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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Encontro com escritores: Murilo Rubião


      No início dos anos 1980, das vezes em que fui à sede do Suplemento literário do Minas Gerais, no prédio da Imprensa Oficial, Avenida Augusto de Lima, em Belo Horizonte, em algumas delas percebi a presença discreta de Murilo Rubião (1916-1991) noutra sala, compenetrado em sua mesa de trabalho. Era um homem alto, calvo, olhos vivos atrás de óculos de aro escuro, bigode aparado, mantinha sempre a elegância de um aristocrata, vestido a rigor, em terno e gravata. Na sua aparência de homem resoluto e erudito, vagava um ar cerimonioso e um temperamento grave. Circulava por vezes na sala da redação, onde era alvo de deferência e admirado por todos, uma legenda, não apenas pela importância de seus contos, mas por ter convivido com Juscelino e ter sido amigo de Mário de Andrade. Não seria inexato afirmar que nossa relação era oblíqua, ele sabia que eu frequentava o jornal.  Habituei-me a vê-lo ocupado em tarefas difusas ou atendendo a escritores vindos de diversas regiões do estado, do país e do exterior. Em face do respeito que lhe devotava, um dos maiores escritores mineiros, de renome internacional, não me aventurava a aproximar-me, para um contato direto, observando o costume mineiro de não importunar ou ocupar-lhe o tempo com futilidade. Só o fazia quando necessário. Como sabia que ele era natural de Carmo de Minas, cidade situada no sul de Minas próxima de Jesuânia, minha terra natal, acalentava o desejo de um dia abordá-lo, para conversar. 


(Na foto, pertencente ao Acervo de escritores mineiros, da UFMG, da esquerda para a direita, o escritor Murilo Rubião e o presidente Juscelino Kubitscheck)

      Lembro-me de me deparar ali com Murilo Mendes, Emílio Moura, Ildeu Brandão, Francisco Iglésias, Rui Mourão, Luís Vilela, Sérgio Santana, Affonso Ávila, Laís Correa de Araújo, Roberto Drumond, Wander Piroli. Por lá passaram também Ana Hatherly, Tzvetan Todorov, Curt Lange, Roman Jakobson, Clarice Lispector, entre outros. Dentre os mais jovens, contavam-se Libério Neves, Adão Ventura, Márcio Sampaio, Carlos Roberto Pelegrini, Jaime Prado Gouvêa, Duílio Gomes, Humberto Werneck, funcionários da redação em épocas variadas, escolhidos a dedo. Murilo Rubião fundou o Suplemento literário em fins dos anos 1960, o local era o prolongamento de sua casa: dava mostras de sentir gosto em conviver com os jovens escritores e ilustradores. Eu lecionava em cursos pré-vestibulares, tinha publicado em 1971 resenhas no Suplemento literário do Estadão, ainda não fizera concurso para a UFMG, o que iria ocorrer em 1982. Colaborava no jornal com alguma ficção e resenhas, algumas encomendadas. A colaboração rendia um pro-labore nada desprezível, como incentivo para o trabalho das letras.
      Murilo Rubião era um escritor reconhecido internacionalmente, objeto de homenagens e artigos escritos por intelectuais do porte de Álvaro Lins, Fausto Cunha, Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux, Fábio Lucas e Jorge Schwartz. Os livros principais estavam publicados. O renome como autor fantástico ultrapassava fronteiras nacionais, corria mundo. Todos sabiam de suas relações com Cortazar, os irmãos Campos, Décio Pignatari, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Boris Schnaiderman. Era um nome definitivamente canônico. Quando foi indicado no vestibular da PUC o livro O Pirotécnico Zacarias, os professores de literatura do Colégio Pitágoras Pitágoras fizemos-lhe uma visita. Acolheu-nos atencioso em seu apartamento e foi no meu livro que ele assinalou algumas passagens da nota biográfica e deu autógrafo, nomeando todos os presentes: Para Graça, Wilma, Edgard, Marly, Paulo, Hélio, Delson, Ângela e Lucy.
      Além da literatura, o local de origem também nos aproximava. Uma única vez o procurei, para conversar sobre o sul de Minas, certo de que o assunto fosse de seu agrado. Não era, mencionou vagamente uns parentes feiosos, de olhos arregalados, referiu-se por alto à cidade de São Lourenço e o papo não prosperou.  Devo-lhe o empenho na publicação de um conto ousado, “Hoje é noite de rock”, no Suplemento literário MG. Segundo me confidenciou um membro do conselho editorial, o poeta Pascoal Motta, o conto só foi publicado porque Murilo Rubião foi-lhe favorável. Os outros avaliadores teriam votado contra, tendo em vista a ambiguidade sexual explorada na trama.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Encontro com escritores: Wander Piroli


     Conheci Wander Piroli (1931-2006) na redação do Suplemento Literário de Minas Gerais, quando editou o periódico, em 1974. Demitiu-se ao cabo de seis meses, por discordar da censura. Era alto, grandalhão, dado a galhofas e, supunha-se, um tanto explosivo, como alguns descendentes de italianos. Apesar do porte físico avantajado, era um homem afável, descontraído, generoso. O último adjetivo é capaz de justificar o que me disse um fim de tarde, numa das visitas que ali fazia para deixar matéria: "Você não pode parar de escrever". As pessoas ficavam à vontade em sua presença, irradiava um astral positivo.



     Lembro dele agora que me chega às mãos o Suplemento literário de MG de novembro de 2011, um número especial em sua homenagem, impresso sob o título de "O áspero lirismo de Wander Piroli". Um dos mais importantes contistas mineiros, publicou em torno de uns oito livros, com destaque para A mãe e o filho da mãe (1966), o clássico infanto-juvenil O menino e o pinto do menino (1975), que deve estar em 30ª edição ou mais, Os rios morrem de sede (1976) e A máquina de fazer amor (1980), que traz no posfácio um ensaio de Antonio Hohlfeldt. Fábio Lucas é outro crítico que se interessou de forma eufórica pela sua produção ficcional. No Suplemento em sua homenagem, jornalistas (esta era sua profissão) e escritores rememoram fatos pitorescos de sua personalidade (o gosto por pescaria e uma boa cachaça) e de sua carreira como escritor. 

     Como uma coisa puxa outra, tomo outro rumo, sem abandonar o autor. Publiquei no mesmo Suplemento em 1975 uma de minhas resenhas mais desastradas: trata-se de "Wander e Clarice", cravada de deslocamentos e deselegância, comentários apressados sobre O menino e o pinto do menino e Visão do esplendor. Como aproximar autores tão diferentes? Na verdade, o artigo não os aproxima, mas o título o faz. Se o artigo focasse um livro infantil de Clarice, menos mal. Onde se viu citar primeiro um homem, depois uma mulher, ainda mais tratando-se de Clarice Lispector? Na minha ingênua falta de experiência, considerava  que se comentava primeiro e de forma panorâmica o livro do Wander, ele devia vir em primeiro lugar. Teriam sido esses  disparates o que  despertou a atenção de Clarice Lispector? Dois ou três meses após, recebo da autora de O lustre uma carta,  em que apresenta um dos raríssimos posicionamentos sobre seu processo criativo. Esta carta está postada aqui, consulte a lista de assuntos (Clarice Lispector) .

domingo, 25 de setembro de 2011

Encontro com Escritores: José Saramago

      Em fins dos anos 80 do século passado, num congresso internacional, realizado pela Faculdade de Letras da UFMG, apresentei uma comunicação sobre um romance de José Saramago (1922-2010). O futuro prêmio Nobel também participou do congresso e esteve presente à mesa redonda de que participei. O objeto de minha comunicação foi o romance O ano da morte de Ricardo Reis, de 1984. Além dele, Saramago já publicara Levantado do chão (1980), Memorial do convento (1982) e A jangada de pedra (1986). O evento em vários aspectos fugiu ao formato convencional dos colóquios então realizados na área de Letras. Não foi realizado no campus da Pampulha, mas num grande centro de convenções do Estado, no bairro da Gameleira, em Belo Horizonte. A Faculdade de Letras era novata no complexo da Pampulha, funcionara até meados dos anos 80 na rua Carangola, no bairro Santo Antônio. Alguns espaços (como o auditório) não existiam ainda ou estavam em obras. José Saramago estava em franca ascensão como romancista, despertava interesse no mundo todo, andava cercado por uma legião de paparazzi letradas (as mulheres eram maioria), que não lhe davam tréguas. 



      O encontro que mantive com Saramago não ocorreu na sala do evento, nem no jantar de confraternização, nem em suposto lançamento de livro, mas num banheiro. Só nesse local menos nobre e público o nosso encontro banal seria possível. Não foi nada planejado, não houve estratégia alguma. O acaso, mais do que escolher caminhos, contenta-se em nos empurrar, tangido por forças ignotas.  Ora, deu-se que, tangido ou empurrado pelo acaso, vi-me lado a lado, com uma separação de dois bojos, com o grande escritor. Quase emparelhados, ali, no mictório do banheiro. Findo o descarrego, encaminhei-me ao lavatório, para a higiene natural. Aproximou-se então um senhor magro e alto, terno vincado, óculos de lentes grossas, corpo esbelto, rosto seco e barba aparada. Inquieto, desempenado. Cumprimentei-o com um cordial boa tarde e um gesto de cabeça. Impessoais, os dois gestos, apontavam para o emissor, um tanto tímido, tomado de surpresa diante do escritor famoso. Ele, talvez embaraçado pelo comprimento inesperado em local pouco afeito a veleidades de etiquetas, respondeu com um sorriso mecânico, o aspecto grave.  Entrou outro cara, um cheiro de cigarro invadiu o ambiente quando a porta se abriu. O banheiro ficava no final de um corredor, no qual algumas pessoas fumavam. O futuro Nobel de literatura deu um pigarro curto, seguido de uma pequena tosse. As pessoas ficam leves, quando aliviadas. Notei no canto da parede uma garrafa de desinfetante, esquecida pelo faxineiro. Ele falou:
         "Que alívio! Enfim, posso voltar ao labirinto".
         "O senhor refere-se ao prédio ou à literatura?" Perguntei, afoito.
        "Os dois", respondeu, completando: "Ambos assemelham-se a lugares montanhosos de beira-abismo, todo cuidado é pouco". Saímos dali e não mais o vi. Uma década mais tarde, em 1998, foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.

terça-feira, 8 de março de 2011

Encontro com autores: João Etienne Filho

      Carregamos conosco objetos e presentes, valiosos por diversos motivos, dos quais pouco sabemos. Em que circunstância tal livro veio parar em nossa não? Aquele disco de vinil, com assinatura hoje famosa, por algum intercâmbio afetivo, tornou-se parte de um patrimônio íntimo. Refazer seu percurso é um quebra-cabeça divertido.



      Assim ocorreu com o autógrafo de João Etienne Filho (1918-1997), no exemplar sobre Euclides da Cunha, da renomada coleção Nossos Clássicos, da Editora Agir. Está lá, em letra limpa e bonita, o sulco provável de caneta esferográfica preta. A data é o primeiro passo na elucidação do enigma. De imediato, não lembro detalhes do encontro. Aos poucos, as coisas vão se revelando. O ano – 1967 – é esclarecedor. Meu último ano de seminário, primeiro na capital. João Etienne Filho era uma celebridade no meio cultural mineiro. Como me aproximei do escritor? Ele, com 49 anos de idade, eu com 19. E dizer escritor é pouco para João Etienne. Bacharel em Direito, jornalista e redator de O Diário (jornal de Belo Horizonte), poeta, cronista, tradutor, ensaísta, contista, crítico literário e teatral, ator, radialista, diretor de teatro, professor de história e de literatura, juiz de basquete, congregado mariano, secretário de Alceu Amoroso Lima. Para complicar, homossexual em contexto de arraigado moralismo, cultor de raridades. Sem esquecer que é ainda provável personagem à clef do romance O encontro marcado, de Fernando Sabino. Um ser humano incrível, polivalente, que no plano intelectual afirmava receber solicitações de vária espécie (“Valeu a pena? Para mim, sim, pois sinto a solicitação dos vários gêneros literários”, afirma na orelha do livro de contos Os tristes). Na certa, foi o seguinte: costumava, então, na companhia de Lauro Belchior Mendes, com quem me preparava, para o vestibular de Letras na UFMG, frequentar algumas sessões da Academia Mineira de Letras, na antiga sede num edifício da Rua Carijós. Lá, numa das sessões, encontrei João Etienne: impelido pelo arroubo juvenil e abandonando temporariamente a timidez, solicitei o autógrafo.



      João Etienne Filho nasceu em Caratinga em 1918 e faleceu em Belo Horizonte em 1997. Em 1967, já publicara dois livros de poesia, Dia e noite (1947), As desesperanças (1957); o ensaio sobre Euclides da Cunha (textos escolhidos), nº 54 da col. Nossos Clássicos, da Agir; mais tarde, em 1971 publicaria o volume sobre João Alphonsus, nº 102 da mesma coleção e um admirável livro de contos, Os tristes (Belo Horizonte: Imprensa Oficial).
      Em clima de carnaval, leio três peças deste último, que tenho a honra de ter autografado pelo autor: “O filho”, que explora o contraste entre euforia e drama, propiciado pelos festejos momescos; “A face perdida”, uma ousada (para a época) incursão na condição gay; “Retrato de homem chorando”, um roteiro antológico de isolamento e autodescoberta.















quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Affonso Ávila

Encontro com autores 2: Affonso Ávila



      Existem pessoas que admiramos muito, mas que nos parecem inacessíveis, distantes demais do nosso círculo de relacionamento. Com Affonso Ávila não era diferente. Fui professor de um filho dele, no curso fundamental, o Carlos Ávila, revelado depois como poeta; conversara uma vez com sua esposa, Laís Correia de Araújo, a notável autora de Cantochão. Já vira Affonso Ávila (n. 1928) uma vez numa roda de intelectuais, em lançamento de amigo comum, mas não me aproximei. Admirava sua poesia, desde a estreia, os poemas de O açude e sonetos da descoberta até os poemas vanguardistas de Código de Minas e Cantaria barroca. Acompanhava com interesse sua trajetória e atuação, em especial a revista Tendência (1956), de forte nacionalismo crítico, ao lado de outros intelectuais mineiros, seu papel como aglutinador de experiências poéticas (organizou a Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, 1963), seu legado pela renovação da poesia brasileira . A primeira aproximação de fato se deu na posse de Rui Mourão na Academia Mineira de Letras. Conhecia-o de vista e leitura de livros.


      Considerado taciturno, de difícil acesso, não foi esta a imagem que me passou, na primeira vez em que nos encontramos e trocamos um dedo de conversa. Ele estava estático a minha frente, meio isolado do burburinho. Eu conversava com uma bela jovem, uma tenente uniformizada a rigor, que representava no evento uma alta patente do exército. Talvez ele estivesse também encantado pela beleza da tenente. Estava viúvo, por que não? Naquele instante do coquetel quando as pessoas falam alto, no intervalo da passagem do garçom. Talvez nem tenha sido isso, a beleza da militar, mas a timidez minha, dela e dele. Aproximou-se, ao perceber meu interesse, me apresentei e comentei um poema dele. Do poeta que fumava maconha com rapazes negros. Ele riu, enigmático e comentou: aquilo é uma paráfrase de Rimbaud. E a última publicação, o Homem ao termo? Deu a entender tratar-se de uma reunião de livros. Vamos aguardar o próximo, falou. Na verdade, oito meses após Affonso lançou Poeta poente, título bem bolado e impactante. Despedi-me dos dois, tomei meu rumo. Esperto demais para a idade, brincalhão, olho de garoto travesso, uma das três vozes mais importantes da poesia brasileira contemporânea.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Encontro com autores: Lúcia Machado de Almeida

      Inicio breves relatos sobre encontro com autores. Referi, por ocasião de sua morte prematura, na praia, em decorrência de enfarto fulminante, a lembrança afetuosa de uma visita ao escritor Elias José. Sem postura crítica, o interesse residirá na tentativa de flagrar, na medida do possível, um retrato humano, antes de tudo. Sem máscaras e correções postiças, sem disfarçar ou retocar circunstância, ambientes ou reações.

      Uma única vez tive o prazer de privar da presença amável de Lúcia Machado de Almeida (1920-2005). Ela mesma, a escritora famosa, a festejada irmã de Aníbal Machado, a cunhada do poeta Guilherme de Almeida, casada com o idealizador do Museu do Ouro, Antônio Joaquim de Almeida. Isso eu soube mais tarde.

     Ela era uma escritora renomada, já publicara os livros que a consagraram, tais como os notáveis Passeio a Sabará, Passeio a Diamantina, ilustrado por Guignard, relatos eruditos recheados de informações históricas e artísticas, sem falar nos clássicos infantojuvenis, Atíria, a borboleta, O escaravelho do diabo, Aventuras de Xisto, Xisto no espaço, Spharion, entre outros. Este último meu filho mais novo precisou ler recentemente no colégio. Foi  no dia 21 de dezembro, de 1976, o Cruzeiro enfrentava, no Mineirão, o  Bayern de Munique, campeão europeu daquele ano. Público record, 115 mil torcedores. Vê lá se era para alguém lançar livro na cidade naquela noite? Pois é, nessa noite, com 28 anos, eu lançava meu livro de estreia, Violeta Trindade. Não foi um efetivo lançamento de livro, fugiu ao formato convencional. Visto de longe, foi um encontro de pessoas que gostam de ler. O local? A cantina de um colégio na av. Prudente de Morais, onde lecionava português e literatura.

Na imagem, Lúcia Machado de Almeida retratada por Guignard.

      Desde o início dos anos 1970, comecei a publicar contos. Antes, tinha participado, na Faculdade de Letras, da publicação de um jornal literário, o Talupa, em 1968. Ganhei em 1971 dois prêmios literários, o 1º lugar da Revista literária da UFMG e o 3º lugar, estreante, no concurso nacional da Fundepar, no Paraná. Convidado pelo poeta Libério Neves, aceitei publicar meu primeiro livro pela Editora Interlivros, de Belo Horizonte, numa coleção onde já haviam publicado nomes que se tornariam mais tarde reconhecidos em todo o país, tais como Duílio Gomes, Manoel Lobato, Luiz Gonzaga Vieira, Ana Cecília de Carvalho, Jaime Prado Gouvêa, Lucienne Samôr. Pronto o livro, Márcio Almeida, sempre atento às novidades literárias, apresentou-o no caderno cultural do jornal Estado de Minas. Lembro que, da redação, ele perguntou onde seria o lançamento. Feitos alguns contatos, retornei citando o colégio da Av. Prudente de Morais. Providenciei umas garrafas de vinho e de refrigerante, encomendei salgadinhos à Cantina do Colégio, e lá se realizou o improvisado lançamento. Três ou quatro amigos não compareceram, preferiram o futebol, mas, no meio de vinte e poucos estudantes e em torno de uma dúzia de desconhecidos, uma senhora amável e de uma elegância discreta chamava a atenção. Era Lúcia Machado de Almeida. Os traços físicos são esbatidos na lembrança, mas a sensação geral era de aconchego e serenidade. Conhecia então alguns títulos de sua obra para adolescentes, a importância literária fui descobrir depois. O ambiente descontraído, a ausência de intuito comercial, a presença destacada de estudantes, a simplicidade deram o tom ao evento. Outra presença, indiretamente ligada à literatura, foi o filho de Oswaldo França Júnior. Pediu que a dedicatória fosse feita em nome de seu pai. Mais tarde conheci pessoalmente o Oswaldo, admirável amigo e incentivador, sempre solidário aos escritores. Considero os dois autores meus padrinhos literários. Solícitos, confiantes, pareciam dizer: vá em frente, tem nosso aval.