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sábado, 22 de junho de 2019

Afonso Arinos de Melo Franco



Livro do mês

       Para Afonso Arinos de Melo Franco, de acordo com o raciocínio desenvolvido em Planalto (1968), um dos fatores responsáveis pelo colapso do governo Jânio Quadros está ligado estreitamente à questão cubana. A opinião pública teve do caso uma visão superficial. Era a primeira vez que um movimento revolucionário latinoamericano se deixava “orientar conscientemente pelas doutrinas esquerdistas. (…) O México, que poderia ser citado como exemplo em contrário, de fato não o é. Na verdade, a revolução mexicana, iniciada no começo do século e, hoje, solidamente instalada no poder, pode ter o seu caráter discutido, mas uma coisa é certa: não, ou, pelo menos, não se tornou uma revolução socialista. Antes se reveste de aspectos conservadores, dentro de um quadro reformista e, principalmente, nacionalista” (MELO FRANCO, 1968,76). O diplomata mineiro refere-se desta forma à participação norteamericana: “A questão cubana, desastradamente abordada pelo inexperiente governo de Kennedy, nos Estados Unidos, dominou o panorama nacional, provocando uma cadeia de reações que ia do sectário e do medroso de boa fé, ao interesseiro sem ela (interesseiro, por motivos econômicos ou políticos), unindo-se tudo numa espécie de torrente de pânico que, em breve, colocou o novo governo sob as maiores e mais infundadas suspeitas” 
(MELO FRANCO, 1968,76). Nesta página, descreve ainda a ‘inépcia do governo Eisenhover’. A questão prestou-se à evolução de uma campanha direitista contra a politica externa levada a cabo pelo Ministro das Relações Exteriores de Jânio. No caso, o próprio Afonso Arinos M. Franco.
       Vai-se cristalizando a impressão de que setores da esquerda brasileira tentaram direcionar o governo Jânio Quadros para o lado soviético, com um presidente simpatizante de um viés ideológico socialista. Os traços pitorescos do presidente – a vassoura, o jeito estabanado de agir, as medidas adotadas (proibição de brigas de galo e de biquínis), longamente divulgadas e discutidas, seriam elementos adequados para a consolidação de um líder socialista grotesco, investido de fortes poderes. No comando da política externa, Afonso Arinos M. Franco postava-se como alvo de veementes ataques de setores da direita e do empresariado. Esta atuação, diametralmente contrária à tradicional concepção epicurista de diplomacia externa, calcada em festas de salão e viagens, deixou o ministro exposto às pedradas da imprensa e dos setores conservadores. Ao longo do volume, somos confrontados com a bagagem cultural, a lucidez, o rigor das argumentações e o acúmulo de índices lógicos na postura do Ministro das Relações Exteriores. Além de situações políticas, como o justo resgate do presidente Quadros, o autor se detém em episódios da vida cultural do país, como a amizade com Guimarães Rosa, no período em que o autor de Grande sertão: veredas prepara-se para tomar posse na Academia, vindo a falecer na sequência.





MELO FRANCO, Afonso Arinos de. Planalto. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1968.

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