O poeta
Osvaldo André de Mello, que acaba de dar a lume este Imagens imorredouras (2018),
difere do adolescente que estreou com A palavra inicial (1969), sem, no entanto, dele
muito se afastar. Lá atrás, apresentava-se um jovem talentoso, como uma
promessa. No contexto atual, defrontamo-nos com um poeta maduro, esbanjando
maestria no domínio dos recursos do verso, com uma obra plenamente inserida no
cânone da poesia brasileira contemporânea. Se no passado se registra o elogio
de Carlos Drummond de Andrade, garantia de qualidade artesanal, ao lado de
outros nomes consolidados, nos dias que correm sua produção vem acompanhada de
considerável fortuna crítica.
Dados como
esse precisam ser trazidos à baila, para fundamentar uma paleta de juízos, avaliações
e esboços complementares, numa perspectiva histórica quase sempre deixada em
segundo plano. O que germinava como voz tosca e ousada hoje ombreia com um rol
de poetas representativos, no alargado tecido da poesia produzida nos últimos
cinquenta anos. Osvaldo André de Mello tem sido perfilado entre os autores que
optaram por um percurso produtivo nas trilhas do verso discursivo, cujos pares
sempre se mostraram recetivos à linhagem de uma dicção subjetiva, uma vigilante
fatura melódica e uma densa espessura simbólica, que teve expoentes com Lúcio
Cardoso, Vinícius de Morais, Henriqueta Lisboa, Walmir Ayala, Emílio Moura,
Alphonsus de Guimarães Filho, Ledo Ivo, além dos mais próximos, Roberto Piva,
Hilda Hilst, Armando Freitas Filho, Eustáquio Gorgone de Oliveira, Iacyr
Anderson, Antônio Cícero, Geraldo Reis, Adélia Prado.
O autor de Imagens
imorredouras foi incorporando por vezes, ao longo dos anos, um vocabulário
de tendência especiosa e romântica, traço que, se de um lado, releva a
seriedade devotada ao ofício da escrita, espécie de escudo diante da banalidade
circundante, penosa e abusiva, por outro o filia a uma linha de tradição com
indisfarçável escala entre os autores instalados numa tradição de tonalidades
neossimbolistas. Dessa forma, não será de surpreender a presença, em seus
poemas, de “ideias ínsitas”, “músicas estrídulas”, “coxim”, “primevo”,
“cômpares”, “evanescências”, “luminescências”, “orgone”, “arbúnculos”, trazendo
um certo ar solene, passadiço. Tendo estreado no fim da década de sessenta, do
século passado, Osvaldo André surge egresso de uma geração que, segundo Affonso
Romano de Sant’Anna, cresceu “emparedada de um lado por Drummond e Cabral, e de
outro pelos concretos” (1).
Diante de uma produção diversificada, como é o seu caso, não se deve ignorar,
também, a presença de uma temática fincada na história e tradição mineiras, a
expansão do veio descritivo, a limpidez do discurso, além do cuidado em se
distanciar de certas expressões de platitudes líricas, como seja o uso de
símiles exclamativos.
Imagens imorredouras, oitava coletânea
poética do autor, provém de peça de igual título, desentranhada do livro Lua
nova (2014). Esta recorrência é bastante significativa numa produção em que
alguns motivos se delineiam, tais como a busca da beleza, o patrimônio
artístico de Minas, o enlevo e os sobressaltos da experiência amorosa, o
misterioso ofício de viver, a integração na natureza, a tentativa de
compreensão do significado da arte. Um eu dilacerado, emoldurado por uma nesga
de transcendência, instância declarativa que se espraia em desdobramentos mais
ou menos fugidios, numa teia de imagens veladas e indiretas. Talvez fosse mais
apropriado dizer: modos e enunciados que por vezes se interpenetram,
entrecruzam-se. Dotados de sugestões luminosas, os poemas dialogam entre si,
sobretudo aqueles que se debruçam sobre a natureza polivalente da linguagem,
com o selo de uma coerência interna mantida acesa, de tal sorte que a dimensão
telúrica aflora - “todos os
objetos se dissolvem / e me descubro uma peça da natureza / como as plantas ou
os pássaros” (“Alegria”). (...)
1. SANT’ANNA, Affonso Romano de. Apud
MORICONI, Ítalo. Como e porque ler a poesia brasileira do séc. XX. Rio
de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 125.

Nenhum comentário:
Postar um comentário