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terça-feira, 7 de maio de 2013

Para amar e trabalhar

      A Capital faz cem anos. É pouco tempo para uma cidade, ainda mais uma metrópole, a melhor qualidade de vida na América Latina. Mas, até quando? Se comparada às milenares cidades europeias e asiáticas, Belo Horizonte ainda nem entrou na adolescência. Os problemas que enfrenta, entretanto, são imensos.
      Os notáveis que a planejaram não se deram conta de sua localização, na encosta de uma (quase extinta) Serra do Curral, a cavaleiro da Cordilheira do Espinhaço. Talvez venha daí a vocação para o imprevisto, para a diferença, para a modernidade de sua arquitetura. Talvez venha daí - dessa inclinação geográfica - a propensão de seus habitantes para a queda: não será por isso que estamos a escorregar e a cair? Depois mutilaram sua paisagem. Todos sabem: grossa ambição, preciosos minérios. Conheci a serra em sua inteireza, quando aqui cheguei e fui pedir pouso numa pequena pensão, no Barro Preto.

                                                        (Imagem: www.panoramio.com)
      Em fins da década de 60, avistava-se a serra. Ela tecia uma cortina de imponente azul escuro, lá na franja ao leste do horizonte. O vento frio das madrugadas vem da serra. Depois um grupo de iluminados nos ensinou a olhar bem as montanhas, foi então que vimos o buraco.  Eram tempos bicudos, mas nem a fumaça ardida das passeatas nos impedia de ver o estrago que lá faziam.
      A nostalgia é um vício, a ela voltamos para buscar recompensa pelo buraco que fizeram na serra. De tanto olhá-la, descobrimos que é ali que o vento e o azul brincam de asa delta. Aquele azul roubado por Guignard na praça redonda de Congonhas e levado para seus quadros. Na encosta da serra mutilada, a cidade guardou a sina das quedas, a inclinação natural para o lado esquerdo, as revoluções (políticas e culturais). Onde o triste Ribeirão Arrudas (aos poucos domado) insiste em rolar malcheiroso. Não tivemos com ele o carinho que um ribeirão deve inspirar, nem com o Rio das Velhas fomos respeitosos. Precisamos aprender a nos extasiar diante de um rio, como fazemos diante de uma flor.
      Ainda que às vezes desagrade, esse cheiro de curral misturado ao acre da carne seca, de churrasco e cachaça tresandando a cana pertence à origem da cidade. É sabido que o local era pouso de tropeiros, daí esse cheiro de curral e lenhas ardendo, cinza espalhada. Daí essa treva iluminada pelos lobos, essa luz dúbia de casas de meretrizes, esse calafrio espalhado pela noiva que morreu na Serra do Rola Moça. E esse queixume que a cidade exala.
      Enquanto é tempo, é preciso ouvir o seu queixume: não a estraguem mais, pichadores e ônibus. Quando os homens públicos vão se distinguir pela abnegação às grandes (e urgentíssimas) obras? Quando poderemos ir da Praça 7 à Savassi, ou à Pampulha, ou ao Mineirão, da forma mais rápida, segura e limpa, ou seja, de metrô subterrâneo? Será que nossos filhos terão esse privilégio? Até quando os operários vão ter que perder de três a quatro horas diárias em ônibus sujos, caros e superlotados? Os modestos e humildes pedreiros a quem tanto deve esta cidade de alvenaria. O metrô de Paris tem a idade de Belo Horizonte, é do finzinho do século XIX; o de Lisboa data dos anos 20. A cidade centenária tem uma dívida com seus trabalhadores.

PEREIRA, Edgard. Para amar e trabalhar. Hoje em dia. Opinião. Belo Horizonte, p. 2, 28 abr.1997.

      Divulgo a crônica referida outro dia. 



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