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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Devolver o Jabuti?

Não há registro, ao que saiba, de escritor que tenha devolvido prêmio literário. Isso é um disparate. O que ocorreu foram recusas, por parte de grandes escritores, em receber prêmios, muito mais polpudos financeiramente que o Jabuti. Jean Paul Sartre recusou o Prêmio Nobel em 1964. Luandino Vieira recusou o Prêmio Camões em 2006, alegando motivos pessoais. Recentemente no último Forum das letras, alegou que não se sentia bem receber o prêmio quando estava há vinte anos sem publicar, consciente de que nesse ínterim outros haviam trabalhado e publicado.

Corre na internet um movimento pedindo que Chico Buarque devolva o Jabuti 2010, com mais de dez mil assinaturas. O motivo alegado é que não tem sentido um livro classificado em segundo lugar na categoria romance levar o prêmio geral. A editora Record externou publicamente seu desagrado e a intenção de ficar de fora da premiação. Esquisito o critério? Sem dúvida. Mas havia precedentes: em 2001, quando Lygia Fagundes Telles, com o livro Invenção e memória, classificado em terceiro lugar na categoria crônicas e contos; em 2004, com o próprio Chico Buarque de Holanda, quando Budapeste, terceiro lugar em romance, abocanhou a estatueta e o prêmio financeiro correspondente. Entre outros. Premiações de cartas marcadas, enganam os imbecis durante dois meses para depois se tornarem motivos de piada e vergonha para a literatura do país.

Considero Chico Buarque um dos mais talentosos e geniais compositores brasileiros. Nesse ponto participo da unanimidade. Como escritor, não me agrada. Sou um leitor refratário de Chico Buarque. Não consegui ir além da página 30 de um romance, não sei se Benjamim ou Estorvo, um desses títulos, face à gritante fragilidade técnica e literária. Nada ali convence ou se impõe, trata-se de um exercício ficcional inteiramente fracassado e inconsistente. Críticos respeitáveis depois reabilitaram Budapeste. Mas o estrago para mim estava feito.

As instituições dão os prêmios a quem lhes apetece. O critério de vendas parece pesar muito. Sobre o Jabuti deste ano, o comentário mais pontual foi o do romancista português Francisco José Viegas, no calor da hora. Com a palavra Francisco José Viegas, em seu blog a origem da espécie, no dia 10 de novembro, respeitando a ortografia portuguesa:

“Alguns leitores acham que me espalhei por ter escrito sobre o absurdo funcionamento do Prémio Jabuti — tão absurdo que foi parar às mãos de Chico Buarque, classificado em segundo lugar na categoria «Romance». Acontece que Chico foi distinguido, menos de uma semana depois, com o Prémio Portugal Telecom, que a PT local atribui a livros de língua portuguesa publicados no Brasil (em Portugal, a PT é muito menos literária). Ora, vamos a contas: é, ou não é absurdo que Chico Buarque receba o Prémio Jabuti «de ficção», atribuído pela Câmara Brasileira do Livro (que sempre preza muito as suas orientações comerciais e os favores políticos), depois de ter ficado em segundo lugar em «romance», de não ter figurado nas categorias de crónica, conto ou biografia? Que superlativa categoria é essa que repesca os segundos lugares das «categorias de ficção» (o romance, a crónica, o conto, a novela) para os eleger como grandes vencedores ao som de «Dilma! Dilma! Dilma!», como aconteceu na semana passada em São Paulo? Garantam-me a sua existência e eu dou-me por vencido. Como é possível que, em 2004, o terceiro lugar (uma menção honrosa) na categoria «romance» tenha sido declarado vencedor absoluto do Prémio Jabuti, ultrapassando escritores como Bernardo Carvalho (primeiro prémio na categoria «romance»), Luiz Antônio Assis Brasil (segundo lugar na categoria «romance») e Sérgio Sant‘Anna (primeiro lugar na categoria «conto e novela») ou jornalistas como Caco Barcellos (vencedor na categoria «reportagem»), senão para humilhar a lógica, festejar Chico Buarque, e criar um feliz matrimónio político-comercial? Não me fodam.
Que Chico Buarque, uma semana depois dessa ignomínia, e seis anos depois de outra, pior, tenha sido premiado pela Portugal Telecom, é-me completamente indiferente. Custa-me a acreditar que Leite Derramado seja considerado melhor do que os livros de Bernardo Carvalho, Bernardo Ajzemberg, Luiz Ruffatto, José Eduardo Agualusa, Rubem Fonseca, Ana Miranda, Dalton Trevisan ou o fantástico romance de Reinaldo Moraes. Mas aceito os critérios do júri. Eu, abaixo assinado, aceito os critérios e as decisões do júri. Não acho aceitáveis os critérios do Jabuti nem o desenho de circunstâncias que rodearam a sua atribuição a Chico Buarque, um excelente compositor até certo momento.”

O Jabuti fica desprestigiado. E ficam mais uma vez injustiçados e preteridos verdadeiros valores literários, figuras de primeiríssima água. Para ficar dentro das fronteiras de Minas Gerais, pelo menos três nomes fundamentais podem ser citados, a esse respeito: Rui Mourão, Maria José de Queirós e Benito Barreto.

3 comentários:

  1. Não era nem pra ter mais esse prêmio de cartas marcadas, sempre foi assim. Vergonha para literatura brasileira.

    http://duiliopereira.blogspot.com

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  2. Enquanto Chico Buarque passeia em Paris... O debate em torno do famigerado Jabuti de cartas marcadas, tímido, é típico da sociedade culta no Brasil de hoje. De cara, as pessoas se posicionam, temendo se queimar. Poucos reconhecem a impropiedade da premiação: é um nome importante na cultura do país. Isto basta. Entre os apoiadores, os impávidos simpatizantes do PT, seguidos pelos conciliadores de plantão. E se o pote se invertesse? Se um grande autor, um Milton Hatoum, p. e., enveredasse pelos caminhos da música, produzindo bons sambas? A recíproca seria também generosa? Abocanharia também o galardão de maior prestígio da área musical? Exercícios de suposição são válidos,vez por outra. O positivo, para além dos ressentimentos idiotas, é ver que a literatura é um território livre, uma casa aberta.

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  3. Errata: onde se lê impropiedade leia-se impropriedade.

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