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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Coelho Neto

 

        Passo os olhos num capítulo do romance A Capital Federal, de Coelho Neto (1864-1934). Surpreendo-me com a linguagem cuidada, ágil, vibrante. Nunca imaginei pudesse gostar de alguma coisa de Coelho Neto, autor sobre o qual foram desferidas críticas severas e cruéis, pelos modernistas. Combatido e atacado, foi alvo de uma campanha destrutiva, responsável pelo distanciamento de centenas de leitores. Reside neste processo um equívoco: afastar os leitores da produção passadista (entenda-se: de um passado que deveria ser esquecido, apagado). Além de Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, para ficar em alguns nomes, há muitos talentos, do início do século XIX à década de 1920. 

                Justiça seja feita, não é todo crítico que detesta Coelho Neto. Alfredo Bosi, em anos recentes, traça-lhe um retrato meticuloso e favorável. Nomeia-lhe os ornamentos de estilo e a amplitude de seu vocabulário, reconhecendo o esforço em expressar, numa espécie de crônica romanceada, eventos importantes da história do país. Assim, mergulha na tarefa de retratar o modo como a população do Rio de Janeiro recebeu momentos decisivos, diante da Abolição dos escravos (1888) e dos primeiros anos da República. “Toda a escala de valores do jovem Coelho Neto, as idiossincrasias do literato fin de siècle, as mazelas de uma boêmia de jornal e café, que vive entre veleidades políticas e literárias: eis o cenário e a substância de A Conquista, que irão avivar-se ainda mais em Fogo Fátuo, com aquelas mesmas figuras centrais” (BOSI, 1970, 226). Outras romances: Turbilhão, Miragem, Inverno em flor, Rei Negro, A Conquista.

              Denegrido e ridicularizado por haver produzido uma literatura opulenta, excessivamente adjetivada, carregada de alusões eruditas, Coelho Neto incorreu na sanha destemperada dos modernos. Quando, rompendo as normas, decido ler um capítulo do romance referido, dou-me conta de que caíra uma armadilha ardilosamente arquitetada por pretensos detentores do poder de criticar, arautos equivocados do bom gosto. Formados numa época de excessivos trabalhos e compromissos, ficamos seletivos na escolha de autores que merecem ser lidos. Acabamos assimilando preconceitos disseminados pelos ardorosos defensores das conquistas modernas. Coelho Neto publicou mais de cem livros, entre ficção, fábulas, crônicas e fantasias. Emprega termos eruditos, empolados, ao lado de outros exarados da linguagem popular. No frigir dos ovos, o apagamento de Coelho Neto não deixa de ser injusto. Wilson Martins propõe reconsiderar o excesso de ataques ao 'último dos helenos': 

    "Reintegremos, por consequência, Coelho Neto na história literária; para isso é preciso, antes de mais nada, que seja reintegrado na literatura, quero dizer, na corrente literária a que pertence, no momento criador em que viveu e produziu. a um leitor dos nossos dias, pelo menos a um leitor que esteja, apesar de tudo, mais próximo da literatura que da Academia, o escritor maranhense não pode deixar de parecer anacrônico e artificial. Contudo, ele não é anacrônico estilisticamente, situando-se na mesma geração e no mesmo capítulo em que se contam tantos outros escritores que admiramos: há todo o Regionalismo que vai de Afonso Arinos a Valdomiro Silveira, passando por Simões Lopes Neto e Monteiro Lobato, no qual Coelho Neto ocupa um lugar de particular significação; (...) há todo um grupo estilístico, representado por Euclides da Cunha, Rui Barbosa, Graça Aranha, e no qual Coelho Neto foi um dos expoentes inegáveis;" (MARTINS, 1991, 108). 

                “A vitória parou. Saltamos e eu, curioso de ver e de admirar maravilhas, olhei em volta. Era uma grande praça quadrada e clara, murada pelos edifícios que reverberavam à luz radiante do sol. Ao meio, sobre pedestal negro, a estátua tosca de um homem, em atitude cheia de solenidade, a mão estendida em gesto clássico de tribuna, como a alegoria icônica do meeting que é, em nossos dias, curtos e morigerados, o escoadouro da inofensiva indignação das massas. Meu tio, indicando-me a efígie escura, disse:

- José Bonifácio, o patriarca da nossa independência e da tribuna dos comícios.” (NETO, 1958, 17).

               

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970.

MARTINS,  Wilson. Pontos de vista  (crítica literária). São Paulo: T. A. Queiroz, 1991. VI.

NETO, Coelho. Romance. Rio de Janeiro: Agir, 1958. Introd. e comentários por Otávio de Faria. Col. Nossos Clássicos, v. 15. 

                                                                 Imagem: ABL.


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