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Para Afonso Arinos de Melo Franco, de acordo com o raciocínio
desenvolvido em Planalto
(1968), um dos fatores responsáveis pelo colapso do governo
Jânio Quadros está ligado estreitamente à questão cubana. A
opinião pública teve do caso uma visão superficial. Era a primeira
vez que um movimento revolucionário latinoamericano se deixava
“orientar conscientemente pelas doutrinas esquerdistas. (…) O
México, que poderia ser citado como exemplo em contrário, de fato
não o é. Na verdade, a revolução mexicana, iniciada no começo do
século e, hoje, solidamente instalada no poder, pode ter o seu
caráter discutido, mas uma coisa é certa: não, ou, pelo menos, não
se tornou uma revolução socialista. Antes se reveste de aspectos
conservadores, dentro de um quadro reformista e, principalmente,
nacionalista” (MELO FRANCO, 1968,76). O diplomata mineiro refere-se
desta forma à participação norteamericana: “A questão cubana,
desastradamente abordada pelo inexperiente governo de Kennedy, nos
Estados Unidos, dominou o panorama nacional, provocando uma cadeia de
reações que ia do sectário e do medroso de boa fé, ao
interesseiro sem ela (interesseiro, por motivos econômicos ou
políticos), unindo-se tudo numa espécie de torrente de pânico que,
em breve, colocou o novo governo sob as maiores e mais infundadas
suspeitas”
(MELO FRANCO, 1968,76). Nesta página, descreve ainda a
‘inépcia do governo Eisenhover’. A questão prestou-se à
evolução de uma campanha direitista contra a politica externa
levada a cabo pelo Ministro das Relações Exteriores de Jânio. No
caso, o próprio Afonso Arinos M. Franco.
Vai-se cristalizando a impressão de que setores da esquerda
brasileira tentaram direcionar o governo Jânio Quadros para o lado
soviético, com um presidente simpatizante de um viés ideológico
socialista. Os traços pitorescos do presidente – a
vassoura, o jeito estabanado de agir, as medidas adotadas (proibição
de brigas de galo e de biquínis), longamente divulgadas e
discutidas, seriam elementos adequados para a consolidação de um
líder socialista grotesco, investido de fortes poderes. No comando
da política externa, Afonso Arinos M. Franco postava-se como alvo de
veementes ataques de setores da direita e do empresariado. Esta
atuação, diametralmente contrária à tradicional concepção
epicurista de diplomacia externa, calcada em festas de salão e
viagens, deixou o ministro exposto às pedradas da imprensa e dos
setores conservadores. Ao longo do volume, somos confrontados com a
bagagem cultural, a lucidez, o rigor das argumentações e o acúmulo
de índices lógicos na postura do Ministro das Relações
Exteriores. Além de situações políticas, como o justo resgate do presidente Quadros, o autor se detém em
episódios da vida cultural do país, como a amizade com Guimarães Rosa,
no período em que o autor de Grande sertão: veredas prepara-se
para tomar posse na Academia, vindo a falecer na sequência.
MELO FRANCO, Afonso Arinos de.
Planalto. Rio de
Janeiro: José Olympio Editora, 1968.

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