcleo do centro, no encalço de lanchonete confiável, cruzo com uma escultura em granito picotado numa esquina de amplas conexões, bares e comércio variado. Ao pesquisar, descobri que a estátua, construída pelo escultor Yolando Malozzi, representa o político Campos Salles (1841-1913), rodeado de imagens e alegorias da República. Quarto presidente do país, no período entre 1898 a 1902, o seu nome batiza a avenida, projetada numa descida disfarçada, de que só nos damos conta na volta, quando sentimos o peso de uma subida.


       O Largo do Rosário, em reforma, pouco tem a mostrar, a não ser moradores de rua e canteiros de obra. A caminho da UNICAMP, em ônibus urbano, atravesso rápido o que uma placa diz ser a Praça Carlos Gomes, em homenagem ao grande músico: merecia uma visita mais detalhada, ficou para outra oportunidade. Enquanto esta não chega, uma boa pedida é ler o romance O selvagem da ópera, de Rubem Fonseca. A cidade universitária, apesar de planejada, condiz com o nome, enorme, um labirinto a ser explorado com paciência de um lado, boa vontade do outro (lavador de carros, funcionários subalternos). Quanto mais humildes, mais prestativas e solidárias são as pessoas nesse país. Não conheci quase nada da cidade, mas o suficiente para perceber sua vitalidade, dinamismo, importância cultural e enigmática densidade humana.