Geralmente,
as biografias sobre personagens históricos, no Brasil, sempre
tiveram foco nas grandes figuras. Tendo em conta atuação vigorosa e intensa, à sombra de uma personalidade fortíssima, no passado
recente, Gustavo Capanema constitui uma exceção à regra. Acaba de
sair mais uma biografia do mineiro de Pitangui, cidade no centro
oeste de Minas Gerais, Capanema: a
história do ministro da Educação que atraiu intelectuais, tentou
controlar
o poder e sobreviveu à Era Vargas, de Fábio Silvestre
Cardoso.
Alguns
aspectos do contexto são
sobejamente conhecidos, a qualquer pessoa interessada em fatos
históricos. Capanema foi o ministro da Educação que mais tempo
ficou à frente do cargo, ou seja, de julho de 1934 a outubro de
1945, onze anos pregados. Sua gestão nesta pasta, no período do
Estado Novo, tem sido objeto de inúmeras análises, no âmbito da
cooptação dos intelectuais com o poder autoritário. Seu chefe de
gabinete foi ninguém menos que o poeta Carlos Drummond de Andrade,
circunstância por si só capaz de gerar uma série de suposições
e constrangimentos. Daí, a
urgência de reconhecer um aforismo famoso,
atribuído a José Ortega y
Gasset, que diz: “eu sou eu
e minhas circunstâncias”. O
autor desta biografia mostra sensibilidade para perceber que Gustavo
Capanema atuou no Estado Novo, “sem nenhum prejuízo de sua
consciência”: “Esse dado
é importante porque é indicativo de como em um determinado período
histórico do país a elite cultural soube harmonizar com a elite
política sem nenhum prejuízo de sua consciência, sempre lastreadas
nos laços de amizade” (CARDOSO, 2019, 222). Capanema
teve sua trajetória política associada duas vezes à hegemonia de
Vargas: à época do Estado Novo (1934-1945) e na presidência da
República (1951-1954). Os
principais eventos ligados à gestão de Capanema, dotado
de uma postura reacionária atávica ou instintiva,
são abordados com detalhes e acuidade, incluindo a construção do
prédio do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro, com
o envolvimento direto de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Dentre
várias, esta reflexão de Fábio S. Cardoso merece destaque:
“...afinal, os mesmos escritores e artistas que ousaram
na criatividade, como Carlos Drummond de Andrade, Candido Portinari,
Oscar Niemeyer, Heitor Villa-Lobos, Roberto Burle Marx, Bruno Giorgi,
Lucio Costa, entre outros, no contexto político do Brasil da década
de 1930, estiveram ao lado de Gustavo Capanema e, por extensão,
ajudaram a forjar o consenso político em torno de Getúlio Vargas.
Também é
possível assinalar que, ainda hoje, são esses mesmos artistas e
pensadores os responsáveis por certa idealização do governo
Vargas. Ou, por outra, tem-se a imagem de que o governo Vargas,
apesar
de autoritário, manteve um ambiente cultural próprio para a
manifestação da criatividade que deu
tons definitivos para o modernismo no Brasil” (CARDOSO, 2019, 116). Muitos o consideram mais um Ministro da Cultura do que da Educação e Saúde (fundação do Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico Nacional, IPHAN, e do Instituto Nacional do Livro, em 1937).
Outro
episódio polêmico, a Revolução de 1930, recebe um tratamento
matizado, capaz de auferir sua complexidade e a capacidade de alterar
os rumos da política nacional, no sentido de renovar os quadros da
República Velha e modernizar a economia do país. Na
segunda ascensão política de Getúlio Vargas, quando é eleito
presidente em 1950, Capanema, eleito deputado, graças ao apoio de
Vargas, desempenha a função
de liderar o governo na Câmara dos Deputados, noutra época
conturbada, de veemente oposição, liderada por Carlos Lacerda. Na
avaliação quase unânime de seus pares, Capanema era um político
tímido, adepto de valores católicos, bem
intencionado, embora
desprovido de agressividade, talvez
necessária, em momentos de grave turbulência, como no caso do
atentado a Lacerda, em 1954, e seus desdobramentos.
Alguns
reparos, que, no entanto,
pouco turvam o conjunto da
pesquisa em questão.
Primeiro.
Fábio S. Cardoso sugere que
Gustavo Capanema teria assinado o famoso Manifesto dos Mineiros, em
1943. Não assinou, pela simples fato
de que, no momento, era Ministro de Vargas. O Manifesto é um
documento contundente e erudito, que reivindica economia liberal,
democracia efetiva e liberdade de expressão, contrário ao Estado Novo. Fica
a impressão de que desconhece a íntegra do texto. Duas passagens do Manifesto dos Mineiros, articulado por Luiz Camilo
de Oliveira Neto e Virgílio de Melo Franco: “Queremos liberdade de
pensamento político. (…) Mas, para que a democracia produza
frutos, é necessário que o homem da rua e o das classes dirigentes
possuam o mesmo apurado sentido de bem comum e a mesma ardente e
abnegada ambição de servir. Do contrário seria mera aparência”.
Seria interessante aventar a hipótese de que um dos articuladores,
Virgílio de Melo Franco, era um dos indicados a interventor em Minas
Gerais, em 1930, ao lado de Gustavo Capanema. Getúlio não escolheu nem um nem outro, mas o
jovem político Benedito Valadares, que
não era cogitado, dando
margem à célebre frase: “Será o Benedito?” O
historiador João Camilo de Oliveira Torres, que transcreve o
Manifesto, (História de Minas Gerais),
não endossa a assinatura de Capanema.
Segundo
reparo. Ao comentar a campanha de Juscelino Kubitschek
à Academia Brasileira
de Letras, Fábio Cardoso afirma que Bernardo Élis, com
o nome grafado erroneamente,
o romancista que venceu a disputa, era baiano - “mas
seu adversário, o baiano Bernardo Ellis, era autor de doze livros de
romance e de poesia”, (CARDOSO,
2019,363). Bernardo Élis, o
autor do notável romance O Tronco,
era goiano.
Terceiro.
Algumas falhas de revisão passaram, aliadas a certo açodamento no
uso das convenções gramaticais, como o uso esdrúxulo de regências
verbais e o cometimento de construções truncadas e ilegíveis (por
exemplo, uma frase confusa à página 288).
CARDOSO,
Fábio Silvestre. Capanema: a
história do ministro da Educação que atraiu intelectuais, tentou
controlar
o poder e sobreviveu à Era Vargas. Rio
de Janeiro: Record, 2019.
TORRES,
João Camilo de Oliveira. História de Minas Gerais. Vº
vol. Belo Horizonte: Difusão
Pan-Americana do Livro, 1962.

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