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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Um americano na Pampulha


(Imagem: painel de São Francisco de Assis, de Portinari, na Igreja da Pampulha)


      Após uma temporada nos EUA no âmbito de um intercâmbio estudantil, minha prima casou com um americano. Morou dez meses em Minessota, onde conheceu o futuro marido. No fim do ano passado, os dois estiveram no Brasil, para contatar os parentes, onde me encaixo, por conexões genealógicas. Assim que os encontrei, após os beijinhos e cumprimentos, ao buscá-los no hotel para levá-los para almoçar em casa, o americano perguntou:
      “Who is McDonalds?”
      “McDonald is your home in Brazil?”perguntei sem maldade, para render assunto.
     O americano deu um sorriso meio aguado, como se não entendesse ou não aprovasse totalmente o sotaque. Ou a brincadeira. Um americano típico, alto, olhos claros e azuis, pele branca, quase úmida. Sou herdeiro de uma geração que externava um altivo desinteresse pela língua inglesa, como forma de protesto pelo capitalismo americano. A mera referência à poderosa rede de fast-food parecia algo deslocada. A circunstância era também um pretexto para testar meu desempenho em inglês, assim direto, em conversação.
     Todos no carro, liguei o Fiat e rumei para a região da Pampulha, onde moro. Ao passar diante do Mineirão, comentei algo como the largest covered football stadium in the world. A prima me ajudou na versão para o inglês, covered. Ele exclamou com surpresa um Oh!! Desci no rumo da lagoa, Pampulha lagoon. Passamos em frente à igreja de São Francisco, obra prima do genial Niemeyer, auxiliado por outros geniais, como o pintor Portinari e o escultor Ceschiatti. Estávamos, para todos os efeitos, no famed architetural Pampulha.
      “Portinari was a miner?”, perguntou.
      “No, São Paulo”.
      “Outra hora, Another time it was worth visiting the church”.
      “Yes, no dubt...”
      Chegados em casa, o americano era a grande estrela. O menino mais velho, dez anos, não deixou por menos e também quis testar seus conhecimentos de inglês falado:
      “Good morning!”
      O mais novo e afoito foi mais longe, perguntou (em português), se ele gostava de Bush, traduzido pela prima: You like Bush?
      O americano riu, os outros também, olhando para o americano. Não se intimidou, parece que não era a primeira vez que respondia àquela pergunta. Disse que muitos americanos apoiavam o presidente Bush, half of Americans suported the president Bush. Foi necessário Bush ser reeleito, ele usou um verbo horroroso, ( re-electado), no que foi corrigido pela prima: Bush had to have been re-elected. Mas parece que ele não errara, apenas tropeçara ao tentar misturar inglês, português e espanhol, como fez em outros momentos. Deu a entender que se alinhava entre os que apoiavam o presidente americano. A conversa emigrou dos EUA e aportou no Brasil. O jovem casal adorava a rua brasileira, as comidas típicas (caldo de cana, caldo de mandioca, picanha, churrasco). Achei bonito o som dizendo coisas tropicais: cane juice, juice of cassava.
Minha mulher anunciou que o almoço ia ser servido dali a uma hora. O que ele preferia: vinho, cachaça ou cerveja? Minha prima traduziu: What you prefer: wine, liquor ou beer? Não achei graça, cachaça em inglês. Prefer beer.
      O americano, que estava se familiarizando com as ruas brasileiras, disse que se decepcionara, imagine that Lula was much more popular in Brazil... Alguém disse que a corrupção ...corruption of his government affected his popularity. Depois o americano elogiou a cerveja brasileira. Minha prima deu um beijinho e falou que ia ajudar minha mulher na cozinha. O americano, depois de um silêncio, falou sobre os tornados que assustam o pessoal em Minessota, ... strong winds. E que estava encantado, paisagens muito bonitas....was delighted with the beauty of Brazil.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Oscar Kellner Neto



Livro do mês:

Fazenda interior são contos e novelas que procuram fixar, de forma positiva, os tipos humanos e costumes do meio rural. Com uma indisfarçável influência roseana, no trato com a linguagem. O autor, Oscar Kellner Neto, vem produzindo poemas de apelo visual e ficção desde os anos 70, tendo publicado, entre vários outros livros, os relatos Coivaras, em 1984. Trata-se de uma coletânea irregular, alguns textos (os mais afortunados esteticamente) moldados no formato sintético do conto; outros, mais desenvolvidos, tendem ao andamento multifacetado da novela. Os contos (esta evidência impõe-se ao leitor mediano) apresentam desempenho e espessura estética superior às novelas. O primeiro, de nome “Paz-Sarinha”, publicado sob o título de “O boi Charuto”, na revista Globo Rural, nos anos 90, é uma admirável realização literária. Nas peças de maior fôlego, o narrador empreende uma visão panorâmica em variadas frentes narrativas, sem conseguir extrair o núcleo essencial da trama. Se a estrutura se encomprida numa dimensão abrangente, pulverizando o eixo dramático central, não faltam porém, descrições esmeradas e ricas em colorido e graça.


O andarilho flagrado no mato, constante do fragmento intitulado “Lúita”, é outro momento criativo admirável, página digna de antologia. Uma breve passagem:

“Depois que esvaziou o alforje encardido, arrancou lá do fundo uma fotografia envelhecida de sua velha mãe. Mostrou-o pro rapazola e ficou taciturno.
Aí, seus olhos se encheram de lágrimas, que desceram rolando pela cara suja da carusma dos infindáveis fogos acesos nos ermos... Enxugou os olhos com a fralda desfiada de sua camisa imunda e aí deu pra notar que nem barba lhe havia: um apenas frouxel se lhe insinuava pelo queixo ...
De seu corpo cantarilho exalava um tal odor ptármico, como talvez o bodum das roupas e botas encardidas de retireiros renatos, desleixados, os quais não as lavassem por infindáveis dias” (p.71)

O terceiro momento de apreciável desempenho descritivo é o relato da luta entre os opositores. Como o título sugere, o autor focaliza o espaço, tipos humanos e costumes das fazendas mineiras e paulistas. São referidos casos típicos, brincadeiras infantis, crenças, pragas de lavoura, receitas e um rol de informações, oriundas da sabedoria popular. Informa a nota “Biografia” que, residindo em Delfinópolis, MG, o autor e cidadão “gosta de sumir pelos vãos da Serra da Canastra, onde cavalga, conversa, joga truco, sonda falares, respira cores e transpira poesia”.


Um dos traços peculiares do livro é o caráter pitoresco da linguagem: a transcrição fonética do linguajar caipira. Tal propósito se, de um lado, reelabora um desdobramento da língua brasileira, propugnada por Mário de Andrade, de outro, dada a exacerbação, configura um aspecto datado e superado na evolução do nosso modernismo . Veja-se a descrição da cigarra:
Um grita: Sai de bacho! Goramemo vai mijá ni nóis!” Prevenidos, a gente logo a localiza, atracada ao tronco, com seus centímetros congrossos, possuindo translúcidas cristalinas asas, zunezumbindo agudamente seu chamado erótico enquanto vai sugando, ininterrupta, as gotas de seiva dos microveios das cascas das árvores...” (p.114).

Intuitiva e exuberante, a linguagem mergulha fundo no registro regional, carregada de modismos e corruptelas. Nenhuma nostalgia autobiográfica, em busca do tempo perdido. À parte as ninharias fonéticas, trata-se de um escritor de inegáveis méritos, de soberbo desempenho estilístico, arraigada vivência, conhecedor de artimanhas e sutilezas de efabulação.

NETO, Oscar Kellner. Fazenda interior. São Paulo: Casa do novo autor, 2009.