Muitos eleitores votaram em Bolsonaro para impedir a vitória e continuidade dos governos corruptos do Partido dos Trabalhadores. Isto não significa que sejam cidadãos desprovidos de senso crítico, ética e de solidariedade, ou que tenham que concordar com todos os disparates em curso no atual governo. O mais recente, na complexa área da Educação, sugere que o governo pretende investir menos na área das Ciências Humanas. A postura reflete uma tendência tecnocrata que tem raízes no mais rasteiro e anacrônico Positivismo, filosofia muito cara aos militares, desde os primórdios de nossa República. Investir menos na área de Humanas, infelizmente, já tem sido feito no Brasil, nos últimos anos.
Dados de 2018, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a agência nacional de investimento em investigação científica, referem que as áreas de Exatas, que agregam Engenharias e Tecnologia, tiveram R$ 437 milhões de recursos. As Ciências Biológicas, Agrárias e de Saúde receberam R$ 440 milhões. As Ciências Humanas, Linguística, Letras e Artes receberam R$ 162 milhões, em torno de um terço do benefício às demais áreas.
Se o governo pretende, de fato, asfixiar mais as áreas de Humanas, então, será o caos. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) afirmou seu desacordo com as declarações do Presidente, argumentando que "muitas carreiras e desenvolvimentos bem-sucedidos nas áreas tecnológicas não resultam simplesmente de conhecimento técnico. Elas requerem habilidades de liderança, inteligência emocional, compreensão da cultura, um entendimento do contexto econômico e social que as Ciências Humanas e Sociais podem prever". As pesquisas feitas na área de Humanas fornecem subsídios para as políticas sociais e as práticas implementadas por agentes das áreas de Exatas e Biológicas. Por outro lado, ignorar sua especificidade revela um pragmatismo estéril e redutor. Num país de extrema complexidade étnica e cultural, como o Brasil, desdenhar a importância das Ciências Humanas é um atestado de completo despreparo, ainda mais em se tratando de assertiva emanada do Ministério de Educação. Ao instaurar o primado da tecnologia, tenta-se priorizar o aparelhamento de controle e, na sequência, a política da mordaça. Cada vez mais se desenvolvem os espaços multiculturais, em face de movimentos migratórios e fluxos de refugiados, gerando a necessidade de compreensão de seu estatuto e insurgência. De onde virão as formas de conhecimento, compreensão e convivência? As Ciências Humanas são o laboratório conceitual e de práticas de civilização, num contexto de diversidade cultural e pluralidade de fluxos populacionais. A sociedade necessita atualizar suas formas de conhecimento de si, do outro e do mundo. Como se fosse possível silenciar o pensamento, sufocar as reivindicações de grupos culturalmente marginalizados. O Fascismo procurou fazê-lo. Conhecemos um pouco dessa história.
(Imagem: blog.aegro.com.br)
Estado de São Paulo. São Paulo, A 16, 27 de abril de 2019,

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