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sexta-feira, 26 de maio de 2023

Ficção e realidade

        A insidiosa questão de reconhecer na ficção o reflexo fiel da realidade tem produzido páginas teóricas relevantes, por parte de alguns estudiosos. De imediato, dentre autores que trataram a matéria, escolho Adolfo Casais Monteiro: O Romance (teoria e crítica), um clássico de 1964, quando o autor português já se decidira a se exilar no Brasil, fugindo à ditadura de Salazar. Sem me deter demoradamente, respingo assertivas que me parecem acertadas: nada melhor do que debater a partir de um caso concreto, Graciliano Ramos, analisado pelo crítico luso-brasileiro.Fará o mesmo, depois, com José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queirós, fascinado pela consolidação e qualidade do romance de 1930.  Remete o caso para quem produziu romances que superam a média, grandes narrativas, em que "o talento individual ajusta-se a uma experiência, uma realidade capaz de dar o alimento necessário à maturação estética dum surto romanesco", citando de forma adaptada. Evita o refolho de regionalismo, valoriza os temas que deixam de ser exóticos, tornando-se autônomos, capazes de gerar uma expressão na qual o povo se reconhece. O romance nordestino presta-se a ilustrar um produto raro: o retrato de uma realidade que, embora regional, acarreta uma dimensão humana autêntica e universal.

       O que outorga credibilidade e legitimidade ao texto teórico de Casais Monteiro é a linguagem clara, ele escreve com uma clareza mediterrânea, digna do luar de Montes Claros, para citar um lugar do sertão. Nada de linguagem rebuscada, repleta de termos eruditos, bizantinos, conceitos obscuros e delirantes. Cabe reconhecer que o núcleo de um conceito deve transparecer uma expressão límpida e pura. O verdadeiro crítico deve impor-se pela capacidade de imprimir aos ideais da inteligência o realce merecido, ser erudito, ter acurado senso de organização e reservas de sensibilidade. É o mínimo que se exige, em país de extrema fragilidade de pesquisadores no campo de ciências humanas, excetuando-se José Guilherme Merquior, Augusto Meyer, Afrânio Coutinho, Benedito Nunes, Antonio Cândido, Álvaro Lins. 

       As ideias articuladas à fruição estética têm-se mostrado resultantes de mutações sociais, políticas e históricas. São extremamente tênues os limites dos fatores atrelados às constantes diferenças que se vão moldando às noções de caracteres fundamentais e de interesse ligados à receção de produtos artísticos. Por paradoxal que possa parecer, somos mais afeitos às formulações caóticas e intempestivas do que às ordenações calcadas no equilíbrio, no provável e científico. 

       A fatura de um romance supõe o entrosamento de vetores existenciais delineados num contexto dado, aptos a erigir um enredo agregador de eventos propícios e antagônicos, envolvendo um rol de personagens caracterizadas, - tudo articulado por um eficiente narrador que manipula os fios entrelaçados, convergindo-os numa trama verossímil. Tais fatores estão presentes nos grandes romances nordestinos.


MONTEIRO, Adolfo Casais. O Romance - teoria e crítica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Adolfo Casais Monteiro

      Poeta e ensaísta português,  Adolfo Casais Monteiro (1908 -1972) participou ativamente do grupo literário Presença (ao lado de José Régio e João Gaspar Simões, na direção da revista de mesmo nome). Como poeta, publicou Poemas do tempo incerto (1934), Canto da nossa agonia (1942), Noite aberta aos quatro ventos (1943), Voo sem pássaro dentro (1954). Leitor especial e contemporâneo de Fernando Pessoa, foi o destinatário da famosa carta (de janeiro de 1935), em que o autor de Mensagem comenta a gênese dos heterônimos, base para o desenvolvimento das pioneiras análises da poética do fingimento. É autor de um único romance, Adolescentes (1945). Seu maior relevo, sem dúvida, decorre merecidamente da produção como ensaísta e crítico literário: De pés fincados na terra (1940), Estudos sobre a poesia de Fernando Pessoa (1958), Clareza e mistério da crítica (1961), Estrutura e autenticidade na teoria e na crítica literárias (1984).


      Diante das dificuldades que lhe são importas pelo regime salazarista, em 1954 aproveita o convite para participar de um Congresso em São Paulo para se fixar definitivamente no Brasil, onde lhe foi possível desenvolver uma atuação marcante no ensino superior, especialmente em Araraquara, como regente da disciplina Teoria da Literatura. Em nosso país desenvolveu notável contribuição à consolidação de um repertório crítico, atuando na grande imprensa e nos meandros das relações culturais luso-brasileiras. Ofereceu curso de férias na USP, na década de 70, de considerável alcance e recepção .

       No primeiro capítulo de Estrutura e autenticidade na teoria e na crítica literárias, intitulado  "A tradição platônica da estética ocidental e o conhecimento da Literatura", Casais Monteiro discute a origem da Teoria da Literatura como ciência. Após expressar sua estranheza diante da "ausência de um nexo evidente entre a maneira como na estética se tratava de problemas gerais referentes a todas as formas de criação estética, e o estudo dos problemas da literatura", afirma que o grande desafio da Literatura sempre foi conquistar sua independência diante de outros campos de saber. Desde o início ela se debate com a tarefa de sua indefinição. Já no prefácio adverte sobre esse problema: "Em nenhum setor das ciências humanas (...) o avanço do conhecimento se manifestou com tal luxo de desorientação" (Monteiro, 1984, 8). As diversas conexões a que a Literatura foi submetida ao longo dos séculos radicam na aproximação primeira com a Filosofia, efetuada pelos gregos (Aristóteles, Platão). Deriva, daí, uma conformação subalterna a outras áreas de saber, como a retórica, a estética, a poética. Posteriormente, sua sina seria confundir-se com a sociologia, a antropologia, a história e a psicologia. Não admira que ainda hoje a Literatura se apresente como saber flexível, de natureza um tanto esgarçada, na vizinhança com outras áreas de saber, como a Semiótica, a Análise do Discurso, a Linguística, os Estudos culturais.



     Os filósofos gregos desdenharam da Literatura uma vez que se preocupavam com a teorização em torno do Belo. A poesia era compreendida como uma das formas sob as quais se expressava o Belo. Aristóteles dedica-lhe um tratado, no qual ela é vista como física, e não como metafísica, argumenta Casais Monteiro, o que justifica o seu tratamento como retórica, conjunto de normas que definiam como devia se processar sua prática. A adesão da Literatura aos parâmetros da moral, filosofia ou religião acaba determinando um processo de controle de sua elaboração, de sua prática.  No século XVIII, no bojo da formulação do sistema filosófico de Hegel, a Literatura se vê absorvida pela Estética. A Literatura mais uma vez é vista como atividade secundária, uma forma de se expressar o Belo. Essa  intermitente postura da Teoria Literária a reboque dos grandes sistemas determina o intuito de se construírem formas de controle desse poderoso instrumental. A Teoria da Literatura foi-se construindo aos fragmentos, na medida da conveniência e dos interesses específicos dos vários sistemas filosóficos. 

      "Ao longo dos séculos, de Platão até ao iluminismo, e ainda depois, como veremos, as ideias sobre literatura foram sucessivamente deduzidas dos mais diversos campos do conhecimento humano. E pode dizer-se que só depois de esgotadas estas 'experiências' se tornou possível encarar a própria literatura para dirigir, a ela, a pergunta: Quem és tu?" (Monteiro, 1984, 17)

      Os confrontos e as aproximações da Literatura a outras manifestações culturais fazem parte de sua origem e fundamentam sua tradição.

MONTEIRO, Adolfo Casais. Estrutura e autenticidade na teoria e na crítica literárias. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984.