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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Anelito Oliveira

 

       Anelito de Oliveira, em Os acampamentos insustentáveis (2019), em que os gêneros literários se mostram, estilhaçados, enumera registros de situações e experiências estigmatizadas pelo desejo de compreender; porém, derrapa numa superfície em que as coisas são e simultaneamente deixam de ser, ainda que não abdiquem da circunstância de serem nomeadas. A correspondência, a troca de comunicação, é uma delas: “devo parar de te escrever não porque você esteja suficientemente escrita, mas porque a vontade de escrever é só sua - e infinita; uma espécie de morte, a escrita, lançada daqui, não te alcançar. no fundo, te perde no desejo mesmo de te alcançar (você bosque demais, pede notícias, exterioridades, significados – sempre a ânsia deter o mudo mais perto). não há o que remeter para além deste – o remetente, a carta, é o que não chega a ser – e, na sua insuficiência, arfando como um urso na neve, é.” (OLIVEIRA, 2019, 149).

       Como quem não quer nada, ou como um aprendiz de rapsodo, tenta resignificar os objetos e os desejos. Diferente, estranho, pretensioso, o interesse revelado: afinal, pretender deve ser um projeto de qualquer sujeito pensante, pelo qual se justifique algum acontecimento, alguma vivência, niilista que seja: “Por aqui não acontece nada. E é por isso, por isso mesmo, está vendo? que insisto em escrever. Há muita gente interessada em nada. Que nada aconteça. Que ninguém diga nada. Que todos fiquem em silêncio. Ou que todos digam futilidades. Dá no mesmo” (OLIVEIRA, 2019, 107).

       As noções tendem à dimensão de totalidade. Numa realidade em que o artifício impera, nada mais abrangente que a casa, ou o que a casa significa: “E a casa, você sabe, é a vida de cada um. Destruir a casa é destruir a vida. A casa é a ética. Destruir a casa é destruir a ética de cada um. A casética, ou a éticasa, é um exterior no interior de cada um” (OLIVEIRA, 2019, 107).

       Noutra passagem, rememora uma frase de Deleuze: “nós perdemos definitivamente o mundo”. Tenta compreender o que seja perder, ou mesmo entender uma forma de pertencimento. “Podemos estar vivo sem ter posse do mundo, estar vivo e sem mundo. Mas houve um tempo em que se teve o mundo, em que o mundo era nosso. Depois chegou um outro tempo em que perdemos definitivamente o mundo. Mas – e isso é intrigante – é possível que muitos estejam no mundo com o sentimento de que perderam o mundo sem nunca terem tido realmente esse mundo, sem nunca terem chegado ao mundo. Quem são eles?” (OLIVEIRA, 2019, 94).


OLIVEIRA, Anelito. Os acampamentos insustentáveis. Curitiba: Kotter Ed., 2019.





quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Érico Veríssimo II

 

Érico Veríssimo II: alguma fortuna crítica

 

                Álvaro Lins, apesar de reconhecer o talento e o domínio da técnica romanesca de Érico Veríssimo, aponta certa concessão ao gosto do leitor. ”Pois qualquer crítica sobre este autor ilustre e consagrado deve começar necessariamente por reconhecer e dizer que ele possui um talento e um espírito de romancista. Não se trata de uma simples afirmativa, porém de uma conclusão que resulta evidente do seu romance Caminhos cruzados. (...) Sentia-se que ali estava um romance pensado, sentido, construído em bases muito formes e muito conscientes. E de tal modo que entre Caminhos Cruzados e Saga a distância se tornou realmente absurda. Parecem dois livros de dois autores diferentes. (...) Sendo certo, porém, que o Sr. Érico Veríssimo possui as qualidades do romancista, a consciência do seu ofício, o sendo da literatura – vale a pena acentuar que deve haver uma circunstância acidental perturbando a construção de sua obra. Esta circunstância estou certo que não errarei afirmando que é o sucesso público” (LINS, 1963, 221-222).

                Temístocles Linhares mantém reservas em relação ao romancista. “É um romancista razoável apenas. Meio superficial, sem problemas, empenhado ainda, nos velhos moldes, em fazer romance em torno de uma estória ou narrativa, de seu desenvolvimento, sem se transfigurar nunca em poeta, como acontece com os grandes romancistas. Não tem nada de complexo em sua personalidade de escritor. O seu livro não se funde em nenhum ato de fé importante, em seres intemporais, a exemplo do que acontece com Faulkner. O seu mundo é acanhado, despido de qualquer lampejo de gênio, que nos posso mostrar, por exemplo, quanto a vida é um incessante e perpétuo instante. O romancista não consegue jamais romper a trama dos fatos de que são prisioneiros os personagens. Neste livro Terra, nem sequer surge alguma figura feminina de interesse relativo que pudesse ser equiparada com Ana Terra, sem dúvida a maior criação do autor de O tempo e o vento. Não vejo portanto razão alguma para o barulho que se está fazendo com O Arquipélago. Efeitos da promoção comercial pura e simplesmente e não de alguma coisa de sólido e profundo destinado a marcar este pobre ano literário prestes a findar” (LINHARES, 2002, 265-266). Refere-se ao ano de 1961, por ocasião do lançamento de O arquipélago, terceira parte da saga.

Wilson Martins não hesita em elogiar a obra do autor de O tempo e o vento.  “Cedendo, por outro lado, ao esnobismo típico das vanguardas, os críticos brasileiros dos anos 30 decidiram tacitamente que o sucesso editorial do romancista era a prova de sua falta de qualidade, a história literária já teve tempo de demonstrar que o sucesso crítico de tantos outros não correspondia, em todos os casos, a uma prova da qualidade. A verdade é que, de todos os romancistas deste período, Érico Veríssimo foi, com certeza, o de maiores recursos técnicos, o de maior capacidade de renovação e aquele, afinal, a quem estava reservada a missão de revigorar o romance brasileiro, situando-o, num plano universal e literário incomparável” (MARTINS, 1973, 293).

Antonio Olinto reconhece, de imediato, a sólida performance do autor gaúcho: “Com mais de trinta anos de romancista profissional, tornou-se Érico Veríssimo conhecido na Europa, no continente africano, em toda a América Latina e, principalmente, no mundo de língua inglesa. Sua história mais popular, Olhai os lírios do campo, virou filme na Argentina.  Inquéritos feitos na Angola e em Moçambique demonstraram que Érico Veríssimo é o escritor mais lido naquelas partes da África. Para os inimigos da popularidade, isto é mau sinal. (...) E a verdade é, contudo, que não há critérios inalteráveis para o aferimento da obra de arte. Muito menos o da leitura: um livro muito lido tanto pode ser ótimo como péssimo” (OLINTO, 1966, 142). A seguir, detém-se no domínio de recurso técnico: “O principal traço da narrativa é o contraponto, um contraponto ondeante que assume ora a terceira pessoa, ora a primeira (nas páginas de Floriano e no diário de Sílvia), e pega quatro ou mais tempos de narrativa. O clima geral da história une tempo e espaço, num panorama que toca de vez em quando a fímbria do épico. O tempo romance é oscilante, batido pelo vento, numa técnica de extremas segurança e beleza, em que há ressonâncias de Virginia Woolf e Huxley (principalmente a Virginia de To the Lafhthouse). (OLINTO, 1966, 142).

Em Seara de romances, Oscar Mendes avalia quatro romances de Érico Veríssimo: Clarissa, Caminhos Cruzados, Um lugar ao sol, Olhai os lírios do campo. “Caminhos cruzados, seu segundo romance, aparece-nos como obra já bem complexa, visando retratar mais cruamente aspectos realísticos da vida, mostrando-nos tipos mais complicados, sujeitos a paixões menos inocentes, com hipocrisias sociais refinadas. (...) Acresce que o sr. Érico Veríssimo possui notável habilidade na pintura de seus tipos. Tira-os da realidade com o tato e delicadeza de um colecionador de borboletas, a fim de não prejudicar-lhes o brilho das cores e o contorno das asas. O próprio tom de ironia com que descreve alguns é como uma tinta sutil que serve para acentuar alguns traços desbotados. E deixa-os viver e agitar-se. Não se imiscui no cérebro de toda a sua gente para perscrutar os problemas de sua psicologia. Por meio de um processo de contrastes entre gestos e pensamentos esboçados, de recordações e de sonhos, consegue patentear-nos algo da vida interior de seus personagens.” (MENDES, Oscar. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982, 93-94).

 

 

 LINHARES, Temístocles. Diário de um crítico. 1957 a 1963. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2002.

LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963.

MARTINS, Wilson. O Modernismo. São Paulo: Cultrix, 1973.

MENDES, Oscar. Seara de romances. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982.

OLINTO, Antônio. Aa verdade da ficção. Rio de Janeiro: Cia. Brasileira de Artes Gráficas, 1966.



 


sábado, 20 de dezembro de 2025

Erico Veríssimo

 

          Avanço na leitura da saga de Érico Veríssimo, O tempo e o vento. Dele conhecia Ana Terra e Incidentes em Antares. Obras impecáveis, resultantes de um toque de refinada concepção de desenvolvimento de intriga e de linguagem. Impressiona o domínio da técnica narrativa, além do equilíbrio entre a realidade objetiva, ancorada na pesquisa histórica e os dosados voos de uma imaginação especial, privilegiada. A atmosfera humana da história perpassa todas as páginas, numa elaboração ficcional em que tudo é grandioso, atávico, telúrico. A narrativa é linear e progressiva: tem um início, avança no tempo, registrando os eventos do passado e projetando reflexos do que pode vir a suceder. A presença do capitão Rodrigo vai aos poucos impregnando os acontecimentos de uma lufada heroica, épica. Em suas longas conversas com o pe. Lara, em que são discutidos temas ligados à trama e à condição humana, extravasa o forte condicionamento do amante de guerras, seu perfil de combatente, para quem participar de batalhas constitui um entretenimento. Guerra para ele se revela como prática de homem, extensão de masculinidade. "Uma vez que outra, nos verões muito quentes, ele tinha a impressão de ver o  tempo parado sobre os telhados e campos em derredor, como que imobilizado pelo mormaço - moscardos zumbiam e voavam no tempo estagnado. (...) Mas na maioria dos dias o tempo voava como o vento" (VERÍSSIMO, 2013, 51-52).

            Cibele Imaculada da Silva estuda o projeto ficcional do autor, preocupado em desenvolver os fios narrativos da construção de uma identidade nacional, através de um protagonista valente e idealista que encarna o sonho coletivo de defesa do território em batalhas de fronteira.

            “Na imagem de homem que a obra constrói, chama a atenção a valentia e as demonstrações de força, coragem e masculinidade. Os homens que habitam o universo dos descendentes do Capitão Rodrigo chegam a considerar a participação numa luta ou guerra uma prova de virilidade e solução para tudo” (SILVA, 2005, 51).

            A figura surpreendente do capitão Rodrigo - os traços físicos, a rebeldia, a coragem e a atração exacerbada por mulheres, com as quais se relacionava movido por uma certa safadeza - retorna ao longo da saga, recortada por amigos e conhecidos. A insistência em descrevê-lo e recordar suas facetas o transforma em motivo e personagem lendário. Para o discreto Juvenal, irmão de Bibiana, o cunhado fora um homem exemplar: "eu gostava do cap. Rodrigo. Achava que ele era valente, engraçado, um bom companheiro pra tudo" (VERÍSSIMO, 2013, 388). moldura machista avulta nos comentários e posturas do protagonista, como nesta passagem em que brinca com o filho recém-nascido, Bolívar: “Quando ele tiver quatorze anos, quem vai procurar mulher pra ele sou eu. (...) E se me sair mariscas, atiro ele no primeiro perau que encontrar no caminho”. Nesse aspecto, o Capitão Rodrigo revela-se representante da visão de mundo do contexto, o que atenua a nódoa no tratamento da diversidade de gênero.

 

SILVA, Cibele Imaculada da. Erico Veríssimo: ficção e história ao sabor do tempo e do vento. Belo Horizonte: Ed. Newton Paiva, 2005.

VERÍSSIMO, Erico. O Continente I e II. São Paulo: Companhia das letras, 2013.










quinta-feira, 27 de novembro de 2025

180 anos de Eça de Queiroz

 

       Registro o agrado que me fez o livreiro Jair, da Fafich UFMG: doou-me uma rica edição que integra três romances de Eça de Queiroz (1845 – 1900): A cidade e as serras, A ilustre casa de Ramires, O Mandarim. Um feito editorial de relevo, sob a chancela da Vila Rica. Motivo suficiente para justificar a releitura do grande romance. E homenagear o autor, nos seus180 anos.

          Folheando A ilustre casa de Ramires, me dou conta de um motivo literário. O narrador Gonçalo Mendes Ramiro, fidalgo de ínclita origem medieval, travestido de narrador, afirma: “labutava, empurrando a pena como lento arado em chão pedregoso” (QUEIROZ,1991, ICR,25). Estabelece a fusão do ofício de escrever ao do lavrador. Ao escrever, o escritor sulca as folhas de papel com a caneta, como se arasse o solo pátrio. O protagonista não perde oportunidade de pregar o “fortalecimento da autoridade da coroa e uma forte expansão colonial” (QUEIROZ,199, ICR,17). O estilo de Eça – original, elegante, sinuoso, rijo - resplandece. Para Vasco Graça Moura, este é o romance mais elaborado de Eça.

          Ao meio do capítulo V, após o episódio da visita da mulher do Casco, implorando a soltura do marido, Gonçalo atiça seu lado misericordioso. Na sequência, relaciona duas estampas visíveis no aposento: “à cabeceira, pendiam dois painéis, retratos de antigos Ramires, um bispo obeso folheando um fólio, um formoso cavaleiro de Malta, de barba ruiva apoiado à espada, com um laçarote de rendas sobre a couraça polida” (QUEIROZ,1991, ICR,138). A referência aos cavaleiros de Malta revela a importância da ilha italiana, palco de encarniçadas batalhas medievais, onde se enfrentaram nobres europeus de variada estirpe, incluindo portugueses.

          Há um consenso entre os críticos no sentido de compreender que A ilustre casa de Ramires, publicação póstuma (1900), recolhe, ficcionalmente recriadas, as reflexões e preocupações do autor a partir dos anos de 1890. Para Beatriz Berrini, “A Ilustre Casa de Ramires é talvez a obra ficcional eciana, posterior ao Ultimatum, em que mais se detectam, filtradas, as experiências e observações do escritor, vividas em Portugal ou fora dele, em 1890 e nos anos subsequentes” [1]. Na ficção, os eventos relacionados ao Ultimatum inglês são silenciados. Mas o passado histórico retorna, de forma crítica. E a África como objeto de exploração agrícola e mineral está presente, especialmente Moçambique. Retorno a Beatriz Berrini. “Para ser fiel à realidade portuguesa, a ser recriada pelo seu verbo, deveria Eça calar aqueles acontecimentos, que não mais repercutiam na nação, esquecidos e enterrados” [2]. O protagonista Gonçalo reveste-se de uma dimensão simbólica, ao representar o português colonizador: ele sonha com a África, vista como lugar exuberante, pródigo de mistérios, aventuras e riquezas. Assim a vê num sonho: “e readormeceu logo, muito longe, sobre as relvas profundas dum prado da África, debaixo de coqueiros sussurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam através de pedregulhos de ouro” (QUEIROZ,1991, ICR, 48).

 



[1] BERARDINELLI, Cleonice et alii. 1992, 352-357.

[2] BERARDINELLI, Cleonice et alii. 1992, 352-357.

 

 BERARDINELLI, Cleonice et alii. XIII Encontro de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa (Atas). Rio de Janeiro: UFRJ, 1992.

QUEIROZ, Eça de. A cidade e as serras, A ilustre casa de Ramires, O Mandarim. Belo Horizonte/ Rio de Janeiro: Vila Rica, 1991.


                         Photographia Contemporanea In O Contemporâneo, nº 108, Lisboa [1882], p. [1].

domingo, 31 de agosto de 2025

Ronald Claver (1946-2025)

        Registro a morte do escritor Ronald Claver, no último dia 29, em Belo Horizonte. Prêmio Augusto Meyer (1978), Prêmio Nestlé de Literatura (1986), publicou, dentre outros, os livros de poemas Matemágica  (1972), As margens do corpo (1978),  Nas águas do Jequitinhonha (1980), Senhora do mundo (1984), e os livros de ficção Paixão em preto e branco (2001), Ana e Pedro e A última sessão de cinema (1986). No final dos anos 60, participou, ao lado de Fábio Madureira, Léa Nilce Mesquita, Magda Frediani, Edgard Pereira (I myself), Regina Souza  e Maria Ignez Portugal, do tablóide literário Talupa, criado nos corredores da Faculdade de Letras da UFMG.

    Diálogo

    a guerra é antes
    o silêncio dúbio
    da paz
    a bomba é antes
    um lindo traço
    no azul
    o diálogo é antes
    um grande conflito
    do silêncio
    a liberdade é antes
    uma grande vontade
    de palavra
    o agora é antes
    uma véspera tardia
    do amanhã