Livro do mês:
Na trajetória literária de Márcio Almeida, o último livro,
Vesânia (2019), ocupa um
lugar de expressiva relevância e áspera resistência. Lançado
recentemente, traz capa de William Júnio, conetada aos impulsos e
parâmetros da linguagem eletrônica de bites e megabites. Já no
título, fica implícita a fusão entre a realidade virtual e a
vertigem, entre o real e a supra-realidade, entre a lucidez e a
loucura. O verbete do Aurélio sobre o título (“denominação
comum às várias espécies de alienação mental”) adiciona um
breve relato do poeta luso José Gomes Ferreira, envolvendo uma
reação vesânica
(desesperada, demente) de Nietzsche a um cocheiro que agredia um
cavalo – o filósofo, “em plena vesânia, se agarrou a chorar ao
pescoço do animal, num protesto convulso”. Melhor companhia para
um poeta que se nomeia visionário e neo-realista,
impossível.

No limiar de tudo, algo prenuncia
um toque de radicalidade e delírio, de irreverência e contestação.
Estamos diante de uma produção poética multifacetada, condizente
com a experiência existencial crítica dos sobreviventes dos anos
70-80. Viver e escrever, desde então, consistem numa atitude, que se
projeta como um compromisso histórico. A vertente inquieta da
poética de Márcio Almeida, ancorada numa rica tradição,
apresenta-se desprovida de certezas, mas interessada em propor
questões, fazer perguntas sobre o espaço e a função da poesia na
sociedade contemporânea, instaurar o desejo, dentre outros, de que a
poesia se torne a expressão de um tempo forte, social e
individual: “Como recuperar
seu efeito mágico num tempo em que sobejam efeitos especiais? Resta
à poesia tão somente ser a ‘humilhante impotência da
subjetividade’ aludida por Georg Lukács? (…) O poeta
envergonhou-se de ser simples, de ser inteligível, de promover
recepção? (“Posfácio”).
Nesta rota de incertezas e fugidias
paragens, - engodo de luz no horizonte sempre seguinte -
o primeiro bloco, o mais extenso por sinal, intitula-se precisamente
“Ars poetica”, do qual extraímos as quadras seguintes do poema
“Deserdados poéticos”:
E foi assim, então, que morreu a
poesia:
mataram-na os ismos da evolução.
Quando o conteúdo virou só teoria
e o poeta ‘trágica resignação’.
Morreu de nada – por não fazer
falta
ao consumo kitsch
capitalista;
porque o poema não mata nem
assalta,
não tem lugar na tela, jornal,
revista.
Morreu sozinha, quando o sublime
tornou-se esgar, ruína, mercadoria;
ser poeta, função inútil, quase
crime
por sobreviver do nada na aporia.
Os destinatários a que se dirige,
e entre os quais o poeta se inscreve, os deserdados
poéticos, desconfiados,
perdidos, num contexto de
calaus, calabarbalhos e da camarilha de plantão no
planalto, encontram-se
hesitantes em cooptar com as
instâncias dos entrelugares, do entre sem saber, dos
entreolhares, fraturados. Tentam
heroicamente reconquistar a nossa leveza e espontânea
gaiatice, ou seja, nossa ciência com humor. Utópicos
irrecuperáveis, convictos da disseminação dos bens da cultura, em
plena vigência dos direitos igualitários, questionam “a produção
cultural a partir da perspectiva de minorias destituídas, porque são
elas que autenticam a exploração do controle, neutralizam as
estratégias de resistência marginalizadas, impõem a autoridade
autocrática” (“Carta
aos scholars”).
O universo da rede de informações
e contatos – a NET, com os desdobramentos de semicondutores de
ligas de arseneto de gálio e alumínio,/ sodeto de chumbo
e derivados de silício, – tem
seu lugar ao longo dos enunciados discursivos, chegando a
confundir-se com o universo linguístico crispado de conceitos,
devaneios e protesto. A lamentar, o excesso desordenado de citações
metalinguísticas, pretensamente eruditas.
ALMEIDA, Márcio. Vesânia.
Oliveira (MG): Edição do
autor, 2019.