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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Oliveira Martins

Livro do mês:

       Em Os filhos de D. João I, o historiador português Oliveira Martins (1845-1894) mergulha demoradamente na história medieval lusa, abordando os eventos que envolvem o governo de D. Duarte e o de D. João II. Imputa ao gosto pelas palavras, por parte de D. Duarte, a sua frágil gestão: ”Foi o literato coroado, com os vícios e qualidades desta classe de homens, e, sobretudo, com essa paralisia da vontade que provém da inclinação fatal de comunicar ao próximo, escrevendo, aquilo que se pensa e por isso se imagina querer. A literatura tem esse defeito inerente: toma a nuvem por Juno, confundindo as obras com as palavras” (Martins, 1998, 134).O título inclui os filhos de D. João I e D. Filipa de Lencastre, denominados por Camões de "ínclita geração, altos infantes", os cinco príncipes de Avis: Duarte, Henrique, Pedro, Fernando e João. O historiador reconhece no livro do rei D. Duarte, (O leal conselheiro) uma espécie de saber que se confunde com os parâmetros morais e difusos da época, uma compilação confusa de todas as ideias morais e filosóficas do tempo, em suma, uma filosofia anêmica e desfibrada. 
       Cedendo às pressões do irmão D. Henrique, o obsessivo estrategista da futura expansão ultramarina, D. Duarte aprova atabalhoadamente a tomada de Tânger, uma empresa fadada ao estupendo fracasso. Com base em sólidas pesquisas (Azurara, Rui de Pina, Fernão Lopes), Oliveira Martins expõe a grande diferença numérica entre o exército português e as forças militares muçulmanas: seis mil soldados do lado luso, enquanto os mouros somavam mais de sessenta mil combatentes. D. Fernando, e alguns fidalgos, são feitos reféns: o príncipe luso será sacrificado pelos mouros, na sequência de uma jornada mal preparada, de negociação mal conduzida. Após atravessar aldeias, perseguidos por pedradas e humilhações, a comitiva feita refém será dizimada pelos mouros. Alega-se ter sido pactuado um escambo (devolver o príncipe D. Fernando vivo, em troca da entrega de Ceuta, conquistada anteriormente pelos portugueses). A derrocada final é patética:

No dia seguinte, sexta-feira, 11, houve trégua; mas no sábado, logo de manhã, às sete horas, repetiu-se o assalto, que felizmente foi rechaçado. De que servia, porém, fugir a uma das mortes, se a outra estava de goela aberta para os tragar? Já não havia lenha, nem carne, senão a do cavalo, que devoravam quase crua, assada nas palhas das albardas e selas. Também não havia água, e enganavam a sede chupando o lodo infecto da praia (Martins, 1998, 178-179).

       Embora proclamem imparcialidade e crença em convicções universais, os historiadores portugueses não abdicam do fervor nacionalista. Produto intelectual de um século cientificista e racionalista, Oliveira Martins não consegue se livrar de uma sensação de decadência fatalista. Não se trata de compor frases redondas, de ressonância reflexiva, mas da contaminação de um contexto maior. Oliveira Martins pertenceu à ilustre geração dos autores reunidos sob o epíteto de Os vencidos da vida, que agrega os amigos Eça de Queirós e Antero de Quental..


MARTINS, Oliveira. Os filhos de D. João I. Lisboa: Ulisseia, 1998.






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