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sábado, 15 de julho de 2017

Miguel Torga

      O autor português Miguel Torga (1907-1995), pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, produziu obras literárias na área da ficção, da poesia, do teatro e do memorialismo. Na juventude, passou uma temporada de cinco anos no Brasil, mais precisamente na região de Leopoldina, Minas Gerais, em fazenda de um tio, tendo frequentado o Ginásio Leopoldinense. Sobre a permanência de Torga em solo brasileiro, registre-se o trabalho exemplar de Pedro Rogério Couto Moreira, desenvolvido a partir da leitura de páginas do Diário, do autor português e de pesquisas de campo - Geografia sentimental de Miguel Torga em Minas (Brasília, Thesaurus, 2016).

                            (Foto: formatura no curso de medicina, espacomigueltorga.pt)

"Coimbra, 25 de maio de 1949. O Marquês de Sade. Um calafrio que só as leituras proibidas dão. A gente volta cada página arrepiado, com a sensação de que está a meter a alma no Inferno. E é essa inquietação que todos os livros deviam provocar. (...) O homem necessita do pecado para viver, como de especiarias para comer. Julgo mesmo que o futuro se esforçará por contrariar cada vez mais a sonolência beócia das páginas cor-de-rosa.

Vila Nova, 3 de Dezembro de 1935 — Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era".


Do Diário V.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Adélia Prado

Livro do mês:        


          Adélia Prado logra executar, em Os componentes da banda, uma partitura narrativa desfibrada, sem músculos. Fruto de uma arejada conceção do que seja uma novela, ou um concerto verbal de feição aglutinadora, a obra acolhe breves relatos, receitas domésticas, reflexões intempestivas, pensamentos aleatórios, esboços de poemas, lembranças do passado, registros diários e devaneios de uma anódina rotina doméstica. A narradora não faz segredos de seu estatuto de dona de casa, em segundo casamento, envolvida em tarefas corriqueiras, pequenos compromissos, eventos banais, efemérides citadinas e familiares. Na verdade, uma dublê de dona de casa e professora: “Em plena aula a cantineira abre a porta, sem bater: ‘ponho o que pra senhora hoje? Tem empada e biscoito frito.’ Sinto tanta vergonha que não tenho coragem de escolher. Põe qualquer coisa, falo depressa, pros meninos se esquecerem de que eu posso escolher entre empada e biscoito frito” (PRADO, 1985, 22). Sem esquecer as impressões fugidias sobre uma ou outra palavra – como “soturno”, a preferida do pai, ou “pudera”, considerada a mais bela palavra pela mãe. Prefere ser conhecida por compositora, não como escritora. Rodeada de frades solícitos, comadres espevitadas, amigas desconfiadas e parentes pernósticos, a narradora irascível se deixa contaminar pela poeta, religiosa e onipresente.



          “Não pinto o cabelo, os fios brancos têm excelente brilho, Deus me quer tão bem, as pessoas pensam que pinto as mechas esmeradamente. Penso em fazer balé, pra dar boa diligência aos gestos. Como se movem lindo os bailarinos. Senti uma sensação esquisita, a mocinha me elogiou: ‘que pés lindos!’ Papai tinha pés inacreditáveis, era bom ver ele descalço, pés para amoroso trabalho de estátua. Nunca soube. Fora melhor também eu não saber. Mãos não tenho bonitas, só quem acha é Pedro que se ri apenas de minhas orelhas” (PRADO, 1985, 78-79).

          Não há um enredo decisivo, uma ossatura de fatos encadeados logicamente. Mas os fatos narrados têm uma graça pitoresca, provocam um interesse dobrado em quem deles se aproxima, seduzido por uma descrição ingênua, uma situação simultaneamente grotesca e engraçada, o coloquial tosco. Sucedem-se, sem encadeamento rigoroso e uma fixação sólida em algum contexto, notações e comentários avulsos sobre eventos rarefeitos: um casamento na roça, um aniversário de criança, uma novena ensaiada. O que salva toda essa barafunda de intriga esgarçada é uma postura descontraída diante da linguagem, como se a cada linha a narradora se revelasse encantada pelo poder mágico das palavras. “Não sou carioca, por isso não uso verão, uso tempo de calor, quando a gente fazíamos piquenique na cachoeira do rio Lambari. Eu era má, eu já fui bem mazinha, quando comprava um queijo, era só pra mim. As mulheres na feira têm ancas de surrar marido, que belo manto adiposo, verdadeiras rainhas” (PRADO, 1985, 154).
          Por vezes o relato beira o universo infantil por ser poético, ou seria o contrário? A mistura de lucidez e sutileza, de lirismo e objetividade, com uma deliberada tentativa de embaralhar o universo referencial, culmina num mergulho desordenado no fluxo de consciência que só consegue pausa e respiração num apelo místico, cessado apenas com um ponto final.


PRADO, Adélia. Os componentes da banda. Rio de Janeiro: Guanabara, 1985.