Total de visualizações de página

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Thomas Mann

      Livro do mês:

      O livro destacado pertence à admirável produção romanesca do alemão Thomas Mann (1875-1955), A Montanha Mágica. Declino da tarefa de esboçar uma resenha, delegando o espaço a um especialista. Permito-me apenas uma breve aproximação, colhida nas três primeiras páginas do alentado volume. No limiar do relato, o narrador convoca alguns aspectos do que será contado, salientando "os fatos recobertos pela pátina do tempo". Refere-se ao narrador como "o mago que evoca o pretérito", convicto de que estaria capacitado para narrar lentamente a história, "com exatidão e minúcia", recursos que recobrem a rigorosa prática expressiva do espírito germânico. Dirige-se o jovem Hans Castorp, frágil e inexperiente, a um Sanatório, num trem de ferro, que vence uma região montanhosa, de ar rarefeito, "por uma estrada rochosa, áspera, angustiante". Tudo começa aí. Evocação melancólica e cética de personagens eruditos e desencantados, ilhados numa estação de cura, o romance surpreende pela forma distanciada, fria e sorridente de se elaborar uma atmosfera decadente, ainda que pulsante de vida. Os aforismos perpassam muitas páginas: "O sentimento é a força viril que desperta para a vida. O homem é divino, desde que sente. Deus o criou para sentir por intermédio dele" (MANN, 1952, 623). 


      De acordo com Mansueto Kohnen: "A Montanha Mágica pode provocar diferença de opiniões no domínio ideológico ou pode ser pouco simpático por causa da atmosfera desagradável em que se desenrola, em todo caso faz parte dos documentos notáveis da época. Esta obra (...) evidencia mais uma vez que a arte de Mann, que se esgota na análise interminável, e que no fundo sempre tem um acento doentio, não pode despertar vida nova. O mundo supersazonado de Mann é um mundo de decadência.  Romance sem decisão, que formou mais uma vez artisticamente apenas o ideal da sociedade e o estilo de vida da burguesia do agonizante século XIX e do início do século XX, sem interpretar a nova forma de vida, certamente pressentida, da época vindoura.
      A Montanha Mágica possui, não obstante, todas as preferências da expressividade linguística da arte do autor de Die Buddenbrooks. Ambas as obras representam um enriquecimento essencial da prosa germânica. E ao colocar o poeta aqueles homens de ontem num sanatório, ele aí os coloca como segregados e selados, qual caso típico da antítese 'particularismo-comodismo'. Mais ainda: não só arte e artista são fenômenos de degeneração e doença, mas a própria vida se transforma em doença e decadência desesperadas. Nem a liberdade da ironia pode iludir-nos e diminuir esta cognição espantosa" (KOHNEN, 1962,114-115).   


MANN, Thomas. A Montanha Mágica. Trad. Herbert CaroPorto Alegre: Ed. Globo, 1952.
KOHNEN, Mansueto. O.F.M. História da Literatura Germânica. V. III, Salvador: Mensageiro da Fé, 1962.

Nenhum comentário:

Postar um comentário