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terça-feira, 11 de agosto de 2015

A estátua desmontada



      O centro histórico de São João Del Rei conserva, com pouca alteração, o perfil de cidade setecentista: espraia-se num vale, onde corre um ribeirão canalizado, com pontes, uma projetada com arcos romanos, passarelas e ruas de comércio intenso. Por sinal, o que torna uma cidade viva e dinâmica é a efetiva circulação de ventos, carros, pessoas. Nada mais tedioso do que uma cidade fantasma, estática, parada no tempo, hierática em seus frios monumentos de pedra. Uma cidade em que ressoa em tudo a impressão de ruína intocada. São João Del Rei apresenta essa mistura de tempos e cores, o passado nos envolve em fortes piscadelas, um detalhe arquitetônico surpreende aqui, outro vestígio chega a inquietar, quase nos tira o fôlego, mas alguns poucos quarteirões à frente, retomamos a respiração; um cartaz, um nome de rua, uma garagem comum nos trazem de volta ao presente.
      Alguns sobrados coloniais impõem-se pela arquitetura imponente e solene, ao lado de outros mais modestos, mas igualmente autênticos representantes de um passado opulento. As igrejas barrocas são um espetáculo à parte, altares de beleza indescritível, com profusão de adereços dourados, em especial a de São Francisco (foto acima), a Basílica Nossa Senhora do Pilar e a de Nossa Senhora do Carmo.


                         
                                   (Imagem: saojoaodelreitransparente.com.br)

            Faltava visitar o museu. O Museu Regional fica num prédio de três andares, característico da arquitetura imperial brasileira, janelões de sacadas gradeadas. Tinha terminado a visitação, quando me dei conta de que não vira a réplica do profeta de Aleijadinho que faz parte do acervo. Indaguei a um dos guardas, aquele que me pareceu mais maduro dos três que estavam de plantão.
            “Como sabe do Profeta?”
            “Há referências em vários livros sobre esse Profeta. Num desses livros”.
            Diligente e gentil, o chefe dos guardas explicou que a Profeta fora retirado, encontrava-se na reserva técnica, para dar espaço à montagem de uma exposição temporária a ser aberta dali a dois dias.
            “Mostre-lhe onde está”, dirigiu-se ao companheiro de farda, mais novo mas igualmente gentil e atencioso, como foi possível apurar.
Fui, assim, conduzido à sala da reserva técnica do museu, enquanto meus familiares aguardavam nas imediações da saída do prédio. Retornamos à escada que dá acesso ao segundo pavimento, o guarda mais novo e eu, andamos à esquerda num corredor e sem mais estávamos diante de um cômodo fechado. O guarda, então mais identificado a um guia do museu, abriu uma porta centenária: uma sala escura e povoada de sombras foi-se clareando parcialmente. Adentrei apenas um passo, objetos espalhados no chão impediam adiantar mais. Numa estante comprida e larga, ou espalhadas no piso de madeira, quedavam-se várias peças antigas, entre elas – peanhas, oratórios, teares, liteiras, candeias, canastras.  Solícito e diligente, o guarda indicou onde estava a estátua do profeta, na verdade, as duas partes da estátua, uma vez que fora desmontada, não se sabe se antes ou depois de ser transportada até aquela sala. Controlei-me para não fazer perguntas inúteis. Dividida em dois blocos, a estátua do profeta Baruc, clonada do original existente no adro de uma igreja de Congonhas, postava-se bem à entrada da sala. Por ser moldada em gesso, pareceu-me exageradamente cinza, mas procurei explicar a mim mesmo que deveria ter recebido uma pátina de finíssima areia cinza, razão de coloração mais escura. O Baruc do adro de Congonhas pode contar com o espaço aberto, o horizonte de montanhas e enigmas. Exilados do local de exposição, os dois fragmentos do profeta restavam mudos, informes, destituídos de qualquer ideia de unidade e completude. Era incômodo vê-lo mutilado, despido de qualquer fantasia ou certeza identitária que pudesse ter. O ombro pousava na madeira do piso, deixando visível o ângulo direito do rosto, envolto numa fria expressão de imaterialidade, angustiada mas serena, a face macerada pela poeira do tempo. Vê-lo assim em pedaços, quando nem estava preparado para se visto, era burlar o seu direito ao isolamento, seu efêmero descanso. Meus olhos, que num primeiro instante sofreram a privação da imagem inteiriça e perfeita, ameaçavam devassá-la.
“Perdoe o incômodo”. O guarda, além de cortês e gentil, acabara por se mostrar risonho. Satisfeita a curiosidade, cumpria agradecer e reencontrar o meu grupo. 

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