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domingo, 28 de novembro de 2010

Legião Urbana


Considero-me um fã irrestrito da banda Legião Urbana. Acompanhei a carreira, participei de agito em show de estádio, tenho seis discos de vinil. Curto a pegada, vivi momentos intensos embalados pelas guitarras e zoeira da banda. O lado alucinado de meu percurso sentimental teve como fundo musical os acordes de Dado Vilas Boas, a bateria de Bonfá e a voz de Renato Russo. Isso não tem como apagar. A experiência amorosa sempre faz vibrar a música, em todas as direções. Para o poeta Herberto Hélder, “somente o mundo é uma coisa sonora”. Quando a música se entrelaça às palavras, as portas da percepção ficam arrebatadas.

Renato Russo, o poeta da Legião Urbana, expressa bem a síntese da geração dos anos oitenta, aquela que viveu o máximo de liberdade e de repressão, experimentou a aventura do prazer e da perda, a tensão entre o sonho e a realidade. O voo aos paraíso artificiais e o retorno ao horizonte opaco. A hesitação entre as meninas e os meninos. O fascínio do arco-íris e as trevas do cotidiano estúpido. Em fins dos anos oitenta, abandona a rebeldia sem causa, o desbunde. Tenta, nos poucos anos restantes, compreender a injusta e violenta engrenagem das relações sociais. Grita sua revolta diante da “estupidez de todas as nações/ o meu país e sua corja de assassinos/ covardes, estupradores e ladrões". Grita sua impotência “a cada fevereiro e feriado/ todos os mortos nas estradas/ os mortos por falta de hospitais” em “Perfeição”. Tenta, depois, compreender o mundo “complicado”, injusto e sem glamour, absurdamente contraditório e violento.

Envereda, depois, num percurso melancólico, caminho natural para o poeta que traduziu musicalmente para a juventude do fim do século XX, a visão do desconcerto do mundo (e do amor) sob a ótica de Camões. “Vinte e nove”, em sua aparente simplicidade, representa a feliz combinação entre texto e melodia. Atento aos problemas sociais e mazelas urbanas, comenta: "Vamos sair - mas não temos mais dinheiro./ Os meus amigos todos estão procurando emprego". A barra não mudou muito não, cara. Continua pedreira. À falta de rumo no plano pessoal, para o sujeito à deriva resta a parceria das ondas: “Já que você não está aqui/ o que posso fazer é cuidar de mim/ quero ser feliz ao menos./ Eu deixo a onda me acertar/ e o vento vai levando tudo embora”. Após os descaminhos, excessos e delírios dos anos oitenta, sugere a malograda integração no mundo, no belíssimo “O mundo anda tão complicado”.


                                                 Renato Russo (1960-11 de out. 1996)

Vinte e novembro

Perdi vinte em vinte e nove amizades
por conta de uma pedra em minhas mãos
me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
estou aprendendo a viver sem você
(já que você não me quer mais).

Passei vinte e nove meses num navio
e vinte e nove dias na prisão
e aos vinte e nove, com o retorno de Saturno,
decidi começar a viver.

Quando você deixou de me amar
aprendi a perdoar
e a pedir perdão.
E vinte e nove anjos me saudaram
e tive vinte e nove amigos outra vez.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Devolver o Jabuti?

Não há registro, ao que saiba, de escritor que tenha devolvido prêmio literário. Isso é um disparate. O que ocorreu foram recusas, por parte de grandes escritores, em receber prêmios, muito mais polpudos financeiramente que o Jabuti. Jean Paul Sartre recusou o Prêmio Nobel em 1964. Luandino Vieira recusou o Prêmio Camões em 2006, alegando motivos pessoais. Recentemente no último Forum das letras, alegou que não se sentia bem receber o prêmio quando estava há vinte anos sem publicar, consciente de que nesse ínterim outros haviam trabalhado e publicado.

Corre na internet um movimento pedindo que Chico Buarque devolva o Jabuti 2010, com mais de dez mil assinaturas. O motivo alegado é que não tem sentido um livro classificado em segundo lugar na categoria romance levar o prêmio geral. A editora Record externou publicamente seu desagrado e a intenção de ficar de fora da premiação. Esquisito o critério? Sem dúvida. Mas havia precedentes: em 2001, quando Lygia Fagundes Telles, com o livro Invenção e memória, classificado em terceiro lugar na categoria crônicas e contos; em 2004, com o próprio Chico Buarque de Holanda, quando Budapeste, terceiro lugar em romance, abocanhou a estatueta e o prêmio financeiro correspondente. Entre outros. Premiações de cartas marcadas, enganam os imbecis durante dois meses para depois se tornarem motivos de piada e vergonha para a literatura do país.

Considero Chico Buarque um dos mais talentosos e geniais compositores brasileiros. Nesse ponto participo da unanimidade. Como escritor, não me agrada. Sou um leitor refratário de Chico Buarque. Não consegui ir além da página 30 de um romance, não sei se Benjamim ou Estorvo, um desses títulos, face à gritante fragilidade técnica e literária. Nada ali convence ou se impõe, trata-se de um exercício ficcional inteiramente fracassado e inconsistente. Críticos respeitáveis depois reabilitaram Budapeste. Mas o estrago para mim estava feito.

As instituições dão os prêmios a quem lhes apetece. O critério de vendas parece pesar muito. Sobre o Jabuti deste ano, o comentário mais pontual foi o do romancista português Francisco José Viegas, no calor da hora. Com a palavra Francisco José Viegas, em seu blog a origem da espécie, no dia 10 de novembro, respeitando a ortografia portuguesa:

“Alguns leitores acham que me espalhei por ter escrito sobre o absurdo funcionamento do Prémio Jabuti — tão absurdo que foi parar às mãos de Chico Buarque, classificado em segundo lugar na categoria «Romance». Acontece que Chico foi distinguido, menos de uma semana depois, com o Prémio Portugal Telecom, que a PT local atribui a livros de língua portuguesa publicados no Brasil (em Portugal, a PT é muito menos literária). Ora, vamos a contas: é, ou não é absurdo que Chico Buarque receba o Prémio Jabuti «de ficção», atribuído pela Câmara Brasileira do Livro (que sempre preza muito as suas orientações comerciais e os favores políticos), depois de ter ficado em segundo lugar em «romance», de não ter figurado nas categorias de crónica, conto ou biografia? Que superlativa categoria é essa que repesca os segundos lugares das «categorias de ficção» (o romance, a crónica, o conto, a novela) para os eleger como grandes vencedores ao som de «Dilma! Dilma! Dilma!», como aconteceu na semana passada em São Paulo? Garantam-me a sua existência e eu dou-me por vencido. Como é possível que, em 2004, o terceiro lugar (uma menção honrosa) na categoria «romance» tenha sido declarado vencedor absoluto do Prémio Jabuti, ultrapassando escritores como Bernardo Carvalho (primeiro prémio na categoria «romance»), Luiz Antônio Assis Brasil (segundo lugar na categoria «romance») e Sérgio Sant‘Anna (primeiro lugar na categoria «conto e novela») ou jornalistas como Caco Barcellos (vencedor na categoria «reportagem»), senão para humilhar a lógica, festejar Chico Buarque, e criar um feliz matrimónio político-comercial? Não me fodam.
Que Chico Buarque, uma semana depois dessa ignomínia, e seis anos depois de outra, pior, tenha sido premiado pela Portugal Telecom, é-me completamente indiferente. Custa-me a acreditar que Leite Derramado seja considerado melhor do que os livros de Bernardo Carvalho, Bernardo Ajzemberg, Luiz Ruffatto, José Eduardo Agualusa, Rubem Fonseca, Ana Miranda, Dalton Trevisan ou o fantástico romance de Reinaldo Moraes. Mas aceito os critérios do júri. Eu, abaixo assinado, aceito os critérios e as decisões do júri. Não acho aceitáveis os critérios do Jabuti nem o desenho de circunstâncias que rodearam a sua atribuição a Chico Buarque, um excelente compositor até certo momento.”

O Jabuti fica desprestigiado. E ficam mais uma vez injustiçados e preteridos verdadeiros valores literários, figuras de primeiríssima água. Para ficar dentro das fronteiras de Minas Gerais, pelo menos três nomes fundamentais podem ser citados, a esse respeito: Rui Mourão, Maria José de Queirós e Benito Barreto.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Fernando Pessoa e as ciências ocultas

      Evito enveredar em pesquisas que tenham por objetivo elucidar fenômenos ligados ao ocultismo. Seria um mecanismo de defesa inconsciente? Talvez. Reconheço que, em alguma situação confusa ou opressora, estranhas linhas de força impõem-se, tencionadas e questionadoras. Não prossigo. Sinto-me mais seguro cercado por teorias claras, transparentes. Visíveis. Fernando Pessoa, ao contrário, envolveu-se profundamente em temas enraizados nas ciências ocultas. Desde sempre o acompanhou o interesse pelos fenômenos da magia, a atração pelas ciências ocultas, a ordem dos Templários e questões ligadas à maçonaria. Yvette Centeno revela que na adolescência, na África do Sul, desenvolveu tendência pelos temas herméticos, tocados pelo mistério. Dos oito aos dezessete anos, viveu em Durban, onde o padrasto exerceu o cargo de cônsul interino, de 1896 a 1905, com o retorno a Portugal de junho de 1901 a set. de 1902, em gozo de férias com a família. Alguns heterônimos teriam surgido em momentos de presságios e trovoadas, entre pios de coruja e corvos pousados em árvores desfolhadas por raios. Acresce à tendência pessoal a influência da cultura inglesa, fértil em magia e adiados Harry Potter e Hermione que procriam.

      “O ocultismo é a busca do outro lado das coisas: “o interno, a outra face das coisas”, como escreve num esboço de conto intitulado 'O filósofo hermético'. A outra face das coisas pode ser alcançada? A avaliar pela quantidade de textos em que Fernando Pessoa trata do ocultismo, da magia, da cabala, do rosicrucismo, da maçonaria e das ordens iniciáticas em geral, sim, para ele pode alcançar-se, ou pode pelo menos procurar-se com alguma esperança. É o que faz. Sem a ambição do máximo (ou sem essa ilusão), mas com a paciência e a fidelidade do mínimo. E o mínimo já implica a vida inteira” (CENTENO, 1985, p. 53).

      Muitos de seus poemas (em especial aqueles que compõem “Passos da Cruz”) refletem a importância por ele atribuída à ideia de iluminação, a busca do outro lado das coisas:

      “Emissário de um rei desconhecido,
      eu cumpro informes instruções de além.
      E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
      soam-me a um outro e anômalo sentido”.

      “Aconteceu-me do alto do infinito
      esta vida”.

      “Inconscientemente me divido
      entre mim e a missão que o meu ser tem”.

      Mesmo o heterônimo Caeiro, voltado para a simplicidade do mundo, não consegue eliminar por completo o peso do mistério em sua poesia: “Porque o único sentido oculto das coisas/ é elas não terem sentido oculto nenhum”. No poema Mensagem, o poeta recria situações e personagens da história lusa, em que os feitos reais se misturam aos mitos, numa visão messiânica do destino de Portugal, fadado a cumprir uma trajetória iniciática.

      “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
      define com perfil e ser
      este fulgor baço da terra
      que é Portugal a entristecer -
      brilho sem luz e sem arder,
      como o que o fogo-fátuo encerra”
      (...)
      Tudo é incerto e derradeiro.
      Tudo é disperso, nada é inteiro.
      Ó Portugal, hoje és nevoeiro...”


      Et pour cause, tenho um amigo fanático por Pessoa: toda noite de 30 de novembro lhe acende uma vela, em homenagem à morte do poeta dos heterônimos. Está próximo.

CENTENO, Yvette. Fernando Pessoa - o amor, a morte, a iniciação. Lisboa: A regra do jogo, 1985.
QUESADO, Clécio. Labirintos de um livro à beira-mágoa: análise de Mensagem de Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Elo, 1999.
PESSOA, Fernando. Obra poética. 9. ed. Org. de Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.


sábado, 6 de novembro de 2010

João de Melo: O homem suspenso



A resenha deste mês homenageia João de Melo, escritor açoriano radicado em Lisboa há décadas. Comprei meu exemplar de O homem suspenso em outubro de 1996, saído do prelo, numa livraria do Centro de comércio Monumental, em Lisboa, na praça do Saldanha, por ocasião de bolsa de estudos em Lisboa, no âmbito do meu Doutorado. A primeira versão desta resenha saiu publicada no Boletim do centro de estudos portugueses, 21, Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG,1997.

O livro do mês:


Após o sucesso de Gente feliz com lágrimas, grande prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores de 1988, publicou João de Melo, escritor nascido nos Açores, em 1949, outros romances de títulos belíssimos, como Autópsia de um mar de ruínas (1984) e, em 1996, O homem suspenso. A versatilidade de um criador múltiplo era conhecida desde a estreia como poeta em Navegação da terra (1980), revelado depois como contista em Histórias de resistência (1975), Entre pássaro e anjo (1987) e As manhãs rosadas (1991) e organizador de uma vasta antologia alusiva à guerra colonial, Os anos da guerra (1988). O retorno como romancista ocorre em grande estilo, numa linguagem exuberante, de intensa atmosfera poética, próxima das ligeiras sutilezas da alegoria e das situações extremas da tragédia.

Sob o signo das revisões e exames de consciência de fim de século (e milênio), O homem suspenso envereda pelas trilhas de uma irônica construção/desconstrução da identidade histórica portuguesa, cujos valores, ao se desmoronarem, ostentam sua granítica espessura. Disso certamente é metáfora, no terceiro capítulo, o desencantado périplo do narrador por largas avenidas, monumentos e ruelas de uma Lisboa simultaneamente real e mítica. O contraponto entre o presente de ruínas e a glória perdida no passado tem como pano de fundo a leitura de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, pretexto para o debate sobre a perda da estabilidade do narrador (conjugal e ideológica), as pequenas ilusões da burguesia e a própria ideia de revolução: “Fecho o livro, quedo-me por um momento em meditação. Penso nos séculos passados, perdido no tempo em que a vida portuguesa não era este vazio nem esta escassez de aventura, e depois volto à superfície da realidade. Agora não acontece nada em Portugal. (...) Vejo Lisboa de frente, erguendo-se no imenso anfiteatro que vem contornando o estuário, desde o Cais das Colunas e o Terreiro do Paço até ao mar, num arco que se distende sobre casas, ruas, colinas, e penso: Lisboa. Afinal Lisboa não existe. Tenho-a diante de mim, mas não existe tal como a vejo agora, única para mim e diferente para todas as outras pessoas. O que nela se passa sou eu que passo, para deixar de existir. Guio de regresso ao centro. Não há trânsito na Marginal, deve ser hora de jantar. Atravesso para o Mosteiro dos Jerônimos, que de súbito me parece um gigantesco mausoléu, de um branco ósseo e fosforescente: a frontaria iluminada contrasta com o chumbo do firmamento muito removido, ameaçando Lisboa com uma grande pancada de chuva”.

Antes do mais, registre-se o surpreendente retrato de uma cidade contraditória, almejando equiparar-se aos padrões da comunidade europeia, sem (querer) camuflar a nostalgia de seu passado glorioso. Coexistem alado a lado, no súbito desnudar-se a que é submetido o narrador, o fascínio pela melancolia e simplicidade da alma portuguesa e a desconfiança no progresso proposto pela aliança econômica. A descoberta da miséria ambiente cresce na medida em que o protagonista, prestes a ver reconhecida sua trajetória intelectual, se vê proscrito da relação amorosa. “Não sei onde começa a pobreza e termina a sua desordem, nem se uma e outra apenas se confundem na escuridão e na sujidade. Sei é que há vidas bem tristes, ofícios que mais parecem condenações, lugares horrendos onde ninguém, vivo ou morto, decerto gosta de estar” (p.81). A interrupção da rotina familiar propicia uma desordenada e afetuosa ocupação da cidade e de seu tempo, um tempo “vastíssimo, limpo, sempre muito belo da cidade de Lisboa”, “como não há outro em nenhum país da Europa”(20).

A busca desesperada da fé adolescente, a descrença nos projetos intelectuais, a partilha do abandono com um cão de rua, a perda do sentido da origem com a morte do pai, o conflito entre a vida e erudição, as falhadas tentativas de reconciliação com a esposa, as desilusões religiosas são etapas de uma dilacerante descida aos infernos. O jogo intertextual com a obra Peregrinação seria um índice de crítica à globalização econômica, em curso nos países da Comunidade Econômica Europeia? O texto aparentemente ingênuo de Fernão Mendes Pinto não esconde uma denúncia à ideologia das Cruzadas em pleno século XVI. Esse livro será o derradeiro elo do narrador com a cultura, lido em êxtase, “ (...) como lêem os crentes e os devotos, passando versículos e parágrafos, sentindo passar por aqui o frêmito da dimensão universal” (p.31). Ao lançar ao Tejo sua tese de doutorado, o narrador vê-se dividido: uma parte de si é levada pelas águas, “vai por esses mares navegando, chegará talvez às partes da Índia, e às outras todas da minha perdição...” (p.31). A outra parte resiste em terra, com uma doença de amor no olhar, diante do mar, signo emblemático, tendo a  Peregrinação e Lisboa diante dos olhos, duas mágicas ficções, as únicas por que vale a pena se prender e se perder.


MELO, João de. O homem suspenso. Lisboa: Dom Quixote, 1996. 217 p.