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terça-feira, 29 de julho de 2014

Francisca Vilas Boas

            Livro do mês:

            Francisca Vilas Boas compôs o notável quarteto pioneiro na criação e divulgação do miniconto no Brasil, ao lado de Elias José, Sebastião Resende e Marco Antonio Oliveira. As publicações aconteceram no final dos anos 60, em Guaxupé, Minas Gerais, sob o título de Cadernos 20 e Poleiro de urus (1969). Este é um marco histórico do gênero narrativo no país, de indiscutível contestação, consolidado em inúmeros comentários e documentos, a despeito de posições contemporâneas totalmente mal informadas e disparatadas. A circunstância de ter ocorrido numa cidade interiorana e o teor experimental das duas coletâneas podem atenuar a pequena visibilidade, embora tenham merecido franco reconhecimento crítico, na época. O resgate incisivo, veemente e um tanto ressentido do trabalho do grupo, deve-se a dois recentes títulos de Márcio Almeida, - o livro A minificção do Brasil, em defesa dos frascos & dos comprimidos (2010) e o opúsculo Pioneiros do Miniconto no Brasil – resgate histórico-literário (2012), este último com reprodução de artigos, fotos, documentos e capas.
            Wilson Martins refere-se ao livro A mal amada, de Elias José, em artigo no Suplemento literário de O Estado de São Paulo (18 de março de 1971), nestes termos: “Cedendo a uma terminologia que, se não é literária, é, pelo menos, sintomática, o autor distingue as suas produções em minicontos, contos e maxicontos. (...) É pela extensão, como se vê, que ele delimita espécies literárias, critério, no fundo, tão bom quanto qualquer outro.” Márcio Almeida apresenta outras manifestações de autores consignando a relação entre Elias José e o miniconto: dentre eles, Temístocles Linhares, em 22 diálogos sobre o conto brasileiro atual (1973), José J. Veiga (1971), Nelly Novais Coelho, em O ensino da literatura (1973, p. 138-140).
            Francisca Vilas Boas publicou depois O sabor do humano (1971) e Roteiro de sustos (1972), com repercussão positiva entre críticos. Euclides Marques Andrade, em artigo publicado no Jornal de letras, (1969), assinala: “O ritmo da prosa de Francisca Vilas Boas, as palavras que ela inventa e reinventa, a força de comunicação e a solidariedade que transmite, colocam-na entre os melhores escritores mineiros da atual geração jovem. Como consegue em apenas onze linhas trazer tanta emoção e sugerir tanta coisa!” José Afrânio Moreira Duarte a ela se refere como “possuidora de uma linguagem não apenas segura, firme, como também extraordinariamente bela”, no jornal Estado de Minas (1973). Laís Corrêa de Araújo, em em ofício dirigido à Imprensa Oficial de Minas Gerais (em 1970), editora pela qual os dois livros se publicaram, registra, a respeito de O sabor do humano: “Trata-se de uma coletânea de estórias curtas que se inserem no estilo que se convencionou chamar de realismo mágico, onde o mistério do onírico serve à captação de largas e profundas inquietações do espírito humano. Segundo a escola de um Murilo Rubião ou abeirando-se do novo barroco dos modernos ficcionistas latinoamericanos, Francisca Vilas Boas consegue dar aos seus contos também uma significação telúrica e uma contextura poética. As suas narrativas, breves de modo geral, se assinalam pela penetrante exploração da vida interior, em expressão que é comunicativa. É um livro com unidade de linguagem e de temas, com bom ritmo narrativo, harmonicamente estruturado, que merece parecer favorável para publicação.” Assis Brasil, Stela Leonardos, Menotti Del Pichia e Duílio Gomes também reconheceram méritos nos livros da jovem autora.


            Decorridos mais de quarenta anos, Francisca Vilas Boas retorna com Das ilusões e da morte, conjunto de 21 contos, corroborando as qualidades referidas. Também nestas ficções estão presentes o efeito de suspensão da realidade, os nexos entre o cotidiano e o fantástico, acrescidos, agora, de uma nesga de terror, a elaboração da linguagem, as notas sobre os animais. O universo tenso de personagens imersos em obsessões ou que não se enquadram nas convenções sociais, os mundos paralelos que se frustram na inútil busca de equilíbrio, o distanciamento da norma a que se jogam os indivíduos na tentativa de realizar sua trajetória, a importância dos sonhos, vistos como instâncias ligadas às tentativas de risco e libertação, como contraponto à imobilidade e ao niilismo, a crítica sutil às proibições indiscriminadas, compõem o perfil de uma escrita visceralmente conectada aos anseios humanos. Sem querer apresentar soluções, a autora parece contentar-se em sugerir hesitação e gerenciar a dúvida.

                                                   (Foto: Casa de Cultura de Guaxupé)

            “dentro de um barco à vela, em mar de sobras e sonhos, irei por outras viagens, esse mar sonhado me aguarda sob céus azuis, com Marcelo e seu oboé a me escoltar. atravessarei as pontes. sempre. deixando rastros suaves com meus pés recém-colocados no espaço... feito asas” (p.29). “Na tarde, um rol de sonhos”, conto de que se extraiu a citação, é um dos textos em que a radicalidade linguística mais se observa.
Tangidos por epígrafes, os relatos correspondem por vezes a um desvio da rotina, propiciado por surpresa ou imprevisto, ou a improváveis devaneios capazes de operar uma flutuação não controlada da experiência, quebrada por uma ou outra referência fatual. Tem-se por vezes a impressão de se estar à deriva, ou à beira de um labirinto ou precipício, no interior do qual seria lançada uma ou outra senha para se retomar o controle da meada. Os arquétipos imemoriais (a margem, o portal, o caminho, a ponte, a pedra, a ave) desdobram-se em aparentes atalhos que simultaneamente oferecem e escondem súbitas iluminações. A simplicidade, a solidariedade, a sábia aceitação dos mistérios, a possibilidade de harmonia entre os opostos são algumas paragens dessa travessia, através das ilusões e da morte.

ALMEIDA, Márcio. A minificção do Brasil, em defesa dos frascos & dos comprimidos. Oliveira, MG: Edição do autor, 2010.


VILAS BOAS, Francisca. Das ilusões e da morte. São Paulo: Scortecci, 2014.

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