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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Fábio Silvestre Cardoso

       Livro do mês:

       Geralmente, as biografias sobre personagens históricos, no Brasil, sempre tiveram foco nas grandes figuras. Tendo em conta atuação vigorosa e intensa, à sombra de uma personalidade fortíssima, no passado recente, Gustavo Capanema constitui uma exceção à regra. Acaba de sair mais uma biografia do mineiro de Pitangui, cidade no centro oeste de Minas Gerais, Capanema: a história do ministro da Educação que atraiu intelectuais, tentou controlar o poder e sobreviveu à Era Vargas, de Fábio Silvestre Cardoso.
       Alguns aspectos do contexto são sobejamente conhecidos, a qualquer pessoa interessada em fatos históricos. Capanema foi o ministro da Educação que mais tempo ficou à frente do cargo, ou seja, de julho de 1934 a outubro de 1945, onze anos pregados. Sua gestão nesta pasta, no período do Estado Novo, tem sido objeto de inúmeras análises, no âmbito da cooptação dos intelectuais com o poder autoritário. Seu chefe de gabinete foi ninguém menos que o poeta Carlos Drummond de Andrade, circunstância por si só capaz de gerar uma série de suposições e constrangimentos. Daí, a urgência de reconhecer um aforismo famoso, atribuído a José Ortega y Gasset, que diz: “eu sou eu e minhas circunstâncias”. O autor desta biografia mostra sensibilidade para perceber que Gustavo Capanema atuou no Estado Novo, “sem nenhum prejuízo de sua consciência”: “Esse dado é importante porque é indicativo de como em um determinado período histórico do país a elite cultural soube harmonizar com a elite política sem nenhum prejuízo de sua consciência, sempre lastreadas nos laços de amizade” (CARDOSO, 2019, 222). Capanema teve sua trajetória política associada duas vezes à hegemonia de Vargas: à época do Estado Novo (1934-1945) e na presidência da República (1951-1954). Os principais eventos ligados à gestão de Capanema, dotado de uma postura reacionária atávica ou instintiva, são abordados com detalhes e acuidade, incluindo a construção do prédio do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro, com o envolvimento direto de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Dentre várias, esta reflexão de Fábio S. Cardoso merece destaque: “...afinal, os mesmos escritores e artistas que ousaram na criatividade, como Carlos Drummond de Andrade, Candido Portinari, Oscar Niemeyer, Heitor Villa-Lobos, Roberto Burle Marx, Bruno Giorgi, Lucio Costa, entre outros, no contexto político do Brasil da década de 1930, estiveram ao lado de Gustavo Capanema e, por extensão, ajudaram a forjar o consenso político em torno de Getúlio Vargas. Também é possível assinalar que, ainda hoje, são esses mesmos artistas e pensadores os responsáveis por certa idealização do governo Vargas. Ou, por outra, tem-se a imagem de que o governo Vargas, apesar de autoritário, manteve um ambiente cultural próprio para a manifestação da criatividade que deu tons definitivos para o modernismo no Brasil” (CARDOSO, 2019, 116). Muitos o consideram mais um Ministro da Cultura do que da Educação e Saúde (fundação do Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico Nacional, IPHAN, e do Instituto Nacional do Livro, em 1937).
       Outro episódio polêmico, a Revolução de 1930, recebe um tratamento matizado, capaz de auferir sua complexidade e a capacidade de alterar os rumos da política nacional, no sentido de renovar os quadros da República Velha e modernizar a economia do país. Na segunda ascensão política de Getúlio Vargas, quando é eleito presidente em 1950, Capanema, eleito deputado, graças ao apoio de Vargas, desempenha a função de liderar o governo na Câmara dos Deputados, noutra época conturbada, de veemente oposição, liderada por Carlos Lacerda. Na avaliação quase unânime de seus pares, Capanema era um político tímido, adepto de valores católicos, bem intencionado, embora desprovido de agressividade, talvez necessária, em momentos de grave turbulência, como no caso do atentado a Lacerda, em 1954, e seus desdobramentos.
       Alguns reparos, que, no entanto, pouco turvam o conjunto da pesquisa em questão.
       Primeiro. Fábio S. Cardoso sugere que Gustavo Capanema teria assinado o famoso Manifesto dos Mineiros, em 1943. Não assinou, pela simples fato de que, no momento, era Ministro de Vargas. O Manifesto é um documento contundente e erudito, que reivindica economia liberal, democracia efetiva e liberdade de expressão, contrário ao Estado Novo. Fica a impressão de que desconhece a íntegra do texto. Duas passagens do Manifesto dos Mineiros, articulado por Luiz Camilo de Oliveira Neto e Virgílio de Melo Franco: “Queremos liberdade de pensamento político. (…) Mas, para que a democracia produza frutos, é necessário que o homem da rua e o das classes dirigentes possuam o mesmo apurado sentido de bem comum e a mesma ardente e abnegada ambição de servir. Do contrário seria mera aparência”. Seria interessante aventar a hipótese de que um dos articuladores, Virgílio de Melo Franco, era um dos indicados a interventor em Minas Gerais, em 1930, ao lado de Gustavo Capanema. Getúlio não escolheu nem um nem outro, mas o jovem político Benedito Valadares, que não era cogitado, dando margem à célebre frase: “Será o Benedito?” O historiador João Camilo de Oliveira Torres, que transcreve o Manifesto, (História de Minas Gerais), não endossa a assinatura de Capanema.
       Segundo reparo. Ao comentar a campanha de Juscelino Kubitschek à Academia Brasileira de Letras, Fábio Cardoso afirma que Bernardo Élis, com o nome grafado erroneamente, o romancista que venceu a disputa, era baiano - “mas seu adversário, o baiano Bernardo Ellis, era autor de doze livros de romance e de poesia”, (CARDOSO, 2019,363). Bernardo Élis, o autor do notável romance O Tronco, era goiano.
       Terceiro. Algumas falhas de revisão passaram, aliadas a certo açodamento no uso das convenções gramaticais, como o uso esdrúxulo de regências verbais e o cometimento de construções truncadas e ilegíveis (por exemplo, uma frase confusa à página 288).

CARDOSO, Fábio Silvestre. Capanema: a história do ministro da Educação que atraiu intelectuais, tentou controlar o poder e sobreviveu à Era Vargas. Rio de Janeiro: Record, 2019.

TORRES, João Camilo de Oliveira. História de Minas Gerais. Vº vol. Belo Horizonte: Difusão Pan-Americana do Livro, 1962.




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