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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A poesia de Paulo Merçon



Falar pela segunda vez de um livro pode levar à trilha da repetição. Ainda mais quando se está diante de um produto poético que insiste em afastar qualquer tentativa de capitulação crítica, uma poesia que encena a impossibilidade da crítica diante do ímpeto criativo.: “leia com cuidado/ esses poemas”... “despreze com cuidado este poema” (poema “Antiterror”); “Não a disseque, não a decifre/ em moldura de palavras/ poesia é paisagem furtiva” (“Leitura da poesia”). Mais uma vez sinto-me um intruso, no pórtico desses versos. Retomo, assim, algumas circunstâncias que talvez justifiquem minha presença neste evento.


Em meados de 2009, fui procurado por Paulo Merçon, que não conhecia. Falou do desejo de publicar um livro de poesia e me pediu uma apresentação. Respondi-lhe de forma evasiva, condicionando minha aceitação à qualidade do material, do texto. Assim que terminei a leitura dos originais, não havia como recusar. Esta a origem de minha aproximação à poesia de Paulo Merçon. Publicado o livro, com meu prefácio, logo dois leitores especiais expressaram sua opinião favorável àquele livro de estreia. Márcio Almeida e Nonato Gurgel, também poetas e críticos literários, ecoaram elogios ao livro Abreviaturas do invisível.
Referi a inutilidade do meu prefácio, num livro que se inicia com um belo poema intitulado precisamente “Prefácio”. Destaco de início o cuidado com a elaboração formal, nesse poema:
“Em minhas veias
a paisagem luminosa dos trópicos
é cortada por um rio austero
de águas lapidadas em milênios
nascendo
límpidas do instante
em terras altas da Escócia.”

Em se tratando de um livro de estreia, é sintomático o uso do verbo “nascer”: as palavras nascem límpidas, como águas pacientemente trabalhadas/ “águas lapidadas em milênios”. Dentre os aspectos referidos no prefácio, saliento a “disponibilidade laboriosa ao enigma”, “o aprendizado da partilha”, “o diálogo com outras artes”, “o repertório de fragmentos”, “o resgate de sentidos dispersos”, a cidade como tema, a altíssima voltagem lírica, a metáfora da espuma. Mas deixemos de lado os prefácios.

Aproveito o ensejo da partilha pública dos poemas de Merçon para duas breves palavras: a primeira retoma a leitura crítica, a segunda em forma de solicitação. Ao reler seus versos, fui mais uma vez tocado pela densidade de sua poesia, surpreendentemente madura, vazada em forma simultaneamente simples e elegante, resultado de apreço à tradição e um olhar arejado, sintonizado com os apelos do nosso tempo. Percebo melhor o alcance de seu diálogo com Carlos Drummond de Andrade, - o que nasceu em Minas e foi morar no Rio, trajetória percorrida inversamente por Merçon: o que nasceu no Rio e veio trabalhar em Itabira, - num exercício intertextual, em que os motivos conhecidos da poesia drummondiana são reelaborados:
“Alguns dias vivi em Itabira
(…)
mas guardo a vontade
de amar e a tristeza
minério enterrado
no coração do poeta e
ali escavada
a memória de um mar

enquanto do vidro
do carro Itabira
é a mesma fotografia
(agora em
movimento)

teus versos que
já me doeram mais”
(“Confidência ao itabirano”)

Confidências do cotidiano, instantâneos de situações inesperadas, tentativas de compreensão da realidade, lances sugestivos da paisagem, captação de sensações, para cuja realização a metáfora da espuma é invocada, numa insistência obsessiva – eis por alto uma síntese de seus versos. E sobretudo o desejo de reconquistar o leitor, instância afastada em nome de estéreis e amaneirados trocadilhos e recursos visuais requentados, dados como sinais de modernidade. Sem ignorar que a consolidação de novos poetas torna-se referência positiva e resistência produtiva, diante dos interesses comerciais da mídia e da indústria editorial.

Por fim um pedido. Que nos seus próximos poemas, a cidade não figure apenas como “cidade da alma”, mas como lugar de partilha do corpo e da experiência amorosa, cidade real onde as pulsões e o afeto se instalam, porque a pele é o mais profundo (sabemos desde Valèry e Al Berto), e o arrebatamento metafórico de seus versos solicita outros voos, novas aventuras.
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***(O texto acima foi minha participação no Terças poéticas de 14/9/2010. A imagem deve-se a texto de Márcio Almeida, no saite germina.
*** Dois produtores foram focalizados no evento: o poeta Merçon e o músico Pedro Morais. Excelentes um e outro. O poeta fala sobre poesia e recita versos. O músico dedilha guitarra e canta. Nada contra os músicos. Pelo andar das coisas, dada a vigilância do tempo sobre a perfomance do poeta, entenda-se, a redução do tempo, e a extensão dedicada ao músico, não demora o Terças poéticas, evento vocacionado para divulgação da poesia, pode se transformar em mais um show musical no início da noite, patrocinado pelo Estado. A galera grita, pedindo bis. A perfomance do músico tende a se destacar, ofuscando o poeta. Algo estranho.)
***A seguir, um poema de Merçon:
O copo d'água
........*******...........**********..........
Dentro de um copo de vidro
se exasperam!
e logo se acalmam
os músculos sempre jovens da água.
Um discurso, veloz e prolixo
no formato do vidro se cala
e o silêncio
cristalino e estático não sabe
sua angústia inata de oceano,
a ânsia tramada de tempestade.
Ou, de outro ângulo,
a água límpida daquele copo
talvez fosse um pincel
(invisível) entre os dedos
paralíticos
da sede.

sábado, 4 de setembro de 2010

Suplemento literário: que falta ele faz!


Livro do mês:


      É consensual a relevância dos periódicos literários, como subsídio para a compreensão de uma época, além de documentar uma colaboração diversificada e multifacetada. A autora apresenta uma pesquisa informativa, uma visão panorâmica do Suplemento literário do Estadão. O enfoque é jornalístico, voltado para a elucidação de circunstâncias históricas, relacionadas à origem e contexto da criação do famoso caderno de cultura, que circulou encartado à edição de sábado de O Estado de São Paulo, durante dezoito anos (de 1956 a 1974). Desprovido de interesses comerciais, no âmbito de um ambicioso projeto cultural elaborado por Antônio Candido, seguido à risca, o caderno manteve um perfil erudito e reflexivo, como espaço de produção e debate de temas artísticos e literários, tornando-se referência no gênero. Dirigido inicialmente e durante dez anos por Décio de Almeida Prado, professor e crítico de teatro, mais tarde pelo jornalista Nilo Scalzo, o suplemento era o resultado de uma convergência de esforços entre a nata ilustrada da elite paulista e um grupo de intelectuais da USP. Na sua primeira fase, manteve estreitas relações com o grupo de Clima, revista literária dos anos 40, como comprovam os nomes constantes no expediente (Lourival Gomes Machado era o responsável pelas artes plásticas, Paulo Emílio Gomes pelo cinema) e o depoimento do primeiro editor: “Podemos dizer sem exagero que a essência do Clima, no que diz respeito a pessoas, passara de uma revista de jovens para as páginas de um grande jornal, que tinha outra penetração e responsabilidade perante o público” (p.29).

      Apesar de ligado a um jornal de direita, o Suplemento literário não discriminava colaboradores por questões ideológicas, pautando-se pelo critério de qualidade, numa “atmosfera de objetividade e largueza intelectual”, de acordo com a proposta de Candido. Sintomática a esse respeito, a longa apresentação do primeiro número, (de 6 de outubro de 1956), assinada por Décio de Almeida Prado, afirma: “(...) todos os seus artigos são assinados, nenhuma responsabilidade cabendo à redação; por outro lado, a sua natureza é, portanto, artística. Ora, não se compreende arte sem plena liberdade de expressão e criação pessoal. (...) Uma publicação que se intitula literária nunca poderia transigir com a preguiça mental, com a incapacidade de pensar, devendo partir, ao contrário, do princípio de que não há vida intelectual sem um mínimo de esforço e disciplina” (p.48). Apoiado pela estrutura financeira de um grande jornal, desenvolveu uma gestão editorial marcada pelo profissionalismo, com a mais alta remuneração paga por colaboração literária no país.

      A parte histórica, desenvolvida através da tentativa de relevar o significado do Estadão e do seu suplemento na cultura brasileira, com o resgate e análise do projeto de seu idealizador, configura a espinha dorsal do livro; nesse sentido, contribui para o estudo das relações entre a cultura e o jornalismo. O volume é fartamente ilustrado, com fotografias e reproduções de textos e ilustrações relevantes, acabamento gráfico de bom gosto. O capítulo dedicado às ilustrações estampadas no periódico, com o levantamento dos principais artistas plásticos envolvidos, cumpre exemplarmente sua finalidade. O mesmo não se pode afirmar da parte propriamente literária. São referidos alguns lançamentos, alguns autores são citados, sem uma análise abrangente do material pesquisado. Foi inteiramente descurada a apreciação da colaboração literária, ficou por ser feito um índice alfabético dos colaboradores, como era de se esperar em obra de tal natureza. O ensaio científico é um gênero absorvente, exige pesquisa exaustiva, densidade de argumentação e habilidade para manusear dados estatísticos. O objeto escolhido – a história de um suplemento literário – requer domínio de conceitos e sistemas específicos, além de metodologia adequada. Em obras desta natureza, são fundamentais o destaque ao levantamento da matéria, a formação na área, além de um balanço descritivo e sistemático da produção literária publicada no objeto da investigação.

LORENZOTTI, Elizabeth. Suplemento literário, que falta ele faz!: 1956-1974 do artístico ao jornalístico: vida e morte de um caderno cultural. São Paulo: Imprensa Oficial, 2007.