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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Quem diria? Ao lado do poeta maior


      Imagem mais despojada, impossível. Sentado no banco, ao lado de Drummond, quebram ondas do mar em Copacabana. Corpo úmido, cabelos (poucos) escorrendo água, após mergulho recente, sandálias havaianas, bermuda folgada.

Entre o ser e as coisas


Onda e amor, onde amor, ando indagando

ao largo vento e à rocha imperativa,

e a tudo me arremesso, nesse quando

amanhece frescor de coisa viva.


Às almas, não, as almas vão pairando,

e, esquecendo a lição que já se esquiva,

tornam amor humor, e vago e brando

o que é de natureza corrosiva.


N´água e na pedra amor deixa gravados

seus hieróglifos e mensagens, suas

verdades mais secretas e mais nuas.


E nem os elementos encantados

sabem do amor que os punge e que é, pungindo,

uma fogueira a arder no dia findo.


Carlos Drummond de Andrade (Claro enigma, 1951)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

José Saramago

Livro do mês:

      Em ritmo de releituras, volto ao Memorial do convento, de José Saramago. O autor, primeiro Nobel português, tornou-se alvo predileto de farpas de escritores (António Lobo Antunes na dianteira) e de alguns blogueiros lusos. A última investida lança suspeita sobre o romance Intermitências da morte, sobre o qual pairam dúvidas a respeito de sua originalidade. Um autor mexicano, Teofilo Huerta Moreno, reivindica direitos, afirmando que Saramago teria se inspirado numa novela de sua autoria, intitulada “Últimas notícias”. Apresenta provas, sem aceitar o argumento do inconsciente coletivo. Outros tentam turvar a glória do escritor luso, afirmando generalidades e idiossincrasias estéticas, quase sempre inconsistentes, mais reveladoras de despeito e inveja do que outra coisa.

      Distante do alvoroço, a legião de admiradores de Saramago aumenta a cada dia, pessoas comuns, alijadas da competição literária, universitários, atraídos pela temática ou pela popularidade alcançada após o Nobel. Em meio à grita da turba, após reler O Evangelho segundo JC, impus-me a releitura de Memorial do convento. É um romance soberbo, de um refinamento inventivo admirável. Projetei reler um capítulo por dia, compromisso afortunado em três semanas de férias. A construção da fábula e a invenção das personagens, especialmente as três principais (padre Bartolomeu Lourenço, Baltasar Sete Sóis, Blimunda Sete Luas), por si só bastariam para consagrar o autor. O motivo da passarola, a teia simbólica, a caça às bruxas em plena Inquisição e a intriga fantástica envolvendo o casal misterioso (o soldado maneta e a mulher vidente) são elementos decisivos para criar interesse pela leitura. De quebra, lá também está o compositor Domenico Scarlatti, viajando montado em mula, ministrando aulas de música na corte à princesinha Maria Bárbara. Observam-se dois núcleos narrativos: o dedicado à construção do convento, em função da promessa feita pelo rei, caso a rainha D. Ana lhe desse um herdeiro ao trono; o núcleo da construção da passarola do padre voador. O titular do primeiro núcleo é um narrador irônico, sempre interferindo no andamento do enredo com notas críticas, algumas mordazes. Diferente do outro narrador, que se deixa contaminar pelo respeito ao humano e pela atmosfera poética. O contexto histórico recobre o reinado de D. João V e a construção do convento de Mafra. Há falhas estruturais, saltos narrativos? Pode haver, sim, alguma lacuna estrutural. Ou alguma ligeireza na caracterização psicológica de personagens. Especialmente se o leitor se mostra formatado pela moldura narrativa realista. O autor aplica à realidade portuguesa do século XVIII o conhecimento cultivado na pesquisa histórica e a necessária dose de invenção, ao recriar fatos, ao desnudar a determinação religiosa do povo português, ao presentificar costumes e comemorações típicas.

      Mesmo quando envolta por um léxico arcaico (os atavios, os melquetrefes, hissope, calabres, o vedor, as cabrilhas, minorcas, reposteiros, ensambladores, tercenas, mesteres), a narrativa é interessante e agradável. Irônico, espirituoso, capaz de transitar com firmeza do passado para o presente, com desenvoltura e leveza, Saramago mostra-se grande conhecedor da literatura portuguesa, ao explorar efeitos intertextuais. E o que mais impressiona é a riqueza da invenção, a prodigiosa imaginação, apta a recriar o passado e descrever de forma elegante e erudita os lances pitorescos de uma fábula, alguns deixados como fragmentos inconclusos, envoltos pela bruma ou névoa seca, com a qual se pretende recobrir algum excesso de fantasia. Em especial, dois capítulos são excelentes: o que narra o transporte da enorme pedra de mármore pelos caminhos de serra e chuva, até Mafra; o que narra a romagem, a viagem das carruagens reais de Espanha e Portugal até o rio Caia, para o casamento dos príncipes. A mistura de seriedade e riso, pólos contrários, torna o livro objeto privilegiado para a análise segundo os critérios da carnavalização, nos moldes teóricos de Mikhail Bakhtin.

SARAMAGO, José. Memorial do convento. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 1992.