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domingo, 8 de agosto de 2010

Namoro aos quinze



A imagem reproduz desenho de Gabriel Pereira Reis.
Namoro aos quinze

      Testa coalhada de espinhas, algumas com risco de infecção, entrou em casa radiante. Amargava semanas contrafeitas de variados contratempos. A mudança de colégio, de escola particular transferido para escola pública. Motivo econômico. O labo bom: descobria meninas de beleza natural, mais humildes, algumas oriundas de regiões carentes do estado, onde não havia ensino médio. Depois, fora obrigado a engolir comentários elogiosos de dois colegas (trogloditas) à invasão de fazendas produtivas por integrantes do movimento dos sem-terra. Debate em sala, chatice. Por último, o vazamento de seus dados (e de doze milhões de estudantes) na internet, por conta do exame nacional. Será que são todos cegos e manipuláveis?

      Após bater com força a porta do carro, o que desagradava o pai. Mostrou a mão esquerda. O pai não mostrou interesse. As atividades após o almoço, compromissos de hora marcada, a família com tempo sincronizado. Resfriados e acessos de tosse alternavam de forma natural, como tudo o mais, os olhos brilhando diante das moças bonitas. Mais esperta, a mãe percebeu o nome gravado na mão: Cristina! Um riso abriu o rosto inteiro. Ele disse:

      “Calma, começou com a Aranda, amiga dela, senta atrás de mim”.
      O pai, mostrando disfarçado companheirismo, perguntou:
      “Será que é menina decente? De boa família. Tenho visto garotas muito vulgares, à porta do colégio, agarrando garotos”.
      “Não, pai. Ela é boa menina”. Os garotos azarando o jogo de futebol das meninas, em foco as pernas justo de quem? De Cristina, O short de nylon, fino, quem aguenta? Os garotos, hormônio a mil, maliciosos.

      “Conta tudo”, pediu a mãe, meio aflita.
      “Ela pediu minha mão. Escreveu o nome dela”.
      “Isso eu vi. Cristina”.
       “Depois perguntou se que queria ficar com ela. Assim: quer ficar comigo?”
      “E você, o que respondeu?”
      “Que sim”, os olhos brilhavam, donos da tarde.
      “O que é ficar?”, interveio, singelo, o pai.
      “Namorar, uai”, completou o irmão menor.
      “Não, vocês não sabem de nada. Ficar é o início da paquera. Do namoro.”
      “Isso é natural, com o tempo vocês vão se conhecer melhor”, o pai dizia, conciliador.
      “É, tudo tem seu tempo”. A mãe, compassiva, incapaz de esconder zelos morais.
    “A gente pensa marcar um encontro no Parque ecológico”. O garoto mastigava os minutos com sofreguidão.
      “Sem ninguém mais velho para acompanhar vocês?”
      “Aí perde a graça, né, mãe”.
      “Vê se não demora pra beijar na boca, senão pega mal”, ajuntou o irmão mais novo.
      “Não dá palpite, falou?”
      “Só queria ajudar”.
      “O melhor de tudo foi quando a garota disse, depois de entrar correndo na sala: “Cansei, olha como bate meu coração! Toquei o ombro dela. Ela botou minha mão seu peito”. O garoto nas nuvens.
      “Cuidado para não se espatifar no chão”.
      “Como assim?”
      “Nada”.
     “O que ela disse?” Os olhos incendiaram a tarde. O coração batia forte, repercutindo no corpo todo

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