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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Benito Barreto

Livro do mês:  Despojos, a festa da morte na corte

Este livro arremata a grandiosa tetralogia Saga do caminho novo, de Benito Barreto, referida abaixo. A aproximação e solidariedade do Alferes com o seu carrasco, o guarda-mor Capitania, é algo inusitado, a amizade entre os dois é elaborada em forma de paródia refinada, a ponto de suscitar analogia com o tratamento dispensado por Saramago à amizade entre Jesus e Judas, no Evangelho segundo Jesus Cristo. Tiradentes, preocupado com o sofrimento de Capitania, o carrasco encarregado de enforcá-lo, no episódio da raiz de dente inflamada, cura-o, moldando uma peça, para que pudesse mastigar e sorrir.

Também à Ilha das Cobras, não lhe trouxe a primavera flores, as quais, de resto, soem mui raro brotar das pedras, mas o mameluco Capitania voltou a rir, o que é, talvez, mais raro e difícil que minar a água, a flor nascer ou o verde, dos rochedos.
- Deus pague a Vosmicê, galé. Deus dê a Vosmicê, em anos de vida, o que me vai dar em dentes! – exclamava, vendo Tiradentes ajustar e polir o molde de sua arcada, para a dentadura que está a lhe fazer (Barreto, 2012, p.470).

Horas antes do martírio, Tiradentes pensa no sonho de uma pátria livre, árdua construção coletiva, através do trabalho dos mazombos, da luta dos rebeldes e do patrimônio dos artistas (escultura, artes plásticas, música, poesia). Em seu delírio, revive a dor de conviver com a opressão, vendo as riquezas da terra serem assaltadas, carreadas às pressas para os navios europeus. Exprime sua interpretação a respeito da extraordinária arte popular: produto de revolta e sofrimento –“... o Athayde só faltou ele pintar de vermelho as lágrimas, acho até que algumas delas fez com sangue! e, assim, aqueles nossos grandes músicos mestiços e os negros, no que compunham e tocavam, mais gemiam que cantavam” (Barreto, 2012, p.533).
Libertas quae será tamen, o verso extraído por Alvarenga Peixoto da lírica de Virgílio, é muito mais que a máxima do movimento, mas um projeto natural e universal. O anseio de liberdade é visto como inerente aos fenômenos da natureza, à privação da liberdade seguirá a privação da vida, este é um motivo recorrente ao longo dos capítulos, com o alcance de um refrão obsessivo e obstinado: “mesmo as potencialidades naturais e entre essas, muito principalmente, a água e os ventos tendem para o movimento e a liberdade dos quais, de resto, uma e outro necessitam e dependem” (Barreto, 2009, p.36). Modulado com as notas da indignação e da perplexidade, o motivo retorna: “Mesmo os rios e ribeirões de Minas, que em desde que gente, inda menino, vira correr e atravessava a cavalo ou pelos quais andava de canoa e os vadeava, arregaçando as calças, nos vaus de passagem, ao pé dos bambuais... se ousassem os Céus detê-los, o que não fariam! Ah, nem quer pensar!” (Barreto, 2009, p.117).


Ao narrador resta captar as contradições internas da sociedade, as oscilações de ordens e comandos, as hesitações e o jogo variado de interesses, o registro de um contexto envolto em inequívoca teia de ambiguidade. Dentre os inconfidentes, seres feitos de barro e esperança, há os indecisos, os pusilânimes, os temerosos (Gonzaga, Cláudio Manoel), os que apoiam pela metade (o tenente coronel Paula Freire), os que aderem intelectualmente (Gonzaga, Cláudio, Alvarenga Peixoto, Ignácio Alvarenga), o que trai à causa para obter benefício (Silvério dos Reis), o insurgente destemido (o Alferes). À ganância, opressão e rigores da Corte, correspondem a rebeldia e conspiração dos mazombos. O doutor Cláudio, sexagenário de saúde frágil, jurista de renome e fazendeiro abastado, recebe, depois de Tiradentes, o olhar mais atento do narrador, que registra sua dupla e arbitrária condenação. A primeira ao ser assaltado em casa de madrugada, entre violência e brutalidade, ficando à mercê de um punhal, o pescoço sob as esporas de um militar, que lhe rouba as barras de ouro e lhe extermina a família, dias antes da prisão no vão de uma escada, até o fim trágico.  
Alguns incidentes são significativos no que diz respeito à ambiguidade e contradições sociais: lealdade inicial à coroa portuguesa, apoio à causa da Inconfidência (Irmão do Caraça, Gonzaga, Cláudio Manoel). A alternância entre o mito e a realidade aproxima alguns personagens (Gonzaga/Dirceu, amante de Marília, Gonzaga/Critilo, autor das Cartas Chilenas; Cláudio/ Doroteu, nas Cartas Chilenas; Maria Dorotéia de Seixas Brandão/ Marília, a amante fictícia de Dirceu, em Marília de Dirceu). Por circunstâncias profissionais, o jovem cientista Álvares Maciel torna-se hóspede e preceptor da esposa e dos filhos do Visconde de Barbacena, sem deixar de ser simpatizante da causa inconfidente. O conflito entre voto de castidade e sensualidade é um traço que identifica o Padre Rolim e o Padre Inácio. A personagem Perpétua, uma das amadas de Tiradentes, morre ao se lançar de um penhasco, em dupla fuga: à caçada do Vice-Rei, por ela seduzido;  ao Padre Inácio, que aumentava o cerco a seu redor. Esta relação de três ângulos, em que a mulher desempenha o papel de mediadora, admite o seguinte esquema:
                          
                           ---------     Vice-Rei (conquista, dominação)
Perpétua -------- Tiradentes (amor, companheirismo)
                           ---------      Padre Inácio (desejo, traição ao herói)

A ambiguidade de gênero envolve dois personagens: Izidora e João Costa. Izidora, a filha de Montanha, chefe de bando, é por ele dada de presente a Tiradentes como Isidro, um rapaz ajudante; em noite de lua, vendo-a dormir, Tiradentes descobre tratar-se de uma moça de belos seios. João Costa, chefe de tropeiros revoltados, em busca de informações sobre o Padre Rolim, traveste-se de mulher, para adentrar no convento feminino de Macaúbas, onde o religioso inconfidente, antes de fugir, internara sua companheira, Rita Quitéria, filha de sua irmã de criação, Chica da Silva. A sensualidade difusa de Bárbara Heliodora, bela e enigmática fazendeira que seduz a todos os homens da época, do Visconde de Barbacena ao esbirro sargento Parada, favorece o papel de mediação entre os dois modelos ideológicos.


Ao se aprofundar a descrever o sofrimento do Alferes na Ilha das Cobras, em prisão que mais se assemelha a uma cova, pelo ar rarefeito e mal cheiroso, o último volume, Despojos: a festa da morte na corte em vários passos compara Tiradentes a Cristo: “Uma sepultura singular, em que o condenado, conquanto já, de fato, enterrado, ainda se move e respira; ainda pode imaginar, lá fora, a vida e o mundo, mas já não participa daquela nem faz mais parte deste!” (Barreto, 2012, p.477). Identificado a elementos naturais, como o oceano, o preso exibe uma gargalheira no pescoço e grilhões nos pés: “Pesam e esfolam mais, a cada dia, os ferros da grilheta. As correntes doem sempre mais e a cada dia é mais difícil caminhar com elas, mesmo e apenas levantar-se e ficar de pé ou dar um passo” (Barreto, 2009, p.116). Esgotadas as possibilidades concretas de sucesso efetivo, a Conjuração perde sua força: os envolvidos são presos, o processo de condenação é instalado. Uma vez que Tiradentes advoga para si toda a culpa, os outros inconfidentes recebem pena menor – o degredo para a África. Tiradentes é o único condenado à morte. Paradoxalmente, ao proceder ao seu martírio, a Coroa portuguesa extermina um inimigo, mas cria um herói. Após sua morte, com a exposição das partes esquartejadas do seu corpo nos lugares onde em vida atuara contra a dominação lusa, fica estabelecido o seu retorno e permanência, doravante como despojo físico, material, que se desintegra e degrada naturalmente, semente de sua fixação perene, como palavra e exemplo. A história de um homem ali acabava. As raízes do mito estavam lançadas. Desta ambivalência entre realidade e mito nutre-se de forma inventiva a ficção de Benito Barreto.


Referências bibliográficas

BARRETO, Benito. Os idos de março. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2009.
           ______. Bardos e viúvas. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2010.
          ______. Toque de silêncio em Vila Rica. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2010.
            ______. Despojos: a festa da morte na corte. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2012.

      (Este texto, com pequenas alterações, é parte do ensaio "Ficção e retórica", publicado no livro de Rachel Barreto, Benito Barreto - 50 anos de literatura. A foto é alusiva ao lançamento recente deste livro).

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