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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Rui Mourão: projeto de ficcionista





Na carona do enfoque sobre intertextualidade, indico outra frente de investigação, agora envolvendo o mesmo autor. Em postagem de novembro de 2009, comentei aqui o discurso de posse de Rui Mourão na Academia Mineira de Letras. No evento, o romancista apresentou uma visão panorâmica de seu trabalho como ficcionista. Uma plaquette com o discurso foi publicada pela AML. Encontro agora, por acaso, folheando números antigos da prestigiosa revista Colóquio-letras, de Lisboa, precisamente em seu número 26 (julho de 1975), um artigo de Rui Mourão, sob o título: “Meu projeto de ficcionista”. A propósito, vale destacar a presença constante de três intelectuais mineiros, escritores atuantes do grupo Tendência, nas páginas da referida revista, ao longo da década de 70 do século passado. São eles Fábio Lucas, Laís Correa de Araújo e Rui Mourão, assinando artigos de fundo ou resenhas.
O artigo da Colóquio recobre os três romances até então produzidos, As raízes, Curral dos crucificados e Cidade calabouço. Um traço comum a perpassar os dois últimos é a busca de novos caminhos, marcada por rigorosa pesquisa, acentuada pelo escritor crítico ao iniciar o artigo: “O meu projeto de ficcionista nasceu sob o signo da investigação e da experimentação” (MOURÃO, 1975, p. 36). Mais denso e com maior fundamentação teórica, o depoimento publicado na revista aborda os elementos estruturais e funcionais da narrativa, desde a urdidura da intriga à sua enunciação em termos de relato. São discutidas as categorias que constituem a narrativa, a elaboração da fábula, o foco narrativo, o estatuto do narrador e as questões relacionadas à sintaxe e à linguagem do romance. Rui Mourão associa sua concepção de ficção ao pensamento fenomenológico de Husserl, emanada do impacto do espírito com as coisas:

“O ficcionista, no meu entender, deveria se mover apenas para o levantamento de cenas, e estas, se sustentando por si mesmas no exterior, em seguida seriam objeto duma montagem. Mas que sentido lograria a obra assim realizada? O escritor iria captando aspectos isolados e independentes da realidade para acabar fazendo um ajuntamento de peças desarticuladas? O trabalho de soldagem dos elementos dispersos não seria nem mais nem menos do que um esforço para a recuperação da consciência. Esta fora fraccionada, no momento da realização das diversas tomadas autônomas, para que não representasse um obstáculo, impedindo o contato direto do espírito com as coisas, mas seria buscada, na etapa seguinte, como uma reconquista em plano diferente. A sua força estruturadora estaria se impondo de qualquer maneira, porém a posteriori” (MOURÃO, 1975, p.40-41).

O corpus do discurso proferido na Academia Mineira expande-se, ao incorporar os seis títulos lançados após 1975, frutos de uma sólida e diversificada produção, tais como Jardim pagão, Monólogo do escorpião, Servidão em família, Boca de chafariz, Invasões do carrossel, Quando os demônios descem o morro. Assinala os pontos de contato entre os objetivos de Tendência e o seu projeto ficcional: “Com empenho de escafandrista, desejávamos descobrir uma linguagem de rendimento verdadeiro para exprimir a realidade brasileira, dominados pela convicção de que a autenticidade de um criador, no plano da sensibilidade, fatalmente se relacionava com o condicionamento cultural mais imediato. Estávamos debaixo do sol forte do pensamento marxista que, chegado com a redemocratização do país no segundo pós-guerra, recebia grande alento de nacionalismo” (MOURÃO, 2009, p.20-21). O diferencial do documento mais recente está, entre outros aspectos, na análise das dificuldades enfrentadas pela literatura nos dias que correm:


“Apesar da redução relativa de leitores, insistentemente apontada, e a canhestra distribuição de livros praticada por profissionais que, pela falta de arrojo, parecem não merecer tal classificação, nunca se editou tanto entre nós. No momento em que a criação no país, refletindo o amadurecimento geral da sociedade, assumiu completa autonomia, parecendo encerrado o período em que fomos apenas reflexo do fenômeno estrangeiro, a invasão do produzido além de nossas fronteiras se faz sem critério, em proporções avassaladoras, nunca antes imaginadas. (...) A crítica especializada de categoria cedeu lugar a resenhas apressadas, visivelmente produzidas por encomenda de editoras de prestígio, quando não programada pelo próprio órgão de comunicação, interessado em apoiar a lista dos mais vendidos, mantida como recurso publicitário, consagrando a equivocada suposição de que o melhor julgador da obra seja o simples leitor. Os suplementos especializados dos jornais, que tradicionalmente centralizaram o debate ideológico, por sua vez, forçados a entrar em anemia desde a época da ditadura – retrocesso político (...) que promoveu a dispersão de parte considerável da inteligência do país -, acham-se convertidos em instrumentos de divulgação dos chamados fatos diversos e da cultura de massa” (MOURÃO, 2009, p. 24-25). E vai por aí afora, grande Rui.

MOURÃO, Rui. Meu projeto de ficcionista. Colóquio-letras, Lisboa, Fund. Calouste Gulbenkian, n.26, julho de 1975.
MOURÃO, Rui. Discurso de posse. Belo Horizonte: Academia Mineira de Letras, 2009.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Aproximando Graciliano Ramos e Lucienne Samôr



A intertextualidade é o recurso que permite fazer um texto dialogar com outro, a partir de semelhança temática ou estrutural. Procede do princípio de que não há texto inteiramente original, todas as coisas já foram ditas, o que existe é uma forma diferente, inusitada, de dizer alguma coisa. Os autores nem sempre possuem domínio em relação à sua ocorrência. Um autor pode incorrer em exercício intertextual, sem que tenha consciência do fato. O leitor voraz na maioria das vezes é que percebe os nexos entre um texto e outro.
No romance Angústia, de Graciliano Ramos, o narrador Luís da Silva em dado momento passa a arquitetar a ideia de um crime, matar o rival Julião Tavares. Esse pensamento ocorre várias vezes. “E apertava a corda com força. Quando retirara a mão do bolso, via nos dedos os sinais que ela deixava, marcas roxas na pele suada. O meu desejo era dar um salto, passar uma daquelas voltas no pescoço do homem (p.150).” A ideia vira obsessão. “Retirei a corda do bolso e em alguns saltos, silenciosos como os das onças de José Baía, estava ao pé de Julião Tavares. Tudo isto é absurdo, é incrível, mas realizou-se naturalmente. A corda enlaçou o pescoço do homem, e as minhas mãos apertadas afastaram-se. Houve uma luta rápida, um gorgolejo, braços a debater-se. Exatamente como eu havia imaginado. O corpo de Julião Tavares ora tombava para a frente e ameaçava arrastar-me, ora se inclinava para trás e queria cair em cima de mim. A obsessão ia desaparecer (p.186).” Num momento, ele vê um cano e imagina-o como uma arma terrível: “O cano se estirava ao pé da parede, como uma corda”.
Lucienne Samôr, contista mineira, é uma das quatro escritoras incluídas na antologia Crime feito em casa, organizada por Flávio Moreira da Costa. Autora de um único livro, Olho insano, no conto “Depoimento de Duneau”, apresenta o caso de uma personagem que narra os motivos que a levaram a matar seu irmão. “Corro para um cômodo anexo à casa e que outrora servira para guardar apetrechos e armas de caça. Não há nada mais, vejo. Havia esquecido que foram vendidos a um homem da província, estabelecido há pouco. Mesmo assim voltei os olhos, ainda procurando-os, numa esperança irracional de desesperado. Um pouco sumida pela poeira entrevejo uma barra de ferro no monturo. Apanho-a e retomo o mesmo caminho. O objeto sólido e pesado pendia das minhas mãos fortemente; acrescido à agressividade natural do homem era uma arma de potência ilimitada (p.34).” No desenvolvimento da narrativa, a cena do crime é contada em detalhes: “Estava detrás dele e avistava a sua nuca branca, onde em redemoinho os cabelos desarrumados se espalhavam, crescidos em desordem e sem trato (p.35)”.
Alunos de letras, a postos. Fica aí a sugestão para um trabalho de literatura comparada. Mãos à obra.

RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.
SAMÔR, Lucienne. O olho insano. Belo Horizonte: Interlivros, 1975.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

As opções críticas de Álvaro Lins


      A nota anterior sobre Álvaro Lins, o crítico literário do Correio da manhã (1940 a 1956) não tem a intenção de identificá-lo como modelo de crítica. Teve seu lugar na história da literatura brasileira, como crítico militante, de indiscutível influência. Foi certeiro em alguns momentos, equivocou-se noutros. Em dado contexto, desempenhou a contento o papel do intelectual participante. Não se deve ignorar que a crítica naquele tempo - denominada humanista impressionista - preservava um sentido de transformação cultural que se perdeu no formato descritivo que assumiu a partir dos anos 70, quando passa a ser produzida nas universidades. Seja qual for sua filiação, a crítica deve ser culta, fundamentada em sólida base filosófica, sociológica, psicanalítica, estética, afinal, ela é caudatária do espírito iluminista. Alvaro Lins era um homem culto, erudito, de gosto estético refinado.

      Ao nomear suas predileções, entre os poetas, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Thiago de Melo, João Cabral, Alvaro Lins enumera os motivos dessa preferência, os parâmetros em que se baseia. Escreve páginas decisivas para a fortuna crítica de Drummond, por exemplo, com avaliações penetrantes dos livros Claro enigma, Sentimento do mundo, Rosa do povo. Como todo crítico militante, tem suas idiossincrasias. Forçou demais a mão em Clarice Lispector, Jorge Amado e Érico Veríssimo, autores quase iniciantes, em processo de elaboração de seus romances mais representativos. Em relação ao Jorge Amado, o contexto pesa bastante, tendo em vista os primeiros livros dados a lume, um tanto precários, se comparados ao que depois produziu. 

      Considera a autora de Perto do coração selvagem, por ele considerado uma "experiência incompleta", uma escritora em formação, carrega "dentro de si um mundo de ficção", capaz de expressar "a visão do mundo numa atmosfera de sonho, a confusão entre memória e imaginação, a deformação alucinada dos fenômenos sob o efeito da subjetividade". Tem a coragem de afirmar que "a Sra. Clarice Lispector não atingiu todo o objetivo da criação literária. (...) ...ainda não está no domínio daquela experiência vital que permite a realização de um romance completo" (p.190). A persistência de Clarice revelou que o crítico estava equivocado. Faltava-lhe instrumental para aquilatar a densidade e sutileza dos rumos trilhados pela jovem autora.

      Afirma disparates sobre Érico Veríssimo: "Ao contrário do que seria natural - um autor que se aperfeiçoa de livro para livro - o que se estava vendo era o plano inclinado: o escritor que piorava sucessivamente de um romance para outro. Da sua plenitude em Caminhos cruzados para Música ao longe, Um lugar ao sol, Olhai os lírios do campo" (p.221). Apresenta como responsável pela redução da qualidade a concessão ao público, após o grande sucesso de Caminhos cruzados. Mesmo reconhecendo o talento do autor, aponta a tendência ao moralismo e a linguagem um tanto convencional.

      Sua má vontade em relação a Jorge Amado é conhecida. Faz-lhe críticas severas, embora reconheça as qualidades: "Ninguém lhe negará, sem dúvida, o dom principal de romancista, a capacidade de movimentar personagens e construir com eles uma história ou um drama"(p.236). O crítico não suporta o uso excessivo da prosa poética no romance: "Há em todo o romance, aliás, uma preocupação excessiva de causar efeitos como há a preocupação abusiva do poético em prosa. Há luas demais nos céus baianos de Terras dos sem fim. Luas por toda parte" (p.234-235).


LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.


domingo, 8 de agosto de 2010

Namoro aos quinze



A imagem reproduz desenho de Gabriel Pereira Reis.
Namoro aos quinze

      Testa coalhada de espinhas, algumas com risco de infecção, entrou em casa radiante. Amargava semanas contrafeitas de variados contratempos. A mudança de colégio, de escola particular transferido para escola pública. Motivo econômico. O labo bom: descobria meninas de beleza natural, mais humildes, algumas oriundas de regiões carentes do estado, onde não havia ensino médio. Depois, fora obrigado a engolir comentários elogiosos de dois colegas (trogloditas) à invasão de fazendas produtivas por integrantes do movimento dos sem-terra. Debate em sala, chatice. Por último, o vazamento de seus dados (e de doze milhões de estudantes) na internet, por conta do exame nacional. Será que são todos cegos e manipuláveis?

      Após bater com força a porta do carro, o que desagradava o pai. Mostrou a mão esquerda. O pai não mostrou interesse. As atividades após o almoço, compromissos de hora marcada, a família com tempo sincronizado. Resfriados e acessos de tosse alternavam de forma natural, como tudo o mais, os olhos brilhando diante das moças bonitas. Mais esperta, a mãe percebeu o nome gravado na mão: Cristina! Um riso abriu o rosto inteiro. Ele disse:

      “Calma, começou com a Aranda, amiga dela, senta atrás de mim”.
      O pai, mostrando disfarçado companheirismo, perguntou:
      “Será que é menina decente? De boa família. Tenho visto garotas muito vulgares, à porta do colégio, agarrando garotos”.
      “Não, pai. Ela é boa menina”. Os garotos azarando o jogo de futebol das meninas, em foco as pernas justo de quem? De Cristina, O short de nylon, fino, quem aguenta? Os garotos, hormônio a mil, maliciosos.

      “Conta tudo”, pediu a mãe, meio aflita.
      “Ela pediu minha mão. Escreveu o nome dela”.
      “Isso eu vi. Cristina”.
       “Depois perguntou se que queria ficar com ela. Assim: quer ficar comigo?”
      “E você, o que respondeu?”
      “Que sim”, os olhos brilhavam, donos da tarde.
      “O que é ficar?”, interveio, singelo, o pai.
      “Namorar, uai”, completou o irmão menor.
      “Não, vocês não sabem de nada. Ficar é o início da paquera. Do namoro.”
      “Isso é natural, com o tempo vocês vão se conhecer melhor”, o pai dizia, conciliador.
      “É, tudo tem seu tempo”. A mãe, compassiva, incapaz de esconder zelos morais.
    “A gente pensa marcar um encontro no Parque ecológico”. O garoto mastigava os minutos com sofreguidão.
      “Sem ninguém mais velho para acompanhar vocês?”
      “Aí perde a graça, né, mãe”.
      “Vê se não demora pra beijar na boca, senão pega mal”, ajuntou o irmão mais novo.
      “Não dá palpite, falou?”
      “Só queria ajudar”.
      “O melhor de tudo foi quando a garota disse, depois de entrar correndo na sala: “Cansei, olha como bate meu coração! Toquei o ombro dela. Ela botou minha mão seu peito”. O garoto nas nuvens.
      “Cuidado para não se espatifar no chão”.
      “Como assim?”
      “Nada”.
     “O que ela disse?” Os olhos incendiaram a tarde. O coração batia forte, repercutindo no corpo todo

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As cerejas


Livro do mês:

Este livro integra a arrojada série Outras palavras, da Editora Atual, projeto merecedor de créditos, por vários aspectos. Formulado por Samira Youssef Campedelli e coordenado por Vivina de Assis Viana, consiste em confiar a escritores renomados a tarefa de reescrever um conto clássico, enfatizando cada qual o aspecto que mais o motivou. No caso em pauta, o conto matriz é “As cerejas”, de Lygia Fagundes Telles, recontado por Duílio Gomes, Márcia Leite, Fanny Abramovich e Ignácio Loyola Brandão. O resultado é uma breve e consistente coletânea de cinco histórias que dialogam entre si, em inesperados confrontos, enfoques e amplo exercício de intertextualidade. De quebra, pelo que se deduz, um sucesso de vendas (11a. edição em 2006, lançado em 1992), fenômeno compreensível, além da qualidade gráfica e literária, pela presença de Lygia F. Telles e uso criativo em atividades paradidáticas no ensino médio.

O conto “As cerejas”, extraído de Antes do baile verde (1970), traz a marca inconfundível da autora, nome tutelar da literatura brasileira, signatária de outros livros fundamentais de narrativa curta contemporânea, como O jardim selvagem (1965), Seminário dos ratos (1977), A estrutura da bolha de sabão (1991). Seus romances Ciranda de pedra (1954) e As meninas (1973) tiveram grande e merecida receptividade, exercem ainda forte influência nos escritores mais novos, são peças de refinada elaboração formal e temática ousada; alguns críticos, no entanto, como Wilson Martins, consideram-na melhor contista que romancista. A habilidade em manter o suspense, a alternância de tempos, a força do detalhe, a noção exata do ritmo e a ênfase à ambiguidade são traços gerais de sua produção ficcional.

“Morangos”, o relato escrito por Duílio Gomes, a par da manutenção de efeitos do conto gerador, como o mergulho no passado, os nomes de personagens, a paisagem rural, a espessura simbólica dos motivos, o desenlace próximo ao clímax do enredo, inverte o processo narrativo, com a adoção do foco masculino. O narrador é ele próprio o agente e paciente do jogo de sedução, num relato ampliado de situações e peripécias intensas. Mesmo que o contexto se mostre por vezes delineado através de índices excessivamente datados (as alusões a D. Helder Câmara, Xuxa, Barão Vermelho, Cazuza), é uma história narrada de forma elegante, ágil, de uma sensualidade simultaneamente provocante e ingênua. Ao lado do conto matriz da série e da pungente e nostálgica narrativa de Ignácio de Loyola Brandão, no encalço de um episódio enigmático da infância, o conto de Duílio Gomes é sem dúvida um dos pontos altos do livro. O narrador de Ignácio Loyola focaliza, com a tinta da melancolia e o toque de virtuose, em “Cerejas na escuridão”, o conflito gerado pela mistura de ciúme, desejo e culpa que assolam o garoto órfão, seduzido por uma suposta parenta e para o qual o passado é um quadro obscuro, numa trama recheada de elementos edipianos.

“Veio uma dor muito forte na parte direita do rosto e logo me tomou a testa. Havia uma vontade de chorar, gritar, correr e eu paralisado. Odiando tio Álvaro, rezando para que o moto-contínuo não desse certo, para que a máquina fosse um fracasso. Porque em suas mãos havia um cacho minúsculo de cerejas vermelhas, que ele agitava como se fossem sininhos. As cerejas não eram verdadeiras, porque não havia cerejas em nossa cidade, a não ser um cacho. Aquele que eu conhecia tão bem. Sabia que não estavam fechando nenhuma blusa e que nem devia haver blusa” (p.76).

Márcia Leite constitui agradável descoberta, com o relato “Antes do jantar”, rico de sugestões e sutilezas, ao reverberar em primeiro plano ousadas pulsões femininas. Cochilo de revisão, ou o que seja, nunca é demais referir que a busca do registro coloquial não acarreta necessariamente relaxamento no uso das normas da linguagem padrão, a ponto de permitir coisas do tipo “Não lhe interessa os sentimentos (p.46)”. Em registro mais lento e próximo da leveza da crônica, Fanny Abramovich aborda os reflexos da paisagem exterior sobre as personagens, em “Paris, na primavera”, impressões de viagem, amarradas por um tênue fio narrativo com ênfase no pendor descritivo, ao pintar ruas, praças e esquinas da capital européia, estonteantes de cores e perfumes.

TELLES, Lygia Fagundes et alii. As cerejas. 11a. ed. São Paulo: Atual, 2006.