Em
Os filhos de D. João I, o historiador
português Oliveira Martins (1845-1894) mergulha demoradamente na história
medieval lusa, abordando os eventos que envolvem o governo de D.
Duarte e o de D. João II. Imputa ao
gosto pelas palavras, por parte de D. Duarte, a sua frágil gestão:
”Foi o literato coroado, com os vícios e qualidades desta classe
de homens, e, sobretudo, com essa paralisia da vontade que provém da
inclinação fatal de comunicar ao próximo, escrevendo, aquilo que
se pensa e por isso se imagina querer. A literatura tem esse defeito
inerente: toma a nuvem por Juno, confundindo as obras com as
palavras” (Martins, 1998, 134).O título inclui os filhos de D. João I e D. Filipa de Lencastre, denominados por Camões de "ínclita geração, altos infantes", os cinco príncipes de Avis: Duarte, Henrique, Pedro, Fernando e João. O historiador reconhece no livro do
rei D. Duarte, (O leal conselheiro) uma espécie de
saber que se confunde com os parâmetros morais e difusos da época,
uma compilação confusa de todas as ideias morais e filosóficas do
tempo, em suma, uma filosofia anêmica e desfibrada.
Cedendo
às pressões do irmão D. Henrique, o obsessivo estrategista da
futura expansão ultramarina, D. Duarte aprova atabalhoadamente a
tomada de Tânger, uma empresa fadada ao estupendo fracasso. Com base
em sólidas pesquisas (Azurara, Rui de Pina, Fernão Lopes), Oliveira
Martins expõe a grande diferença numérica entre o exército
português e as forças militares muçulmanas: seis mil soldados do
lado luso, enquanto os mouros somavam mais de sessenta mil
combatentes. D. Fernando, e alguns fidalgos, são
feitos reféns: o príncipe luso será sacrificado pelos mouros, na
sequência de uma jornada mal preparada, de negociação mal
conduzida. Após atravessar aldeias, perseguidos por pedradas e
humilhações, a comitiva feita refém será dizimada pelos mouros.
Alega-se ter sido pactuado um escambo (devolver o príncipe D.
Fernando vivo, em troca da entrega de Ceuta, conquistada
anteriormente pelos portugueses). A derrocada final é patética:
No
dia seguinte, sexta-feira, 11, houve trégua; mas no sábado, logo de
manhã, às sete horas, repetiu-se o assalto, que felizmente foi
rechaçado. De que servia, porém, fugir a uma das mortes, se a outra
estava de goela aberta para os tragar? Já não havia lenha, nem
carne, senão a do cavalo, que devoravam quase crua, assada nas
palhas das albardas e selas. Também não havia água, e enganavam a
sede chupando o lodo infecto da praia (Martins, 1998, 178-179).
Embora
proclamem imparcialidade e crença em convicções universais, os
historiadores portugueses não abdicam do fervor nacionalista.
Produto intelectual de um século cientificista e racionalista, Oliveira Martins não consegue se livrar de uma sensação de decadência fatalista. Não se trata de compor frases
redondas, de ressonância reflexiva, mas da contaminação de um
contexto maior. Oliveira Martins pertenceu à ilustre geração dos
autores reunidos sob o epíteto de Os vencidos da
vida, que agrega os amigos Eça de Queirós e Antero de Quental..
MARTINS, Oliveira. Os filhos de D. João I. Lisboa: Ulisseia, 1998.

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