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terça-feira, 16 de novembro de 2010

Fernando Pessoa e as ciências ocultas

      Evito enveredar em pesquisas que tenham por objetivo elucidar fenômenos ligados ao ocultismo. Seria um mecanismo de defesa inconsciente? Talvez. Reconheço que, em alguma situação confusa ou opressora, estranhas linhas de força impõem-se, tencionadas e questionadoras. Não prossigo. Sinto-me mais seguro cercado por teorias claras, transparentes. Visíveis. Fernando Pessoa, ao contrário, envolveu-se profundamente em temas enraizados nas ciências ocultas. Desde sempre o acompanhou o interesse pelos fenômenos da magia, a atração pelas ciências ocultas, a ordem dos Templários e questões ligadas à maçonaria. Yvette Centeno revela que na adolescência, na África do Sul, desenvolveu tendência pelos temas herméticos, tocados pelo mistério. Dos oito aos dezessete anos, viveu em Durban, onde o padrasto exerceu o cargo de cônsul interino, de 1896 a 1905, com o retorno a Portugal de junho de 1901 a set. de 1902, em gozo de férias com a família. Alguns heterônimos teriam surgido em momentos de presságios e trovoadas, entre pios de coruja e corvos pousados em árvores desfolhadas por raios. Acresce à tendência pessoal a influência da cultura inglesa, fértil em magia e adiados Harry Potter e Hermione que procriam.

      “O ocultismo é a busca do outro lado das coisas: “o interno, a outra face das coisas”, como escreve num esboço de conto intitulado 'O filósofo hermético'. A outra face das coisas pode ser alcançada? A avaliar pela quantidade de textos em que Fernando Pessoa trata do ocultismo, da magia, da cabala, do rosicrucismo, da maçonaria e das ordens iniciáticas em geral, sim, para ele pode alcançar-se, ou pode pelo menos procurar-se com alguma esperança. É o que faz. Sem a ambição do máximo (ou sem essa ilusão), mas com a paciência e a fidelidade do mínimo. E o mínimo já implica a vida inteira” (CENTENO, 1985, p. 53).

      Muitos de seus poemas (em especial aqueles que compõem “Passos da Cruz”) refletem a importância por ele atribuída à ideia de iluminação, a busca do outro lado das coisas:

      “Emissário de um rei desconhecido,
      eu cumpro informes instruções de além.
      E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
      soam-me a um outro e anômalo sentido”.

      “Aconteceu-me do alto do infinito
      esta vida”.

      “Inconscientemente me divido
      entre mim e a missão que o meu ser tem”.

      Mesmo o heterônimo Caeiro, voltado para a simplicidade do mundo, não consegue eliminar por completo o peso do mistério em sua poesia: “Porque o único sentido oculto das coisas/ é elas não terem sentido oculto nenhum”. No poema Mensagem, o poeta recria situações e personagens da história lusa, em que os feitos reais se misturam aos mitos, numa visão messiânica do destino de Portugal, fadado a cumprir uma trajetória iniciática.

      “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
      define com perfil e ser
      este fulgor baço da terra
      que é Portugal a entristecer -
      brilho sem luz e sem arder,
      como o que o fogo-fátuo encerra”
      (...)
      Tudo é incerto e derradeiro.
      Tudo é disperso, nada é inteiro.
      Ó Portugal, hoje és nevoeiro...”


      Et pour cause, tenho um amigo fanático por Pessoa: toda noite de 30 de novembro lhe acende uma vela, em homenagem à morte do poeta dos heterônimos. Está próximo.

CENTENO, Yvette. Fernando Pessoa - o amor, a morte, a iniciação. Lisboa: A regra do jogo, 1985.
QUESADO, Clécio. Labirintos de um livro à beira-mágoa: análise de Mensagem de Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Elo, 1999.
PESSOA, Fernando. Obra poética. 9. ed. Org. de Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.


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