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quinta-feira, 7 de março de 2019

Fernando Jorge



                                             
                                               
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      A Academia do fardão e da confusão é um livro de agradável leitura, em que pese seu tom um tanto raivoso. Fernando Jorge mergulha na história da ABL, com nítida atenção aos detalhes, reverenciando os grandes nomes que lá passaram, pondo a nu as desavenças internas (Ledo Ivo/ Eduardo Portella), o ambiente de intrigas e de compadrio. Sem criticar  nomes consagrados pela qualidade da obra e das opções assumidas, (Machado de Assis, Olavo Bilac, Graça Aranha, Tristão de Athayde, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa), não deixa de fustigar a grande maioria dos imortais. O interesse explorado pelo autor reside justamente em divulgar a rotina de conchavos, os bastidores de algumas premiações, plágios constantes, a estreita proximidade entre as personalidades políticas e literárias, os ataques recíprocos entre os candidatos ao Sodalício, o baixo nível observado em inúmeras eleições, ao longo dos tempos. Em suma, com raríssimas exceções, na ótica de Fernando Jorge, os autoproclamados imortais não passam de autores medíocres, despreparados, fragorosas inutilidades, sem talento algum (Gustavo Barroso, Osvaldo Orico, J. Carlos Macedo Soares,Viriato Correia, João Luís Alves, Ataulfo de Paiva, Osório Duque Estrada, Cláudio de Sousa, Celso Furtado e mais de uma dezena de nomes). Nesse lugar em que o mútuo elogio se tornou norma ("entreposto de ambições". no dizer de Ledo Ivo), salvam-se raros escritores dignos de pertencer à emblemática casa de Machado de Assis. Alguns autores são maltratados com impiedade injustificável, tendo em vista o seu suposto descompromisso pela liberdade de expressão, na época da ditadura (Josué Montello, Austregésilo de Athayde), ou por conta de idiossincrasia pessoal em relação à autora de Fundador (Nélida Piñon, acusada de precário domínio estilístico e gramatical).
     Ao lado da crônica demolidora, a indignação do autor volta-se contra a ABL em duas vertentes principais: o emudecimento em face das prisões injustificáveis de Monteiro Lobato e Graciliano Ramos e diante dos atos de violência praticados nos anos 70 contra a imprensa e jornalistas pelo Governo militar. "As curvaturas da casa em frente dos militares, os seus salamaleques ao ver fardas, botas e rebenques, o seu silêncio nauseabundo perante as apreensões de livros, sempre me causaram nojo, engulhos, ânsias de vômito" (JORGE, 1999,338). Fernando Jorge corrige o português de alguns escritores, mas comete também seus erros, como na pág. 211: "Vá ter mal gosto assim lá na casa da mãe Joana!". O correto seria "mau gosto".


JORGE, Fernando. A Academia do fardão e da confusão. São Paulo: Geração Editorial, 1999.
     

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