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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Outono em Lisboa



acolhe-me
octogonal arcada de dona
maria II (teatro nacional)


dispenso cavalos táxis carris
reis guerreiros de bronze esverdeado
e as pombas de negras asas


inclusive o teu árdego animal
(gostas mesmo de montar)
vigiando uma praça caolha no porto


aqui estás a pé como eu,
dom pedro IV de portugal
I do ipiranga no brasil


de nada me servem
essas montarias assustadas
no confuso trânsito de lisboa

esta manhã de sandálias atadas
ao peito e mochila pesada
livros comprados em alfarrabistas

postais kodak faianças susto
folhetos gismonti & orquestra
deixa-me sentar doem-me os pés


cadeira de ferro forjado
esta manhã o tejo enevoado me cegou
o tejo e o gume lacerante de um rosto

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Lembrando Portugal




      Tudo é pretexto para comemorar o livro do mês. Faz treze anos que passei três meses em Portugal, onde tem início e se desenvolvem dois terços da trama de Outono atordoado. Sim, primavera cá, outono lá, o frio dizendo a que viera com vontade. Algumas situações do livro são autobiográficas: não existiria o protagonista Onireves (o Severino de trás pra frente) se uma bolsa de estudos não fosse responsável por eu ter dado os costados em Lisboa, em outubro de 1996. E como esquecer o prazer de caminhar a pé na cidade, descer a avenida da Liberdade rumo do Rossio, atravessar o Chiado, percorrer o Terreiro do Paço e ficar maravilhado diante do Tejo? É verdade que me constipei, bancando o turista americano de camiseta branca e bota de couro. Nada que dois conhaques não curassem em dois dias. O difícil mesmo foi achar Conhaque na terra vinho. A residência em que me hospedei, na praça do Saldanha, próximo ao shopping Monumental, que lá se chama Centro comercial. A qualquer hora do dia e mesmo de madrugada, a segurança de poder voltar a pé para o hotel. Sem falar na rapidez, asseio e conforto nas incursões urbanas através do metrô. Os jantares no antigo cais de Alcântara, acompanhado pelos poetas Helder Moura Pereira e António Franco Alexandre, como esquecer? A perplexidade diante da estátua de Camões, na praça do Chiado. A sopa de tomate no café, de nome Grêmio Literário, no Bairro Alto. As livrarias e alfarrábios nos arredores do Teatro da Trindade. Os almoços e lanches no bar do Teatro d. Maria II. Assistir ali a uma peça, tendo o privilégio de avistar na plateia escritores de renome, como Lídia Jorge e Mário Cláudio. Conhecer poetas interessantes como Luís Manuel Gaspar, Fernando Pinto do Amaral (meu orientador, de quem recebi preciosas sugestões, em três longos encontros), Joana Varela, então prestigiada diretora da revista Colóquio-letras, Nuno Júdice, Fernando B. Martinho, Manuel António Pina (que nos recepcionou no Porto). As águas de uma coloração verde granítica do rio Douro, a fascinante ribeira da cidade do Porto. Obrigado a todos. Mesmo aqueles que vim a conhecer depois, por correspondência e intercâmbio, como Eduardo Pitta, Abel Barros Baptista.

      Como estou lendo relendo Vinícius de Morais, transcrevo, fazendo minhas as palavras do poeta, passagens da crônica “Obrigado, Portugal!”, publicada no Jornal do Brasil,em 15/6/1969:

      “A gentileza humana parece ter feito seu último reduto em Portugal. E quando eu falo em gentileza, dou-lhe quase a acepção medieval de amor cortês, de media, de mesura. É um povo que não levanta a voz, e ninguém pense que por covardia, mas por uma boa educação instintiva e um senso inato de afetividade. Essa desagradável invenção moderna, o berro, não encontra forma vocal na garganta de um português. (...)
      Isto é tão mais curioso quanto, apesar de pobre e subdesenvolvido em sua grande maioria, o português é um povo saudável e de bom aspecto, com boa pele e dentes magníficos, bem certo fruto de uma alimentação mais adequada: nada como o brasileiro menos aquinhoado das regiões pobres do País, no geral malsão e banguela, além de irônico e desconfiado por mecanismo de descrença e autodefesa.
      Obrigado, Portugal! No contato de tuas gentes, teus escritores e teus artistas, teus estudantes e teus simples – teu povinho das brancas aldeias! - eu senti que há ainda muito isso que cada dia mais falta ao mundo: carinho e sinceridade. Represados, talvez, mas latentes como o sangue sob a pele, e prontos a romper a crosta criada a duras penas, ao longo de um passado tão cheio de sacrifícios e infortúnios. (...)
      Obrigado, Óbidos, que pareces feita no céu, tão linda e pura, como uma avozinha menina que ainda usasse flores silvestres na cabeça. Obrigado, Évora, mãe alentejana de Ouro Preto, cidade onde mais que nenhuma outra se sente o Brasil colonial, o Brasil de Aleijadinho, cidade perfeita de gentil austeridade. Obrigado, Monserraz, que, esta não quero ver nunca mais porque se a ela voltar nela hei de ficar, entre seus muros brancos e seus homens e mulheres do mais franco olhar. Obrigado, Portugal. Resta sempre uma esperança. Eu voltarei”.

(MORAES, Vinícius de. Poesia completa e prosa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,1986, p.655-656)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Paulo Merçon: estreia de um bom poeta




A estreia de um poeta novo e que surge aparelhado para o ofício é sempre um acontecimento raro e auspicioso. Depois de amanhã, no Palácio das Artes. O prefácio é assinado por mim.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Jornada com Rupert




Resenha do mês:


Salim Miguel é libanês, nascido em 1924, tendo emigrado para o Brasil na infância. De 1976 a 1979, foi um dos editores da revista Ficção, ao lado de Fausto Cunha e Cícero Sandroni. Publicou em torno de trinta livros, nos gêneros crônica e ficção. Entre os mais apreciáveis, na área da ficção, citam-se Nur na escuridão (1999), Mare nostrum (2005) e A voz submersa (2007). Foi agraciado neste ano com o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, no valor de R$ 100 mil.

O projeto de Jornada com Rupert (2008) é ambicioso, arrojado: percorrer um século de história no percurso de um dia na vida do protagonista. Para concretizá-lo, o autor vale-se de inúmeros recursos técnicos, quase todos relacionados à tentativa de sugerir mudanças do plano temporal. Predominam as alusões às situações articuladas ao ato (ou tentativa) de dormir, sonhar, cochilar, devanear, encarregadas de expressar as bruscas passagens de tempo. Na “Nota final”, o autor afirma que “as primeiras anotações a pesquisas para este livro datam de 1948”, o projeto teria sido retomado em 2006, portanto, mais de cinquenta anos depois. O necessário distanciamento teria o condão de proporcionar a necessária serenidade para transformar uma parte da história em ficção. O processo apresenta dois riscos: ignorar a especificidade psíquica do protagonista, equilibrar a celeridade narrativa à lentidão dos atos de um dia. “Não consegue dormir; os comprimidos e a febrícula deixaram-no mais aceso: tudo culpa da Jandira, que foi falar em Ilze; as lembranças afluem e esse se sente em outro tempo”. Diante do romance publicado, uma evidência impõe-se: o recorte épico resulta excessivamente transfigurado, o apanhado sobre a colonização alemã no sul do país não passa de um relatório frio, transformando as prováveis rebeliões e batalhas em pálidas sinopses sem vida.

O tempo, implacável, caminha a passos largos; a sucessividade dos acontecimentos e personagens, flagrados de relance e de forma panorâmica, potencializa o ritmo e a atmosfera típicos de novela. Os resumos multiplicam-se, de forma horizontal, em linguagem carregada de lugares-comuns, convencional: “Contratou uma governanta, Gertrud, senhora idosa, que sabia alemão e português, ficando ela com a responsabilidade da casa e dos cuidados com Ilze, a quem ia ensinando ambos os idiomas, enquanto o pai ensinava francês e espanhol. Tinham uma empregada para os afazeres domésticos, cozinheira de “mão cheia”. Em pouco tempo Günther fizera muitos amigos; além de cuidar da loja, também exímio fotógrafo, ia documentando a cidade que escolhera para viver”. Rupert, o filho rebelde de uma família de alemães emigrados para o Brasil, viaja no tempo. O escritor leva-o a visitar vários episódios ocorridos ao longo de um século, no intuito de retratar as origens de sua família e a história de sua cidade, Blumenau. Pequenos relatos do cotidiano ampliam-se, na sôfrega e desordenada associação entre presente e passado. Um adjunto adverbial, uma notação de tempo, eis que o tempo é outro, outro o cenário. Esse tipo de relato, a princípio, envolvente, torna-se exaustivo, dando sono.
“Num passe de mágica o cenário se transmuta diante de seus olhos: ali estão os desbravadores, os colonos chegando, subindo rio acima. Agora, as casas que se erguiam altaneiras deram lugar às antigas choupanas; as fábricas já não mais ali estão; nem as ruas e as praças. Diante de Rupert a mata virgem de um século atrás (p. 49).”

Algumas cenas de presentificação do passado carecem de um mínimo de fundamentação histórica ou verossimilhança, como no capítulo de título “1855”, de página e meia, concebido para relatar o avô de Rupert chegando da Europa: “Sem precisar a data, Rupert assiste a uma dessas chegadas; é justamente nela que vêm seus avô e tio-avô.” Como assiste? se o tempo presente presumível do protagonista é 1949, como poderia assistir à chegada dos imigrantes alemães ocorrida em 1855? A recorrência de artifícios romanescos demasiado difusos (mescla de fantasia/realidade, presente/passado, avanços repentinos no tempo) compromete a verdade ficcional, desinteressando o leitor exigente. O mesmo a princípio atraído pela publicidade da revista Istoé, transcrita na capa: “Salim Miguel: técnica soberba”. Alguma coisa mudou de nome? Algumas intersecções de tempo e ação parecem funcionar apenas na cabeça do narrador, dado o excesso de saltos narrativos nem sempre convincentes. O princípio universal das perfomances e equivalências, de herança machadiana, também conhecido como equivalência de polaridades, regula tacitamente a eficácia ou pertinência dos arroubos técnicos. A rasa dimensão psicológica atribuída ao protagonista e o foco narrativo em terceira pessoa, com ênfase na perspectiva de um narrador distanciado, reduzem a efetividade das engenhosas possibilidades de alteração do tempo narrativo almejadas. Como no final do cap. “Trem”, em que se lê, após inúmeros cortes temporais e espaciais: “(...) cambaleante vai até a janela, o vento empurra-o, a custo fecha-a com um trinco, volta a se deitar, de barriga para cima, olhos fixos no madeirame pontilhado de teias de aranha, apaga a luz, e sem perceber já está não apenas dormindo, mas acabou de chegar ao tombadilho do navio, que logo desatraca”. Confuso, o leitor (aquele que conseguiu chegar até à pag. 171) relê duas folhas atrás, para se dar conta de que Rupert teria saído da “boa pensão”, onde passara a noite, e já estava a bordo de um navio. Rápido, não?

Apesar dos atropelos em acompanhar os cortes temporais, a narração dá conta do objetivo de sintetizar os principais acontecimentos relacionados à emigração de alemães para Santa Catarina, os primórdios da fundação da cidade de Blumenau, a evolução da incipiente colônia agrícola para o núcleo industrial e os conflitos da família Van Hartroieg. Se as camadas narrativas se entrelaçam de forma panorâmica, a jornada com Rupert não se frustra, passando a ter espessura e densidade quando está em foco o núcleo familiar. Se a colonização européia recebe um tratamento asséptico, o mesmo não se pode dizer de Rupert e família, o pai um empresário bem sucedido, adepto de Hitler, a mãe ausente, um irmão exemplar, outro desaparecido em enchente. Os costumes e noções sobre a cultura alemã parecem curiosidades entreouvidas do último banco em jantar de tradições germânicas. Enfim, um romance medíocre, de modestas intenções, perspectiva miúda, cenas frágeis. Como se tratasse de um mediano relatório burocrático, embora aqui e ali atravessado de boas justificativas e um paciente esforço de reconstituição dos dramas de uma família.

MIGUEL, Salim. Jornada com Rupert. Rio de Janeiro: Record, 2008.