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sábado, 6 de novembro de 2010

João de Melo: O homem suspenso



A resenha deste mês homenageia João de Melo, escritor açoriano radicado em Lisboa há décadas. Comprei meu exemplar de O homem suspenso em outubro de 1996, saído do prelo, numa livraria do Centro de comércio Monumental, em Lisboa, na praça do Saldanha, por ocasião de bolsa de estudos em Lisboa, no âmbito do meu Doutorado. A primeira versão desta resenha saiu publicada no Boletim do centro de estudos portugueses, 21, Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG,1997.

O livro do mês:


Após o sucesso de Gente feliz com lágrimas, grande prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores de 1988, publicou João de Melo, escritor nascido nos Açores, em 1949, outros romances de títulos belíssimos, como Autópsia de um mar de ruínas (1984) e, em 1996, O homem suspenso. A versatilidade de um criador múltiplo era conhecida desde a estreia como poeta em Navegação da terra (1980), revelado depois como contista em Histórias de resistência (1975), Entre pássaro e anjo (1987) e As manhãs rosadas (1991) e organizador de uma vasta antologia alusiva à guerra colonial, Os anos da guerra (1988). O retorno como romancista ocorre em grande estilo, numa linguagem exuberante, de intensa atmosfera poética, próxima das ligeiras sutilezas da alegoria e das situações extremas da tragédia.

Sob o signo das revisões e exames de consciência de fim de século (e milênio), O homem suspenso envereda pelas trilhas de uma irônica construção/desconstrução da identidade histórica portuguesa, cujos valores, ao se desmoronarem, ostentam sua granítica espessura. Disso certamente é metáfora, no terceiro capítulo, o desencantado périplo do narrador por largas avenidas, monumentos e ruelas de uma Lisboa simultaneamente real e mítica. O contraponto entre o presente de ruínas e a glória perdida no passado tem como pano de fundo a leitura de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, pretexto para o debate sobre a perda da estabilidade do narrador (conjugal e ideológica), as pequenas ilusões da burguesia e a própria ideia de revolução: “Fecho o livro, quedo-me por um momento em meditação. Penso nos séculos passados, perdido no tempo em que a vida portuguesa não era este vazio nem esta escassez de aventura, e depois volto à superfície da realidade. Agora não acontece nada em Portugal. (...) Vejo Lisboa de frente, erguendo-se no imenso anfiteatro que vem contornando o estuário, desde o Cais das Colunas e o Terreiro do Paço até ao mar, num arco que se distende sobre casas, ruas, colinas, e penso: Lisboa. Afinal Lisboa não existe. Tenho-a diante de mim, mas não existe tal como a vejo agora, única para mim e diferente para todas as outras pessoas. O que nela se passa sou eu que passo, para deixar de existir. Guio de regresso ao centro. Não há trânsito na Marginal, deve ser hora de jantar. Atravesso para o Mosteiro dos Jerônimos, que de súbito me parece um gigantesco mausoléu, de um branco ósseo e fosforescente: a frontaria iluminada contrasta com o chumbo do firmamento muito removido, ameaçando Lisboa com uma grande pancada de chuva”.

Antes do mais, registre-se o surpreendente retrato de uma cidade contraditória, almejando equiparar-se aos padrões da comunidade europeia, sem (querer) camuflar a nostalgia de seu passado glorioso. Coexistem alado a lado, no súbito desnudar-se a que é submetido o narrador, o fascínio pela melancolia e simplicidade da alma portuguesa e a desconfiança no progresso proposto pela aliança econômica. A descoberta da miséria ambiente cresce na medida em que o protagonista, prestes a ver reconhecida sua trajetória intelectual, se vê proscrito da relação amorosa. “Não sei onde começa a pobreza e termina a sua desordem, nem se uma e outra apenas se confundem na escuridão e na sujidade. Sei é que há vidas bem tristes, ofícios que mais parecem condenações, lugares horrendos onde ninguém, vivo ou morto, decerto gosta de estar” (p.81). A interrupção da rotina familiar propicia uma desordenada e afetuosa ocupação da cidade e de seu tempo, um tempo “vastíssimo, limpo, sempre muito belo da cidade de Lisboa”, “como não há outro em nenhum país da Europa”(20).

A busca desesperada da fé adolescente, a descrença nos projetos intelectuais, a partilha do abandono com um cão de rua, a perda do sentido da origem com a morte do pai, o conflito entre a vida e erudição, as falhadas tentativas de reconciliação com a esposa, as desilusões religiosas são etapas de uma dilacerante descida aos infernos. O jogo intertextual com a obra Peregrinação seria um índice de crítica à globalização econômica, em curso nos países da Comunidade Econômica Europeia? O texto aparentemente ingênuo de Fernão Mendes Pinto não esconde uma denúncia à ideologia das Cruzadas em pleno século XVI. Esse livro será o derradeiro elo do narrador com a cultura, lido em êxtase, “ (...) como lêem os crentes e os devotos, passando versículos e parágrafos, sentindo passar por aqui o frêmito da dimensão universal” (p.31). Ao lançar ao Tejo sua tese de doutorado, o narrador vê-se dividido: uma parte de si é levada pelas águas, “vai por esses mares navegando, chegará talvez às partes da Índia, e às outras todas da minha perdição...” (p.31). A outra parte resiste em terra, com uma doença de amor no olhar, diante do mar, signo emblemático, tendo a  Peregrinação e Lisboa diante dos olhos, duas mágicas ficções, as únicas por que vale a pena se prender e se perder.


MELO, João de. O homem suspenso. Lisboa: Dom Quixote, 1996. 217 p.

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