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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Octavio Mello Alvarenga

 

 

Otávio Mello Alvarenga (1926 – 2010) iniciou na literatura poeta como muitos estreiam. Publicou três livros de poesia: Gesto e palavra (1946), Antemanhã (1950), Fábula do encontro (1954). Depois, revelou-se ficcionista, com o romance Doralinda (1963), de considerável recepção crítica, ao qual sucederam Judeu Nuquim (1967) e Sexta-feira, dezesseis (1971), agraciados com o Prêmio Walmap.  Após publicar obras de Direito Agrário, como Política e Direito Agroambiental (1997), deu a lume os ensaios de Mitos e valores (1956) e as memórias de Rosário de Minas (2003). Casado quatro vezes, viúvo duas, uma das quais ao perder a mulher Maria Julieta, filha do poeta Carlos Drummond de Andrade.

            Rosário de Minas, estruturado como contas de três terços, segundo a liturgia católica, reúne eventos autobiográficos do autor, misturados a situações e fatos importantes do país, desde a década de vinte, quando o autor nasce em São João del Rei, até os idos de 2001. Mistura por vezes fatos reais a outros, fantasiados. Em 1954, a bordo do “avião da Panair do Brasil que levava duas horas para vir de Belo Horizonte ao Rio”,  transfere-se para o Rio de Janeiro, como integrante da campanha presidencial de Juscelino. “Meu encanto por JK vem desde muito tempo. Eu me lembro dele – uma vaga e agradável lembrança – sentado na mesa da sala de jantar de meu avô, na rua dos Goitacazes, e todos de repente estavam cantando. Passavam os braços nos ombros uns dos outros e cantavam. Lembro-me de Juscelino, trepado numa cadeira, ajeitando um lustre de cristal, em sua casa, creio que no bairro de Lourdes. Do homem solitário, que acompanhou Júlio Soares à casa do colega Alvarenga, quando nossa empregada desarvorada com o desmaio de meu irmão Afonso, saiu pela Rua do Chumbo abaixo, procurando a casa do doutro Júlio e o destino conduziu-a ao carro dirigido pelo doutor Alkimin – e daí a pouco, chegavam à presença de dona Chloris, como três mosqueteiros vindos do Abrigo Ceará, Júlio Soares, Alkimin e Juscelino. E J. K tinha vindo de pijama como estava ao saber do assunto, sequer trocou de roupa. // Isto então não é prova de generosidade, humanidade e solidariedade, pressa em valer a quem precisava?” (p.217).  

       De forte interesse revestem-se as circunstâncias relacionadas à aproximação e visitas à família de Carlos Drummond de Andrade, decorrentes da relação amorosa com a filha do poeta. “Foi então que a menina do bonde Santa Teresa, depois de cumprir no estrangeiro grande parte de sua vida, salta para dentro de meu destino. Ela se chamava Maria Julieta, algumas amigas apelidaram-na de Juju. Raramente foi Julietinha. Para mim foi Flaminha, pela flama que teve. Reencontrei minha colega de Jardim da Infância, vivida e divorciada. Tínhamos lembranças idênticas, perseguíamos fantasmas parecidos, acertávamos as contas de jeito semelhante” (p. 63). A imagem excessiva do poeta maior passa a atormentar a vida do narrador: “Aqui entra em cena a figura do pai de Maria Julieta, poeta e cronista, cujo valor literário não pretendo discutir. // Neste rosário só serão puxadas as contas relacionadas com seu ciúme pela filha. Houve um tempo em que Carlos Drummond foi o melhor amigo que poderia almejar em minha adaptação ao Rio de Janeiro- se é que me adaptei a esta cidade. // Sua amizade transformou-se em ódio e incompreensão, a partir do momento em que as mãos de Maria Julieta voltaram a apertar (e afagar e acarinhar agora com ternura febril) as mãos do colega de jardim da  infância” (p.64). Outro núcleo interessante: os comentário sobre a obra literária do autor, agregando a repercussão crítica. 

           

ALVARENGA, Octavio Mello. Rosário de Minas. Rio de Janeiro: Lidador, 2003.







terça-feira, 18 de agosto de 2026

Federico Garcia Lorca

        Há 90 anos, em 16 de agosto de 1936, foi fuzilado por tropas fascistas do General Franco, nos arredores de Granada, o poeta espanhol Federico Garcia Lorca (1898-1936). Em sua homenagem, publico uma pequena mostra de seu  imenso legado. 

1910

Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
não viram enterrar os mortos
nem a feira de cinza de quem chora pela madrugada
nem o coração que treme encurralado como um cavalo-marinho.

Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
viram a parede branca onde mijavam as meninas,
o focinho do touro, a seta venenosa
e uma lua incompreensível que iluminava pelos cantos
os pedaços de limão seco sob o negro duro das garrafas.

Aqueles meus olhos no pescoço da égua,
no seio trespassado de Santa Rosa adormecida,
nos telhados do amor com gemidos e frescas mãos,
em um jardim onde os gatos comiam as rãs.

Desvão onde a velha poeira congrega estátuas e musgos.
Caixas que guardam silêncios de caranguejos devorados.
No lugar onde o sonho tropeçava com sua realidade.
Ali meus pequenos olhos.

Não me perguntem nada. Eu vi que as coisas
quando buscam seu curso encontram seu vazio.
Há uma dor de ocos pelo ar sem ninguém
e nos meus olhos criaturas vestidas. Sem nudez!


(Poeta em Nova Iorque)



                                        (Fonte: Universo Lorca)

terça-feira, 23 de junho de 2026

 

As querelas da crítica

 

                Existem postulados e paradigmas que não podem ser esquecidos por aqueles que lidam com o estudo e a análise de textos literários. Difícil isolar os temas principais, os motivos singulares que levam as pessoas à leitura. Em geral quem gosta de ler aprecia também dar uma olhada nos comentários críticos suscitados pelos livros que lê.  Nas décadas de 1960 e 1970 vigorou um encarniçado combate à crítica impressionista. Impressionismo, no caso, indiciava, de partida, comentário superficial, voo de pássaro, fôlego curto sobre o tema abordado, inconsistência conceitual, argumentação precária.  Entre a aura de ciência e a emoção subjetiva enfrentaram-se implacáveis defensores de uma tendência ou outra. Afrânio Coutinho portou-se na dianteira das críticas endereçadas à linha impressionista, defendendo com veemência a vertente norte-americana da nova crítica, no declarado esforço de atualizar os métodos de análise.

Havia os que se rotulavam historicistas, ou estruturalistas, semiólogos, humanistas, dentre outros. Os critérios e modos de crítica impressionista instalam-se na partida ou na chegada dos argumentos, tenha o enfoque o nome que tiver (historicista, formalista, nova crítica, hermenêutica, sociológica, estilística, psicanalítica). Wilson Martins elabora um vasto “Quadro cronológico da crítica”, agrupando os autores, de acordo com a datação histórica e a configuração metodológica adotada. Apresenta as seguintes linhas: gramatical, humanística, histórica, sociológica, impressionista, estética (formalista). Algumas controvérsias e polêmicas podem se arrolar, ou seja, por exemplo, incluir nas linhas historicistas e impressionistas os mais relevantes críticos literários, ou mesmo discordar de algumas afinidades (como alinhar José Guilherme Merquior, Fausto Cunha, Roberto Schwarz e Temístocles Linhares entre os críticos impressionistas).

Colocada no lado oposto da crítica acadêmica, ou do que a nomenclatura possa referir, a tendência impressionista alcançou no contexto brasileiro uma grande relevância. Álvaro Lins, militante na imprensa semanal, notabilizou-se na crítica de rodapé como o crítico por excelência, de acordo com Wilson Martins: “A posição de crítico representativo, nesse sentido, foi ocupada por Álvaro Lins, que, ao contrário de Romero e Antônio Cândido, resumiu nessa atividade a parte mais duradoura da sua carreira; fazendo e desfazendo reputações ao ritmo dos seus artigos semanais” (MARTINS, 1995, 143). O ofício exige que o crítico assuma o papel de um leitor erudito e que compartilhe suas experiências e impressões sobre a obra. Álvaro Lins exerceu a função de crítico entre 1941 e 1963, período em que assumiu a coluna de crítica literária no jornal Correio da manhã. A crítica universitária, caracterizada por acentuado rigor científico, instala-se como prática menos suscetível de equívocos e patrulha. À altura, destacou-se o esforço implacável de atualizar os métodos de análise, através da chamada nova crítica. Como ainda reconhece um especialista da envergadura de Wilson Martins, “ele (Afrânio Coutinho) concebeu A literatura no Brasil, que é a nossa melhor história literária, escrita por um contingente bastante razoável de ‘impressionistas’"(MARTINS, 1995, 184). Refere a presença inalienável em qualquer labor crítico de um fator singular, ou seja, ter em conta “nos julgamentos críticos a relatividade orgânica que os distingue” (MARTINS, 1995, 184).

No caso de se misturar a postura descritiva à pesquisa de feição semiológica, ou mesmo de perfil hermenêutico, voltado às sugestões da simbologia, ou ainda de flanco aberto à estética da recepção, teremos um discurso agregador apto a abrigar a postura interpretativa, embaralhando os jogos semânticos e os vetores de representação social, desvelando a luta de classes na crítica de orientação marxista, na linha sociológica. Por estranho que possa parecer, a diversidade de caminhos e tendências constitui índice de densidade e amplitude. Dito de forma mais cristalina, retomo outra referência do mestre paranaense citado: "A crítica vive, como o Cristianismo, em permanente agonia unamuniana, isto é, em estado de luta e contestação, nelas encontrando, por paradoxo, o seu instrumento privilegiado de progresso. No caso, as doutrinas e teorias, as metodologias e os conceitos prévios parecem opor-se e excluir-se uns aos outros, mas, na verdade, completam-se e complementam-se entre si: o único pecado mortal da crítica, conforme observei alhures, é o monismo metodológico, inevitavelmente reducionista e restritivo" (MARTINS,1995, 32).

 

MARTINS, Wilson. A crítica literária no Brasil, II. Rio de Janeiro: F. Alves, 1983.

MARTINS, Wilson. Pontos de vista (crítica literária), 10. São Paulo: T. A. Queirós, 1995.




sexta-feira, 22 de maio de 2026

Coelho Neto

 

        Passo os olhos num capítulo do romance A Capital Federal, de Coelho Neto (1864-1934). Surpreendo-me com a linguagem cuidada, ágil, vibrante. Nunca imaginei pudesse gostar de alguma coisa de Coelho Neto, autor sobre o qual foram desferidas críticas severas e cruéis, pelos modernistas. Combatido e atacado, foi alvo de uma campanha destrutiva, responsável pelo distanciamento de centenas de leitores. Reside neste processo um equívoco: afastar os leitores da produção passadista (entenda-se: de um passado que deveria ser esquecido, apagado). Além de Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, para ficar em alguns nomes, há muitos talentos, do início do século XIX à década de 1920. 

                Justiça seja feita, não é todo crítico que detesta Coelho Neto. Alfredo Bosi, em anos recentes, traça-lhe um retrato meticuloso e favorável. Nomeia-lhe os ornamentos de estilo e a amplitude de seu vocabulário, reconhecendo o esforço em expressar, numa espécie de crônica romanceada, eventos importantes da história do país. Assim, mergulha na tarefa de retratar o modo como a população do Rio de Janeiro recebeu momentos decisivos, diante da Abolição dos escravos (1888) e dos primeiros anos da República. “Toda a escala de valores do jovem Coelho Neto, as idiossincrasias do literato fin de siècle, as mazelas de uma boêmia de jornal e café, que vive entre veleidades políticas e literárias: eis o cenário e a substância de A Conquista, que irão avivar-se ainda mais em Fogo Fátuo, com aquelas mesmas figuras centrais” (BOSI, 1970, 226). Outras romances: Turbilhão, Miragem, Inverno em flor, Rei Negro, A Conquista.

              Denegrido e ridicularizado por haver produzido uma literatura opulenta, excessivamente adjetivada, carregada de alusões eruditas, Coelho Neto incorreu na sanha destemperada dos modernos. Quando, rompendo as normas, decido ler um capítulo do romance referido, dou-me conta de que caíra uma armadilha ardilosamente arquitetada por pretensos detentores do poder de criticar, arautos equivocados do bom gosto. Formados numa época de excessivos trabalhos e compromissos, ficamos seletivos na escolha de autores que merecem ser lidos. Acabamos assimilando preconceitos disseminados pelos ardorosos defensores das conquistas modernas. Coelho Neto publicou mais de cem livros, entre ficção, fábulas, crônicas e fantasias. Emprega termos eruditos, empolados, ao lado de outros exarados da linguagem popular. No frigir dos ovos, o apagamento de Coelho Neto não deixa de ser injusto. Wilson Martins propõe reconsiderar o excesso de ataques ao 'último dos helenos': 

    "Reintegremos, por consequência, Coelho Neto na história literária; para isso é preciso, antes de mais nada, que seja reintegrado na literatura, quero dizer, na corrente literária a que pertence, no momento criador em que viveu e produziu. a um leitor dos nossos dias, pelo menos a um leitor que esteja, apesar de tudo, mais próximo da literatura que da Academia, o escritor maranhense não pode deixar de parecer anacrônico e artificial. Contudo, ele não é anacrônico estilisticamente, situando-se na mesma geração e no mesmo capítulo em que se contam tantos outros escritores que admiramos: há todo o Regionalismo que vai de Afonso Arinos a Valdomiro Silveira, passando por Simões Lopes Neto e Monteiro Lobato, no qual Coelho Neto ocupa um lugar de particular significação; (...) há todo um grupo estilístico, representado por Euclides da Cunha, Rui Barbosa, Graça Aranha, e no qual Coelho Neto foi um dos expoentes inegáveis;" (MARTINS, 1991, 108). 

                “A vitória parou. Saltamos e eu, curioso de ver e de admirar maravilhas, olhei em volta. Era uma grande praça quadrada e clara, murada pelos edifícios que reverberavam à luz radiante do sol. Ao meio, sobre pedestal negro, a estátua tosca de um homem, em atitude cheia de solenidade, a mão estendida em gesto clássico de tribuna, como a alegoria icônica do meeting que é, em nossos dias, curtos e morigerados, o escoadouro da inofensiva indignação das massas. Meu tio, indicando-me a efígie escura, disse:

- José Bonifácio, o patriarca da nossa independência e da tribuna dos comícios.” (NETO, 1958, 17).

               

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970.

MARTINS,  Wilson. Pontos de vista  (crítica literária). São Paulo: T. A. Queiroz, 1991. VI.

NETO, Coelho. Romance. Rio de Janeiro: Agir, 1958. Introd. e comentários por Otávio de Faria. Col. Nossos Clássicos, v. 15. 

                                                                 Imagem: ABL.


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Mílton Campos

 

Mílton Campos, na antessala do terror

 

                O que se encontra estabelecido como fonte de pesquisa sobre Mílton Campos (1900–1972) é muito pouco, restringe-se a precárias notas. Com base nesse material, pode-se afirmar tratar-se de um admirável jurista e orador inflamado, que também foi político, tendo-se notabilizado como incentivador das letras e da democracia. Publicou dois livros: Compromisso democrático e Testemunhos e ensinamentos (1972). Entre os amigos de juventude, estavam Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Emílio Moura, Martins de Almeida, Gregoriano Canedo, Mário Casassanta, Abgar Renault e Rodrigo de Melo Franco, o grupo modernista de Belo Horizonte que, em 1925, fundou A Revista. Os companheiros que se reuniam, no Café Estrela, na Belo Horizonte pacata e progressista dos anos da década de 20 a 30.

                O que os militares batizam de Revolução ficou conhecido na História como golpe militar de 1964, que se estende até 1985. São atribuídos a Mílton Campos os traços de modéstia, timidez e acessibilidade, habilidade e honestidade no trato da gestão pública. O retrato apresentado por Nava é definitivo. “O que impressionava em Mílton Campos não era só a vastidão de sua inteligência; mas sua qualidade e mais o conjunto de predicados com que ela se apresentava.” (...) Era bom, sensível, compassivo, tolerante, indulgente, generoso, amadurecido, lúcido, virtuoso” (...) Esse cético era na verdade homem bom, mas forte; tolerante, mas enérgico. Era indobrável nas suas convicções democráticas, como veio a mostrar durante a vida política” [i]. Recusou-se a referendar o ato de cassação do mandato do senador Juscelino. Publicou no periódico o artigo “Fundo de gaveta”. 

                A publicação de A Revista teria sido decidida uma tarde no Café Estrela. “Discutia-se o título e entre vários sugeridos prevaleceu o dado pelo Carlos – assim o verdadeiro padrinho de batismo de publicação. Foi quando meti minha colher achando o nome muito seco. Vá por revista – dizia eu – mas acrescente-se alguma coisa. Exemplificava. Revista modernista, Revista de Arte Moderna, Revista disso, Revista daquilo. O Carlos foi inflexível. Tinha de ser Revista e só A Revista. E hoje vejo que ele tinha toda razão. Não havia motivos para dar um programa desde o título” [ii]. O ilustre mineiro de Ponte Nova é objeto de avaliação de Wilson Martins: "É uma grata surpresa encontrar em Mílton Campos um estilista de elegância clássica, numa arte toda de litotes (como diria Gide), talvez um pouco solene, compassado e frio, como os edifícios que respondem a essa denominação, mas, em todo caso, ostentando a beleza de uma idade e exalando o perfume de um outro mundo" (Pontos de vista 9, pp.257). 

                Outro aspecto em relação ao periódico foi tratado por Nava, no volume referido de suas memórias: “A Revista marcou adesões ao modernismo e fez questão de abrir suas colunas à colaboração conservadora de Magalhães Drummond, Alberto Deodato, Iago Pìmentel, Godofredo Rangel, Pereira da Silva, Wellington Brandão, Orozimbo Nonato, Carlos Góes. Seguíamos nisso nosso próprio espírito e o conselho dado por Mário de Andrade numa carta a Drummond escrita depois de ver o primeiro número: “Faça uma revista como A Revista, botem bem misturados o modernismo bonito de vocês com o passadismo dos outros. Misturem o mais possível” [iii] .   

                Personalidade contraditória, Mílton Campos foi governador de Minas Gerais (1947- 1951), senador da República e Ministro da Justiça do primeiro governo do período de exceção, do General Castelo Branco. Como é sabido, o regime referido, que se disse movido pelo “interesse da paz e da honra nacional”, atuou no sentido de “suspender os direitos políticos e cassar mandatos” de dezenas de professores, cientistas, jornalistas, intelectuais e homens públicos, além de perseguir inúmeros adversários políticos. Solicitou exoneração do cargo, assim que percebeu a tendência autoritária do governo. Convém assinalar o descalabro do governo de Jânio Quadros que o antecedeu e iniciou a perversa campanha de desmoralização de Juscelino Kubitschek.

 


[i]  Nava, 1985, 168-169

 

[ii]  Nava, 1985, 210. 

[iii]  Nava, 1985, 213. 

 

MARTINS, Wilson. Pontos de vista. 9, São Paulo: T. A. Queiroz, 1995.

MONTELLO, Josué. Diário da Tarde. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

NAVA, Pedro. Beira-Mar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


                                                     Imagem: jornal Parnaíba



sexta-feira, 10 de abril de 2026

Anelito Oliveira

 

       Anelito de Oliveira, em Os acampamentos insustentáveis (2019), em que os gêneros literários se mostram, estilhaçados, enumera registros de situações e experiências estigmatizadas pelo desejo de compreender; porém, derrapa numa superfície em que as coisas são e simultaneamente deixam de ser, ainda que não abdiquem da circunstância de serem nomeadas. A correspondência, a troca de comunicação, é uma delas: “devo parar de te escrever não porque você esteja suficientemente escrita, mas porque a vontade de escrever é só sua - e infinita; uma espécie de morte, a escrita, lançada daqui, não te alcançar. no fundo, te perde no desejo mesmo de te alcançar (você bosque demais, pede notícias, exterioridades, significados – sempre a ânsia deter o mudo mais perto). não há o que remeter para além deste – o remetente, a carta, é o que não chega a ser – e, na sua insuficiência, arfando como um urso na neve, é.” (OLIVEIRA, 2019, 149).

       Como quem não quer nada, ou como um aprendiz de rapsodo, tenta resignificar os objetos e os desejos. Diferente, estranho, pretensioso, o interesse revelado: afinal, pretender deve ser um projeto de qualquer sujeito pensante, pelo qual se justifique algum acontecimento, alguma vivência, niilista que seja: “Por aqui não acontece nada. E é por isso, por isso mesmo, está vendo? que insisto em escrever. Há muita gente interessada em nada. Que nada aconteça. Que ninguém diga nada. Que todos fiquem em silêncio. Ou que todos digam futilidades. Dá no mesmo” (OLIVEIRA, 2019, 107).

       As noções tendem à dimensão de totalidade. Numa realidade em que o artifício impera, nada mais abrangente que a casa, ou o que a casa significa: “E a casa, você sabe, é a vida de cada um. Destruir a casa é destruir a vida. A casa é a ética. Destruir a casa é destruir a ética de cada um. A casética, ou a éticasa, é um exterior no interior de cada um” (OLIVEIRA, 2019, 107).

       Noutra passagem, rememora uma frase de Deleuze: “nós perdemos definitivamente o mundo”. Tenta compreender o que seja perder, ou mesmo entender uma forma de pertencimento. “Podemos estar vivo sem ter posse do mundo, estar vivo e sem mundo. Mas houve um tempo em que se teve o mundo, em que o mundo era nosso. Depois chegou um outro tempo em que perdemos definitivamente o mundo. Mas – e isso é intrigante – é possível que muitos estejam no mundo com o sentimento de que perderam o mundo sem nunca terem tido realmente esse mundo, sem nunca terem chegado ao mundo. Quem são eles?” (OLIVEIRA, 2019, 94).


OLIVEIRA, Anelito. Os acampamentos insustentáveis. Curitiba: Kotter Ed., 2019.





quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Érico Veríssimo II

 

Érico Veríssimo II: alguma fortuna crítica

 

                Álvaro Lins, apesar de reconhecer o talento e o domínio da técnica romanesca de Érico Veríssimo, aponta certa concessão ao gosto do leitor. ”Pois qualquer crítica sobre este autor ilustre e consagrado deve começar necessariamente por reconhecer e dizer que ele possui um talento e um espírito de romancista. Não se trata de uma simples afirmativa, porém de uma conclusão que resulta evidente do seu romance Caminhos cruzados. (...) Sentia-se que ali estava um romance pensado, sentido, construído em bases muito formes e muito conscientes. E de tal modo que entre Caminhos Cruzados e Saga a distância se tornou realmente absurda. Parecem dois livros de dois autores diferentes. (...) Sendo certo, porém, que o Sr. Érico Veríssimo possui as qualidades do romancista, a consciência do seu ofício, o sendo da literatura – vale a pena acentuar que deve haver uma circunstância acidental perturbando a construção de sua obra. Esta circunstância estou certo que não errarei afirmando que é o sucesso público” (LINS, 1963, 221-222).

                Temístocles Linhares mantém reservas em relação ao romancista. “É um romancista razoável apenas. Meio superficial, sem problemas, empenhado ainda, nos velhos moldes, em fazer romance em torno de uma estória ou narrativa, de seu desenvolvimento, sem se transfigurar nunca em poeta, como acontece com os grandes romancistas. Não tem nada de complexo em sua personalidade de escritor. O seu livro não se funde em nenhum ato de fé importante, em seres intemporais, a exemplo do que acontece com Faulkner. O seu mundo é acanhado, despido de qualquer lampejo de gênio, que nos posso mostrar, por exemplo, quanto a vida é um incessante e perpétuo instante. O romancista não consegue jamais romper a trama dos fatos de que são prisioneiros os personagens. Neste livro Terra, nem sequer surge alguma figura feminina de interesse relativo que pudesse ser equiparada com Ana Terra, sem dúvida a maior criação do autor de O tempo e o vento. Não vejo portanto razão alguma para o barulho que se está fazendo com O Arquipélago. Efeitos da promoção comercial pura e simplesmente e não de alguma coisa de sólido e profundo destinado a marcar este pobre ano literário prestes a findar” (LINHARES, 2002, 265-266). Refere-se ao ano de 1961, por ocasião do lançamento de O arquipélago, terceira parte da saga.

Wilson Martins não hesita em elogiar a obra do autor de O tempo e o vento.  “Cedendo, por outro lado, ao esnobismo típico das vanguardas, os críticos brasileiros dos anos 30 decidiram tacitamente que o sucesso editorial do romancista era a prova de sua falta de qualidade, a história literária já teve tempo de demonstrar que o sucesso crítico de tantos outros não correspondia, em todos os casos, a uma prova da qualidade. A verdade é que, de todos os romancistas deste período, Érico Veríssimo foi, com certeza, o de maiores recursos técnicos, o de maior capacidade de renovação e aquele, afinal, a quem estava reservada a missão de revigorar o romance brasileiro, situando-o, num plano universal e literário incomparável” (MARTINS, 1973, 293).

Antonio Olinto reconhece, de imediato, a sólida performance do autor gaúcho: “Com mais de trinta anos de romancista profissional, tornou-se Érico Veríssimo conhecido na Europa, no continente africano, em toda a América Latina e, principalmente, no mundo de língua inglesa. Sua história mais popular, Olhai os lírios do campo, virou filme na Argentina.  Inquéritos feitos na Angola e em Moçambique demonstraram que Érico Veríssimo é o escritor mais lido naquelas partes da África. Para os inimigos da popularidade, isto é mau sinal. (...) E a verdade é, contudo, que não há critérios inalteráveis para o aferimento da obra de arte. Muito menos o da leitura: um livro muito lido tanto pode ser ótimo como péssimo” (OLINTO, 1966, 142). A seguir, detém-se no domínio de recurso técnico: “O principal traço da narrativa é o contraponto, um contraponto ondeante que assume ora a terceira pessoa, ora a primeira (nas páginas de Floriano e no diário de Sílvia), e pega quatro ou mais tempos de narrativa. O clima geral da história une tempo e espaço, num panorama que toca de vez em quando a fímbria do épico. O tempo romance é oscilante, batido pelo vento, numa técnica de extremas segurança e beleza, em que há ressonâncias de Virginia Woolf e Huxley (principalmente a Virginia de To the Lafhthouse). (OLINTO, 1966, 142).

Em Seara de romances, Oscar Mendes avalia quatro romances de Érico Veríssimo: Clarissa, Caminhos Cruzados, Um lugar ao sol, Olhai os lírios do campo. “Caminhos cruzados, seu segundo romance, aparece-nos como obra já bem complexa, visando retratar mais cruamente aspectos realísticos da vida, mostrando-nos tipos mais complicados, sujeitos a paixões menos inocentes, com hipocrisias sociais refinadas. (...) Acresce que o sr. Érico Veríssimo possui notável habilidade na pintura de seus tipos. Tira-os da realidade com o tato e delicadeza de um colecionador de borboletas, a fim de não prejudicar-lhes o brilho das cores e o contorno das asas. O próprio tom de ironia com que descreve alguns é como uma tinta sutil que serve para acentuar alguns traços desbotados. E deixa-os viver e agitar-se. Não se imiscui no cérebro de toda a sua gente para perscrutar os problemas de sua psicologia. Por meio de um processo de contrastes entre gestos e pensamentos esboçados, de recordações e de sonhos, consegue patentear-nos algo da vida interior de seus personagens.” (MENDES, Oscar. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982, 93-94).

 

 

 LINHARES, Temístocles. Diário de um crítico. 1957 a 1963. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2002.

LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963.

MARTINS, Wilson. O Modernismo. São Paulo: Cultrix, 1973.

MENDES, Oscar. Seara de romances. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982.

OLINTO, Antônio. Aa verdade da ficção. Rio de Janeiro: Cia. Brasileira de Artes Gráficas, 1966.



 


sábado, 20 de dezembro de 2025

Erico Veríssimo

 

          Avanço na leitura da saga de Érico Veríssimo, O tempo e o vento. Dele conhecia Ana Terra e Incidentes em Antares. Obras impecáveis, resultantes de um toque de refinada concepção de desenvolvimento de intriga e de linguagem. Impressiona o domínio da técnica narrativa, além do equilíbrio entre a realidade objetiva, ancorada na pesquisa histórica e os dosados voos de uma imaginação especial, privilegiada. A atmosfera humana da história perpassa todas as páginas, numa elaboração ficcional em que tudo é grandioso, atávico, telúrico. A narrativa é linear e progressiva: tem um início, avança no tempo, registrando os eventos do passado e projetando reflexos do que pode vir a suceder. A presença do capitão Rodrigo vai aos poucos impregnando os acontecimentos de uma lufada heroica, épica. Em suas longas conversas com o pe. Lara, em que são discutidos temas ligados à trama e à condição humana, extravasa o forte condicionamento do amante de guerras, seu perfil de combatente, para quem participar de batalhas constitui um entretenimento. Guerra para ele se revela como prática de homem, extensão de masculinidade. "Uma vez que outra, nos verões muito quentes, ele tinha a impressão de ver o  tempo parado sobre os telhados e campos em derredor, como que imobilizado pelo mormaço - moscardos zumbiam e voavam no tempo estagnado. (...) Mas na maioria dos dias o tempo voava como o vento" (VERÍSSIMO, 2013, 51-52).

            Cibele Imaculada da Silva estuda o projeto ficcional do autor, preocupado em desenvolver os fios narrativos da construção de uma identidade nacional, através de um protagonista valente e idealista que encarna o sonho coletivo de defesa do território em batalhas de fronteira.

            “Na imagem de homem que a obra constrói, chama a atenção a valentia e as demonstrações de força, coragem e masculinidade. Os homens que habitam o universo dos descendentes do Capitão Rodrigo chegam a considerar a participação numa luta ou guerra uma prova de virilidade e solução para tudo” (SILVA, 2005, 51).

            A figura surpreendente do capitão Rodrigo - os traços físicos, a rebeldia, a coragem e a atração exacerbada por mulheres, com as quais se relacionava movido por uma certa safadeza - retorna ao longo da saga, recortada por amigos e conhecidos. A insistência em descrevê-lo e recordar suas facetas o transforma em motivo e personagem lendário. Para o discreto Juvenal, irmão de Bibiana, o cunhado fora um homem exemplar: "eu gostava do cap. Rodrigo. Achava que ele era valente, engraçado, um bom companheiro pra tudo" (VERÍSSIMO, 2013, 388). moldura machista avulta nos comentários e posturas do protagonista, como nesta passagem em que brinca com o filho recém-nascido, Bolívar: “Quando ele tiver quatorze anos, quem vai procurar mulher pra ele sou eu. (...) E se me sair mariscas, atiro ele no primeiro perau que encontrar no caminho”. Nesse aspecto, o Capitão Rodrigo revela-se representante da visão de mundo do contexto, o que atenua a nódoa no tratamento da diversidade de gênero.

 

SILVA, Cibele Imaculada da. Erico Veríssimo: ficção e história ao sabor do tempo e do vento. Belo Horizonte: Ed. Newton Paiva, 2005.

VERÍSSIMO, Erico. O Continente I e II. São Paulo: Companhia das letras, 2013.










quinta-feira, 27 de novembro de 2025

180 anos de Eça de Queiroz

 

       Registro o agrado que me fez o livreiro Jair, da Fafich UFMG: doou-me uma rica edição que integra três romances de Eça de Queiroz (1845 – 1900): A cidade e as serras, A ilustre casa de Ramires, O Mandarim. Um feito editorial de relevo, sob a chancela da Vila Rica. Motivo suficiente para justificar a releitura do grande romance. E homenagear o autor, nos seus180 anos.

          Folheando A ilustre casa de Ramires, me dou conta de um motivo literário. O narrador Gonçalo Mendes Ramiro, fidalgo de ínclita origem medieval, travestido de narrador, afirma: “labutava, empurrando a pena como lento arado em chão pedregoso” (QUEIROZ,1991, ICR,25). Estabelece a fusão do ofício de escrever ao do lavrador. Ao escrever, o escritor sulca as folhas de papel com a caneta, como se arasse o solo pátrio. O protagonista não perde oportunidade de pregar o “fortalecimento da autoridade da coroa e uma forte expansão colonial” (QUEIROZ,199, ICR,17). O estilo de Eça – original, elegante, sinuoso, rijo - resplandece. Para Vasco Graça Moura, este é o romance mais elaborado de Eça.

          Ao meio do capítulo V, após o episódio da visita da mulher do Casco, implorando a soltura do marido, Gonçalo atiça seu lado misericordioso. Na sequência, relaciona duas estampas visíveis no aposento: “à cabeceira, pendiam dois painéis, retratos de antigos Ramires, um bispo obeso folheando um fólio, um formoso cavaleiro de Malta, de barba ruiva apoiado à espada, com um laçarote de rendas sobre a couraça polida” (QUEIROZ,1991, ICR,138). A referência aos cavaleiros de Malta revela a importância da ilha italiana, palco de encarniçadas batalhas medievais, onde se enfrentaram nobres europeus de variada estirpe, incluindo portugueses.

          Há um consenso entre os críticos no sentido de compreender que A ilustre casa de Ramires, publicação póstuma (1900), recolhe, ficcionalmente recriadas, as reflexões e preocupações do autor a partir dos anos de 1890. Para Beatriz Berrini, “A Ilustre Casa de Ramires é talvez a obra ficcional eciana, posterior ao Ultimatum, em que mais se detectam, filtradas, as experiências e observações do escritor, vividas em Portugal ou fora dele, em 1890 e nos anos subsequentes” [1]. Na ficção, os eventos relacionados ao Ultimatum inglês são silenciados. Mas o passado histórico retorna, de forma crítica. E a África como objeto de exploração agrícola e mineral está presente, especialmente Moçambique. Retorno a Beatriz Berrini. “Para ser fiel à realidade portuguesa, a ser recriada pelo seu verbo, deveria Eça calar aqueles acontecimentos, que não mais repercutiam na nação, esquecidos e enterrados” [2]. O protagonista Gonçalo reveste-se de uma dimensão simbólica, ao representar o português colonizador: ele sonha com a África, vista como lugar exuberante, pródigo de mistérios, aventuras e riquezas. Assim a vê num sonho: “e readormeceu logo, muito longe, sobre as relvas profundas dum prado da África, debaixo de coqueiros sussurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam através de pedregulhos de ouro” (QUEIROZ,1991, ICR, 48).

 



[1] BERARDINELLI, Cleonice et alii. 1992, 352-357.

[2] BERARDINELLI, Cleonice et alii. 1992, 352-357.

 

 BERARDINELLI, Cleonice et alii. XIII Encontro de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa (Atas). Rio de Janeiro: UFRJ, 1992.

QUEIROZ, Eça de. A cidade e as serras, A ilustre casa de Ramires, O Mandarim. Belo Horizonte/ Rio de Janeiro: Vila Rica, 1991.


                         Photographia Contemporanea In O Contemporâneo, nº 108, Lisboa [1882], p. [1].

domingo, 31 de agosto de 2025

Ronald Claver (1946-2025)

        Registro a morte do escritor Ronald Claver, no último dia 29, em Belo Horizonte. Prêmio Augusto Meyer (1978), Prêmio Nestlé de Literatura (1986), publicou, dentre outros, os livros de poemas Matemágica  (1972), As margens do corpo (1978),  Nas águas do Jequitinhonha (1980), Senhora do mundo (1984), e os livros de ficção Paixão em preto e branco (2001), Ana e Pedro e A última sessão de cinema (1986). No final dos anos 60, participou, ao lado de Fábio Madureira, Léa Nilce Mesquita, Magda Frediani, Edgard Pereira (I myself), Regina Souza  e Maria Ignez Portugal, do tablóide literário Talupa, criado nos corredores da Faculdade de Letras da UFMG.

    Diálogo

    a guerra é antes
    o silêncio dúbio
    da paz
    a bomba é antes
    um lindo traço
    no azul
    o diálogo é antes
    um grande conflito
    do silêncio
    a liberdade é antes
    uma grande vontade
    de palavra
    o agora é antes
    uma véspera tardia
    do amanhã

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Álvaro Lins

 

       Álvaro Lins surge como crítico literário no final da década de 1930, na esteira da publicação do renomado História literária de Eça de Queiroz (1939), escrito aos 25 anos, coroando os artigos publicados no Diário da manhã do Recife. Assim o fotografa Alfredo Bosi: “Álvaro Lins (1912-1970) foi, entre 40 e 60, um dos nossos críticos mais ativos e percucientes, muito próximo do modo de ler dos franceses pelo gosto da análise psicológica e moral (Jornal de crítica, 9 vols)” [1]. Pioneiro da crítica militante no Brasil, em contexto de rica produção na área, convive com especialistas de envergadura, como Sérgio Milliet, Antônio Candido, Sérgio Buarque de Holanda, Brito Broca, Oscar Mendes, Eduardo Frieiro, Olívio Montenegro, Augusto Meyer, Agripino Grieco, Tristão de Ataíde, Wilson Martins, Adonias Filho. Estes  intelectuais eram os responsáveis pela crítica literária em jornais de São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e, em especial, no Rio de Janeiro, onde Álvaro Lins publica ensaios e resenhas no Diário de notícias e Diários associados.

      Literatura e vida literária, com o subtítulo “Notas de um Diário de crítica”, recolhe depoimentos, confissões, análises, impressões de leitura e reflexões sobre assuntos literários. O livro agrega matéria que complementa a caudalosa série Jornal de crítica, em fragmentos numerados. Comentando a revitalização do interesse pela forma, pelo estilo, observada na evolução do Modernismo, escreve no fragmento XLII: “Que o modernismo, num determinado momento de ímpeto e combate, realizasse verdadeiras aventuras de linguagem e de estilo – isto parece legítimo pelo seu caráter de lida com a necessidade vital de destruição. Mas não será legítimo o propósito de tomar como norma no absoluto, um objetivo momentâneo que fora apenas uma utilíssima e inteligente tática de batalha. (...) O verdadeiro estilo, o que resiste ao olho e à análise de todos os homens, em todos os tempos, este se forma no interior, cristaliza-se com a própria ideia que vai exprimir, completa-se, numa unidade orgânica, com o próprio ser artístico do qual emana.”  No registro CCLXVII, discute elementos articulados à construção do romance: “Ideias não valem, no romance, como abstrações teóricas, sim como móveis das ações dos personagens. As ideias do romance são ideias encarnadas em seres vivos. Este perigo, no entanto, não está ainda diante de nós; não devemos combater moinhos de vento. Ideias não são coisas muito abundantes no romance brasileiro, quase todo feito de sentimentos e observações de costumes.” Ao terminar o livro sobre Eça de Queiroz, anota: “Preocupei-me às vezes em saber que lição haveria a extrair da sua obra. Preocupação inútil. Deveria logo ter compreendido que não haveria ‘ensinamentos’ na sua arte, porque deixar lições ou teorias não será de modo nenhum a missão de um verdadeiro artista. O que há a aproveitar em Eça, além da sua arte, em si mesma, é o exemplo do artista, bem necessário nos tempos de hoje. O exemplo de uma vida inteira dedicada aos ideais da literatura; a concepção da arte colocada num plano de seriedade, de dignidade, de trabalho, que está hoje cada vez mais rara (CXXVI)”.

 

LINS, Álvaro. Literatura e vida literária. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.



[1] BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970, p. 541.



terça-feira, 1 de julho de 2025

Afonso Arinos de Melo Franco

 

       O livro de Afonso Arinos M. Franco, Amor à Roma, um tijolão de 520 páginas, atrai o leitor por diversas razões, a relevância histórica, o pendor da erudição, a paixão pela cidade eterna, a curiosidade sobre o reinado dos papas, o entrecruzamento de focos e perspectivas. O autor refere as origens históricas da cidade, no século quinto, as invasões de bárbaros de múltiplas colorações, atraídos pela riqueza e importância da urbe. Cita os fatores favoráveis à descoberta e ao fascínio pelo tema: a viagem, quando era moço, a Roma, no ano de 1925. O interesse pela história de Roma se entrecruza com o conhecimento de alguns diplomatas e intelectuais, como o autor de Procelárias, 1898, livro de versos de Magalhães Azeredo, que viria a ser o primeiro embaixador do Brasil na Santa Sé. Nas primeiras páginas, dedica-se a explicitar a natureza do amor a Roma. “O traço comum, que permite a variedade, consiste em que o amoroso de Roma não se transfere para dentro da Cidade, antes transfere a Cidade para dentro de si. De resto, como transportar-se para ambiente tão vário no tempo, tão variado nas formas? Em que Roma se integrar, em qual delas identificar a representação global de todas, válida para um determinado gosto ou temperamento?” (p.25). Seu fascínio pela cidade dialoga com o de outros intelectuais que também sucumbiram à sedução pela cidade, tendo escrito sobre ela, Montaigne, Taine, Des Brosses, Chateaubriand, Stendhal, Goethe, Byron.

       O autor, à medida que expõe os motivos pelos quais se encanta pela cidade, mergulha em sua história e na história dos cardeais e dos papas, sobre os quais se esmera em tecer a cronologia, os principais eventos e juízos. A matéria pesquisada revela-se pródiga em curiosidades, referência às grandes obras executadas, o interesse de marcar cada reinado com construções magníficas e marcantes. Não ficam de fora os escândalos famosos, a evolução de grandes artistas que contribuíram para a grandeza arquitetônica do Vaticano, ao longo dos tempos. Mais do que fria descrição dos monumentos romanos, o livro constitui um esforço em captar o espírito de Roma, a “complexa e indefinível primazia de Roma em muitos setores da História” (p. 488). Paralela à corte papal, florescia outra, a corte frívola das famílias da nobreza italiana ou europeia, com seus casos de ascensão e decadência, as rivalidades entre poderosos e nobres, a competição entre protegidos e fidalgotes. Enumera os grandes beneméritos de Roma: Júlio II, Leão X, Paulo III Farnese, Paulo V Borghese. Dentre as passagens mais expressivas, citem-se as páginas sobre a presença do Padre Antônio Vieira em Roma, à altura dos anos de 1671 a 1675, comentários sobre alguns sermões e cartas, sua aproximação à Rainha Cristina da Rússia, as evocações literárias envolvendo Stendhal, os capítulos dedicados à atuação de Napoleão Bonaparte, os eventos relacionados à família Borghese, as referências às obras de Bernini, as digressões gerais em torno da efervescência artística no âmbito do Renascimento.



FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Amor a Roma. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

domingo, 15 de junho de 2025

MATINÊ DE SÁBADO - LANÇAMENTO

Lançamento dia 16 de junho de 2025 a partir das 19h.

Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais
Praça da Liberdade, 21 - Belo Horizonte - MG, 30140-010


 

MATUTANDO SOBRE MATINÊ DE SÁBADO - Resenha de Caio Junqueira Maciel

 

MATUTANDO SOBRE MATINÊ DE SÁBADO


Caio Junqueira Maciel



       Há uns tempos li textos críticos de Silviano Santiago em obra denominada Aos sábados, pela manhã. Agora recebo de Edgard Pereira Matinê de sábado, contendo artigos e ensaios de Literatura. O título vem explicado na epígrafe: “Quando leio alguns livros, um filme passa-me pela cabeça.” E, se compararmos livros a filmes, cumpre destacar que o autor não segue apenas os Fellinis, Pasolinis, John Fords, pois não se prende apenas ao cânone: “Produzir crítica literária corresponde a optar por uma escrita de segunda grau, acerca de um texto, seja de um autor canônico, ou de alguém que merece ser reconhecido” (p.11). O saudoso professor Antônio Sérgio Bueno me disse certa vez que livro de ensaios não se lê de um só fôlego: ele deve descansar na estante e ser beliscado aos poucos. Com todo respeito à memória desse grande estudioso da Literatura, mas não acatei seu conselho: li as mais de 200 páginas da obra em poucos dias, e buscarei ser breve para abordar os filmes que também vi passar. Edgard Pereira foi professor de Literatura Portuguesa na UFMG, possui livros de ensaios, de contos e romances. Não é apenas um teórico: sabe das filigranas da ficção e, como crítico, sua intenção é a de “fugir de piruetas conceituais, descrever o material consultado, enquadrando-o no gênero a que pertence, desvendando-lhe as estratégias e interesses estéticos. [...] A intencional mistura de autores canônicos e estreantes atende a uma ideia de partilha do patrimônio literário” (p.16). E obtém com maestria tal intenção, sem enfadar o leitor, pois não se vale de um vocabulário demasiado técnico, exclusivo dos experts. Seu livro pode ser acolhido tanto por professores, estudantes e apreciadores da boa Literatura.

       Na introdução, atravessada por vozes de vários críticos, debate-se a ideia de nacionalidade, que não deve ser tratada “como fato exclusivo, mas como ingrediente no conjunto dos elementos para a compreensão da obra literária” (p.12). Há referência a um artigo de Adonias Filho, ironizando o então jovem crítico Antonio Candido, já preocupado com aspectos sociais em detrimento do intimismo (p.13). Edgard faz sua profissão de fé: “Considero a crítica como uma atividade propulsora de cultura, ao despertar o interesse pela produção literária em dado contexto. [...] O ato de ler compreende um diálogo a várias vozes” (p.14). O livro é constituído por 32 artigos e ensaios, uns curtos, outros mais longos, nos quais o autor dá beliscadas, beliscões e algumas carícias. A primeira parte, “No jardim das musas”, contempla poesia, dando relevo à presença de Minas e diálogo com a cultura portuguesa. Mas o primeiro texto, sobre Bruno Tolentino, foge desses vetores. Esse polêmico poeta é responsável pelo beliscão que dá em Paulo Leminski, cuja poesia não passa de ““versalhada instantânea e rimas de muleta” (p.19). Edgard aborda A invenção do amanhecer, que considera, “dentre os livros de amor escritos no Brasil, o mais elaborado, ousado, complexo e vigoroso” (p.21). Outros poetas contemplados na primeira seção: Márcio Almeida, com o livro Vesânia, interessado em “entender a sobrevivência do indivíduo orgânico, histórico” (p.25); Geraldo Reis com o livro Pastoral de Minas, que possui “estrutura orgânica e significativa [...] “não se afasta da consciência da História” (p.29); Oswaldo André de Mello, com Imagens imorredouras, poesia de “tonalidades neossimbolistas”, com versos discursivos, vertente erótica, apelo místico e metapoesia (p.31); Anelito de Oliveira, com Desforra, em que “o poeta de múltiplas facetas revela-se um arauto de sujeitos maltrapilhos” e faz “denúncia da degradante condição humana” (p.33). Edgard, afeito à cultura portuguesa, também faz rápida abordagem de uma antologia de poetas brasileiros publicada em Portugal, Oiro de Minas, organizada por Prisca Agustoni, integrando autores como Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Júlio Polidoro, Edimilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson Freitas, Wilmar Silva, Fabrício Marques. Alguns nexos são esboçados na análise de expressivas poéticas contemporâneas, como a procura do cotidiano, a vertente erótica e o risco de a adesão ao social se impregnar de tons panfletários. O ensaio mais longo é dedicado a poetas crepusculares, como Fernando Pessoa e os brasileiros Ernâni Rosas e Cruz e Souza. A vertente lusa aparece ainda no poemeto épico de Olavo Bilac intitulado “Sagres”, sobre o isolamento reflexivo do Infante d. Henrique (1394-1460). Há o elogio ao paradigma da castidade feito por poeta marcado por ardente sensualismo. Edgard destaca “a força transfiguradora do sonho como instância das grandes realizações coletivas” (p.67) e o elo com Mensagem, de Fernando Pessoa.

       A segunda seção da sessão dessa Matinê de sábado intitula-se “Entre o passeio público e o sertão”, com 23 textos abordando romances e contos. Há autores de linha intimista e psicológica como José Geraldo Vieira, Marques Rebelo, Lúcio Cardoso, Cornélio Penna, Octávio de Faria. Adonias Filho. Saliento o ensaio sobre “Guimarães Rosa: sertão e narrativas transgressores”: a “ambiguidade erótica” da narrativa, “os polos antitéticos da atração e da repulsa”, “a duplicidade entre o jagunço e a donzela, o demoníaco e o divino” chamam atenção para a rasura da crítica frente ao componente homoerótico, que reflete repressão imposta aos estudos sobre sexualidade; exemplificando com o episódio do morto esquecido dentro da igreja, esboço fantasmático da união entre os protagonistas Riobaldo e Diadorim. Merecem acurada atenção romances como Os servos da morte, de Adonias Filho e Os tambores de São Luís, de Josué Montello, onde há “descrições poéticas sugestivas” e “o sofrido processo da assimilação racial”. Há estudos sobre João Ubaldo Ribeiro de Viva o povo brasileiro, com ênfase à linguagem polifônica, num romance que dialoga com a epopeia. Edney Silvestre em Se eu fechar os olhos agora; Wilson Bueno, em A noite está velha. Além de Guimarães Rosa, outros prosadores mineiros estão na tela da matinê de Edgard: Rui Mourão, com Mergulho na região do espanto, Benito Barreto com sua tetralogia Saga do caminho novo, coincidentemente estou a ler o primeiro volume, Os idos de maio (e não de março, como se vê no cesariano equívoco na nota bibliográfica). Adélia Prado é estudada em Os componentes da banda. Maria José de Queiroz com Homem de sete partidas. Jéter Neves em Fratura externa. E até um certo Caio Junqueira Maciel, em Um estranho no Minho, abordado como exemplo de prosa picaresca, como também Sérgio Mudado e Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta. Luiz Fernando Emediato, com o conjunto de contos reunidos em Trevas do paraíso, “escritos no calor da repressão política, os contos não perderam o frescor e a rebeldia juvenil, nota inconfundível nessa ficção” (p.187).

       Além de Adélia Prado, outras escritoras são estrelas dessa matinê: Nélida Piñon e A república dos sonhos; Maria Adelaide Amaral e Aos meus amigos, que me despertou a vontade de conhecer este “amplo, consistente e ousado mosaico no contexto opressor da ditadura” (p.153); Adriana Lisboa de Azul-corvo. Constam, também, análises de ficções pós-modernas como Fios de Ícaro, de Evaldo Balbino, e Paradoxias, de Luiz Eustáquio Soares. Conclui a sessão e a seção um voo panorâmico sobre o moderno romance brasileiro. Destaque para as obras de Érico Veríssimo, Autran Dourado e Clarice Lispector. Edgard Pereira compartilha sua leitura com seus leitores, provoca nosso desejo de conhecer ainda mais os nossos autores. E, se tal volume de textos abordados chega a dar a impressões de pontos ou manchas isolados, lembremos do que disse Marques Rebelo, em A guerra está em nós, citado por na p. 82, “[...] verão que os interstícios são ilusórios, pura habilidade do artista familiarizado com o pincel do pontilhismo, que as manchas, longe de se repelirem, se fundem coerentemente num quadro só – o quadro que eu desejo.” O certo é que essa matinê, provocando nossos desejos, nos leva a muito matutar sobre as letras que cobrem nossas fatigadas retinas de domingo e sábado.



PEREIRA, Edgard. Matinê de sábado: artigos e ensaios de Literatura. Curitiba: Appris Editora, 2025.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Gilberto Amado e Gilberto Freire

  Nas horas de desalento em relação à vida literária, conforto-me em companhia de livros de dois autores, mestres na construção de uma linguagem límpida, radiosa de esplendor, simultaneamente erudita e dinâmica, fluida, refinada. Motivo suficiente para voltar a reler a obra por eles produzida. Refiro-me a dois Gilbertos nordestinos, dois renomados escritores, um extremamente orgulhoso, o sergipano Gilberto Amado, outro extremamente vaidoso, o pernambucano Gilberto Freire. Com as respectivas obras, O grão de areia A Chave de Salomão, do primeiro; Sobrados e mocambos e Casa grande & Senzala, do segundo.

       Os diários de Josué Montello registram, em vários recortes, os traços característicos dos dois autores. 


       “Com o alto juízo que fazia de si mesmo, e que deixava transparecer e fazia sentir, Gilberto Amado valia por um bom exemplo do mestre orgulhoso, enquanto o outro Gilberto, o Gilberto Freyre, era bem o protótipo do mestre vaidoso. O primeiro, no tirocínio da vida pública, encastelava-se no alto juízo de seu gênio, como se dispensasse o louvor alheio. Gilberto Freyre, não: ia buscar o louvor. Chegava mesmo a requestá-lo. Ia ao seu encontro. Precisava dele. Como oxigênio para os seus pulmões. Dilatava as narinas para recolhê-lo. Como a comprazer-se enchendo o peito”. (MONTELLO, 1994, P. 27).


MONTELLO, Josué. Diário da noite iluminada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.


                                                              (Foto de Gilberto Freire: Escola UOL)
                                                                (Foto de Gilberto Amado: UFPE)