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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Manhattan Connection com o ex-presidente Fernando Henrique

       Um dos melhores programas de economia da TV brasileira, o Manhattan Connection convidou o ex-presidente para sua última edição pela GNT, antes de seguir para a Globo News a partir do final de janeiro. Caso raro na TV, o programa foi um verdadeiro show de entrevista. Com a habitual lucidez, serenidade e linguagem elegante, Fernando Henrique (governou de 1995 a 2002) respondeu a perguntas embaraçosas. Como “Qual foi o melhor presidente do Brasil”? A resposta veio com uma nota de velhacaria: Getúlio Vargas, Campos Sales, Juscelino, Castelo, aqueles que promoveram reformas estruturais profundas. Em tempos de exacerbado nunca antes, a fala do contraditório. O programa destaca-se pela irreverência, competência e coragem dos entrevistadores. Gente do quilate de Lucas Mendes, Caio Blinder, Ricardo Amorim e Diogo Mainardi. Mesmo reconhecendo méritos no governo Lula, a princípio seguindo “receituário” da sua equipe econômica, não o considera entre os grandes, tendo em vista a manipulação a que submete o povo. E citou o forte envolvimento da máquina do governo (disse "abuso de poder") na eleição que elegeu Dilma Rousseff.

                                  (A foto é de Júlia Paquelet).

      Indagado (por Mainardi) sobre a hesitação do DEM e PSDB em pedir o impeachment de Lula, à época do Mensalão, afirmou que a oposição registrou, sim, protesto na Justiça contra a compra de apoio político no Congresso, mas ponderou sobre os riscos que a democracia poderia sofrer com o caso, diante do contexto. Tratava-se de derrubar o primeiro operário eleito para presidente do país, motivo suficiente para ser visto visto como “golpe das elites”, no âmbito do populismo rasteiro. Talvez a rua não aderisse de todo, uma vez que a inflação estava sob controle, graças ao modelo seguido.

      Para o ex-presidente, apesar das evidências de que o país está no caminho certo (há mais de duas décadas) e vai prosseguir, paira uma apreensão no atual momento político, decorrente do papel subserviente do Congresso, que teria perdido o sentido de “poder político” e de debate crítico. Segundo ele, importante não é alcançar a quinta colocação na economia mundial. Há mais de duas décadas, o país está entre as dez maiores economias do mundo, precisa colocar-se entre os dez melhores lugares de se viver, com efetivo crescimento na segurança, saúde, educação, democracia e participação política.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Fratura exposta

Livro do mês:

O livro deste mês não é um lançamento recente, mas é um produto cultural admirável sob vários aspectos; inteiramente injustiçado, não recebeu ainda o merecido reconhecimento. Três fatores no mínimo determinam o silêncio em torno de um livro: a má distribuição, a indiferença da crítica, o despreparo da mesma. Em relação a alguns lançamentos, pode ocorrer a convergência dos três fatores simultaneamente. Esse parece ter sido lamentavelmente o caso do espantoso ostracismo imposto a Fratura exposta, Prêmio Cidade de Belo Horizonte no ano de 1983, estreia literária de Jeter Neves. Creditar apenas ao mau gosto da capa ou à acanhada concepção gráfica o confinamento negativo imposto ao livro seria ingenuidade. Mesmo no restrito contexto mineiro a repercussão foi tímida. O mais grave é que esse quadro geral de displicência e desinteresse dos cadernos ditos culturais em relação à literatura tem-se tornado padrão nos últimos vinte anos. Com o desaparecimento da crítica militante na imprensa, a cobertura dos produtos culturais recai sobre um profissional de perfil polivalente, encarregado de opinar sobre grandes shows de rock, pagode e MPB, Djs, teatro, espetáculos de ópera, dança, eventos ligados às artes plásticas e livros. Nesta ordem, é bom atentar. Nem sempre bem informado, o responsável pela seção acaba transcrevendo a nota da orelha do livro, quando calha.

Jeter Neves, nascido em Miradouro (MG, 1946), surge após o decantado boom dos contistas mineiros, ocorrido nos anos 70 do século passado, mas nem por isso é um talento menor. Premiado no Concurso nacional de contos do Paraná, em 1978, na categoria estreante, o primeiro livro apresenta-se como refinada elaboração ficcional, algo raro em escritas visceralmente engajadas. A nota dominante de Fratura exposta é o o contato direto com a realidade, abordada em duas águas, tanto na vertente rural (embora em dimensão mais rarefeita) como no caos urbano. O tom experimental, a inquietação inovadora, apta a mesclar discursos diversos (o literário, o jornalístico, o histórico, o dramático, o diarístico, o cinematográfico) não hesita em investir em técnicas menos tradicionais de narrar. Num conjunto de oito contos, dois seguem a vertente regional, em que o legado se mostra através de ruínas de uma memória destroçada e de breves traços do linguajar caipira (“Memória desfigurada” e “Arame farpado”). As duas realidades, os dois brasis, são referidos, em “Pequenos assassinatos”: “O mundo era dois: o primeiro aquele ali, simples familiar: horta, partos, segredos, chiado de cigarra contrapondo-se àquele tempo, lesma em muro de lodo, fluindo, fluindo sua lentidão; o outro, longe, muito longe, o de atrás de atrás de atrás dos morros, dos rios, das nuvens, o que chegava nas caras de dentes brancos, sorriso alô alô Brasil e coxas e peitos ardentes da namoradinha do Brasil, rainha dos músicos, miss universe, revista do rádio, aviso aos navegantes, bóia de luz apagada, Luz del Fuego acesa, cobras, sexo, na Capital Federal são precisamente sete horas, parampampam-pampam/param-pampam-pampam o seu reporteresso em edição extraordinária!”.


A desenfreada violência urbana que perpassa o restante, cuidadosamente reconstituída em suas formas deterioradas de repressão política e miséria social, é delineada de forma contundente. O ritmo vertiginoso e impactante da ação, os cortes cinematográficos, a brutalidade de algumas intervenções sociais reverberam a crueza narrativa de Sam Peckinpah ou de Rubem Fonseca. O relato “A cidade como um verme” é um retrato fiel e sem retoques da rotina urbana, em que as luzes feéricas do néon se misturam ao cheiro fétido do lixo e de situações desumanas. No afã de desconstruir as ilusões criadas em torno da ideia de cidade grande como solução de todas as mazelas sociais, um dos contos, “O cachorro e seu menino: a travessia”, convoca inúmeros disfarces de linguagem e recursos circenses, para descrever cruamente a caminhada de um cão e um menino famintos, sob o ponto de vista do animal, nas vias urbanas mais sórdidas e deterioradas. A acoplagem do narrador ao foco narrativo, sob a perspectiva canina, em que pese certa afetação, possibilita um viés crítico inusitado: “Ele me passou a nota e ficou de olho ni mim pra sacar minha leitura. Aí minha cara, que, modéstia à parte, costuma ser castanha e fogo, foi ficando amarela e depois verde; quer dizer, desandou, mano velho. E o meninim, que não é bobo nem nada, foi chegando junto: dá pra comprar uma casa? Eu disse: não dá. Ele: comida, sapato, revistinha? E eu: não, não dá. Chi!, ele falou, com uma carinha tão sem graça! Aí eu abri o jogo: dá pra comprar um pedaço de chiclete, um palito de fósforo, 13 caroços de feijão. Ah, um cheirinho de sanduíche também dá”. A consciência amarga de que a solidariedade entre as pessoas é um projeto fracassado irremediavelmente e de que a convivência pacífica na diversidade é uma utopia serve de moldura aos contos, especialmente “Bar e restaurante Suez”. Uma pequena amostra:

“Um sentimento de que éramos estranhos ali a me acossar. Quem bebia, quem comia naquele lugar? Os que não tinham assento à mesa, os bebuns, os puteiros, os boêmios, os chapas, os feirantes, os tropeiros e todos os desordeiros. E nós o quê?, uns caras fascinados pelo próprio rabo feito filhotes de cachorro, uns bobalegres. Porém, mais do que estranhos, compreendi com mal-estar que ali éramos intrusos. Nossa presença era uma blasfêmia danada. Invadindo o reduto deles a gente acreditava estar perto de seus destinos e a salvo de nossos remorsos. Nossos próprios atavismos nos eram intoleráveis”.

Mosaico lúcido de um tempo dividido e torpe, de uma cidade desumana e cega que perdeu o rumo, postado sempre à distância do enquadramento subjetivo, o livro de Jeter Neves não tem medo de ousar nas trilhas vigorosas de um realismo denso e povoado de inquietas sugestões. Com sua metralhadora giratória, denuncia os abusos, a intolerância, os desmandos e manipulações de toda a espécie, sem esquecer aqueles cometidos em nome do saber e da suposta dignidade de que supostamente nos julgamos revestidos.

NEVES, Jeter. Fratura exposta. Belo Horizonte: Comunicação, 1984.

domingo, 28 de novembro de 2010

Legião Urbana


Considero-me um fã irrestrito da banda Legião Urbana. Acompanhei a carreira, participei de agito em show de estádio, tenho seis discos de vinil. Curto a pegada, vivi momentos intensos embalados pelas guitarras e zoeira da banda. O lado alucinado de meu percurso sentimental teve como fundo musical os acordes de Dado Vilas Boas, a bateria de Bonfá e a voz de Renato Russo. Isso não tem como apagar. A experiência amorosa sempre faz vibrar a música, em todas as direções. Para o poeta Herberto Hélder, “somente o mundo é uma coisa sonora”. Quando a música se entrelaça às palavras, as portas da percepção ficam arrebatadas.

Renato Russo, o poeta da Legião Urbana, expressa bem a síntese da geração dos anos oitenta, aquela que viveu o máximo de liberdade e de repressão, experimentou a aventura do prazer e da perda, a tensão entre o sonho e a realidade. O voo aos paraíso artificiais e o retorno ao horizonte opaco. A hesitação entre as meninas e os meninos. O fascínio do arco-íris e as trevas do cotidiano estúpido. Em fins dos anos oitenta, abandona a rebeldia sem causa, o desbunde. Tenta, nos poucos anos restantes, compreender a injusta e violenta engrenagem das relações sociais. Grita sua revolta diante da “estupidez de todas as nações/ o meu país e sua corja de assassinos/ covardes, estupradores e ladrões". Grita sua impotência “a cada fevereiro e feriado/ todos os mortos nas estradas/ os mortos por falta de hospitais” em “Perfeição”. Tenta, depois, compreender o mundo “complicado”, injusto e sem glamour, absurdamente contraditório e violento.

Envereda, depois, num percurso melancólico, caminho natural para o poeta que traduziu musicalmente para a juventude do fim do século XX, a visão do desconcerto do mundo (e do amor) sob a ótica de Camões. “Vinte e nove”, em sua aparente simplicidade, representa a feliz combinação entre texto e melodia. Atento aos problemas sociais e mazelas urbanas, comenta: "Vamos sair - mas não temos mais dinheiro./ Os meus amigos todos estão procurando emprego". A barra não mudou muito não, cara. Continua pedreira. À falta de rumo no plano pessoal, para o sujeito à deriva resta a parceria das ondas: “Já que você não está aqui/ o que posso fazer é cuidar de mim/ quero ser feliz ao menos./ Eu deixo a onda me acertar/ e o vento vai levando tudo embora”. Após os descaminhos, excessos e delírios dos anos oitenta, sugere a malograda integração no mundo, no belíssimo “O mundo anda tão complicado”.


                                                 Renato Russo (1960-11 de out. 1996)

Vinte e novembro

Perdi vinte em vinte e nove amizades
por conta de uma pedra em minhas mãos
me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
estou aprendendo a viver sem você
(já que você não me quer mais).

Passei vinte e nove meses num navio
e vinte e nove dias na prisão
e aos vinte e nove, com o retorno de Saturno,
decidi começar a viver.

Quando você deixou de me amar
aprendi a perdoar
e a pedir perdão.
E vinte e nove anjos me saudaram
e tive vinte e nove amigos outra vez.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Devolver o Jabuti?

Não há registro, ao que saiba, de escritor que tenha devolvido prêmio literário. Isso é um disparate. O que ocorreu foram recusas, por parte de grandes escritores, em receber prêmios, muito mais polpudos financeiramente que o Jabuti. Jean Paul Sartre recusou o Prêmio Nobel em 1964. Luandino Vieira recusou o Prêmio Camões em 2006, alegando motivos pessoais. Recentemente no último Forum das letras, alegou que não se sentia bem receber o prêmio quando estava há vinte anos sem publicar, consciente de que nesse ínterim outros haviam trabalhado e publicado.

Corre na internet um movimento pedindo que Chico Buarque devolva o Jabuti 2010, com mais de dez mil assinaturas. O motivo alegado é que não tem sentido um livro classificado em segundo lugar na categoria romance levar o prêmio geral. A editora Record externou publicamente seu desagrado e a intenção de ficar de fora da premiação. Esquisito o critério? Sem dúvida. Mas havia precedentes: em 2001, quando Lygia Fagundes Telles, com o livro Invenção e memória, classificado em terceiro lugar na categoria crônicas e contos; em 2004, com o próprio Chico Buarque de Holanda, quando Budapeste, terceiro lugar em romance, abocanhou a estatueta e o prêmio financeiro correspondente. Entre outros. Premiações de cartas marcadas, enganam os imbecis durante dois meses para depois se tornarem motivos de piada e vergonha para a literatura do país.

Considero Chico Buarque um dos mais talentosos e geniais compositores brasileiros. Nesse ponto participo da unanimidade. Como escritor, não me agrada. Sou um leitor refratário de Chico Buarque. Não consegui ir além da página 30 de um romance, não sei se Benjamim ou Estorvo, um desses títulos, face à gritante fragilidade técnica e literária. Nada ali convence ou se impõe, trata-se de um exercício ficcional inteiramente fracassado e inconsistente. Críticos respeitáveis depois reabilitaram Budapeste. Mas o estrago para mim estava feito.

As instituições dão os prêmios a quem lhes apetece. O critério de vendas parece pesar muito. Sobre o Jabuti deste ano, o comentário mais pontual foi o do romancista português Francisco José Viegas, no calor da hora. Com a palavra Francisco José Viegas, em seu blog a origem da espécie, no dia 10 de novembro, respeitando a ortografia portuguesa:

“Alguns leitores acham que me espalhei por ter escrito sobre o absurdo funcionamento do Prémio Jabuti — tão absurdo que foi parar às mãos de Chico Buarque, classificado em segundo lugar na categoria «Romance». Acontece que Chico foi distinguido, menos de uma semana depois, com o Prémio Portugal Telecom, que a PT local atribui a livros de língua portuguesa publicados no Brasil (em Portugal, a PT é muito menos literária). Ora, vamos a contas: é, ou não é absurdo que Chico Buarque receba o Prémio Jabuti «de ficção», atribuído pela Câmara Brasileira do Livro (que sempre preza muito as suas orientações comerciais e os favores políticos), depois de ter ficado em segundo lugar em «romance», de não ter figurado nas categorias de crónica, conto ou biografia? Que superlativa categoria é essa que repesca os segundos lugares das «categorias de ficção» (o romance, a crónica, o conto, a novela) para os eleger como grandes vencedores ao som de «Dilma! Dilma! Dilma!», como aconteceu na semana passada em São Paulo? Garantam-me a sua existência e eu dou-me por vencido. Como é possível que, em 2004, o terceiro lugar (uma menção honrosa) na categoria «romance» tenha sido declarado vencedor absoluto do Prémio Jabuti, ultrapassando escritores como Bernardo Carvalho (primeiro prémio na categoria «romance»), Luiz Antônio Assis Brasil (segundo lugar na categoria «romance») e Sérgio Sant‘Anna (primeiro lugar na categoria «conto e novela») ou jornalistas como Caco Barcellos (vencedor na categoria «reportagem»), senão para humilhar a lógica, festejar Chico Buarque, e criar um feliz matrimónio político-comercial? Não me fodam.
Que Chico Buarque, uma semana depois dessa ignomínia, e seis anos depois de outra, pior, tenha sido premiado pela Portugal Telecom, é-me completamente indiferente. Custa-me a acreditar que Leite Derramado seja considerado melhor do que os livros de Bernardo Carvalho, Bernardo Ajzemberg, Luiz Ruffatto, José Eduardo Agualusa, Rubem Fonseca, Ana Miranda, Dalton Trevisan ou o fantástico romance de Reinaldo Moraes. Mas aceito os critérios do júri. Eu, abaixo assinado, aceito os critérios e as decisões do júri. Não acho aceitáveis os critérios do Jabuti nem o desenho de circunstâncias que rodearam a sua atribuição a Chico Buarque, um excelente compositor até certo momento.”

O Jabuti fica desprestigiado. E ficam mais uma vez injustiçados e preteridos verdadeiros valores literários, figuras de primeiríssima água. Para ficar dentro das fronteiras de Minas Gerais, pelo menos três nomes fundamentais podem ser citados, a esse respeito: Rui Mourão, Maria José de Queirós e Benito Barreto.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Fernando Pessoa e as ciências ocultas

      Evito enveredar em pesquisas que tenham por objetivo elucidar fenômenos ligados ao ocultismo. Seria um mecanismo de defesa inconsciente? Talvez. Reconheço que, em alguma situação confusa ou opressora, estranhas linhas de força impõem-se, tencionadas e questionadoras. Não prossigo. Sinto-me mais seguro cercado por teorias claras, transparentes. Visíveis. Fernando Pessoa, ao contrário, envolveu-se profundamente em temas enraizados nas ciências ocultas. Desde sempre o acompanhou o interesse pelos fenômenos da magia, a atração pelas ciências ocultas, a ordem dos Templários e questões ligadas à maçonaria. Yvette Centeno revela que na adolescência, na África do Sul, desenvolveu tendência pelos temas herméticos, tocados pelo mistério. Dos oito aos dezessete anos, viveu em Durban, onde o padrasto exerceu o cargo de cônsul interino, de 1896 a 1905, com o retorno a Portugal de junho de 1901 a set. de 1902, em gozo de férias com a família. Alguns heterônimos teriam surgido em momentos de presságios e trovoadas, entre pios de coruja e corvos pousados em árvores desfolhadas por raios. Acresce à tendência pessoal a influência da cultura inglesa, fértil em magia e adiados Harry Potter e Hermione que procriam.

      “O ocultismo é a busca do outro lado das coisas: “o interno, a outra face das coisas”, como escreve num esboço de conto intitulado 'O filósofo hermético'. A outra face das coisas pode ser alcançada? A avaliar pela quantidade de textos em que Fernando Pessoa trata do ocultismo, da magia, da cabala, do rosicrucismo, da maçonaria e das ordens iniciáticas em geral, sim, para ele pode alcançar-se, ou pode pelo menos procurar-se com alguma esperança. É o que faz. Sem a ambição do máximo (ou sem essa ilusão), mas com a paciência e a fidelidade do mínimo. E o mínimo já implica a vida inteira” (CENTENO, 1985, p. 53).

      Muitos de seus poemas (em especial aqueles que compõem “Passos da Cruz”) refletem a importância por ele atribuída à ideia de iluminação, a busca do outro lado das coisas:

      “Emissário de um rei desconhecido,
      eu cumpro informes instruções de além.
      E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
      soam-me a um outro e anômalo sentido”.

      “Aconteceu-me do alto do infinito
      esta vida”.

      “Inconscientemente me divido
      entre mim e a missão que o meu ser tem”.

      Mesmo o heterônimo Caeiro, voltado para a simplicidade do mundo, não consegue eliminar por completo o peso do mistério em sua poesia: “Porque o único sentido oculto das coisas/ é elas não terem sentido oculto nenhum”. No poema Mensagem, o poeta recria situações e personagens da história lusa, em que os feitos reais se misturam aos mitos, numa visão messiânica do destino de Portugal, fadado a cumprir uma trajetória iniciática.

      “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
      define com perfil e ser
      este fulgor baço da terra
      que é Portugal a entristecer -
      brilho sem luz e sem arder,
      como o que o fogo-fátuo encerra”
      (...)
      Tudo é incerto e derradeiro.
      Tudo é disperso, nada é inteiro.
      Ó Portugal, hoje és nevoeiro...”


      Et pour cause, tenho um amigo fanático por Pessoa: toda noite de 30 de novembro lhe acende uma vela, em homenagem à morte do poeta dos heterônimos. Está próximo.

CENTENO, Yvette. Fernando Pessoa - o amor, a morte, a iniciação. Lisboa: A regra do jogo, 1985.
QUESADO, Clécio. Labirintos de um livro à beira-mágoa: análise de Mensagem de Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Elo, 1999.
PESSOA, Fernando. Obra poética. 9. ed. Org. de Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.


sábado, 6 de novembro de 2010

João de Melo: O homem suspenso



A resenha deste mês homenageia João de Melo, escritor açoriano radicado em Lisboa há décadas. Comprei meu exemplar de O homem suspenso em outubro de 1996, saído do prelo, numa livraria do Centro de comércio Monumental, em Lisboa, na praça do Saldanha, por ocasião de bolsa de estudos em Lisboa, no âmbito do meu Doutorado. A primeira versão desta resenha saiu publicada no Boletim do centro de estudos portugueses, 21, Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG,1997.

O livro do mês:


Após o sucesso de Gente feliz com lágrimas, grande prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores de 1988, publicou João de Melo, escritor nascido nos Açores, em 1949, outros romances de títulos belíssimos, como Autópsia de um mar de ruínas (1984) e, em 1996, O homem suspenso. A versatilidade de um criador múltiplo era conhecida desde a estreia como poeta em Navegação da terra (1980), revelado depois como contista em Histórias de resistência (1975), Entre pássaro e anjo (1987) e As manhãs rosadas (1991) e organizador de uma vasta antologia alusiva à guerra colonial, Os anos da guerra (1988). O retorno como romancista ocorre em grande estilo, numa linguagem exuberante, de intensa atmosfera poética, próxima das ligeiras sutilezas da alegoria e das situações extremas da tragédia.

Sob o signo das revisões e exames de consciência de fim de século (e milênio), O homem suspenso envereda pelas trilhas de uma irônica construção/desconstrução da identidade histórica portuguesa, cujos valores, ao se desmoronarem, ostentam sua granítica espessura. Disso certamente é metáfora, no terceiro capítulo, o desencantado périplo do narrador por largas avenidas, monumentos e ruelas de uma Lisboa simultaneamente real e mítica. O contraponto entre o presente de ruínas e a glória perdida no passado tem como pano de fundo a leitura de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, pretexto para o debate sobre a perda da estabilidade do narrador (conjugal e ideológica), as pequenas ilusões da burguesia e a própria ideia de revolução: “Fecho o livro, quedo-me por um momento em meditação. Penso nos séculos passados, perdido no tempo em que a vida portuguesa não era este vazio nem esta escassez de aventura, e depois volto à superfície da realidade. Agora não acontece nada em Portugal. (...) Vejo Lisboa de frente, erguendo-se no imenso anfiteatro que vem contornando o estuário, desde o Cais das Colunas e o Terreiro do Paço até ao mar, num arco que se distende sobre casas, ruas, colinas, e penso: Lisboa. Afinal Lisboa não existe. Tenho-a diante de mim, mas não existe tal como a vejo agora, única para mim e diferente para todas as outras pessoas. O que nela se passa sou eu que passo, para deixar de existir. Guio de regresso ao centro. Não há trânsito na Marginal, deve ser hora de jantar. Atravesso para o Mosteiro dos Jerônimos, que de súbito me parece um gigantesco mausoléu, de um branco ósseo e fosforescente: a frontaria iluminada contrasta com o chumbo do firmamento muito removido, ameaçando Lisboa com uma grande pancada de chuva”.

Antes do mais, registre-se o surpreendente retrato de uma cidade contraditória, almejando equiparar-se aos padrões da comunidade europeia, sem (querer) camuflar a nostalgia de seu passado glorioso. Coexistem alado a lado, no súbito desnudar-se a que é submetido o narrador, o fascínio pela melancolia e simplicidade da alma portuguesa e a desconfiança no progresso proposto pela aliança econômica. A descoberta da miséria ambiente cresce na medida em que o protagonista, prestes a ver reconhecida sua trajetória intelectual, se vê proscrito da relação amorosa. “Não sei onde começa a pobreza e termina a sua desordem, nem se uma e outra apenas se confundem na escuridão e na sujidade. Sei é que há vidas bem tristes, ofícios que mais parecem condenações, lugares horrendos onde ninguém, vivo ou morto, decerto gosta de estar” (p.81). A interrupção da rotina familiar propicia uma desordenada e afetuosa ocupação da cidade e de seu tempo, um tempo “vastíssimo, limpo, sempre muito belo da cidade de Lisboa”, “como não há outro em nenhum país da Europa”(20).

A busca desesperada da fé adolescente, a descrença nos projetos intelectuais, a partilha do abandono com um cão de rua, a perda do sentido da origem com a morte do pai, o conflito entre a vida e erudição, as falhadas tentativas de reconciliação com a esposa, as desilusões religiosas são etapas de uma dilacerante descida aos infernos. O jogo intertextual com a obra Peregrinação seria um índice de crítica à globalização econômica, em curso nos países da Comunidade Econômica Europeia? O texto aparentemente ingênuo de Fernão Mendes Pinto não esconde uma denúncia à ideologia das Cruzadas em pleno século XVI. Esse livro será o derradeiro elo do narrador com a cultura, lido em êxtase, “ (...) como lêem os crentes e os devotos, passando versículos e parágrafos, sentindo passar por aqui o frêmito da dimensão universal” (p.31). Ao lançar ao Tejo sua tese de doutorado, o narrador vê-se dividido: uma parte de si é levada pelas águas, “vai por esses mares navegando, chegará talvez às partes da Índia, e às outras todas da minha perdição...” (p.31). A outra parte resiste em terra, com uma doença de amor no olhar, diante do mar, signo emblemático, tendo a  Peregrinação e Lisboa diante dos olhos, duas mágicas ficções, as únicas por que vale a pena se prender e se perder.


MELO, João de. O homem suspenso. Lisboa: Dom Quixote, 1996. 217 p.

domingo, 24 de outubro de 2010

Conversa na estrada



Os dois amigos viajavam na 381, entre Itabira e Belo Horizonte, uma rodovia traiçoeira, cheia de curvas e riscos. Muitas carretas, trânsito pesado. Um perguntou ao outro o que mais o deixava irritado, como cidadão brasileiro.

“Muita coisa”, o outro disse.

“Não vale, tem que ser seletivo. Escolher o que mais aborrece".

“O excesso de impostos”. E expôs suas queixas.

A grande insatisfação do brasileiro diz respeito à exorbitante carga tributária cobrada pelo Estado. Os produtos carregam altíssimo percentual de tributação. Há casos de impostos que respondem por mais da metade do preço final dos produtos, e não são poucos. Há produtos pelos quais pagamos mais 60% de impostos. Isso é inaceitável. O estado brasileiro tem uma grande voracidade em cobrar tributos. O cidadão é penalizado a todo instante no dia a dia. Além disso, precisa pagar imposto de renda sobre o salário, em abril todos padecemos a voracidade do Leão.

“Você viu os protestos recentes na França?”

“Por muito menos, aumento de dois anos na aposentadoria”.

“É, somos espoliados e nada fazemos”.

“Quem ganha mais de três mil, na faixa salarial entre três e cinco mil, precisa trabalhar 13 dias por mês para pagar impostos”.

“Que dizem os candidatos?”

“Nada concreto, tudo muito vago”.

“O governo que responde até o fim do ano também nada fez.”

“Você se refere à reforma tributária?”

“Disseram que não deu tempo”. Os dois começaram a rir.

“Mas tempo para outras coisas sobrou: propinas, corrupção, politicagem.” Perigo na pista, motorista ultrapassa em local proibido.

“Cuidado, essa estrada é perigosa. Por ela passam 75% da riqueza do estado de Minas, mas não sobrou tempo para a duplicação”.

“Por aí você vê.”

“Quer saber de uma coisa? Liga o rádio, tem jogo do Brasileiro agora”.


sábado, 9 de outubro de 2010

Léa Nilce Mesquita



AURORA



para Edgard, a caminho da revista comemorativa de tantos inícios...

da água que não havia
bebi


e tudo passa a poder
existir

aurora da minha vida
que os anos nunca trouxeram


e ela ali no exato ponto
em que a história tinha fim

em que me cobria a água
de seu deserto sem fim


e o deserto era a fonte
que fecundava o jardim

no meio do jardim a árvore
sem placas de não ou sim


(eu podia não chegar
não precisava sair)

e foi um galope em relâmpago
a me trespassar de um passe
em cuja magia eu pendi
amarela fruta entreaberta
que acolhida colhi


(no sumo não consumido
me consumi consumada)

aurora aurora
áurea áurea áurea
maria
foi assim


Léa Nilce Mesquita

Encontrei o poema de Léa Nilce Mesquita em meio a velhos papéis, “maio de 1998”, numa pasta esquecida, na parte mais escondida e fechada da estante. Sua publicação evoca, além da amizade, consolidada nos corredores da Fafich/UFMG nos anos de chumbo (1968-1971), o ímpeto, sobressaltos e arroubos da juventude. Carregado de referências simbólicas, sem perder a simplicidade, o poema é uma amostra da produção da autora. Ainda inédita em livro solo, Léa Nilce, além da atividade bissexta como poeta, editou dois tablóides literários: Talupa, em fins dos anos sessenta (1969), Lixeratura, no início dos anos setenta (1973). Participei, junto com Fábio Madureira, Magda Frediani, Neide Malaquias, Ronald Claver Camargo, Regina Souza e Maria Ignez Portugal, do voo libertário de Talupa. Visceralmente identificada com o movimento da poesia marginal, excluída de circulação, à margem da visibilidade.
Na foto, de 1998, em evento comemorativo do lançamento de Talupa/lixeratura, Léa é a primeira da esquerda para a direita, sentada, seguida de mim e Ronald Claver, vendo-se Maria Luiza Ramos em pé. A alusão presente na dedicatória do poema remete à seguinte publicação, onde se pode encontrar um breve histórico, acrescido de textos representativos dos autores:

MESQUITA, Léa Nilce. Talupa/Lixeratura 68/98: 30 anos. Belo Horizonte: Formato, 1998.

sábado, 2 de outubro de 2010

Trocando os pés pelas mãos







Livro do mês


Não é prioridade para o autor acompanhar em detalhes o fenômeno Tostão como atleta ímpar, campeão do mundo em 1970 pela seleção brasileira, jogador de dribles curtos, passes inteligentes, jogadas e gols sensacionais. No prefácio, Juca Kfouri não economiza o verbo: “Tostão é desses raros brasileiros capazes de jamais decepcionar. Nos gramados, está na minha seleção de todos os tempos, entre Mané e Pelé, por mais que ele, modesto, escale Romário Ronaldo.” A intenção está explícita no título, trocando os pés pelas mãos, por sinal um verdadeiro achado: acompanhar e divulgar a produção do cronista esportivo. Isso mesmo, o brilhante cronista, inicialmente revelado em Belo Horizonte nas páginas de O Estado de Minas, em 1996, posteriormente estendido para publicações de circulação nacional, como o Diário da tarde, Jornal do Brasil, o Estadão e a Folha de São Paulo. Apesar da timidez, acabou se tornando, a partir da experiência adquirida como atleta, comentarista respeitado na televisão (TV Bandeirantes na Copa de 94, depois na ESPN). A linguagem e a forma de apresentar as informações e circunstâncias que plasmaram o comentarista esportivo refinado conseguem envolver o leitor no entusiasmo pela descoberta de uma personalidade diversificada, que se desdobra em três ângulos: o jogador, o médico e o cronista. Após breve e fulminante (no sentido de intensa e explosiva) carreira como atleta, com esforço e tirocínio Tostão redimensiona sua trajetória multifacetada, desenvolvendo um percurso de sucesso em outras áreas, fruto de uma inusitada combinação de talentos.



Sem dúvida, Tostão, ou melhor, Eduardo Gonçalves Andrade, representa um caso raro de atleta de ponta que, vendo-se impossibilitado de prosseguir na carreira, após um problema físico (no caso, o deslocamento da retina), consegue se superar: enfrenta um vestibular de medicina, forma-se médico e professor da Faculdade de Medicina da UFMG. Na sequência, dedica-se à crônica esportiva. Gílson Yoshioka, o autor, comenta na Apresentação: “Durantes suas várias vidas, ele percebeu que os grandes profissionais conhecem profundamente o básico, enxergam o óbvio e fazem muito bem as coisas simples e essenciais. Além da técnica de cada atividade, esses talentos possuem conhecimentos mais amplos, de outras áreas, e maior aptidão para observar, sintetizar, decidir e criar – qualidades não aprendidas na escola – no momento certo”. Destacam-se no pesquisador a habilidade e a sensibilidade de perceber no ex-atleta e cronista especializado em abordar os detalhes técnicos dos jogos, nem sempre captados pelos outros colunistas, outras singularidades, como a capacidade de entrever as “inventivas” analogias entre o futebol e a vida, o gosto pelas citações de bons autores (Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e Carlos Drummond, entre outros). Atento à convergência entre esporte e escrita, o autor elabora análise sofisticada da crônica esportiva assinada pelo ex-craque: “Em vez de textos (ou passes) tecnicamente corretos, lineares, sem riscos, na tentativa de manter a posse de bola, ele prefere aqueles de curva, de rosca, de trivela, com as palavras (ou bola) contornando o corpo do texto (ou adversário) para chegar aos leitores (ou jogadores)”. Certeiro nas avaliações, objetivo no enfoque, abrangente nos enquadramentos, elegante no estilo, o autor traça ainda, de quebra, um rico painel da crônica esportiva brasileira. Algumas sacadas (do cronista Tostão) são geniais: “Podemos falar em drible, passe e gol, fundamentos técnicos que são característicos do belo e eficiente estilo brasileiro. O drible eficiente é seguido de um bom passe, uma certeira finalização ou às vezes até mais de um drible. O passe tem de ser no instante exato e às vezes necessita ser surpreendente. O gol é feito pelo artilheiro que sabe, antes dos outros, aonde a vola vai chegar. Como sabe? Sabendo. Existe um saber que antecede o raciocínio lógico”. Enriquece o livro um criativo e detalhado “Dicionário Tostão de Futebol”, apresentando conceitos e notas extraídos das crônicas do autor focalizado. Embora não se trate de uma obra de fôlego, de uma pesquisa científica aprofundada, nesse Dicionário seria oportuno que os verbetes viessem com referência bibliográfica, nem que fosse para uma ligeira comprovação. Um lançamento de grande interesse, não apenas para os amantes do futebol.



YOSHIOKA, Gìlson. Trocando os pés pelas mãos: o futebol e a vida nas crônicas de Tostão. Rio de Janeiro: Maquinária, 2010. 128 p.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A poesia de Paulo Merçon



Falar pela segunda vez de um livro pode levar à trilha da repetição. Ainda mais quando se está diante de um produto poético que insiste em afastar qualquer tentativa de capitulação crítica, uma poesia que encena a impossibilidade da crítica diante do ímpeto criativo.: “leia com cuidado/ esses poemas”... “despreze com cuidado este poema” (poema “Antiterror”); “Não a disseque, não a decifre/ em moldura de palavras/ poesia é paisagem furtiva” (“Leitura da poesia”). Mais uma vez sinto-me um intruso, no pórtico desses versos. Retomo, assim, algumas circunstâncias que talvez justifiquem minha presença neste evento.


Em meados de 2009, fui procurado por Paulo Merçon, que não conhecia. Falou do desejo de publicar um livro de poesia e me pediu uma apresentação. Respondi-lhe de forma evasiva, condicionando minha aceitação à qualidade do material, do texto. Assim que terminei a leitura dos originais, não havia como recusar. Esta a origem de minha aproximação à poesia de Paulo Merçon. Publicado o livro, com meu prefácio, logo dois leitores especiais expressaram sua opinião favorável àquele livro de estreia. Márcio Almeida e Nonato Gurgel, também poetas e críticos literários, ecoaram elogios ao livro Abreviaturas do invisível.
Referi a inutilidade do meu prefácio, num livro que se inicia com um belo poema intitulado precisamente “Prefácio”. Destaco de início o cuidado com a elaboração formal, nesse poema:
“Em minhas veias
a paisagem luminosa dos trópicos
é cortada por um rio austero
de águas lapidadas em milênios
nascendo
límpidas do instante
em terras altas da Escócia.”

Em se tratando de um livro de estreia, é sintomático o uso do verbo “nascer”: as palavras nascem límpidas, como águas pacientemente trabalhadas/ “águas lapidadas em milênios”. Dentre os aspectos referidos no prefácio, saliento a “disponibilidade laboriosa ao enigma”, “o aprendizado da partilha”, “o diálogo com outras artes”, “o repertório de fragmentos”, “o resgate de sentidos dispersos”, a cidade como tema, a altíssima voltagem lírica, a metáfora da espuma. Mas deixemos de lado os prefácios.

Aproveito o ensejo da partilha pública dos poemas de Merçon para duas breves palavras: a primeira retoma a leitura crítica, a segunda em forma de solicitação. Ao reler seus versos, fui mais uma vez tocado pela densidade de sua poesia, surpreendentemente madura, vazada em forma simultaneamente simples e elegante, resultado de apreço à tradição e um olhar arejado, sintonizado com os apelos do nosso tempo. Percebo melhor o alcance de seu diálogo com Carlos Drummond de Andrade, - o que nasceu em Minas e foi morar no Rio, trajetória percorrida inversamente por Merçon: o que nasceu no Rio e veio trabalhar em Itabira, - num exercício intertextual, em que os motivos conhecidos da poesia drummondiana são reelaborados:
“Alguns dias vivi em Itabira
(…)
mas guardo a vontade
de amar e a tristeza
minério enterrado
no coração do poeta e
ali escavada
a memória de um mar

enquanto do vidro
do carro Itabira
é a mesma fotografia
(agora em
movimento)

teus versos que
já me doeram mais”
(“Confidência ao itabirano”)

Confidências do cotidiano, instantâneos de situações inesperadas, tentativas de compreensão da realidade, lances sugestivos da paisagem, captação de sensações, para cuja realização a metáfora da espuma é invocada, numa insistência obsessiva – eis por alto uma síntese de seus versos. E sobretudo o desejo de reconquistar o leitor, instância afastada em nome de estéreis e amaneirados trocadilhos e recursos visuais requentados, dados como sinais de modernidade. Sem ignorar que a consolidação de novos poetas torna-se referência positiva e resistência produtiva, diante dos interesses comerciais da mídia e da indústria editorial.

Por fim um pedido. Que nos seus próximos poemas, a cidade não figure apenas como “cidade da alma”, mas como lugar de partilha do corpo e da experiência amorosa, cidade real onde as pulsões e o afeto se instalam, porque a pele é o mais profundo (sabemos desde Valèry e Al Berto), e o arrebatamento metafórico de seus versos solicita outros voos, novas aventuras.
______________________________________________
***(O texto acima foi minha participação no Terças poéticas de 14/9/2010. A imagem deve-se a texto de Márcio Almeida, no saite germina.
*** Dois produtores foram focalizados no evento: o poeta Merçon e o músico Pedro Morais. Excelentes um e outro. O poeta fala sobre poesia e recita versos. O músico dedilha guitarra e canta. Nada contra os músicos. Pelo andar das coisas, dada a vigilância do tempo sobre a perfomance do poeta, entenda-se, a redução do tempo, e a extensão dedicada ao músico, não demora o Terças poéticas, evento vocacionado para divulgação da poesia, pode se transformar em mais um show musical no início da noite, patrocinado pelo Estado. A galera grita, pedindo bis. A perfomance do músico tende a se destacar, ofuscando o poeta. Algo estranho.)
***A seguir, um poema de Merçon:
O copo d'água
........*******...........**********..........
Dentro de um copo de vidro
se exasperam!
e logo se acalmam
os músculos sempre jovens da água.
Um discurso, veloz e prolixo
no formato do vidro se cala
e o silêncio
cristalino e estático não sabe
sua angústia inata de oceano,
a ânsia tramada de tempestade.
Ou, de outro ângulo,
a água límpida daquele copo
talvez fosse um pincel
(invisível) entre os dedos
paralíticos
da sede.

sábado, 4 de setembro de 2010

Suplemento literário: que falta ele faz!


Livro do mês:


      É consensual a relevância dos periódicos literários, como subsídio para a compreensão de uma época, além de documentar uma colaboração diversificada e multifacetada. A autora apresenta uma pesquisa informativa, uma visão panorâmica do Suplemento literário do Estadão. O enfoque é jornalístico, voltado para a elucidação de circunstâncias históricas, relacionadas à origem e contexto da criação do famoso caderno de cultura, que circulou encartado à edição de sábado de O Estado de São Paulo, durante dezoito anos (de 1956 a 1974). Desprovido de interesses comerciais, no âmbito de um ambicioso projeto cultural elaborado por Antônio Candido, seguido à risca, o caderno manteve um perfil erudito e reflexivo, como espaço de produção e debate de temas artísticos e literários, tornando-se referência no gênero. Dirigido inicialmente e durante dez anos por Décio de Almeida Prado, professor e crítico de teatro, mais tarde pelo jornalista Nilo Scalzo, o suplemento era o resultado de uma convergência de esforços entre a nata ilustrada da elite paulista e um grupo de intelectuais da USP. Na sua primeira fase, manteve estreitas relações com o grupo de Clima, revista literária dos anos 40, como comprovam os nomes constantes no expediente (Lourival Gomes Machado era o responsável pelas artes plásticas, Paulo Emílio Gomes pelo cinema) e o depoimento do primeiro editor: “Podemos dizer sem exagero que a essência do Clima, no que diz respeito a pessoas, passara de uma revista de jovens para as páginas de um grande jornal, que tinha outra penetração e responsabilidade perante o público” (p.29).

      Apesar de ligado a um jornal de direita, o Suplemento literário não discriminava colaboradores por questões ideológicas, pautando-se pelo critério de qualidade, numa “atmosfera de objetividade e largueza intelectual”, de acordo com a proposta de Candido. Sintomática a esse respeito, a longa apresentação do primeiro número, (de 6 de outubro de 1956), assinada por Décio de Almeida Prado, afirma: “(...) todos os seus artigos são assinados, nenhuma responsabilidade cabendo à redação; por outro lado, a sua natureza é, portanto, artística. Ora, não se compreende arte sem plena liberdade de expressão e criação pessoal. (...) Uma publicação que se intitula literária nunca poderia transigir com a preguiça mental, com a incapacidade de pensar, devendo partir, ao contrário, do princípio de que não há vida intelectual sem um mínimo de esforço e disciplina” (p.48). Apoiado pela estrutura financeira de um grande jornal, desenvolveu uma gestão editorial marcada pelo profissionalismo, com a mais alta remuneração paga por colaboração literária no país.

      A parte histórica, desenvolvida através da tentativa de relevar o significado do Estadão e do seu suplemento na cultura brasileira, com o resgate e análise do projeto de seu idealizador, configura a espinha dorsal do livro; nesse sentido, contribui para o estudo das relações entre a cultura e o jornalismo. O volume é fartamente ilustrado, com fotografias e reproduções de textos e ilustrações relevantes, acabamento gráfico de bom gosto. O capítulo dedicado às ilustrações estampadas no periódico, com o levantamento dos principais artistas plásticos envolvidos, cumpre exemplarmente sua finalidade. O mesmo não se pode afirmar da parte propriamente literária. São referidos alguns lançamentos, alguns autores são citados, sem uma análise abrangente do material pesquisado. Foi inteiramente descurada a apreciação da colaboração literária, ficou por ser feito um índice alfabético dos colaboradores, como era de se esperar em obra de tal natureza. O ensaio científico é um gênero absorvente, exige pesquisa exaustiva, densidade de argumentação e habilidade para manusear dados estatísticos. O objeto escolhido – a história de um suplemento literário – requer domínio de conceitos e sistemas específicos, além de metodologia adequada. Em obras desta natureza, são fundamentais o destaque ao levantamento da matéria, a formação na área, além de um balanço descritivo e sistemático da produção literária publicada no objeto da investigação.

LORENZOTTI, Elizabeth. Suplemento literário, que falta ele faz!: 1956-1974 do artístico ao jornalístico: vida e morte de um caderno cultural. São Paulo: Imprensa Oficial, 2007.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Rui Mourão: projeto de ficcionista





Na carona do enfoque sobre intertextualidade, indico outra frente de investigação, agora envolvendo o mesmo autor. Em postagem de novembro de 2009, comentei aqui o discurso de posse de Rui Mourão na Academia Mineira de Letras. No evento, o romancista apresentou uma visão panorâmica de seu trabalho como ficcionista. Uma plaquette com o discurso foi publicada pela AML. Encontro agora, por acaso, folheando números antigos da prestigiosa revista Colóquio-letras, de Lisboa, precisamente em seu número 26 (julho de 1975), um artigo de Rui Mourão, sob o título: “Meu projeto de ficcionista”. A propósito, vale destacar a presença constante de três intelectuais mineiros, escritores atuantes do grupo Tendência, nas páginas da referida revista, ao longo da década de 70 do século passado. São eles Fábio Lucas, Laís Correa de Araújo e Rui Mourão, assinando artigos de fundo ou resenhas.
O artigo da Colóquio recobre os três romances até então produzidos, As raízes, Curral dos crucificados e Cidade calabouço. Um traço comum a perpassar os dois últimos é a busca de novos caminhos, marcada por rigorosa pesquisa, acentuada pelo escritor crítico ao iniciar o artigo: “O meu projeto de ficcionista nasceu sob o signo da investigação e da experimentação” (MOURÃO, 1975, p. 36). Mais denso e com maior fundamentação teórica, o depoimento publicado na revista aborda os elementos estruturais e funcionais da narrativa, desde a urdidura da intriga à sua enunciação em termos de relato. São discutidas as categorias que constituem a narrativa, a elaboração da fábula, o foco narrativo, o estatuto do narrador e as questões relacionadas à sintaxe e à linguagem do romance. Rui Mourão associa sua concepção de ficção ao pensamento fenomenológico de Husserl, emanada do impacto do espírito com as coisas:

“O ficcionista, no meu entender, deveria se mover apenas para o levantamento de cenas, e estas, se sustentando por si mesmas no exterior, em seguida seriam objeto duma montagem. Mas que sentido lograria a obra assim realizada? O escritor iria captando aspectos isolados e independentes da realidade para acabar fazendo um ajuntamento de peças desarticuladas? O trabalho de soldagem dos elementos dispersos não seria nem mais nem menos do que um esforço para a recuperação da consciência. Esta fora fraccionada, no momento da realização das diversas tomadas autônomas, para que não representasse um obstáculo, impedindo o contato direto do espírito com as coisas, mas seria buscada, na etapa seguinte, como uma reconquista em plano diferente. A sua força estruturadora estaria se impondo de qualquer maneira, porém a posteriori” (MOURÃO, 1975, p.40-41).

O corpus do discurso proferido na Academia Mineira expande-se, ao incorporar os seis títulos lançados após 1975, frutos de uma sólida e diversificada produção, tais como Jardim pagão, Monólogo do escorpião, Servidão em família, Boca de chafariz, Invasões do carrossel, Quando os demônios descem o morro. Assinala os pontos de contato entre os objetivos de Tendência e o seu projeto ficcional: “Com empenho de escafandrista, desejávamos descobrir uma linguagem de rendimento verdadeiro para exprimir a realidade brasileira, dominados pela convicção de que a autenticidade de um criador, no plano da sensibilidade, fatalmente se relacionava com o condicionamento cultural mais imediato. Estávamos debaixo do sol forte do pensamento marxista que, chegado com a redemocratização do país no segundo pós-guerra, recebia grande alento de nacionalismo” (MOURÃO, 2009, p.20-21). O diferencial do documento mais recente está, entre outros aspectos, na análise das dificuldades enfrentadas pela literatura nos dias que correm:


“Apesar da redução relativa de leitores, insistentemente apontada, e a canhestra distribuição de livros praticada por profissionais que, pela falta de arrojo, parecem não merecer tal classificação, nunca se editou tanto entre nós. No momento em que a criação no país, refletindo o amadurecimento geral da sociedade, assumiu completa autonomia, parecendo encerrado o período em que fomos apenas reflexo do fenômeno estrangeiro, a invasão do produzido além de nossas fronteiras se faz sem critério, em proporções avassaladoras, nunca antes imaginadas. (...) A crítica especializada de categoria cedeu lugar a resenhas apressadas, visivelmente produzidas por encomenda de editoras de prestígio, quando não programada pelo próprio órgão de comunicação, interessado em apoiar a lista dos mais vendidos, mantida como recurso publicitário, consagrando a equivocada suposição de que o melhor julgador da obra seja o simples leitor. Os suplementos especializados dos jornais, que tradicionalmente centralizaram o debate ideológico, por sua vez, forçados a entrar em anemia desde a época da ditadura – retrocesso político (...) que promoveu a dispersão de parte considerável da inteligência do país -, acham-se convertidos em instrumentos de divulgação dos chamados fatos diversos e da cultura de massa” (MOURÃO, 2009, p. 24-25). E vai por aí afora, grande Rui.

MOURÃO, Rui. Meu projeto de ficcionista. Colóquio-letras, Lisboa, Fund. Calouste Gulbenkian, n.26, julho de 1975.
MOURÃO, Rui. Discurso de posse. Belo Horizonte: Academia Mineira de Letras, 2009.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Aproximando Graciliano Ramos e Lucienne Samôr



A intertextualidade é o recurso que permite fazer um texto dialogar com outro, a partir de semelhança temática ou estrutural. Procede do princípio de que não há texto inteiramente original, todas as coisas já foram ditas, o que existe é uma forma diferente, inusitada, de dizer alguma coisa. Os autores nem sempre possuem domínio em relação à sua ocorrência. Um autor pode incorrer em exercício intertextual, sem que tenha consciência do fato. O leitor voraz na maioria das vezes é que percebe os nexos entre um texto e outro.
No romance Angústia, de Graciliano Ramos, o narrador Luís da Silva em dado momento passa a arquitetar a ideia de um crime, matar o rival Julião Tavares. Esse pensamento ocorre várias vezes. “E apertava a corda com força. Quando retirara a mão do bolso, via nos dedos os sinais que ela deixava, marcas roxas na pele suada. O meu desejo era dar um salto, passar uma daquelas voltas no pescoço do homem (p.150).” A ideia vira obsessão. “Retirei a corda do bolso e em alguns saltos, silenciosos como os das onças de José Baía, estava ao pé de Julião Tavares. Tudo isto é absurdo, é incrível, mas realizou-se naturalmente. A corda enlaçou o pescoço do homem, e as minhas mãos apertadas afastaram-se. Houve uma luta rápida, um gorgolejo, braços a debater-se. Exatamente como eu havia imaginado. O corpo de Julião Tavares ora tombava para a frente e ameaçava arrastar-me, ora se inclinava para trás e queria cair em cima de mim. A obsessão ia desaparecer (p.186).” Num momento, ele vê um cano e imagina-o como uma arma terrível: “O cano se estirava ao pé da parede, como uma corda”.
Lucienne Samôr, contista mineira, é uma das quatro escritoras incluídas na antologia Crime feito em casa, organizada por Flávio Moreira da Costa. Autora de um único livro, Olho insano, no conto “Depoimento de Duneau”, apresenta o caso de uma personagem que narra os motivos que a levaram a matar seu irmão. “Corro para um cômodo anexo à casa e que outrora servira para guardar apetrechos e armas de caça. Não há nada mais, vejo. Havia esquecido que foram vendidos a um homem da província, estabelecido há pouco. Mesmo assim voltei os olhos, ainda procurando-os, numa esperança irracional de desesperado. Um pouco sumida pela poeira entrevejo uma barra de ferro no monturo. Apanho-a e retomo o mesmo caminho. O objeto sólido e pesado pendia das minhas mãos fortemente; acrescido à agressividade natural do homem era uma arma de potência ilimitada (p.34).” No desenvolvimento da narrativa, a cena do crime é contada em detalhes: “Estava detrás dele e avistava a sua nuca branca, onde em redemoinho os cabelos desarrumados se espalhavam, crescidos em desordem e sem trato (p.35)”.
Alunos de letras, a postos. Fica aí a sugestão para um trabalho de literatura comparada. Mãos à obra.

RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.
SAMÔR, Lucienne. O olho insano. Belo Horizonte: Interlivros, 1975.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

As opções críticas de Álvaro Lins


      A nota anterior sobre Álvaro Lins, o crítico literário do Correio da manhã (1940 a 1956) não tem a intenção de identificá-lo como modelo de crítica. Teve seu lugar na história da literatura brasileira, como crítico militante, de indiscutível influência. Foi certeiro em alguns momentos, equivocou-se noutros. Em dado contexto, desempenhou a contento o papel do intelectual participante. Não se deve ignorar que a crítica naquele tempo - denominada humanista impressionista - preservava um sentido de transformação cultural que se perdeu no formato descritivo que assumiu a partir dos anos 70, quando passa a ser produzida nas universidades. Seja qual for sua filiação, a crítica deve ser culta, fundamentada em sólida base filosófica, sociológica, psicanalítica, estética, afinal, ela é caudatária do espírito iluminista. Alvaro Lins era um homem culto, erudito, de gosto estético refinado.

      Ao nomear suas predileções, entre os poetas, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Thiago de Melo, João Cabral, Alvaro Lins enumera os motivos dessa preferência, os parâmetros em que se baseia. Escreve páginas decisivas para a fortuna crítica de Drummond, por exemplo, com avaliações penetrantes dos livros Claro enigma, Sentimento do mundo, Rosa do povo. Como todo crítico militante, tem suas idiossincrasias. Forçou demais a mão em Clarice Lispector, Jorge Amado e Érico Veríssimo, autores quase iniciantes, em processo de elaboração de seus romances mais representativos. Em relação ao Jorge Amado, o contexto pesa bastante, tendo em vista os primeiros livros dados a lume, um tanto precários, se comparados ao que depois produziu. 

      Considera a autora de Perto do coração selvagem, por ele considerado uma "experiência incompleta", uma escritora em formação, carrega "dentro de si um mundo de ficção", capaz de expressar "a visão do mundo numa atmosfera de sonho, a confusão entre memória e imaginação, a deformação alucinada dos fenômenos sob o efeito da subjetividade". Tem a coragem de afirmar que "a Sra. Clarice Lispector não atingiu todo o objetivo da criação literária. (...) ...ainda não está no domínio daquela experiência vital que permite a realização de um romance completo" (p.190). A persistência de Clarice revelou que o crítico estava equivocado. Faltava-lhe instrumental para aquilatar a densidade e sutileza dos rumos trilhados pela jovem autora.

      Afirma disparates sobre Érico Veríssimo: "Ao contrário do que seria natural - um autor que se aperfeiçoa de livro para livro - o que se estava vendo era o plano inclinado: o escritor que piorava sucessivamente de um romance para outro. Da sua plenitude em Caminhos cruzados para Música ao longe, Um lugar ao sol, Olhai os lírios do campo" (p.221). Apresenta como responsável pela redução da qualidade a concessão ao público, após o grande sucesso de Caminhos cruzados. Mesmo reconhecendo o talento do autor, aponta a tendência ao moralismo e a linguagem um tanto convencional.

      Sua má vontade em relação a Jorge Amado é conhecida. Faz-lhe críticas severas, embora reconheça as qualidades: "Ninguém lhe negará, sem dúvida, o dom principal de romancista, a capacidade de movimentar personagens e construir com eles uma história ou um drama"(p.236). O crítico não suporta o uso excessivo da prosa poética no romance: "Há em todo o romance, aliás, uma preocupação excessiva de causar efeitos como há a preocupação abusiva do poético em prosa. Há luas demais nos céus baianos de Terras dos sem fim. Luas por toda parte" (p.234-235).


LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.


domingo, 8 de agosto de 2010

Namoro aos quinze



A imagem reproduz desenho de Gabriel Pereira Reis.
Namoro aos quinze

      Testa coalhada de espinhas, algumas com risco de infecção, entrou em casa radiante. Amargava semanas contrafeitas de variados contratempos. A mudança de colégio, de escola particular transferido para escola pública. Motivo econômico. O labo bom: descobria meninas de beleza natural, mais humildes, algumas oriundas de regiões carentes do estado, onde não havia ensino médio. Depois, fora obrigado a engolir comentários elogiosos de dois colegas (trogloditas) à invasão de fazendas produtivas por integrantes do movimento dos sem-terra. Debate em sala, chatice. Por último, o vazamento de seus dados (e de doze milhões de estudantes) na internet, por conta do exame nacional. Será que são todos cegos e manipuláveis?

      Após bater com força a porta do carro, o que desagradava o pai. Mostrou a mão esquerda. O pai não mostrou interesse. As atividades após o almoço, compromissos de hora marcada, a família com tempo sincronizado. Resfriados e acessos de tosse alternavam de forma natural, como tudo o mais, os olhos brilhando diante das moças bonitas. Mais esperta, a mãe percebeu o nome gravado na mão: Cristina! Um riso abriu o rosto inteiro. Ele disse:

      “Calma, começou com a Aranda, amiga dela, senta atrás de mim”.
      O pai, mostrando disfarçado companheirismo, perguntou:
      “Será que é menina decente? De boa família. Tenho visto garotas muito vulgares, à porta do colégio, agarrando garotos”.
      “Não, pai. Ela é boa menina”. Os garotos azarando o jogo de futebol das meninas, em foco as pernas justo de quem? De Cristina, O short de nylon, fino, quem aguenta? Os garotos, hormônio a mil, maliciosos.

      “Conta tudo”, pediu a mãe, meio aflita.
      “Ela pediu minha mão. Escreveu o nome dela”.
      “Isso eu vi. Cristina”.
       “Depois perguntou se que queria ficar com ela. Assim: quer ficar comigo?”
      “E você, o que respondeu?”
      “Que sim”, os olhos brilhavam, donos da tarde.
      “O que é ficar?”, interveio, singelo, o pai.
      “Namorar, uai”, completou o irmão menor.
      “Não, vocês não sabem de nada. Ficar é o início da paquera. Do namoro.”
      “Isso é natural, com o tempo vocês vão se conhecer melhor”, o pai dizia, conciliador.
      “É, tudo tem seu tempo”. A mãe, compassiva, incapaz de esconder zelos morais.
    “A gente pensa marcar um encontro no Parque ecológico”. O garoto mastigava os minutos com sofreguidão.
      “Sem ninguém mais velho para acompanhar vocês?”
      “Aí perde a graça, né, mãe”.
      “Vê se não demora pra beijar na boca, senão pega mal”, ajuntou o irmão mais novo.
      “Não dá palpite, falou?”
      “Só queria ajudar”.
      “O melhor de tudo foi quando a garota disse, depois de entrar correndo na sala: “Cansei, olha como bate meu coração! Toquei o ombro dela. Ela botou minha mão seu peito”. O garoto nas nuvens.
      “Cuidado para não se espatifar no chão”.
      “Como assim?”
      “Nada”.
     “O que ela disse?” Os olhos incendiaram a tarde. O coração batia forte, repercutindo no corpo todo

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As cerejas


Livro do mês:

Este livro integra a arrojada série Outras palavras, da Editora Atual, projeto merecedor de créditos, por vários aspectos. Formulado por Samira Youssef Campedelli e coordenado por Vivina de Assis Viana, consiste em confiar a escritores renomados a tarefa de reescrever um conto clássico, enfatizando cada qual o aspecto que mais o motivou. No caso em pauta, o conto matriz é “As cerejas”, de Lygia Fagundes Telles, recontado por Duílio Gomes, Márcia Leite, Fanny Abramovich e Ignácio Loyola Brandão. O resultado é uma breve e consistente coletânea de cinco histórias que dialogam entre si, em inesperados confrontos, enfoques e amplo exercício de intertextualidade. De quebra, pelo que se deduz, um sucesso de vendas (11a. edição em 2006, lançado em 1992), fenômeno compreensível, além da qualidade gráfica e literária, pela presença de Lygia F. Telles e uso criativo em atividades paradidáticas no ensino médio.

O conto “As cerejas”, extraído de Antes do baile verde (1970), traz a marca inconfundível da autora, nome tutelar da literatura brasileira, signatária de outros livros fundamentais de narrativa curta contemporânea, como O jardim selvagem (1965), Seminário dos ratos (1977), A estrutura da bolha de sabão (1991). Seus romances Ciranda de pedra (1954) e As meninas (1973) tiveram grande e merecida receptividade, exercem ainda forte influência nos escritores mais novos, são peças de refinada elaboração formal e temática ousada; alguns críticos, no entanto, como Wilson Martins, consideram-na melhor contista que romancista. A habilidade em manter o suspense, a alternância de tempos, a força do detalhe, a noção exata do ritmo e a ênfase à ambiguidade são traços gerais de sua produção ficcional.

“Morangos”, o relato escrito por Duílio Gomes, a par da manutenção de efeitos do conto gerador, como o mergulho no passado, os nomes de personagens, a paisagem rural, a espessura simbólica dos motivos, o desenlace próximo ao clímax do enredo, inverte o processo narrativo, com a adoção do foco masculino. O narrador é ele próprio o agente e paciente do jogo de sedução, num relato ampliado de situações e peripécias intensas. Mesmo que o contexto se mostre por vezes delineado através de índices excessivamente datados (as alusões a D. Helder Câmara, Xuxa, Barão Vermelho, Cazuza), é uma história narrada de forma elegante, ágil, de uma sensualidade simultaneamente provocante e ingênua. Ao lado do conto matriz da série e da pungente e nostálgica narrativa de Ignácio de Loyola Brandão, no encalço de um episódio enigmático da infância, o conto de Duílio Gomes é sem dúvida um dos pontos altos do livro. O narrador de Ignácio Loyola focaliza, com a tinta da melancolia e o toque de virtuose, em “Cerejas na escuridão”, o conflito gerado pela mistura de ciúme, desejo e culpa que assolam o garoto órfão, seduzido por uma suposta parenta e para o qual o passado é um quadro obscuro, numa trama recheada de elementos edipianos.

“Veio uma dor muito forte na parte direita do rosto e logo me tomou a testa. Havia uma vontade de chorar, gritar, correr e eu paralisado. Odiando tio Álvaro, rezando para que o moto-contínuo não desse certo, para que a máquina fosse um fracasso. Porque em suas mãos havia um cacho minúsculo de cerejas vermelhas, que ele agitava como se fossem sininhos. As cerejas não eram verdadeiras, porque não havia cerejas em nossa cidade, a não ser um cacho. Aquele que eu conhecia tão bem. Sabia que não estavam fechando nenhuma blusa e que nem devia haver blusa” (p.76).

Márcia Leite constitui agradável descoberta, com o relato “Antes do jantar”, rico de sugestões e sutilezas, ao reverberar em primeiro plano ousadas pulsões femininas. Cochilo de revisão, ou o que seja, nunca é demais referir que a busca do registro coloquial não acarreta necessariamente relaxamento no uso das normas da linguagem padrão, a ponto de permitir coisas do tipo “Não lhe interessa os sentimentos (p.46)”. Em registro mais lento e próximo da leveza da crônica, Fanny Abramovich aborda os reflexos da paisagem exterior sobre as personagens, em “Paris, na primavera”, impressões de viagem, amarradas por um tênue fio narrativo com ênfase no pendor descritivo, ao pintar ruas, praças e esquinas da capital européia, estonteantes de cores e perfumes.

TELLES, Lygia Fagundes et alii. As cerejas. 11a. ed. São Paulo: Atual, 2006. 

terça-feira, 27 de julho de 2010

Museu do Ouro






Situado em Sabará, o Museu do Ouro fica à rua da Intendência, s/n., disponível a visitas de terça a domingo, das 12 às l7 horas. Preço: R$ 1.


Visitei, de novo, desta vez com a família, o Museu do Ouro, em Sabará. Pai de garotos, em idade escolar, seria um irresponsável, caso não os motivasse para conhecer o Museu, estando hospedado na cidade. Dizer que me borrifo para a História e para a ditadura de Getúlio não faz mais sentido. Enfim, o que é o museu do Ouro? Qual a importância de conhecê-lo?


Criado na década de 40, em pleno Estado Novo (mais precisamente em 1946), no âmbito da atuação de dois mineiros esclarecidos, Gustavo Capanema e Rodrigo Melo Franco de Andrade, respectivamente Ministro da Educação e Diretor do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o Museu do Ouro ocupa a velha Casa de Intendência e Fundição (de 1730), com rico acervo de minérios, maquetes de garimpos, bateias, balanças, armas, moldes de jóias e muitos outros objetos e obras de arte relacionados ao Ciclo do Ouro. Com dois andares, o prédio remonta às linhas arquitetônicas do século 18, em adobe e madeira. As janelas na fachada apresentam grades feitas em madeira torneada. No andar inferior, de piso calçado de seixos rolados, ficam as amostras ligadas à extração do ouro. No andar superior, em piso de madeira corrida, são expostas peças variadas do mobiliário e imagens artísticas e religiosas. O objetivo é documentar o cotidiano de uma época, os séculos 17 e 18, de capital significado para a história do país, através da exposição didática de objetos usados na atividade mineradora, ao lado de mobiliário e quadros representativos do contexto cultural. Um outro nome deve ser mencionado, o de Antônio Joaquim de Almeida, um intelectual paulista, casado com a escritora Lúcia Machado de Almeida, nascida numa fazenda em Santa Luzia, às margens do rio das Velhas. Escolhido para diretor do Museu do Ouro, é ele o responsável pela seleção e criteriosa organização de seu acervo. O mobiliário exposto engloba peças do século 19, como um par de cadeiras em jacarandá e couro, em estilo D. João VI, mesa de jacarandá flamenga e louça com motivos orientais. O destaque artístico é uma Sant'Anna Mestra, atribuída a Aleijadinho, com dourados em folha de ouro.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O pai de meu cunhado


(Imagem reproduz charge de C. do Amaral, publicada na revista O Malho, de out. 1902)

O pai de meu cunhado Rezek era um literato conservador, formado em liceu salesiano na década de quarenta do século XX, quando os colégios católicos concentravam os filhos das elites provincianas. Diversas ocasiões ouvira-o defender com veemência os valores calcados na moralidade e bons costumes, misturando clichês e fervor. Só em colégios dirigidos por religiosos são ministrados os fundamentos da verdadeira estrutura ética da sociedade, dizia, a família é a célula mater dos agrupamentos sociais, a fortaleza moral, o mais lídimo celeiro das benfazejas sementes da virtude. Quem ouvia o enfadonho arrazoado de exaltação das qualidades da estirpe exemplar, jamais associaria sua personalidade aos desmandos e incúria de um mau chefe de família. O que ele era. Vinte anos atrás, abandonara a esposa e quatro filhos para viver à larga em São Paulo, onde teria dissipado a herança da mulher. A resignada e sofrida Dona Júlia. Quando retornou, afirmava ter sobrevivido dando azo à elevada missão de mestre do ensino médio, ministrando cursos de biologia e português em educandários paulistanos. Certa feita referiu um manual de literatura, em voga na década de sessenta, escrito por Ébion de Lima, uma das fontes seguras de sua erudição. A página obscura de seu passado ficou gravada na lembrança dos filhos (meu cunhado Rezek entre eles) os quais, anos mais tarde, mal lhe toleravam a presença sarnenta, envolta em coçado moralismo. Pai de fancaria, ou de folhetim, como tal aturavam-no aqueles nos colóquios familiares a que compareciam, por obrigação e praxe. Frases e aforismos dos clássicos repetia-os amiúde, a mais vezeira era o sertanejo é, antes, de tudo um forte. Sempre que enunciava a máxima de Euclides seus olhos brilhavam nas órbitas cavadas, abaixo de alvoroçadas sobrancelhas.

Literato e rábula desprezível, o pai de meu cunhado, César Augusto Própolis Rezek. Ilustrava à perfeição o típico erudito provinciano, exacerbado por leituras disparatadas. Padecia de uma loquacidade pedante, inócua e vazia. Dava a impresão de que habitava um universo suspenso, além das habituais e anódinas esferas cotidianas. Aos poucos foram descobertas as alucinadas relações com promissores talentos regionais. Depoimentos vívidos davam conta de uma novela por ele escrita, baseada em lúgubre episódio policial, tangida por descrições elaboradas em estilo gótico, pouco usual entre os autores autóctones. Dava cabal testemunho dessa peça ficcional um troféu ganho em menção honrosa, conquistada em concorrido certame promovido pela extinta revista carioca A cigarra. A láurea, um suporte de caneta em mármore preto, trazia incrustado um medalhão de prata, com inscrições. Dentre suas preferências intelectuais, figurava a ufologia, o estudo dos objetos voadores não identificados. Cuja atração calibrava visitas sabáticas à cidade de Varginha, para contato de segundo grau com supostos ETS esquálidos e impávidos. Desenvolvia ilações simbólicas entre o mistério dos extra-terrestres e sua própria existência, formidável e estupenda, em especial o quinhão escapista, o pendor para o desconhecido, o esteio das miragens.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Querelas da crítica literária



Hesitei bastante se devia ou não meter o bedelho. Assunto elitista, sujeito a pesquisa, derrapagens e falhas metodológicas. Enfim. 

Primeiro tempo. Em abril Flora Süssekind publicou no Verso e Prosa do jornal O Globo o artigo “A crítica como papel de bala”. A repercussão revelou comentários favoráveis e negativos. Atenho-me a uma (breve) passagem desse artigo, em que a autora nomeia “(...) o apequenamento e a perda do conteúdo significativo da discussão crítica, assim como da dimensão social da literatura no país nas últimas décadas”.

Alguns debates no campo intelectual não conseguem camuflar o efeito reflexivo, a tentativa de retomar a hegemonia em algum setor. O que impressiona, na intervenção de Flora Sussekind, ensaísta competente, autora de alguns títulos fundamentais, é o estertor com que a tendência sociológica da crítica literária tenta mais uma vez criar impacto. O que está em foco é muito menos o definhamento da crítica literária no país, fenômeno consequente do crescente desprestígio da literatura em geral, de uns trinta anos para cá. O que incomoda aos praticantes e epígonos da crítica literária de cunho sociológico é a progressiva redução do espaço literário no país. Não suportam a secundarização do poder literário que, nos argumentos mais radicais, corresponderia à pulverização de uma suposta ideia nacionalista. Essa tradição, herdeira de um viés autoritário, remonta à hermenêutica da “formação da literatura brasileira”, concebida como sucedânea da formação da nação brasileira, através de inúmeros movimentos de afirmação e ruptura. Uma visão estreita que não consegue desvincular a valoração estética do difuso compromisso social. Em versão grosseira, a corrente xiita da crítica literária brasileira, articula a valorização da obra à presença explícita do referente social. Avessa à possibilidade de evolução natural da literatura, em especial a nossa rica ficção urbana, com suas conexões internacionais, na franja da globalização.

A sociedade em geral lucra com as intervenções da crítica especializada, quando esta se digna a ultrapassar os muros da universidade. Excluídas as pesquisas calcadas em teorias obsoletas, quase sempre chamuscadas de mitologia, gráficos enfadonhos e verniz psicanalítico, a universidade produz consideráveis trabalhos analíticos. Segundo Sérgio Rodrigues, a crítica universitária afastou-se do debate “porque quis”. É preciso lembrar que há universidade e universidade. O apequenamento não é só do debate crítico, é da cultura brasileira em geral. Está aí o enorme contingente de licenciados medíocres, oriundos de cursos inconsistentes espalhados pelo país.

Segundo tempo. Retomo um título de 1985. Meter o bedelho a certa distância permite matizar os vários ângulos da matéria. Affonso Romano de Sant'Anna, em comentário ao artigo de Flora, sugere que a autora erra o alvo ou não desenvolve a contento seu raciocínio. Em um dos seus livros, Literatura e vida literária, Flora Sussekind discute a relação literatura/censura na década de 70. Fruto de um exercício crítico forjado nos anos bicudos da ditadura militar, o livro traça um lúcido panorama da produção literária dos anos 70/80. Dialoga com os ensaios clássicos de Roberto Schwarz e Silviano Santiago, dedicados ao mesmo período, de forma consequente. Sem querer repetir aqui consabidas ilações, o apanhado de Flora Süssekind é uma contribuição importante, apesar de um mapeamento incompleto de autores, priorizando aqueles que tencionaram confrontar a Ditadura. São relevantes os comentários sobre o papel secundário da literatura, se comparada à indústria do espetáculo (cinema, TV), e a modalização a que é submetida a repressão, capaz de cooptar intelectuais, desde que “fossem cortados seus possíveis laços com as camadas populares”. Debitar, no entanto, aos militares o apoio exacerbado à indústria do espetáculo como forma de aniquilar a produção literária já extrapola os níveis de aceitabilidade. A indústria do espetáculo teria um salto avassalador, independente do apoio político, fadada a trilhar um caminho exitoso pela própria evolução da sociedade. Ao forjar a expressão “ficção de mãos dadas com o jornalismo”, flagrada na década de 80, a autora produz um achado, na intenção de nomear a ficção na vertente do documentário ou das alegorias fantasiosas de nação, para analisar autores alinhados ao propósito político, esbanjando platitudes, verosimilhanças e juízos de valor. Esse livro, em suma, embora apresente um irrepreensível fio condutor, destaca-se pelo abuso de generalizações e injustificados expurgos.

SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
SCHWARZ, Roberto. “Cultura e política, 1964-69”. In: O pai de família. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
SÜSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.