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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Osvaldo André de Mello


        Livro do mês: Imagens imorredouras

            O poeta Osvaldo André de Mello, que acaba de dar a lume este Imagens imorredouras (2018), difere do adolescente que estreou com A palavra inicial (1969), sem, no entanto, dele muito se afastar. Lá atrás, apresentava-se um jovem talentoso, como uma promessa. No contexto atual, defrontamo-nos com um poeta maduro, esbanjando maestria no domínio dos recursos do verso, com uma obra plenamente inserida no cânone da poesia brasileira contemporânea. Se no passado se registra o elogio de Carlos Drummond de Andrade, garantia de qualidade artesanal, ao lado de outros nomes consolidados, nos dias que correm sua produção vem acompanhada de considerável fortuna crítica.
            Dados como esse precisam ser trazidos à baila, para fundamentar uma paleta de juízos, avaliações e esboços complementares, numa perspectiva histórica quase sempre deixada em segundo plano. O que germinava como voz tosca e ousada hoje ombreia com um rol de poetas representativos, no alargado tecido da poesia produzida nos últimos cinquenta anos. Osvaldo André de Mello tem sido perfilado entre os autores que optaram por um percurso produtivo nas trilhas do verso discursivo, cujos pares sempre se mostraram recetivos à linhagem de uma dicção subjetiva, uma vigilante fatura melódica e uma densa espessura simbólica, que teve expoentes com Lúcio Cardoso, Vinícius de Morais, Henriqueta Lisboa, Walmir Ayala, Emílio Moura, Alphonsus de Guimarães Filho, Ledo Ivo, além dos mais próximos, Roberto Piva, Hilda Hilst, Armando Freitas Filho, Eustáquio Gorgone de Oliveira, Iacyr Anderson, Antônio Cícero, Geraldo Reis, Adélia Prado.
            O autor de Imagens imorredouras foi incorporando por vezes, ao longo dos anos, um vocabulário de tendência especiosa e romântica, traço que, se de um lado, releva a seriedade devotada ao ofício da escrita, espécie de escudo diante da banalidade circundante, penosa e abusiva, por outro o filia a uma linha de tradição com indisfarçável escala entre os autores instalados numa tradição de tonalidades neossimbolistas. Dessa forma, não será de surpreender a presença, em seus poemas, de “ideias ínsitas”, “músicas estrídulas”, “coxim”, “primevo”, “cômpares”, “evanescências”, “luminescências”, “orgone”, “arbúnculos”, trazendo um certo ar solene, passadiço. Tendo estreado no fim da década de sessenta, do século passado, Osvaldo André surge egresso de uma geração que, segundo Affonso Romano de Sant’Anna, cresceu “emparedada de um lado por Drummond e Cabral, e de outro pelos concretos” (1). Diante de uma produção diversificada, como é o seu caso, não se deve ignorar, também, a presença de uma temática fincada na história e tradição mineiras, a expansão do veio descritivo, a limpidez do discurso, além do cuidado em se distanciar de certas expressões de platitudes líricas, como seja o uso de símiles exclamativos.
             Imagens imorredouras, oitava coletânea poética do autor, provém de peça de igual título, desentranhada do livro Lua nova (2014). Esta recorrência é bastante significativa numa produção em que alguns motivos se delineiam, tais como a busca da beleza, o patrimônio artístico de Minas, o enlevo e os sobressaltos da experiência amorosa, o misterioso ofício de viver, a integração na natureza, a tentativa de compreensão do significado da arte. Um eu dilacerado, emoldurado por uma nesga de transcendência, instância declarativa que se espraia em desdobramentos mais ou menos fugidios, numa teia de imagens veladas e indiretas. Talvez fosse mais apropriado dizer: modos e enunciados que por vezes se interpenetram, entrecruzam-se. Dotados de sugestões luminosas, os poemas dialogam entre si, sobretudo aqueles que se debruçam sobre a natureza polivalente da linguagem, com o selo de uma coerência interna mantida acesa, de tal sorte que a dimensão telúrica aflora - “todos os objetos se dissolvem / e me descubro uma peça da natureza / como as plantas ou os pássaros” (“Alegria”).  (...)

1.     SANT’ANNA, Affonso Romano de. Apud MORICONI, Ítalo. Como e porque ler a poesia brasileira do séc. XX. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 125.

(Parte de prefácio ao livro referido.)

 MELLO, Osvaldo André de. Imagens imorredouras. Belo Horizonte: O Lutador, 2018.


                                                                                                                                                                           

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