No âmbito do processo de impeachment da presidente Dilma, a sensação de que vale a pena indignar-se é reconfortante. Cabe registrar que a indignação, nos
últimos meses, atingiu o placar de 70% da população, o bastante para ratificar
que a vitória nas urnas nem sempre é sinal de sucesso de gestão. Cansativo, o
movimento no sentido de convencer pessoas traz no seu bojo recompensas
marcantes, como o reconhecimento de que o povo não compactua com a corrupção e
a incompetência, quando percebe o logro de que foi vítima.
( Imagem: unicamp.br)
( Imagem: unicamp.br)
Este
espaço não é uma trincheira de luta política. Recolhe, vez por outra,
comentários mais veementes, de insatisfação e crítica, por conta dos reflexos
da atuação política na esfera cotidiana. Alguma coloração de rebeldia e
descrédito em relação ao poder constituído faz parte da consciência cidadã.
Desse repertório participam muitas páginas dos clássicos. No caso da literatura
brasileira, entre inúmeras outras, destaca-se uma passagem do romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis.
Convém, no entanto, resguardar o risco de retirar uma frase de seu contexto e
lançá-la desprotegida, noutra latitude. Ainda mais em se tratando de um texto
refinado e reflexivo, como o deste autor. Ainda mais no romance citado, em que
o jogo do contraditório alicerça e fundamenta o essencial da trama. Sem mais
delongas, vamos a um parágrafo do cap. XXXIX, intitulado “Um gatuno”:
“Mas
então?... perguntarás tu. Aires não perguntou nada. Ao cabo havia um fundo de
justiça naquela manifestação dupla e contraditória; foi o que pensou. Depois,
imaginou que a grita da multidão protestante era filha de um velho instinto de
resistência à autoridade. Advertiu que o homem, uma vez criado, desobedeceu
logo ao Criador, que aliás lhe dera um paraíso para viver; mas não há paraíso
que valha o gosto da oposição”.

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