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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Jornada com Rupert




Resenha do mês:


Salim Miguel é libanês, nascido em 1924, tendo emigrado para o Brasil na infância. De 1976 a 1979, foi um dos editores da revista Ficção, ao lado de Fausto Cunha e Cícero Sandroni. Publicou em torno de trinta livros, nos gêneros crônica e ficção. Entre os mais apreciáveis, na área da ficção, citam-se Nur na escuridão (1999), Mare nostrum (2005) e A voz submersa (2007). Foi agraciado neste ano com o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, no valor de R$ 100 mil.

O projeto de Jornada com Rupert (2008) é ambicioso, arrojado: percorrer um século de história no percurso de um dia na vida do protagonista. Para concretizá-lo, o autor vale-se de inúmeros recursos técnicos, quase todos relacionados à tentativa de sugerir mudanças do plano temporal. Predominam as alusões às situações articuladas ao ato (ou tentativa) de dormir, sonhar, cochilar, devanear, encarregadas de expressar as bruscas passagens de tempo. Na “Nota final”, o autor afirma que “as primeiras anotações a pesquisas para este livro datam de 1948”, o projeto teria sido retomado em 2006, portanto, mais de cinquenta anos depois. O necessário distanciamento teria o condão de proporcionar a necessária serenidade para transformar uma parte da história em ficção. O processo apresenta dois riscos: ignorar a especificidade psíquica do protagonista, equilibrar a celeridade narrativa à lentidão dos atos de um dia. “Não consegue dormir; os comprimidos e a febrícula deixaram-no mais aceso: tudo culpa da Jandira, que foi falar em Ilze; as lembranças afluem e esse se sente em outro tempo”. Diante do romance publicado, uma evidência impõe-se: o recorte épico resulta excessivamente transfigurado, o apanhado sobre a colonização alemã no sul do país não passa de um relatório frio, transformando as prováveis rebeliões e batalhas em pálidas sinopses sem vida.

O tempo, implacável, caminha a passos largos; a sucessividade dos acontecimentos e personagens, flagrados de relance e de forma panorâmica, potencializa o ritmo e a atmosfera típicos de novela. Os resumos multiplicam-se, de forma horizontal, em linguagem carregada de lugares-comuns, convencional: “Contratou uma governanta, Gertrud, senhora idosa, que sabia alemão e português, ficando ela com a responsabilidade da casa e dos cuidados com Ilze, a quem ia ensinando ambos os idiomas, enquanto o pai ensinava francês e espanhol. Tinham uma empregada para os afazeres domésticos, cozinheira de “mão cheia”. Em pouco tempo Günther fizera muitos amigos; além de cuidar da loja, também exímio fotógrafo, ia documentando a cidade que escolhera para viver”. Rupert, o filho rebelde de uma família de alemães emigrados para o Brasil, viaja no tempo. O escritor leva-o a visitar vários episódios ocorridos ao longo de um século, no intuito de retratar as origens de sua família e a história de sua cidade, Blumenau. Pequenos relatos do cotidiano ampliam-se, na sôfrega e desordenada associação entre presente e passado. Um adjunto adverbial, uma notação de tempo, eis que o tempo é outro, outro o cenário. Esse tipo de relato, a princípio, envolvente, torna-se exaustivo, dando sono.
“Num passe de mágica o cenário se transmuta diante de seus olhos: ali estão os desbravadores, os colonos chegando, subindo rio acima. Agora, as casas que se erguiam altaneiras deram lugar às antigas choupanas; as fábricas já não mais ali estão; nem as ruas e as praças. Diante de Rupert a mata virgem de um século atrás (p. 49).”

Algumas cenas de presentificação do passado carecem de um mínimo de fundamentação histórica ou verossimilhança, como no capítulo de título “1855”, de página e meia, concebido para relatar o avô de Rupert chegando da Europa: “Sem precisar a data, Rupert assiste a uma dessas chegadas; é justamente nela que vêm seus avô e tio-avô.” Como assiste? se o tempo presente presumível do protagonista é 1949, como poderia assistir à chegada dos imigrantes alemães ocorrida em 1855? A recorrência de artifícios romanescos demasiado difusos (mescla de fantasia/realidade, presente/passado, avanços repentinos no tempo) compromete a verdade ficcional, desinteressando o leitor exigente. O mesmo a princípio atraído pela publicidade da revista Istoé, transcrita na capa: “Salim Miguel: técnica soberba”. Alguma coisa mudou de nome? Algumas intersecções de tempo e ação parecem funcionar apenas na cabeça do narrador, dado o excesso de saltos narrativos nem sempre convincentes. O princípio universal das perfomances e equivalências, de herança machadiana, também conhecido como equivalência de polaridades, regula tacitamente a eficácia ou pertinência dos arroubos técnicos. A rasa dimensão psicológica atribuída ao protagonista e o foco narrativo em terceira pessoa, com ênfase na perspectiva de um narrador distanciado, reduzem a efetividade das engenhosas possibilidades de alteração do tempo narrativo almejadas. Como no final do cap. “Trem”, em que se lê, após inúmeros cortes temporais e espaciais: “(...) cambaleante vai até a janela, o vento empurra-o, a custo fecha-a com um trinco, volta a se deitar, de barriga para cima, olhos fixos no madeirame pontilhado de teias de aranha, apaga a luz, e sem perceber já está não apenas dormindo, mas acabou de chegar ao tombadilho do navio, que logo desatraca”. Confuso, o leitor (aquele que conseguiu chegar até à pag. 171) relê duas folhas atrás, para se dar conta de que Rupert teria saído da “boa pensão”, onde passara a noite, e já estava a bordo de um navio. Rápido, não?

Apesar dos atropelos em acompanhar os cortes temporais, a narração dá conta do objetivo de sintetizar os principais acontecimentos relacionados à emigração de alemães para Santa Catarina, os primórdios da fundação da cidade de Blumenau, a evolução da incipiente colônia agrícola para o núcleo industrial e os conflitos da família Van Hartroieg. Se as camadas narrativas se entrelaçam de forma panorâmica, a jornada com Rupert não se frustra, passando a ter espessura e densidade quando está em foco o núcleo familiar. Se a colonização européia recebe um tratamento asséptico, o mesmo não se pode dizer de Rupert e família, o pai um empresário bem sucedido, adepto de Hitler, a mãe ausente, um irmão exemplar, outro desaparecido em enchente. Os costumes e noções sobre a cultura alemã parecem curiosidades entreouvidas do último banco em jantar de tradições germânicas. Enfim, um romance medíocre, de modestas intenções, perspectiva miúda, cenas frágeis. Como se tratasse de um mediano relatório burocrático, embora aqui e ali atravessado de boas justificativas e um paciente esforço de reconstituição dos dramas de uma família.

MIGUEL, Salim. Jornada com Rupert. Rio de Janeiro: Record, 2008.

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