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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Rever o sul


Voltar ao sul de Minas é sempre prazeroso, bairrismo à parte. O clima é agradável, a paisagem de montanhas impressiona, os nativos são educados, um pouco tímidos, como os mineiros em geral. Na época que antecede o inverno, então, o impacto é maior, as noites e manhãs são bastante frias, exigem complementos nas roupas, casacos ou blusas de lã. No inverno, é bom não esquecer o gorro, luva, meias de lá, cachecol, sobretudo. Botas para as mulheres.
Após dois anos, viajei de carro, pela Fernão Dias, a estrada está muito boa, bem sinalizada, limpa, sem mato nos acostamentos e canteiros centrais, no geral asfalto em bom estado, em raros trechos apenas com uma ou outra lombada. Não devia ser sempre assim? Devia, mas não é o que experimentamos há quatro anos atrás. Mais de dez anos atrás, não convém lembrar, era uma estrada antiga, estreita e perigosa, a 381. Também pudera! De Belo Horizonte até o trevo de Campanha, são quatro pedágios, a um real e dez centavos cada. Os usuários, na maioria, ficam satisfeitos, quando observam que há retorno para o investimento. Outra surpresa positiva: as rodovias estaduais, como a que liga as cidades do circuito das águas minerais, estão com asfalto impecável, sinalização renovada, coisa que não se via há muito tempo. A imagem é do belo Cassino de Lambari, debruçado às margens do lago, tendo ao fundo a Serra conhecida como Toca da Onça.

terça-feira, 11 de maio de 2010

A UFMG adota o ENEM





A foto acima é de Frederico Haikal, do jornal Hoje em dia.


Estudantes secundaristas fizeram hoje à tarde ruidosa passeata no Campus da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Os protestos e palavras de ordem ecoaram ritmados e bem humorados, nos moldes das manifestações de torcidas esportivas, como se estivessem no Mineirão, ali perto. “Não é mole, não! Entrar na UFMG virou embromação!” Motivo? A UFMG adotou o ENEM (exame nacional de ensino médio), aplicado pelo Governo, após renhida e arrogante resistência. A primeira etapa do vestibular, de reconhecida competência, segurança e alto nível de exigência, com 64 questões sobre oito disciplinas, para todos os candidatos, simplesmente deixa de existir e passa a valer a nota do ENEM.




Os estudantes, no caso, em geral são filhos de pais burgueses: cursaram colégio particular, frequentam curso preparatório, compraram os livros de leitura obrigatória (exigidos pela Universidade), leem os tais livros ou resumos elaborados pelos Cursinhos, são treinados à base de dicas montadas com base no histórico dos vestibulares passados. A classe social não importa. O que eles temem? A alteração das regras durante o jogo, antes de mais nada e nisso têm razão. Temem ainda o o acréscimo de candidatos de outros estados, acirrando a concorrência. O uso do ENEM aliado à política das cotas (para afrodescendentes) na verdade transforma a seleção para o curso superior numa competição pseudo democrática, em que alguns disputam com maiores chances que os outros.



A despeito do interesse em valorizar e implantar o ENEM, o MEC tem-se portado de forma amadora e estabanada, no gerenciamento de uma avaliação de tal amplitude, no que diz respeito à segurança e qualidade das questões. Ainda estão vivos na memória da sociedade os atropelos e fraudes que envolveram a última edição do referido exame. Para não referir a presença de questões supostamente tendenciosas no viés político, criticadas à época por renomados especialistas.



Além dos fundamentados receios dos estudantes, outros setores são atingidos pelo novo formato do vestibular da UFMG. Não haverá mais a lista de obras de leitura obrigatória para todos os candidatos; na segunda etapa, pelo que tem sido divulgado, apenas os candidatos aos cursos de letras, comunicação, dança e teatro teriam prova específica de português, incluindo questões sobre as obras literárias. Por que apenas tais áreas, que não recobrem nem as chamadas licenciaturas na área de ciências humanas? Se as exigências sugerem competências indispensáveis, ainda que distintas, por que alijar os futuros profissionais da área da filosofia, direito, história e pedagogia, da fruição literária? De imediato, perdem (e muito) os professores de literatura, ao se verem privados de atuação massiva no ensino médio, com a redução drástica de seu campo de trabalho. Não ouviremos mais à mesa engenheiros e médicos mencionarem, enfáticos: gostei demais quando li Drummond à época do vestibular. Clarice Lispector, Vinícius de Morais, Cecília Meireles, João Cabral, Machado de Assis, Rui Mourão, Osvaldo França Júnior, em cardápio bem variado, serão menos lidos daqui para a frente. A UFMG pode virar um Colegião, após a mudança? Prematuro afirmar, a não ser que outros fatores negativos se associem, o que soa improvável para uma instituição do porte e do gabarito da UFMG. Uma coisa é certa: a imagem ficou arranhada e escoriada.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Cidade Administrativa










      Após mais de um século funcionando na Praça da Liberdade, a transferência do governo estadual para a Cidade Administrativa, localizada na região norte de Belo Horizonte, é o coroamento da gestão de Aécio Neves. Criticado por vários motivos (obra faraônica, narcisista), o projeto seguiu em frente, marcado pelo cariz revolucionário, típico das grandes realizações. Inaugurada no dia 4 de março com celebração da tendência conciliadora de Minas, a cidade administrativa nasce sob a égide do centenário de Tancredo Neves e da herança visionária de Juscelino Kubitschek, alvo de desconfiança ao construir a cidade de Brasília.

      Ao agrupar no mesmo espaço físico diversas secretarias, estima-se uma economia anual aos cofres estaduais superior à cifra de 90 milhões, com o fim de aluguéis e taxas imobiliárias, além de favorecer a eficiência e coesão administrativas. A beleza e ousadia do projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer alia-se à ideia de integração entre diversos setores, favorecendo a produtividade. Com a centralização do atendimento lucra o cidadão, ao ter facilitado o acesso a serviços e documentos. Em funcionamento há exatos dois meses, a Cidade Administrativa tem gerado inúmeros desdobramentos positivos, como o incentivo ao desenvolvimento da região Norte e a redução do trânsito no centro de Belo Horizonte, fatores que, entre outros, justificam de todo o pesado investimento.




segunda-feira, 3 de maio de 2010

Corpo estranho




Livro do mês:


“Ela concorda que tem tido enlevos passageiros com as coisas do passado. Do nada, uma nuvem de lembrança atravessa a mais inesperada das horas e povoa de enigmas o resto do dia. Há também os chás que esfriam sobre alguma mesa, abandonados, os nomes que precisam ser repetidos ou, ao contrário, a súbita vergonha de estar contando outra vez a mesma história.”


Estes são pensamentos de Mariana, personagem de Corpo estranho, romance envolvente e delicado, construído em torno de poucas personagens, pela autora Adriana Lunardi. São três os protagonistas: Mariana, uma ilustradora botânica já madura, imersa no passado, com o qual estabelece inúmeras teias significativas; Paulo, um marchand excêntrico, bem sucedido financeiramente; Manu, jovem fotógrafa, dividida entre os achaques da diabetes e a ânsia de flagrar o instante efêmero. Os dois primeiros tocam suas vidas de forma pouco amistosa, evitam-se, sem conseguir esconder uma natural indisposição, uma tácita animosidade, ampliada a partir de um acidente fatal que os aproxima e afasta. A morte precoce de José, a ponta de um estranho triângulo amoroso. Com um mínimo de ação, a autora desenvolve uma surpreendente e inquietante narrativa, enriquecida por uma linguagem sofisticada e exuberante. As descrições dotadas de vivo alcance pictórico, carregadas de sensações cromáticas e apelos visuais, alternam-se a densas camadas de fluxos de consciência, configurando um universo à procura do equilíbrio entre arte e ciência:

“Mariana está a um passo de finalizar o retrato. Desde os rudimentos iniciais de composição, decidiu que irá colocar sua assinatura no canto esquerdo. Nesta arte, praticada desde o Renascimento, quando o mundo não sabia o nome de quase nenhuma planta e apenas os monges colecionavam e conheciam suas propriedades medicinais, o desenho e seu autor eram fontes preciosas para identificar o lugar da colheita e onde ocorria a variação da espécie. Mariana há de escrever seu nome inteiro, vingando as ilustradoras vitorianas que punham apenas iniciais antes do sobrenome. (...) Foi preciso incendiar sutiãs, anos depois, para que a maior parte da humanidade pudesse usar nome próprio e assumir a autoria de seus atos. (...)
Quando os olhos conferem a bromélia quase concluída, não veem apenas o equilíbrio de arte e ciência numa planta bem ilustrada. Cada minuciosa pincelada é uma subversão àquela ampulheta onde uma poeira vaza jornadas inteiras.“ (Cap. III)

Adriana Lunardi insere-se na reduzida linhagem dos (bons) escritores de tendência psicológica, menos voltados para o encadeamento de aventuras mirabolantes e vertiginosas. A lentidão na narrativa, acoplada aos mínimos gestos, reações e pensamentos, contudo, não reduz o interesse pelo desenvolvimento da intriga, despertado a cada capitulo, através de rigoroso cuidado na elaboração das cenas e na manutenção de algum mistério, parcamente partilhado. A análise do interior das personagens, o mergulho nas filigranas reflexivas, a habilidade entre o desvelar e o esconder são estratégias orquestradas de forma engenhosa. Ainda quando o relato aparenta uma estrutura linear, não se distancia da ideia de tempo interior, compreendido como fluxo incessante da memória, solicitada através de associações psíquicas, obsessivas e descontínuas. Não estamos a rigor diante do romance psicológico convencional, avesso ao enquadramento do espaço. Tendo protagonistas inseridos no mundo das artes plásticas, a total anulação do enquadramento espacial seria incongruência. Nem se afasta de um Realismo difuso, cujo intento parece ser esmiuçar o intricado fenômeno da memória:

“O movimento ao redor atordoa Mariana, pressionando-a a uma atitude cooperativa. Ela disfarça sua evasão indo até a janela, onde pode continuar de costas para aquele cenário animado. Pára diante da folha de madeira com uma atranca atravessada, mas não é isso o que vê. Seu olhar dispersa-se no mosaico de memórias que não chega a formar uma imagem. São apenas fraturas de um passado que de novo se quebra, após tantas tentavas de reconciliação. Talvez por não suportar a luz artificial em pleno dia nem o claustrofóbico ar de casa fechada, ela começa a manipular o mecanismo das fechaduras, abrindo uma a uma as grossas tramelas feitas à mão, desencaixando o que era de desencaixar, torcendo o que era de torcer, até prender as folhas envidraçadas em um par de borboletas de ferro”. (Cap. XVII)

Além do tributo à beleza natural dos trópicos, o livro de Adriana Lunardi tece uma elegia melancólica à memória da ilustradora britânica Margaret Mee e ao patrimônio estético forjado pelo gênio humano.

LUNARDI, Adriana. Corpo estranho. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.