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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Manhattan Connection com o ex-presidente Fernando Henrique

       Um dos melhores programas de economia da TV brasileira, o Manhattan Connection convidou o ex-presidente para sua última edição pela GNT, antes de seguir para a Globo News a partir do final de janeiro. Caso raro na TV, o programa foi um verdadeiro show de entrevista. Com a habitual lucidez, serenidade e linguagem elegante, Fernando Henrique (governou de 1995 a 2002) respondeu a perguntas embaraçosas. Como “Qual foi o melhor presidente do Brasil”? A resposta veio com uma nota de velhacaria: Getúlio Vargas, Campos Sales, Juscelino, Castelo, aqueles que promoveram reformas estruturais profundas. Em tempos de exacerbado nunca antes, a fala do contraditório. O programa destaca-se pela irreverência, competência e coragem dos entrevistadores. Gente do quilate de Lucas Mendes, Caio Blinder, Ricardo Amorim e Diogo Mainardi. Mesmo reconhecendo méritos no governo Lula, a princípio seguindo “receituário” da sua equipe econômica, não o considera entre os grandes, tendo em vista a manipulação a que submete o povo. E citou o forte envolvimento da máquina do governo (disse "abuso de poder") na eleição que elegeu Dilma Rousseff.

                                  (A foto é de Júlia Paquelet).

      Indagado (por Mainardi) sobre a hesitação do DEM e PSDB em pedir o impeachment de Lula, à época do Mensalão, afirmou que a oposição registrou, sim, protesto na Justiça contra a compra de apoio político no Congresso, mas ponderou sobre os riscos que a democracia poderia sofrer com o caso, diante do contexto. Tratava-se de derrubar o primeiro operário eleito para presidente do país, motivo suficiente para ser visto visto como “golpe das elites”, no âmbito do populismo rasteiro. Talvez a rua não aderisse de todo, uma vez que a inflação estava sob controle, graças ao modelo seguido.

      Para o ex-presidente, apesar das evidências de que o país está no caminho certo (há mais de duas décadas) e vai prosseguir, paira uma apreensão no atual momento político, decorrente do papel subserviente do Congresso, que teria perdido o sentido de “poder político” e de debate crítico. Segundo ele, importante não é alcançar a quinta colocação na economia mundial. Há mais de duas décadas, o país está entre as dez maiores economias do mundo, precisa colocar-se entre os dez melhores lugares de se viver, com efetivo crescimento na segurança, saúde, educação, democracia e participação política.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fratura exposta

Livro do mês:

O livro deste mês não é um lançamento recente, mas é um produto cultural admirável sob vários aspectos; inteiramente injustiçado, não recebeu ainda o merecido reconhecimento. Três fatores no mínimo determinam o silêncio em torno de um livro: a má distribuição, a indiferença da crítica, o despreparo da mesma. Em relação a alguns lançamentos, pode ocorrer a convergência dos três fatores simultaneamente. Esse parece ter sido lamentavelmente o caso do espantoso ostracismo imposto a Fratura exposta, Prêmio Cidade de Belo Horizonte no ano de 1983, estreia literária de Jeter Neves. Creditar apenas ao mau gosto da capa ou à acanhada concepção gráfica o confinamento negativo imposto ao livro seria ingenuidade. Mesmo no restrito contexto mineiro a repercussão foi tímida. O mais grave é que esse quadro geral de displicência e desinteresse dos cadernos ditos culturais em relação à literatura tem-se tornado padrão nos últimos vinte anos. Com o desaparecimento da crítica militante na imprensa, a cobertura dos produtos culturais recai sobre um profissional de perfil polivalente, encarregado de opinar sobre grandes shows de rock, pagode e MPB, Djs, teatro, espetáculos de ópera, dança, eventos ligados às artes plásticas e livros. Nesta ordem, é bom atentar. Nem sempre bem informado, o responsável pela seção acaba transcrevendo a nota da orelha do livro, quando calha.

Jeter Neves, nascido em Miradouro (MG, 1946), surge após o decantado boom dos contistas mineiros, ocorrido nos anos 70 do século passado, mas nem por isso é um talento menor. Premiado no Concurso nacional de contos do Paraná, em 1978, na categoria estreante, o primeiro livro apresenta-se como refinada elaboração ficcional, algo raro em escritas visceralmente engajadas. A nota dominante de Fratura exposta é o o contato direto com a realidade, abordada em duas águas, tanto na vertente rural (embora em dimensão mais rarefeita) como no caos urbano. O tom experimental, a inquietação inovadora, apta a mesclar discursos diversos (o literário, o jornalístico, o histórico, o dramático, o diarístico, o cinematográfico) não hesita em investir em técnicas menos tradicionais de narrar. Num conjunto de oito contos, dois seguem a vertente regional, em que o legado se mostra através de ruínas de uma memória destroçada e de breves traços do linguajar caipira (“Memória desfigurada” e “Arame farpado”). As duas realidades, os dois brasis, são referidos, em “Pequenos assassinatos”: “O mundo era dois: o primeiro aquele ali, simples familiar: horta, partos, segredos, chiado de cigarra contrapondo-se àquele tempo, lesma em muro de lodo, fluindo, fluindo sua lentidão; o outro, longe, muito longe, o de atrás de atrás de atrás dos morros, dos rios, das nuvens, o que chegava nas caras de dentes brancos, sorriso alô alô Brasil e coxas e peitos ardentes da namoradinha do Brasil, rainha dos músicos, miss universe, revista do rádio, aviso aos navegantes, bóia de luz apagada, Luz del Fuego acesa, cobras, sexo, na Capital Federal são precisamente sete horas, parampampam-pampam/param-pampam-pampam o seu reporteresso em edição extraordinária!”.


A desenfreada violência urbana que perpassa o restante, cuidadosamente reconstituída em suas formas deterioradas de repressão política e miséria social, é delineada de forma contundente. O ritmo vertiginoso e impactante da ação, os cortes cinematográficos, a brutalidade de algumas intervenções sociais reverberam a crueza narrativa de Sam Peckinpah ou de Rubem Fonseca. O relato “A cidade como um verme” é um retrato fiel e sem retoques da rotina urbana, em que as luzes feéricas do néon se misturam ao cheiro fétido do lixo e de situações desumanas. No afã de desconstruir as ilusões criadas em torno da ideia de cidade grande como solução de todas as mazelas sociais, um dos contos, “O cachorro e seu menino: a travessia”, convoca inúmeros disfarces de linguagem e recursos circenses, para descrever cruamente a caminhada de um cão e um menino famintos, sob o ponto de vista do animal, nas vias urbanas mais sórdidas e deterioradas. A acoplagem do narrador ao foco narrativo, sob a perspectiva canina, em que pese certa afetação, possibilita um viés crítico inusitado: “Ele me passou a nota e ficou de olho ni mim pra sacar minha leitura. Aí minha cara, que, modéstia à parte, costuma ser castanha e fogo, foi ficando amarela e depois verde; quer dizer, desandou, mano velho. E o meninim, que não é bobo nem nada, foi chegando junto: dá pra comprar uma casa? Eu disse: não dá. Ele: comida, sapato, revistinha? E eu: não, não dá. Chi!, ele falou, com uma carinha tão sem graça! Aí eu abri o jogo: dá pra comprar um pedaço de chiclete, um palito de fósforo, 13 caroços de feijão. Ah, um cheirinho de sanduíche também dá”. A consciência amarga de que a solidariedade entre as pessoas é um projeto fracassado irremediavelmente e de que a convivência pacífica na diversidade é uma utopia serve de moldura aos contos, especialmente “Bar e restaurante Suez”. Uma pequena amostra:

“Um sentimento de que éramos estranhos ali a me acossar. Quem bebia, quem comia naquele lugar? Os que não tinham assento à mesa, os bebuns, os puteiros, os boêmios, os chapas, os feirantes, os tropeiros e todos os desordeiros. E nós o quê?, uns caras fascinados pelo próprio rabo feito filhotes de cachorro, uns bobalegres. Porém, mais do que estranhos, compreendi com mal-estar que ali éramos intrusos. Nossa presença era uma blasfêmia danada. Invadindo o reduto deles a gente acreditava estar perto de seus destinos e a salvo de nossos remorsos. Nossos próprios atavismos nos eram intoleráveis”.

Mosaico lúcido de um tempo dividido e torpe, de uma cidade desumana e cega que perdeu o rumo, postado sempre à distância do enquadramento subjetivo, o livro de Jeter Neves não tem medo de ousar nas trilhas vigorosas de um realismo denso e povoado de inquietas sugestões. Com sua metralhadora giratória, denuncia os abusos, a intolerância, os desmandos e manipulações de toda a espécie, sem esquecer aqueles cometidos em nome do saber e da suposta dignidade de que supostamente nos julgamos revestidos.

NEVES, Jeter. Fratura exposta. Belo Horizonte: Comunicação, 1984.