Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador Pedro Rogério Moreira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pedro Rogério Moreira. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Pedro Rogério Moreira

 

       Pedro Rogério Moreira regressa ao mercado livreiro, com mais uma publicação, desta vez uma novela, O livro de Carlinhos Balzac (2021), selo Topbooks. Ambientada no Rio de Janeiro das últimas cinco décadas, desenvolve um relato fictício centrado no mundo dos livros, envolvendo o suposto autor de umas Memórias secretas, vitimado pela pandemia. Ao mergulhar no próprio passado, Carlos Antonio Meirelles F. Rocha, mais conhecido pelo codinome de Carlinhos Balzac, registra as “confissões mais recônditas sobre pessoas e acontecimentos em torno de sua vida, no mercado financeiro carioca”. Ou, como sintetiza o prefaciador, “dá-nos a conhecer o perfil humano do homem que deixou marcas indeléveis na geração que dos anos de 1970 a meados da década de 1990 trabalhou e viveu grande parte da vida, alegre ou triste, mas sempre agitada, no coração financeiro do Rio de Janeiro, do Obelisco à Praça Mauá”. O alcance do meticuloso e detalhista autor das memórias expande-se além desse marco, agregando aspectos e ocorrências de tempos anteriores e a atmosfera e os anos de corrupção política da primeira década do novo século. A narrativa, em linguagem coloquial, ligeira e despretensiosa, de adjetivação por vezes excessiva e preciosa, oscila das falcatruas do ramo das corretoras e de eventos condizentes ao difuso e laborioso contexto de pequenas gráficas, passando pelo roteiro banal do cotidiano da periferia carioca e o indiscriminado rodízio de relações amorosas subalternas. Avultam candidatos a escritores, malandros e uma plêiade de ruidosos diletantes, com o desfilar pitoresco de títulos de subliteratura, palpitantes peripécias associadas a episódios de caserna, garotas de programa, jogo de bicho e religiosidade popular. Outro ponto de sustentação do enredo firma-se no fabuloso conhecimento literário do narrador, o qual não perde oportunidade de resumir um romance de Camilo ou de Balzac, e na contradição entre a rasura de escrúpulos do apostadores e agentes do grupo financeiro e o canhestro senso de culpa, a ideia envergonhada de uma moral repressora. A descrição do centro antigo do Rio revela-se nítida e minuciosa, focando lugares conhecidos famosos. O narrador não oculta um farto repertório de mediana erudição, com informações e curiosidades a respeito de alguns livros e autores.

       Para uma ideia do estilo, leia-se o final do cap. I:

“Humberto de Campos falava muito mal dos outros e fazia vista grossa àquela boutade de procedência francesa segundo a qual se todos soubessem o que uns falam dos outros, não haveria quatro amigos neste mundo. Seja como for, a inveja campeia no mundo. Não veem o Vitório? Inveja-me demais da conta! Em Campos, vivia me seguindo à sorrelfa, na livraria Ao Livro Verde (uma das mais antigas do Brasil), para saber qual romance de aventura da coleção Terramarear da Companhia Editora Nacional eu comprara para o meu deleite.

Uma desgraça, a inveja!”



MOREIRA, Pedro Rogério. O livro de Carlinhos Balzac. Rio de Janeiro: Topbooks, 2021.






segunda-feira, 14 de maio de 2018

Pedro Rogério Moreira

Livro do mês:

      Filho de Vivaldi Moreira (1912-2001), forte referência das letras em Minas Gerais (dinâmico presidente da AML, memorialista renomado, em O Menino da mata e o seu cão piloto), Pedro Rogério terá herdado do pai o gosto da leitura e o amor aos livros. Desse quadro, ainda que por desdobramentos difusos, se poderá dizer que o fator genético não foi rompido. Também integrante da Academia Mineira de Letras, tem-se destacado como ficcionista (Bela noite para voar) e memorialista, com mais de uma dezena de títulos, dentre os quais, Hidrografia sentimental, Jornal amoroso, Amor a Roma, e o mais recente, Diário da falsa cruz de Caravaca.


      Miscelânea de assuntos, irregular, o último título recolhe crônicas jornalísticas, registros autobiográficos e casos pitorescos, ocorridos na região amazônica, sendo alguns marcados pela fatalidade de acidentes que ceifaram a vida de pilotos. Recordações de companheiros desaparecidos, fixação de perfis humanos, instantâneos da rotina da redação um grande jornal misturam-se a casos de rios, igarapés, curimatãs, flagrados nas “perambeiras de Taguatinga” ou ao longo do rio Madeira, coalhado de borboletas amarelas.

“A Amazônia leva a fama histórica de ser valhacouto de aproveitadores. Volta e meia aparece um sabichão para nos passar a manta. A região ainda está envolta num quê de mistério que conspira contra nossa inteligência e facilita os que tiram dela mau proveito. A literatura e o cinema ajudam muito a mistificação, quando falam de elos partidos e de eldorados” (MOREIRA, 2018, 150).

      O tom coloquial e a linguagem viva, colorida, eivada de expressões regionais, transferem aos relatos um halo de aventura partilhada e de calor humano. Referências à agenda “Pombo”, ao cigarro “Mistura Fina”, ao pente “Flamengo de bordas curvas” entrecruzam-se à cerveja “Malzbier”, ao perfume “Lancaster” e ao avião "Catalina, conhecido como pata-choca" dos ares. Dentre as evocações, numa perspectiva literária, avulta o registro de uma temporada inesquecível, no barco Carvajal, cruzando rios da região amazônica, em companhia do escritor Mário Palmério. O autor dos “célebres romances Vila dos Confins e O chapadão do bugre” discorre sobre a “recente expedição que empreendera ao rio Javari, lá onde Judas perdeu as botas”. Diversão garantida, entremeada de notas marotas, picantes, de  informes verdadeiros de uma região que suscita a curiosidade de milhares de pessoas, em todos os quadrantes.

MOREIRA, Pedro Rogério. Diário da falsa cruz de Caravaca. Brasília: Thesaurus, 2018.