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sábado, 25 de maio de 2019

Vinícius Fernandes Cardoso

Livro do mês:

       Vinícius Fernandes Cardoso recolhe poemas e fotos da juventude, registrando a militância cultural de um cidadão culto e sensível, exercida episodicamente em bairros de Contagem nas décadas de 80 e 90, além de um prêmio em certame poético na cidade de Leopoldina (2014), onde morreu Augusto dos Anjos. O autor identifica-se como “poeta, escrivão do tempo”, capacitado para “cantar sua época” (“No fim sempre um começo”). Os poemas, dados a lume numa coletânea, intitulada Com o coração na boca, vestígios de um intenso e compartilhado percurso na urbe industrial, procedem de livros anteriores, como Arroubos e rompantes (1999), Leituras e andanças (2004) e A alma dos bairros (2007). Em poema que dá título a este último livro, traça um esboço de sua terra: “Contagem é uma cidade dispersa de flores / raras nascidas em solo árido resistindo / ao cansaço dos transeuntes.”


       Tentado a experimentar um poder divino, o da criação, o poeta atinge o máximo desejo de exprimir a inquietude interior no ousado poema “Oração a mim mesmo”, ponto alto de sua lírica: “Ah… Eu queria escrever um poema que fosse música / e sensação, como o solo contido de um baixo ou o / solo virtuoso de um cravo: som que cria outra / realidade na realidade e que transfigura e encanta / tudo ao nosso redor.” Inoculado desde adolescente pelo vírus da poesia, Vinícius Fernandes Cardoso, adestrado numa tradição de nomes tutelares (Bandeira, Quintana, Adélia Prado), revela uma rara sensibilidade aos pequenos incidentes do cotidiano, aos lugares acessados, às relações de amizade e parentesco, à surpreendente magia das efemérides, como nesta dionisíaca “Odisseia imaginária...”: “E agora, meu primo? /Pegue a chave, ligue o carro, / -Vamos rodar por aí! / Se estou certo desta noite ? / Claro que sim, / eu, você, a estrada e o som.” De tal forma busca transfigurar os eventos e as contingências de uma pós-modernidade massificante e estéril que, por vezes, seu estro mostra-se dissidente e desafinado:

       “Não me dê telefone, e-mail, Facebook, Whatsapp,
       Instagran, Twiter…
       Chega de paraísos artificiais!
       Estou com saudades do real!”
       (“Saudades da Realidade”)

       À semelhança de um caderno de colegial, ainda que marcado por oscilações, Com o coração na boca compagina emoções e mágoas, gritos de socorro e delírios, indagações e juras de amor, num conturbado e veemente mergulho nos limites da condição humana, em expedientes que reiteram a proximidade entre sonoridade e poesia, como no final de “O vazio da época”: “Chovia. / Íamos pela estrada escura, / éramos vento, música e chão.”
       Diante de tais evidências produtivas, num discurso poético ainda emergente, um breve reparo, no entanto, se faz necessário, infelizmente. A verdadeira poesia sempre se posiciona como trincheira de esperança, espaço neutro de ressonâncias universais, propício à floração de verberações espirituais, notas de solidariedade e de elevação metafísica. Sua natureza estética e reflexiva repele o engajamento de teor político, condizente com a comunicação de vertente panfletária. Castro Alves e Ferreira Gullar constituem monumentos excecionais, que demandam séculos para germinar, dada a excelência e dimensão de seu voo. Em tempo de excessiva polarização ideológica, e não menos rasa fundamentação teórica, qualquer engajamento explícito denota fragilidade estética, nas raias da subalternidade. As miscelâneas poéticas do autor insistem reiteradamente em acentuar o seu filão político, que labuta contrariamente à isenção artística. Ainda que se identifique com a assertiva de que o poeta é o “escrivão do tempo”, não lhe fica bem adotar um lado de militância política. Todos podem se acomodar no bosque do Parnaso, em especial sujeitos vocacionados para o convívio com as musas e delgadas entidades voláteis, suscetíveis a apelos deste naipe: “Distância não é medida geográfica. / Distância é medida interior”, como se lê no poema “Versos geniais voaram ao vento...”. Espera-se que instantes de fulgor e imagens interessantes não fiquem contaminadas por desavisadas e nocivas aderências a platitudes ideológicas.



CARDOSO, Vinícius Fernandes. Com o coração na boca: apanhado poético. Contagem: Edição do autor, 2018.



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